Nômades da Desolação – Parte 10

Nômades da Desolação (httpstarskq.deviantart.comartForest-44496104)De noite Cari e Soni arrumaram as mochilas, depois de Lucio adormecer deitado sobre uma esteira junto à lareira, na sala. A tempestade caíra numa breve pancada à tarde, empoçando o terreno ao redor da casa. O ruído dos pingos a martelar o telhado lembrara à garota a Caravana em movimento, com as engrenagens rangendo e os raros animais de tração pisoteando o solo. As nuvens não se haviam dissipado ainda. Quando ela e o amigo anunciaram que estavam de saída, Marian levantou-se da cadeira onde cerzia uma peça de roupa e gesticulou para que fizessem silêncio e a acompanhassem à soleira, para não acordar Lucio.

– Estão de partida. – Não era uma pergunta.

– Sim – confirmou a menina. – Agradeço tudo que fez por mim.

Agradecemos tudo que fez por nós – corrigiu Soni.

Cari revirou os olhos. “Agora que vamos embora ele inventa de ser cordial.”

– Também tenho de agradecer-lhes. Por Lucio. Com vocês aqui, crianças, ele ficou menos solitário.

– Foi um prazer – disse a menina.

– Foi divertido – disse o amigo.

– Temo que ele não vá aceitar bem nossa despedida, mesmo que ela não seja definitiva. – Cari não sabia se era verdade o que falava. Talvez algum dia no futuro voltasse a ver Marian e seu filho, caso eles alcançassem os clãs e caso ela e Soni regressassem à Caravana. Mas talvez não. “Talvez seja um adeus. Desculpe-nos, Lucio.”

– Cuidarei disso – garantiu a mulher. – Ele compreenderá.

A garota assentiu e pediu o que havia de pedir:

– Há um último favor de que precisamos…

– … se não for abusivo nem incômodo – Soni interveio.

“Bem lembrado, senhor Gentileza”, e Cari deitou-lhe um olhar reprovador, aborrecida com a interrupção, e revelou o que desejava:

– Provisões.

– Muito bem. Disponho de água e comida para lhes fornecer – consentiu Marian. – Vocês têm ideia de quanto tempo durará a viagem até a Caravana?

– Bem, na verdade… – balbuciou o amigo.

– Na verdade, não seguiremos direto para fora da Desolação. Antes pretendemos investigar o vale que não perece. Foi para isso que viemos.

A mulher pronunciou um “O quê?” quase inaudível. Em sua testa brotaram rugas que Cari jamais percebera. Os olhos sempre inexpressivos brilharam de perplexidade.

– Falei-lhe que o vale era amaldiçoado, criança – e o desgosto provocou um leve tremor em seus lábios.

– Eu sei. Mas iremos de qualquer jeito. Queremos verificar se…

Não devem – cortou-a com rispidez. – Não há nada para verificar. O vale traz a morte a quem se aproxima dele.

– Vamos arriscar – contrapôs a menina.

– Sim. Além disso, já tomamos nossa resolução – ressaltou Soni num tom apaziguador. – Agrademos sua preocupação, senhora, mas não vai nos dissuadir.

– Não importa. Não permito que joguem suas vidas fora sem motivo. – A mulher não gritava, decerto para não perturbar o sono de Lucio, mas a voz carregava uma autoridade que enfurecia Cari. “Quem ela pensa que é para nos dar ordens?” – Proíbo-os.

Oh, bem, eis aí uma escolha infeliz de palavras. Marian cometera um erro grave ao usar o verbo proibir. “Não é minha mãe. Não pode me proibir de nada.” Porém até os pais da garota nunca tinham sucesso em proibi-la de fazer o que fosse. Na concepção de Cari, uma proibição pedia para ser desafiada se se mostrasse insensata, e a menina sempre arranjava argumentos para contestar a sensatez de toda proibição. Por isso ela deu as costas à mulher e retirou-se pisando firme.

– O vale certamente a matará, criança – alertou Marian.

– Vamos, Soni. – Quanto mais rápido saíssem dali, menos teriam de ouvir.

Mas após cinco passos decididos, Cari virou-se quando Soni chamou-a com uma voz engasgada – e enfim ela descobriu onde estava sua adaga.

– Solte-o. Solte-o já – ordenou para a moça cujos dedos da mão esquerda envolviam como garras o braço de Soni, e cuja mão direita segurava a adaga da garota, a lâmina encostada contra o pescoço do rapaz.

O amigo debateu-se para livrar-se do aperto, e sua mão tateou o pulso que Marian mantinha perto de sua garganta, mas desistiu quando tudo que conseguiu foi um filete de sangue, que escorreu para a gola de sua camisa.

– Quietinho, criança, pois a faca está afiada. Um movimento brusco pode apressar uma tragédia.

