CONTO: A causa da guerra

A causa da guerra

(Spin-off do romance Além do Sol e da Lua)

Sidrik “Rochedo” Haulogen é um velho cavaleiro com um passado glorioso de conquistas militares e de feitos heroicos. Quando o Duque o designa como líder de um regimento inexperiente e tutor de um escudeiro medroso e sem estirpe, Sidrik encontra vários motivos para se ressentir. A missão de que o incumbiram parece suicida. Apesar disso tudo, enquanto marcha, ele descobre uma razão valiosa por que lutar. Todavia, no outro extremo do combate que se avizinha, os oponentes não estão menos determinados: o capitão Perinëo e seus arqueiros élficos batalharão com todas as forças pela mais simples das causas – a vingança. Quando dois lados se batem com igual fervor, e quando ambos têm algo precioso a proteger ou a reclamar, qual deles merece ser agraciado com a vitória?

O trovão gemeu além da sólida muralha de árvores que cercava o regimento de Sidrik, e o rapaz gemeu a seu lado. Sidrik engoliu uma imprecação diante de mais aquela amostra de covardia. O garoto tinha medo da própria sombra: quem fora o idiota responsável por designá-lo como seu escudeiro? Se bem que, a considerar a missão de que fora encarregado, o rapaz fosse o menor de seus problemas.

Sidrik sabia-se um cavaleiro habilidoso, embora na ocasião não contasse com um cavalo sob si, porque essa campanha exigia furtividade. Era um veterano de incontáveis batalhas: mesmo então, imerso naquela marcha cadenciada, prudente e o mais silenciosa possível – um ritmo e cuidado que vinha impondo a todos seus subordinados –, lembrava-se da Batalha da Lua Nublada; da Terceira Batalha sob as Estrelas; da Batalha pelo Rio, em que liderara um assalto contra a guarnição da Ponte de Ardósia; do Cerco à Fortaleza Desgarrada; e de outras tantas glórias do passado.

Sim, tivera uma farta quota de sucessos, o que trouxera prestígio e conforto a sua família. Ao menos com isso não tinha mais de se preocupar. Imaginava que, se a missão desandasse, pouco teria o que lamentar: era um alento deprimente, porém naquelas circunstâncias o mínimo alento servia. A seu redor os soldados avançavam espremidos uns contra os outros, ombro a ombro, como se cada um buscasse proteção na companhia dos demais. Sempre no limiar da audição, os murmúrios variavam nas palavras e frases, mas todos prediziam a mesma sina: estavam condenados. Pelo trepidar de seus passos, realmente pareciam no curso de uma procissão à forca. O moral das tropas era tão cinzento quanto o clima, notou Sidrik ao voltar o rosto às nuvens que se adensavam lá em cima.

Uma lufada zuniu, agitando as copas da floresta, carregando consigo o cheiro da tempestade que se avizinhava. “Mau presságio”, Sidrik refletiu. Um segundo relâmpago riscou o céu, mais perto dessa vez, e seu clarão tingiu de branco elétrico o desespero nas faces dos homens, os olhos fundos em cada crânio, e revelou o choramingo que o jovem escudeiro prendeu na garganta. Por um momento as sombras de troncos, galhos e folhagens alongaram seus dedos, mais nítidos à luz ofuscante, como se para tocar a fileira de soldados e esmagar-lhes vontade e corações. De novo trovejou, e de novo o rapaz encolheu-se.

Ainda fitando o cenário que se descortinava à frente, a visão periférica atenta às árvores laterais e ao que pudessem estar escondendo, Sidrik sobrepôs a voz ao burburinho de seus subordinados e perguntou:

– Como se chama, garoto?

O rapaz piou como se desperto de um transe. Sidrik forçou-se a encará-lo, então.

– Emet – respondeu, ofegante do susto. – Emet, senhor.

– Só Emet?

O garoto fez que sim.

– Meus pais são lavradores. Ou minha mãe é, na verdade. Meu pai também trabalha de pastor às vezes. Não temos terras nossas, se é o que o senhor quer saber.

