CONTO: O mago e a cidade

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A noite era escura e estrelada, mas as estrelas brilhavam mais negras que o céu noturno.

O mago contemplava a noite, mas seus olhos eram tão opacos quanto as estrelas.

Ela fora embora – e consigo levara as íris iridescentes do mago.

No passado, a noite teria sido tão esplendorosa quanto trinta e nove dragões. E os dragões teriam desfilado pomposos em meio às constelações e aos astros. E os astros teriam descido para brincar em meio à névoa prateada do rio das Flores. E as flores teriam florescido em pleno inverno. E o inverno, em sua vasta mudez branca, teria se aquecido com o riso de crianças. Agora não mais.

Ela fora embora – e deixara para trás o frio e o vazio.

O mago suspirou muitas vezes. No passado, o gesto teria feito brotar de seu cachimbo fumaça anil e bolhas carmesins, perfume de lírio e de rosa branca, e assobio de pardal e de coruja. Agora era só um suspiro cansado e de doer as costelas.

Ela fora embora – e consigo levara o coração inspirado do mago.

Sentado às margens do rio, ele tateou o chão à cata de um ladrilho solto e o arremessou sem forças para as águas. No passado, a pedrinha teria quicado como coelho assustado, e as marolas a surgir teriam se transmutado em cavalos com asas e em raposas de trinta e nove caudas. Mas agora a pedra só afundou com um splash solitário e agourento, sem eco, sem estardalhaço, sem graça.

Ela fora embora – e deixara para trás o peso da pedra e do carvalho.

O mago olhou para cima e deparou com o próprio rosto talhado no mármore. É que se recostara aos pés de uma das muitas estátuas em sua homenagem. No passado, ele teria se regozijado com tanta reverência, pois gostava de ser lembrado e de sentir-se amado. Magia alguma concedia a imortalidade, mas ele achava que lapidar a própria reputação e transmiti-la à posteridade lhe permitiam perpetuar-se. A cidade precisava dele. Agora, todavia, ele estava oco feito casca de árvore morta, rígido feito carcaça de animal, dissolvido no ar feito alma penada.

Ela fora embora – e consigo levara sua razão de ser.

O mago se encolheu junto ao monumento, gélido, lamuriento e autopiedoso. No passado, teria bastado um meneio de seu manto para que ele se camuflasse no esconde-esconde com a criançada. Mas agora só lhe restava ficar invisível da mesma maneira que andarilhos sem teto são invisíveis.

Ela fora embora, a magia – e ele se fora com ela.

 

Após quatro dias de chuva torrencial, ela se aproximou e lhe estendeu a mão.

 

– Estava encharcada, e os cabelos negros pareciam piche escorrendo pelos ombros – disse uma nova voz, de barítono, anunciando-se porta adentro. – Ela sorriu para o mago, e de repente as íris dele iridesceram novamente, e o coração bateu inspirado, e o peso se dissipou, e todas as razões do mundo voltaram, e com elas o mago. E naquele momento o véu tempestuoso se abriu acima dos dois, e apenas dos dois, e um facho de luz rompeu as nuvens.

O silêncio sobreveio e se manteve, até Iuri inflar as bochechas, impaciente.

– Não entendi, vovô – comentou. – O que aconteceu?

– O amor aconteceu, tonto – Elza retrucou. – Foi quando o vovô se declarou para a vovó. Como você é burro!

– Sim, foi o que aconteceu – concordou a avó com um sorriso gentil –, mas não só. Também foi quando me declarei para o avô de vocês, e tudo serenou. É que a magia é o coração em sua forma mais pura. Se o coração está nebuloso, a magia acaba se escondendo atrás das brumas. É preciso procurar lá dentro e com cuidado.

– Mas então a magia voltou? – quis saber Iuri.

– Na verdade, ela nunca tinha ido embora – explicou o avô. – E o mago nunca a tinha perdido. Ele só tinha se esquecido de onde procurar. Foi preciso que alguém o lembrasse do óbvio – e deu uma piscadela não tão discreta para a avó. – O sentimento, a vontade, a magia: tudo isso sempre permaneceu dentro dele.

– E naquele dia o mago percebeu mais uma coisa – acrescentou a avó. – Existe, sim, magia para a imortalidade, mas ela não pode ser ensinada – esclareceu com um jeito enigmático –, só aprendida.

Elza acenou com a cabeça enfaticamente, enquanto Iuri coçou a dele, meio incerto, e perguntou:

– Isso significa que estamos prontos para aprender a invocar o fogo? Vamos! Por favor, vovô! Prometo que não vou queimar o cabelo da Elza. Por favor, por favor, por favooor!

– E, se o senhor me ensinar a controlar os sentidos – Elza apressou-se em aduzir, – prometo que não vou fazer a língua do Iuri arder.

O avô conteve um risinho.

– Espero que cumpram essas promessas e os estarei vigiando. Porém há mais uma a ser feita.

– Qual? – Elza indagou.

– Faremos qualquer coisa! – Iuri exclamou.

– Pois muito bem. Como magos, prometam que vão sempre ouvir as verdades de seus corações. A cidade precisa de nós, mas nós também precisamos dela, porque nossos corações não batem por nós mesmos e sim pelos que estão a nossa volta. Por cada um de nós, entenderam? O vovô, a vovó, Elza, Iuri, Lao, os pássaros do jardim, o gato que nos visita de vez em quando: todo mundo.

– Prometemos! – gritaram os jovens em uníssono e com solenidade.

O avô fungou uma risada.

– É o bastante para mim. Podem ir para os jardins. Já os alcanço.

Iuri e Elza apostaram corrida para retirar-se. A avó aproveitou a deixa para aproximar-se do avô e beijá-lo no rosto.

– A cidade precisa do mago – disse.

– O mago precisa da cidade – replicou o outro, beijando-a na boca.

 

De noite, quarenta e um dragões desfilariam pomposos em meio às constelações e aos astros. E os astros desceriam para brincar em meio à névoa prateada do rio das Flores. E as flores floresceriam em pleno inverno. E o inverno, em sua vasta mudez branca, se aqueceria com o riso de crianças.

Haveria fumaça anil e bolhas carmesins, perfume de lírio e de rosa branca, e assobio de pardal e de coruja. As águas se ergueriam como um chafariz cuja espuma lembraria cavalos alados e raposas de quarenta e uma caudas.

Ao agitar o manto, o mago se camuflaria no esconde-esconde. Somente seus olhos poderiam ser vistos, e eles brilhariam. Brilhariam como as estrelas no céu.

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4 respostas em “CONTO: O mago e a cidade

    • Hahahaha, brigado! Ah, na verdade não percebi muita evolução. Mas acho que isso é algo que os leitores notam, mas o escritor, não. Vlw, Wilton!!!

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