– Solte-o – Cari repetiu o ultimato, apesar de estar ciente de que era uma ameaça vazia. Vislumbrava apenas uma forma de abater Marian rapidamente: uma flecha certeira. Mas seu arco estava sem corda, e ela não engataria a seta em tempo hábil. A maldita pressionaria a lâmina mais alguns milímetros antes que tivesse uma chance de atirar.

Avançou um passo em direção a Marian, que por seu turno reagiu puxando Soni para mais junto de si. O amigo gemeu ofegante, com as íris úmidas. Não ousava engolir a seco. A moça não denotava o menor vestígio de desespero: sabia que estava no controle. Seu semblante apático irritava Cari mais do que nunca.

– O vale é morte – explicou Marian. – Não vou deixar que vocês sacrifiquem suas vidas por nada. Seria um desperdício – sorriu. – Se planejam morrer, não me importo, mas aproveitarei a vida que tencionam desperdiçar.

– Lucio a odiará por isso – avisou a garota.

– Ele entenderá – rebateu com indiferença. Seu olhar deslizou para baixo e pousou em Soni. – O rapaz pode não ser tão útil, porque é mortal, mas você, criança, você e sua imortalidade têm muito a oferecer.

– Liberte-o. Ficarei no lugar dele – propôs.

– Que ideia estúpida – chiou Soni entre os dentes, a boca praticamente imóvel.

Cari sorriu. “Sabia que diria isso.”

Marian sorriu de volta.

– Quero os dois – disse.

– Basta, Marian. – A voz emergiu da floresta e era abafada pela acústica singular da zona morta. Cari reconheceu-a, mas a princípio não logrou recordar a quem pertencia. Era forte e confiante. Uma voz que a reconfortava. Uma voz que a salvara de dezenas de enrascadas. Uma voz que lhe asseverava que sempre havia um jeito. O som de ossos retiniu quando o recém-chegado afastou do caminho um dos crânios dependurados entre as árvores. Ao penetrar a clareira, a menina identificou-o apesar do céu nublado. Jamais esqueceria aquela silhueta de coluna ereta, a postura elegante, o braço esticado, a flecha pronta para voar. Já a vira vezes sem conta em suas caçadas. Era Gerion.

– Mestre!

– Bem-vindo – saudou a mulher. Depois rompeu numa risada curta.

– Liberte o menino.

– Faz doze anos que não tenho notícias suas – comentou Marian. – Também faz doze anos que não recebo ordens suas. Doze longos anos sem lhe obedecer: não pretendo resgatar esse mau hábito agora. Pode atirar, mas forçarei meu braço a se mover ainda que às portas da morte.

“Ordens?”, pensou Cari. Eles se conheciam? O que estava acontecendo? E o que já teria acontecido entre eles?

Gerion baixou a arma.

– Raverian me contou o que você tem feito.

– Devia imaginar que, quando nos deixou, ele retornaria até você. Não sei o que ele disse, mas a verdade é que nada tenho feito além de cumprir o papel de que você me incumbiu. – Estreitou as pestanas: – Ou de que seu pai me incumbiu.

Foi por causa de um homem. Ou teria sido no passado. As palavras que Marian endereçara-lhe três dias atrás, durante a caminhada até a casa, repicaram na memória de Cari. O que fiz, fiz pelo filho dele. Seria Gerion o filho desse homem?

– Ora – continuou a moça –, e se está aqui neste momento tão oportuno, suponho que você já se encontrasse por perto há dias, vigiando. Pôs-se a caminho desde que Raverian o alcançou, não é?

Gerion nada disse. Cari pouco enxergava de seu rosto, intocado pela luz que jorrava do interior da cabana, mas o silêncio dele confirmava as suspeitas da mulher.

– Você presenciou de longe o ataque dos lobos, não é? E não fez nada – meneou a cabeça em reprovação.

E a menina lembrou-se do ruído de passos que escutara minutos antes da emboscada da matilha. Na ocasião julgara cuidar-se de um animal diminuto, no entanto… “Gerion também conseguiria se ocultar de minha vista com eficácia.” Ele conhecia as habilidades dela; além disso, conhecia os limites dessas habilidades, os pontos cegos. “Estava por perto”, convenceu-se ela. “E não agiu.”

– A menina o chamou de mestre. Teria deixado sua discípula morrer? Creio que posso ser bem-sucedida onde os lobos falharam, e tirarei mais proveito que eles.

– Cale-se – e Gerion reergueu o arco e reengatilhou a flecha.

– Não se precipite. Sou eu quem estou com a palavra, a adaga e a vida do rapaz, tudo isso nas mãos. – Umedeceu os lábios. – Bem, não me admira que você tivesse utilizado os lobos para seu trabalho sujo. Afinal, a menina é imortal, e isso é um problema, mas não um imprevisto. É um dilema, se preferir. E você tem uma péssima tendência de depender de outras pessoas. De mim, por exemplo. Até agora fui a responsável por todo o trabalho sujo.