Emet, só Emet. Sem sobrenome. Sem terras. Sidrik fungou uma risada. Se ele tinha a seu serviço um escudeiro sem estirpe, era porque o Duque sem dúvida o descartara da cavalaria de batalha. “Já me consideram inválido. Ou morto.” Justo ele, o galante Sidrik “Rochedo”, outrora pertencente à Guarda Ducal, fora enviado numa missão suicida como líder de um bando de indisciplinados e tutor de um pé-rapado… Não, não lhe importava que Emet não fosse nobre. O valor de ninguém residia em algo tão ralo quanto o sangue. Embora ele próprio houvesse nascido de uma linhagem antiga e respeitada, só depois de muito esforço Sidrik Haulogen tornara-se Sidrik de Ponta Solar, senhor de um castelo e domínio que pudesse tomar como seus. Já vivera demais e já conquistara o suficiente para continuar a crer que a habilidade e o mérito ligavam-se ao nascimento, e se o Duque preferira afastá-lo da corte para abrir espaço a uma nova geração de cavaleiros ambiciosos e fidalgos bajuladores, que assim fosse. Uma parte de Sidrik contentava-se com essa decisão. Era melhor ficar distante dessa corja e de suas tramoias políticas.

Desanuviou a mente e refocou o olhar adiante. Não, o que o incomodava não era a origem do escudeiro. Mirou-o de esguelha novamente. Emet levava seu escudo, espada reserva e elmo. Era mirrado e pálido, ou era esse o vislumbre que captava dele a cada raio coruscante daquela tarde arrastada. O rapaz girava a cara numa frequência absurda, feito coelho em prado descoberto, até que um farfalhar na mata à direita o sobressaltou. Sim, o que perturbava Sidrik…

– O que foi isso? – sibilou o escudeiro, alarmado.

… era que Emet era um completo e incurável covarde.

– Foi o vento. Ou um esquilo – replicou o cavaleiro secamente. – Pelo céu e pela terra, rapaz, ao menos finja um pouco de bravura. Manter a aparência já conta bastante.

– Sinto muito, senhor – balbuciou.

Sidrik bufou irritado. Na realidade não estava certo do que afirmara. Vento e esquilo: ambos eram hipóteses plausíveis. Existia outra possibilidade, no entanto: talvez já tivessem visitantes. O mais provável era que já os estivessem observando, mas isso não devia guardar nenhuma relação com o ruído que haviam escutado. O cavaleiro esperava que seus inimigos fossem mais sutis, a ponto de não produzir o menor som. Os malditos elfos conheciam aquela floresta tão bem quanto ele conhecia o caminho à latrina, quando acordava de noite precisando mijar. Achava que não retornaria para casa, para Estela, para sua cama, para as madrugadas serenas em que cambaleava sonolento por seus corredores, com a bexiga a pulsar.

Não tardaria para que recebessem uma rajada de flechas. Afinal, por mais nebuloso que o tempo estivesse, os elfos eram habituados a combater no escuro. Fora exatamente por esse motivo que Sidrik mandara substituir os porta-estandartes do regimento – inúteis em batalha, além de sem sentido numa campanha que se apoiava na dissimulação – por porta-escudos: uma vintena de soldados distribuída aos flancos da fileira, incumbida de conservar erguidas barreiras de aço quase da altura de um homem e com um acolchoado de seda no interior. Especulavam que essa defesa deteria uma primeira saraivada e talvez frustrasse uma emboscada, mas depois de nada prestaria. Os guerreiros revezavam-se empunhando esses escudos maiores, para que não se cansassem, enquanto à fronte da hoste iam três batedores com escudos de tamanho convencional. A brecha na estratégia localizava-se em cima deles. Se os elfos atirassem do topo das árvores…

– Emet, passe meu elmo, sim? – pediu Sidrik.

