CONTO: As últimas férias no mundo conhecido

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Vitor acordara com o humor cinzento típico de um dia de aula chuvoso. Lá fora, porém, o calor distorcia o asfalto, e o azul cetim do céu era de doer os olhos. Sobretudo, era o início das férias. Era obrigatório que ele estivesse correndo e gritando feito louco, sem saber se andava de bicicleta, jogava videogame ou se entregava ao ócio irrestrito e descarado que só aqueles que não têm provas à vista nem deveres de casa por concluir conhecem. Mas não. Se Hugo não tivesse aparecido, e se sua mãe não tivesse consentido que ele entrasse em seu quarto sem aviso, e se o intruso não tivesse aberto as cortinas com agilidade o bastante para fazê-las ruflar como os golpes do Jackie Chan quando deslocam o ar, deixando a claridade nauseantemente alegre daquele sábado invadir seu sono, tudo isso enquanto o amigo lembrava que tinham combinado de ir ao cinema – se toda essa evidente conspiração contra sua tentativa de arruinar uma manhã perfeita não tivesse acontecido, Vitor ainda estaria na cama, a cara enfiada no travesseiro para abafar seus lamentos deprimidos.

– Então… – encetou Hugo a seu lado, à medida que se encaminhavam para a galeria do cinema. – Vai me contar qual é o problema ou prefere continuar posando de pobre coitado?

Vitor suspirou. A mudez era opção mais fácil do que a fala. Se guardasse a angústia para si, havia uma chance de que fosse mentira. Mas, se a dividisse com seu melhor amigo…

– Fala logo! – insistiu o outro. – Não pode ser tão ruim assim.

– Você se lembra da vez em que tentamos descer aquela ladeira de bicicleta, e acabei me ralando todo? – perguntou para desconversar, indicando a Rua Alice com um meneio de cabeça.

– Lembro. Tive de escorá-lo até em casa, e você gemia sem parar, mais pelo estado da bike do que pelos machucados. E ainda por cima levei uma bronca de sua mãe.

– É – admitiu envergonhado –, mas aí eu assumi a culpa, e tudo terminou bem; digo, tirando o mertiolate, que ardeu um bocado.

– A culpa era mesmo sua – grunhiu Hugo. – O guidão estava frouxo: não tinha como dar certo, eu avisei. – Cruzou os braços. – Mas qual o motivo da nostalgia? Não vai me dizer que está para morrer, vai?

– Não – respondeu monossilábico. A determinação minguou.

– Anda – instigou. – Vamos para o Topo do Mundo. Não tem como assistirmos ao filme novo da Marvel com você agindo feito herói trágico.

O Topo do Mundo era como chamavam a cobertura do edifício de Hugo. Quando crianças, ouviam rumores de que uma velha solitária e malvada morava ali, num anexo modesto recoberto de samambaias. Em meio a desafios recíprocos, os dois eventualmente desbravaram o tal lugar amaldiçoado, só para descobrir que a velha não vivia sozinha e sim na companhia de cinco gatos; que não era má e sim uma doceira de mão cheia; e que a selva de samambaias era na verdade um jardim magnífico, dedicado ao finado marido da senhora. Em seus nove anos de existência, pela primeira vez, os garotos admiraram a vista do cume daquele prédio de vinte andares; boquiabertos, julgaram-se no topo do mundo – e o nome pegara.

Agora já fazia um ano que a velha – Senhora Magnólia – falecera, e Vitor e Hugo estiveram entre os poucos que compareceram ao enterro, mas o Topo do Mundo continuava a ser o refúgio secreto deles. Haviam se mobilizado para que os condôminos concordassem num revezamento para cuidar do jardim. O ar ali em cima recendia a flores, paz e histórias compartilhadas. O clima era propício, por isso Vitor desabafou:

– Vou embora.