– Você concordou. Você disse que o faria se era esse o desejo de meu pai.

E eu fiz. E assumi a culpa. Depois prossegui me instruindo no controle do fluxo da vida, como prometido. Mas as circunstâncias mudaram quando Lucio nasceu.

– Lucio? – estranhou o mestre. – Raverian me falou dele. Disse que você o considerou um acidente.

– No início. – Marian prendeu Soni com mais força, mas não despregou os olhos de Gerion. – Quando seduzi aquele homem anônimo, um exilado qualquer, meu objetivo era a pesquisa. Ora, se a vida do imediato pós-morte pode ser manipulada, eu especulava se o mesmo não valeria para a vida que surge com a concepção. Mas… quando aconteceu, não segui adiante com o experimento. A vida que se desenvolvia em meu ventre era preciosa demais. Então mudei de planos.

– Plano? – desdenhou Gerion. – Não é um plano, é uma ilusão. O que você busca é impossível. Os mortos não regressam. Faz anos que meu pai está morto, e você não conseguirá ressuscitá-lo, não importa o que tente.

– Você não sabe! – contestou ela, perdendo a compostura. Não era mais a moça tão segura de si que costumava ser. – Eu preservei o corpo com cera. Construí um ataúde. Jamais o deixei para trás. Jamais – sublinhou. – Olhe ao redor. Este lugar compunha a Desolação quando cheguei aqui, mas lhe restaurei a vida. Refinei minhas capacidades. Posso recuperar a vida de Gurion, sei que posso.

O mestre negou com veemência.

– A vida daqui é instável. E devolver a vida à terra é diferente de devolver a vida a uma pessoa.

– Eu o farei. Eu… tentarei. A imortalidade da menina é a chave. Até hoje sacrifiquei apenas animais e exilados, ambos mortais. Sacrificar uma imortal… admito que não sei se dará certo, mas descobrirei. Preciso de Gurion a meu lado. E Lucio precisa de um pai. Não o abandonarei, pois agora minha vida não é só minha.

Cari arquejou, o coração acelerado. Piscou em rápida sucessão. Marian recorrera a um discurso igual ao de Soni, de que sua vida não lhe pertencia exclusivamente. “Porque ela ama Lucio e ama Gurion.” Mas se isso a levasse a sacrificar Soni, a menina não hesitaria. “A vida de Soni e a minha são uma só.”

– Não precisa abandonar – certificou-lhe Gerion. Sua voz operava como um bálsamo, expurgando o sofrimento das incertezas. Era como se cada uma de suas sentenças terminasse com um “Tudo vai ficar bem” implícito. – E ninguém mais vai precisar morrer. Escolheremos outra via para mudar o mundo, uma via alternativa, uma que não exigirá sacrifícios. – Largou a arma e avançou altivo. – Aqui e agora, renuncio às ideias de meu pai.

Conforme o mestre acercava-se dela, Marian recuava, arrastando Soni consigo.

– Renuncia? – desafiou.

– Sim. Libere o menino.

Marian fungou uma risada.

– Se você renuncia aos ideais de Gurion, não é mais o porta-voz dele. O que significa que, agora, mais do que nunca, não tenho de obedecer-lhe.

Cari viu-a arregalar os olhos e apertar o cabo da adaga. E gritou. E o grito ecoou em sua cabeça várias vezes. “Não, não, não!”, repetia para si. “Não!” Porque sua reação fora impulsiva e imediata. Sua mente demorou a processar a cena que sua visão captava: a faca caiu no solo sem fazer barulho, e a seguir caiu Marian com um baque surdo. Seus cabelos, antes loiros, estavam brancos e quebradiços. Os lábios, ressecados. A pele, enrugada e pálida feito pergaminho. Magra, muito magra. A metamorfose findara durante a queda do corpo. A garota contemplou Soni: em estado de choque, trêmulo, mas de pé. Ileso exceto pelo corte superficial no pescoço, que alisava com os dedos. A seus sapatos jazia a mulher murcha, uma velha acabada. Velha como uma árvore velha, como ossos velhos e como o Velho Tobi, não fosse ele imortal. Definhada. “Como a rosa definhou.” Confusa, a menina observou Gerion parado a dois metros de distância de Soni. O mestre estava desarmado e tão incrédulo quanto ela. Teria Soni…? “Soni fez isso?”

À soleira se postava Lucio, uma figura miúda cuja sombra a luz de dentro da casa alongava. Ele esfregava os olhos e apoiava-se no batente, grogue de sono. Ao chamar pela mãe, Cari compreendeu a seriedade do que acabara de ocorrer e primeiro teve vontade de vomitar, mas depois só queria abraçar Lucio bem forte. Foi nesse instante que o amigo tombou de joelhos, fitando as palmas abertas com um esgar de asco: a expressão de alguém que nunca encarara algo tão horrível antes. E soluçou. E as lágrimas rolaram.

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