O rapaz obedeceu, e o cavaleiro vestiu-o. Sabia que, a despeito de qualquer precaução que adotasse, as chances de êxito de uma missão em território inimigo eram miseravelmente pequenas. Segundo seus informantes, nem sequer espiões haviam analisado a região antes de ele chegar com as tropas. Estavam cegos e vulneráveis e ao desamparo da tormenta que rugia mais próxima a cada instante. Talvez o garoto fosse sensato ao demonstrar tão sinceramente o temor que sentia.

– Por que está aqui? – dirigiu-se a Emet.

– Senhor? – Emet pareceu não entender a questão. – Estamos aqui para conquistar as minas de prata para Sua Majestade.

– Sei bem por que estamos aqui, rapaz. Sim, viemos reclamar mais riquezas para aristocratas que não conseguem mexer os dedos de tantos anéis brilhantes que usam e de tão gordos que estão – esbravejou. A campanha consistia num ataque surpresa. Ao menos essa era a ideia. Daí o destacamento reduzido de que dispunham. Daí o silêncio precioso que se empenhavam em preservar… “E que não fará a menor diferença contra ouvidos élficos.” – Perguntei por que você, Emet, filho de lavradores, está aqui.

O garoto baixou a cabeça.

– Estou aqui porque meus pais já têm filhos bastantes trabalhando na lavoura. Eu era o único em idade de alistamento. Estou aqui para – e falou sem um pingo de convicção – levar tesouros e honra para casa.

“Idade de alistamento…” A penugem que crescia no rosto de Emet mais aparentava sujidade do que barba, Sidrik reparou. Dava-lhe quatorze anos, no máximo quinze. Talvez nunca houvesse se deitado com uma mulher e, se descendia de agricultores, mal devia ter experiência com uma espada, apesar do treinamento apressado que os oficiais haviam providenciado aos novatos. O recrutamento forçado que o Duque decretara fora o mais abrangente de que se tinha notícia no Reino. Ninguém em condições de levantar ferro ou aço escapara. E lá estavam os dois agora: um moleque assustadiço e um cavaleiro que as autoridades já julgavam morto, ambos marchando rumo à perdição.

A suspeita que Sidrik ocultava de todos – mas que outros ali certamente compartilhavam, por dedução própria – era que a missão fora planejada para fracassar. O objetivo deles não se resumia num assalto furtivo à cidadela que guarnecia as minas de prata. Não. Eles eram isca. “Mera distração.” Se morressem ou vivessem, tanto fazia, pois a verdadeira investida, a que traria espólios para os pobres e títulos para os ricos, viria de outro lugar. Haviam mentido para o garoto. “Para todos nós.”

Quando a chuva finalmente começou a cair, Sidrik voltou-se para Emet uma última vez:

– Você queria estar aqui?

Após verbalizá-la, a pergunta soou-lhe imensamente estúpida. Era lógico que ele não queria estar ali e, mais lógico ainda, que não tivera escolha. Mas o rapaz nada disse, e sua mudez desabou sobre o cavaleiro como a tempestade. Escutava os pingos tamborilando no metal, o chacoalhar das armaduras à medida que a hoste avançava, os trovões – porém acima disso tudo escutou o que Emet não disse. Encarou-lhe a face vazia, inexpressiva, os olhos vidrados como se piedosos. Desgostava da misericórdia: na guerra era sinônimo de fraqueza. Só que o garoto…

E embora as pernas de Sidrik latejassem do frio e da umidade, embora as imaginasse rangendo sob as grevas, embora se pensasse velho, ele tomou sua resolução. Ora, ainda não estava tão velho assim. Que viessem duas centenas, um milhar, dez mil elfos: ele acabaria com todos. Racharia crânios, partiria membros, perfuraria placas de peito e no final sobraria de pé. Lembraria ao mundo por que o chamavam de “Rochedo”. Resistiria pelo garoto. Mesmo que fosse engolfado por inimigos, enquanto pudesse mover os braços ele exterminaria quem ousasse se aproximar, e não tombaria até que o rapaz estivesse a salvo. Foi essa sua resolução.