O silêncio que se instaurou teria sido preenchido por miados de gato no passado, mas os bichanos da Senhora Magnólia foram doados a quem tivesse interesse. Hugo adotara um. Hoje, apenas o vento sibilava, e seu chiado agourento sublinhava a seriedade daquela revelação.

– Não preciso perguntar se é para longe ou para sempre, preciso? – Hugo manifestou-se após três olhares furtivos e um abrir e fechar de boca.

Vitor fez que não. Ainda digeria as consequências da notícia que proferira em voz alta. Se partiria, significava que teriam de separar-se. Talvez nunca mais visse seu melhor amigo, a pessoa que lhe emprestara e dera de presente tantos livros que despertara nele o sonho de ser escritor; o cara que o humilhava no Mortal Kombat mesmo sem possuir o jogo; e o companheiro com quem passava mais tempo no dia a dia do que com os próprios pais.

– É por causa do divórcio? – Hugo quis saber.

– Sim. Minha mãe não tem como bancar um apartamento sozinha. Vai voltar a morar com a vovó em São Paulo, e tenho de ir com ela.

– Isso é… – Vitor podia adivinhar que o amigo procurava a palavra mais adequada para expressar o que sentia. O pai dele era psicólogo, de modo que Hugo fora acostumado a essas reflexões. Após uns minutos, porém, tudo que por fim falou foi: – Entendo.

Curto e frustrante. O amigo era sempre comedido, mas o momento pedia uma catarse. “Só isso? Nem para dizer que sentirá saudades?” Vitor remoía os não ditos: tinham o peso de dois mundos – do mundo familiar que teria de abandonar e do mundo desconhecido que seria forçado a enfrentar. Iria para uma nova escola. Seria o aluno novo. Se tudo desse certo, faria novos amigos. Mas isso implicaria que, antes, tudo teria dado errado, porque para começo de conversa não queria novos amigos. E o desespero colocou-o de pé subitamente, com a raiva apequenando o ressentimento.

– Só isso? – “Não está triste? Nem um pouquinho?”

Ainda sentado, Hugo olhou para cima sem compreender o alvoroço, pelo que Vitor se enfureceu mais.

– Você… Por que não…? – titubeou sem rumo. Depois ponderou sem tino. E enfim exclamou sem pudor: – Só porque sua mãe morreu não é para você bancar o durão o tempo todo e… – Retesou-se. Reprovou-se. – Desculpa. Não era para sair desse jeito. É só que, cara, eu o conheço há tantos anos que você… bem… você meio que – corou – virou uma parte de mim, entende? É. É tipo isso. Como minha mãe pode esperar que eu jogue fora uma parte de mim?

Hugo revirou os olhos, abriu um sorriso e ergueu-se sem pressa.

– Só porque inventou de ser escritor não é para falar difícil o tempo todo. É mais simples. Somos melhores amigos, e o certo é que melhores amigos fiquem juntos. – Cruzou os braços. – Basta convencer sua mãe.

Vitor sorriu de volta e aquiesceu, confiante.

Chegou em casa ao anoitecer. A Marvel anestesiara suas preocupações. Os pais já deviam ter retornado do trabalho àquela hora. Encontrou a porta do quarto deles entreaberta. Inspirou coragem. Entrou. – Mãe? – chamou. Ela estava na cama, a luz acesa, um livro ao alcance da mão. Dormia profundamente. Eis o típico cenário que sucedia uma briga: o pai resolvia dar uma caminhada para espairecer, a mãe entregava-se à leitura e ao Rivotril depois de chorar um pouco. Vitor estacou, o estômago embrulhando, e pôs-se a matutar sobre seu egoísmo. Podia ser feliz se seus pais não fossem? Não fazia ideia.