O que importunava o cavaleiro não era que Emet fosse malnascido ou medroso, e sim que era um garoto, um reles garoto. Não merecia estar ali.

“Protegê-lo-ei.”

E quando o relâmpago faiscou, Sidrik instigou as tropas adiante. Que todos morressem: o rapaz sobreviveria.

*****

Perinëo polia a lâmina de seu machado quando o batedor regressou. Nenhum ruído, nenhuma sombra naquele dia nublado avisou de sua chegada, mas o capitão Perinëo pressentiu um peso no ar. Ou isso, ou a ansiedade por obter a confirmação da identidade do cavaleiro colocava-o irrequieto. Tragou um pouco de autocontrole antes de inquirir:

– O que tens para mim?

– Capitão Perinëo, meu senhor, informo que reconhecemos o semblante do cavaleiro. – O mensageiro sussurrava, o tom obsequioso. – As bochechas dele estão- chupadas… e há rugas no canto dos olhos e tufos- tufos grisalhos na barba e nos cabelos, mas não restam dúvidas de que é ele. Fosse mais jovem seria a perfeita encarnação do retrato nos Salões da Vingança… o retrato que o senhor nos mostrou, quero dizer.

Perinëo não escondeu a satisfação e farejou o clima: odor de terra e folhas salpicadas de névoa, com o temporal a prenunciar-se. O frio e a umidade que lhe enchiam os pulmões revigoravam a alma.

– Não creio que o cavaleiro seja Rodrik. – Interrompeu o polimento e admirou o reflexo da floresta no metal. – Não são tão longevos assim, os humanos. Deve ser o filho dele – ponderou. – Não obstante, é um Haulogen – e enroscou os dedos em torno do cabo do machado –, descendente do homem que matou meu irmão, oitenta e quatro anos atrás. – Virou-se para o batedor, sorrindo extasiado: – Porém nós elfos não esquecemos, não é?

– Não, meu senhor – concordou com uma vênia.

Jamais esqueceria. “Atenta para a postura. Arquearia e elegância são irmãs como nós somos irmãos.” “Somente reteses a corda após resolveres se vais atirar ou não, e em que direção. É tolice extenuar o músculo à toa.” O capitão rememorava os conselhos do passado, a voz do irmão ecoando jovial, porque o infeliz morrera jovem. “Noto que teu braço ainda treme a cada disparo. Mas isso há de mudar: coalha de setas o tronco daquela täni, mirando sempre mais e mais alto, e verás o resultado, irmãozinho.”

Sentado sobre a raiz saliente de uma täni particularmente frondosa, Perinëo recordava-se de como mal arranhara a casca daquela velha árvore na primeira leva de flechas que desferira. As pontas não se afincavam no alvo, umas nem sequer concluíam a trajetória até ele, ou então passavam longe, apesar de seu porte agigantado. Aborrecia-o que tivesse de recolher dúzias de setas espalhadas pelo chão nessas horas, e odiava descartar uma ou outra de haste partida, pois significava que haveria de comprar ou fabricar novas. Mas o que o revoltava de verdade eram os amigos que troçavam e debochavam de sua pontaria. Devia ignorá-los, repetia para si, no entanto as risadas sempre logravam transpor seu corpo fechado, daí a alternativa era absorvê-las como incentivo e praticar a fim de calá-las. E ao longo dos anos em que seu irmão ficara ocupado em campanha, ele treinara: até começar a desgastar o tronco-caparaça, até produzir talhos fundos na casca, até enfim transformar a täni de sua infância num espinheiro colossal, de tantas que eram as setas nela cravadas. Até crescer, amadurecer e endurecer.

E até o dia em que avistara os companheiros de armas de seu irmão escoltá-lo de volta para o lar todo ensanguentado. Inerte. “Há heróis de ambos os lados, garoto”, ouvira comentarem. Ao que parecia, quem triunfara no combate fora um humano, o sujeito Rodrik Haulogen. Perinëo gravara o nome. De noite saíra de casa, pois não aguentava o pandemônio lutuoso que insurgira, e procurara a täni e seu silêncio convidativo. E atirara: dez, vinte, trinta, cem vezes seguidas, sem pausa, rangendo dentes em harmonia com o ranger do elástico a distender-se, sentindo a fúria acumular-se no braço a cada puxada e extravasar a cada flecha liberada, alheio ao músculo que adormecia e ao Sol que acordava. Não precisara conferir se acertara os disparos: sabia que sim. Seu aproveitamento fora impecável, a despeito da luz escassa e das lágrimas indesejadas que lhe embaçaram a vista. As lições de seu irmão nunca fugiriam de sua mente, mas naquela ocasião haviam borbulhado incessantes e torturantes, uma cacofonia de zumbidos fantasmáticos.

Quando o corpo do moribundo fora enviado a um santuário de Argënttion, o Senhor da Lua, para que o abençoassem como herói de guerra antes de prosseguir à Terra dos Mortos, domínio de Mënthis, Promotor do Sono Eterno, a família guardara seu machado de gume duplo como relíquia. E, por mais que se houvesse devotado à arquearia, por mais que à época mirar e vibrar a corda de um arco representassem para ele atividades tão naturais quanto respirar, Perinëo abandonara sem remorso aquela parte de si, de sua identidade, e adotara a arma do irmão. Talvez no intuito de aquietar as vozes dentro de sua mente. Hoje, em retrospecto, lembrando-se de como usara o machado numa labuta de meses a fio para tentar derrubar a täni que outrora lhe fora tão cara – e terminara encrencando-se com os pais e vizinhos, enquanto a árvore permanecera de pé –, achava que assim procedera impelido por um acesso de raiva típico da juventude. Fora criancice, mas ele mandara afiar a lâmina depois disso e logo se adestrara no manejo da arma. Quando o Haulogen soçobrasse, ansiava por escutá-lo agonizar bem de perto, e o longo alcance do arco e flecha o privaria desse prazer. O machado era a escolha mais adequada.

O capitão ergueu-se e contemplou suas tropas. Dentro e além dos limites da clareira distribuíam-se trezentos elfos, alguns fora de seu campo de visão. Eram guerreiros de elite, exímios arqueiros, mas se a necessidade se apresentasse também conseguiriam sustentar-se à queima-roupa: portavam escudos com brechas por onde desferiam certeiras estocadas com as espadas. Uns encordoavam arcos, outros examinavam a retidão de uma haste de flecha e ainda outros ajeitavam as tiras de couro que prendiam as armaduras, mas todos esses eram rituais mecânicos, sem nenhum propósito além de disfarçar o nervosismo. Perinëo sabia que estavam prontos e que em breve esmagariam o bando de invasores, e enfim ele reivindicaria sua vingança.

Era uma razão muito conveniente de se invocar em batalha, a vingança. Não era a única a impulsionar os elfos que se concentravam ali, todavia era a mais sincera e instigante. O general Cïrion, superior ao capitão, bem conhecia o espírito fervente de que a revanche imbuía um campeão, pelo que Perinëo supunha não ser mera coincidência que tivesse de confrontar o filho do assassino de seu irmão. Decerto haviam inteirado o general da composição do grupo de humanos quando este ainda se encontrava no limiar da floresta, e então o ardiloso do Cïrion tramara para que ocorresse o duelo entre Perinëo e o Haulogen. O capitão riu para si, saboreando a oportunidade que recebera. Exatamente como Perinëo, três quartos dos elfos que ingressavam no exército assim agiam para vingar algum parente ou amigo que sucumbira em combate, e os sobreviventes duravam o bastante para acumular mais perdas e mais rancor ao longo das décadas. Logo, o general fazia bem em explorar esse sentimento. Cochichavam mesmo que lá na capital o Conselho dos Sábios instituíra o que denominava de Política Revanchista.