Mas, após o jantar compassado unicamente pelo concerto de talheres, concluiu que não ligava. Se posava de egoísta, que assim fosse: conviveria com isso, endureceria a consciência. A questão era importante demais para que ele não fosse egoísta. Era bem mais importante do que quando implorara um PlayStation 3. Era… “Parte de quem sou.” Decidiu escrever um bilhete sucinto expondo sua posição e pregou-o com durex na porta do quarto dos pais: “Não podemos nos mudar. Não posso mudar. Não quero. Tudo que importa para mim está aqui. Sinto muito”. Demorou a pegar no sono, mas, de algum modo, achava que as coisas acabariam por ajustar-se. Afinal, melhores amigos deviam ficar juntos, não? Era uma regra de ouro.

Na manhã seguinte recebeu a resposta, escrita no verso de seu bilhete e afixada na porta de seu quarto: “Sou eu quem sinto muito. Pode parecer estranho, mas eu e seu pai nos separamos porque o amamos demais. Não queremos que você cresça num ambiente de tristeza constante. A mudança é assustadora à primeira vista, mas sei que você vai se adaptar, sei que vai seguir adiante”. Amassou o papel. Não queria seguir adiante. Não queria seguir para lugar nenhum.

No café da manhã, trocou um bom-dia desconcertado com os pais e saiu para contar a Hugo a má notícia.

– Vou embora semana que vem – anunciou cabisbaixo.

O amigo silenciou, e dessa vez Vitor entendeu que ele tentava ser solidário à sua maneira reservada.

– Trouxe algo para você – e estendeu-lhe uma sacola.

Hugo espiou o interior.

Mortal Kombat? – e elevou uma sobrancelha. – Você sabe que não tenho PlayStation. Não dá para jogar.

– É que não é um jogo. Bem, é. Mas não só. É uma memória também. Não consigo me ver jogando Mortal Kombat com mais ninguém além de você. Não consigo me ver perdendo para mais ninguém além de você – corrigiu-se. – Se não vou mais poder desafiá-lo para uma partida, não faz sentido guardar o jogo.

– Então você prefere inutilizá-lo? – perguntou o outro, surpreso.

– Não, prefiro imortalizá-lo.

– Quer dizer empoeirá-lo. Tem certeza de que não prefere me dar o PlayStation também? – retrucou com um risinho matreiro.

– Só fica com o jogo e não estraga o momento, caramba!

Ambos riram sem humor. Hugo buscou amenizar o clima argumentando que ainda poderiam conversar por Facebook, WhatsApp e RPGs online. Era um alento vazio para pessoas que se falavam no mundo real, lado a lado, frente a frente, olho no olho, praticamente todo dia. Dentro em breve estariam mandando um “Sim, vamos marcar um almoço para bater um papo”, aquela desculpa polida que os adultos frequentemente usavam com os colegas que não tinham a menor intenção de encontrar de fato.

– Não posso acreditar que você vai partir antes de criar o personagem que pedi – comentou Hugo. – Você não esqueceu, não é? Aquele mago que manipularia o fogo e o ar para produzir sóis em miniatura e que seria baseado em mim. Lembra?

– É impossível esquecer. – “E também não quero que me esqueça.” O Mortal Kombat era a memória, assim como todo o passado. As recordações eram boas, preciosas como nenhuma outra, mas eram coisa de adulto. “Como as fotos.” Trocaria qualquer lembrança pelo agora, pelo hoje de céu azul cetim sem o amanhã nublado, pela vida que sempre tivera. Mas as férias terminariam mais cedo para os dois, bem antes do retorno escolar. – Na verdade – começou, muito sério –, tudo que escrevo contém um pouquinho de quem sou, e você é uma das partes mais essenciais de mim. Por isso, sempre esteve presente em minhas histórias. Desde o início.

Hugo estreitou as pestanas, nem de longe convencido.

– Não vai se safar com essa lenga-lenga. Vou cobrar meu mago. E… – embaraçou-se – também vou pensar num presente para você. Vê se não vai me esquecer, ouviu? – e franziu o cenho, fingindo preocupar-se. – Agora, que tal virarmos a tarde em sua casa aproveitando o Mortal Kombat enquanto ainda há tempo? Talvez até seja legal com você e o deixe ganhar algumas vezes, que tal?

Desfrutaram cada dia restante. Mas quando a noite caía e Vitor tinha de volver a casa se estivesse na de Hugo, ou vice-versa, ficava sozinho com os próprios pensamentos atormentados, e a contagem regressiva palpitava em sua mente feito a de uma bomba-relógio. Na véspera da despedida, o amigo não deu as caras e permaneceu incomunicável. Vitor estranhou. Ao som melancólico da chuva fina que se pôs a cair, dormiu mal.

Na segunda-feira fatídica, pressionou a mãe a esperar, mas nada de Hugo aparecer. Sem dúvida viria, porém Vitor não se aguentava de ansiedade. E eis que, quando a mãe finalizava a arrumação das bagagens no carro, o amigo atravessou a rua correndo, com a respiração sôfrega de quem detestava Educação Física. Carregava um envelope.

– Trouxe seu presente – comentou esbaforido. – Mas é para abrir só quando estiver na estrada.

O abraço foi horrível, ligeiro demais, definitivo demais, e no fim Vitor comprimiu os lábios para engolir o choro.

No carro, seguiu a recomendação do amigo, ignorando o aviso da mãe de que enjoaria se se metesse a ler. Realmente, o conteúdo do envelope era uma dúzia de páginas escritas. Estaria Hugo produzindo um romance também? Mas a explicação vinha já na primeira folha: “Oi, Vitor. O que você tem em mãos são cartas nunca enviadas. Quando minha mãe morreu, meu pai me instigou a escrever para ela sempre que a saudade batesse. As conversas variavam de assuntos profundos a banalidades do cotidiano. Bem, é óbvio que jamais recebi uma resposta. Mas, desde que o conheci há seis anos, muitas dessas cartas têm se referido a você, por isso o certo é que você possa lê-las. Tudo que nunca levei jeito para dizer, mas que deveria ter dito, está contido nelas”.

Passou à primeira, datada de 2010: “Mãe, hoje fiz um novo amigo. Os outros garotos estavam caçoando dele por causa das orelhas grandes e dos dentes à mostra, chamando-o Cara-de-Coelho. Você sempre me ensinou que isso era errado, daí resolvi fazer amizade com ele. E adivinha só: temos um montão de coisas em comum! Ele vai vir aqui em casa no sábado, e vou mostrar minha coleção de LEGO para ele. Mal posso esperar”. Vitor riu no íntimo. Recordava-se daquele dia. Descobrira que Hugo era fascinado por LEGO espacial, enquanto ele próprio preferia os de castelos e dragões. Complementavam-se. As cartas seguintes citavam ocasiões memoráveis, como a aventura no Topo do Mundo, a vez em que mataram aula só pela adrenalina envolvida, a festa da Bia, em que Vitor fora rejeitado pela aniversariante ao tirá-la para dançar, e Hugo o consolara.

A última era do ano passado: “Mãe, hoje o Vitor me contou que quer ser escritor. Fiquei feliz com a notícia, porque significa que fiz bem em viciá-lo em livros. Sei que ele será um grande escritor, e aí terei orgulho de ser amigo dele.” Nesse trecho o papel estava meio desgastado, como se a frase houvesse sido apagada e reescrita. Mas o texto prosseguia: “Desculpa, mãe. Apaguei as palavras anteriores só para corrigi-las. Mas meu pai me fez prometer que eu não esconderia nada de você, por isso as deixei como estavam. Agora reformulo. A verdade é que sempre tive orgulho de ser amigo do Vitor. Sempre, desde o primeiro momento, quando ele me confessou que também assistia a Pokémon.” Na borda da folha constava um adendo tardio, com a data daquela segunda-feira: “Sempre vou ter orgulho de ser seu amigo, esteja onde estiver. Sentirei saudades. Hugo”.

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