As gotas retiniam sobre a cabeça de Perinëo e escorriam-lhe pelo rosto, e quando a tormenta desabou o sorriso dele feneceu, enquanto o alvoroço instaurava-se entre suas hostes, que corriam para se abrigar sob as folhas ou recobriam arcos e setas com as capas, para evitar que encharcassem. As flechas não voavam tão bem com suas penas pesadas da água da chuva, que também corroia a elasticidade das cordas. Agora, qualquer saraivada seria menos letal, constatou o capitão.

– A estação não favorece aos arqueiros, meu senhor – disse-lhe uma voz oriunda de trás, após a lamúria do trovão. Era sedosa e, contudo, mais autoritária do que o vento em seu eterno chiar. – Posso reverter este quadro, se me aceitares em tuas legiões.

Perinëo tornou-se, a mão escudando a vista contra o temporal, e divisou uma silhueta feminina recortada contra mais um lampejo ofuscante. A moça deslizava o capuz branco para os ombros e, antes de a luz dissipar-se, o capitão reconheceu-lhe as feições: era Anärea, viúva de seu irmão.

– És o capitão Perinëo, eu presumo – ela observou. – Carregas o machado que já pertenceu a meu marido um dia.

Ele firmou as mãos em torno do cabo da arma e depois a pousou no solo de ponta-cabeça, a lâmina dupla para baixo.

– Ofereces-te para lutar? – Elevou uma sobrancelha inquiridora. – Não sabia que a Abadia permitia aos magos participar da guerra.

Ela afastou da testa os cabelos ensopados. Talvez houvesse se arrependido de tirar o capuz.

– Não permitia. Agora permite. – Esfregava os olhos com rispidez, como se farta daquela tempestade. Quando se satisfez, prosseguiu. – Será um teste. Para mim, para os sacerdotes e para nossa fé. A Abadia almeja pôr à prova nossas habilidades, descobrir os limites do que podemos obrar. Houve dissenso. Os mais conservadores e pios condenaram essa nova orientação. – Fungou encolerizada. – Covardes: eis o que são, esses tipos. Já eu não sou como eles e vim aqui pela vontade de meus mestres… e por minha própria vontade. – Anärea aproximou-se de Perinëo, que lhe examinou as córneas de perto: estavam vermelhas, úmidas da chuva ou de algo além. – Várias são as maneiras de alguém servir ao Senhor da Lua. Alguns preferem a contemplação e os ritos cerimoniais; outros, como eu, são adeptos de caminhos mais… práticos.

Ele franziu o cenho:

– Uma mulher em minhas tropas?

– Uma maga em tuas tropas – replicou a sorrir, estendendo o pescoço até a face do outro, quase alçando o queixo à altura do dele. Perinëo engoliu a seco quando o hálito quente dela atingiu-o em cheio, por um milésimo espantando a tarde friorenta. – Não creio que as chances estejam contra nós, não aqui, em nossa floresta. Mas tomarei parte na batalha de um jeito ou de outro. Talvez possa facilitar os disparos de teus arqueiros… ou talvez faça mais do que isso. Apenas tenho de me precaver para não perturbar o fluxo da vida. É o que a Abadia teme e eu também. – Recolocou o capuz. – Serei cuidadosa.

O capitão observou-a de cima a baixo, resoluta e teimosa. Suspirou.

– Teu marido- meu irmão morreu na guerra, senhora. Não pretendo ser o responsável por guiar a esposa dele- a ti pela mesma senda.

– Saberei me virar, capitão. Só vim te solicitar o consentimento por cortesia, que tenho tanto direito de me vingar quanto tu. E tenho tanto direito de proteger nosso povo quanto tu. Assim farei com ou sem tua aprovação.

A tormenta castigava-lhe a figura pequena e delicada, destoante em pleno acampamento militar. O vento assobiou e chicoteou seu manto alvo. O aço das armaduras do capitão e de seus subordinados era esmaltado na mesma cor. O uso do branco era tradição marcial.

Anärea deu-lhe as costas e decretou:

– O Haulogen é teu para matar… mas quero assistir.

Um raio caiu, e a seu clarão, que inundou aquele trecho da mata para depois sumir, Perinëo não soube dizer se as sombras que lhe cruzaram a visão provinham de um efeito estroboscópico qualquer ou do poder que a viúva emanava. Esfregou as têmporas. E convocou as tropas para partir. Honraria o machado do irmão: não deixaria que a senhora esposa dele perecesse.

*****

Botas metálicas chapinhavam no meio de poças e lama. Ocasionalmente uma lufada mais vigorosa trazia consigo uma torrente d’água que afogava os semblantes duros daqueles guerreiros. Trovejava a distância. De repente ocorreu uma mudança quase imperceptível no concerto do temporal, como se faltasse um ruído, e ao pressentir a ausência Sidrik estacou e ordenou os subordinados a imitá-lo. E no silêncio prévio ao ribombar de um trovão o cavaleiro concluiu: não havia mais gotas martelando as armaduras – o que não fazia sentido, pois adiante e nas laterais ele ainda discernia uma espessa cortina de chuva tremulando. Atrás de si também. Jogou um relance para cima e eis que notou: os pingos sobre as tropas desviavam-se para os lados a certa altura da queda, como se uma redoma invisível os retivesse. Relampejou, e Sidrik viu o espectro prata do raio iluminar toda a água levitando lá no alto, espiralando como num redemoinho.

Parte de si reconhecia o que o fenômeno significava, mas outra parte recusava-se a acreditar, e nenhuma delas podia adivinhar o que se seguiria àquilo. – Escudos! – gritou por precaução, porém mal os soldados erguiam suas defesas e organizavam-se numa formação mais concentrada uma enxurrada de flechas encharcou o grupo que a tormenta poupava de molhar. As setas jorraram de todo canto, e embora os flancos do regimento, com seus porta-escudos, houvessem resistido ao impacto, muitas penetraram brechas na fortaleza de homens e alvejaram ombros e pescoços e testas, enquanto à retaguarda uma dezena de infelizes, sem tempo para girar, tombava com os dorsos apinhados de hastes. Gemidos e brados lancinantes entrecortavam os ecos surdos das pontas fincando-se repetidamente em carne, couro e até aço mais fino.

O escudeiro Emet soluçava, e Sidrik postou-se à frente dele e agradeceu intimamente que ambos estivessem ilesos. – Fique perto de mim se quiser viver, garoto – disse. – Escudos! Fechar! Fechar! Preparem-se para outra saraivada! – mandava às tropas. Todavia nenhum disparo sobreveio pelo minuto subsequente. A tempestade continuou a acumular-se acima deles, como se cedesse passagem à tempestade de flechas tão aguardada, mas que não se consumava. O cavaleiro conteve a respiração: por que os elfos não atiravam? Ele e as hostes estavam cercados, em menor número, suas manobras restritas puramente à defesa e à resistência, a chuva não mais era empecilho ao voo das setas dos adversários e…

E a massa líquida em suspensão sobre suas cabeças despencou com força de cachoeira, ao que uns cambalearam e outros se vergaram, e Sidrik, desnorteado e arfante e praguejando, escutou os gritos de batalha além do temporal que voltava a fustigá-lo. Os elfos vinham para o combate corpo a corpo. Especulou que deviam possuir um senso de honra, já que desembainharam as espadas mesmo detendo clara vantagem no longo alcance. Ah, mas não lhe importava que se fingissem de honrados: ele os repeliria. Sacou a própria arma e aproximou o escudo do peito.

Seu olhar acompanhou elfo atrás de elfo sair dentre as árvores no entorno e atracar-se com seus soldados, cada um empunhando a respectiva lâmina e dispersando-se à medida que escolhiam os oponentes ou eram escolhidos por eles. A batalha fragmentou-se numa miríade de duelos singulares, e em todo par de combatentes repicava o clangor de aço contra aço, o baque de espada contra escudo e uma algaravia de arquejos e gorgolejos, provocações e maldições, grunhidos e bramidos. Sidrik reparou que os inimigos rodeavam-nos sem ordem aparente, movidos mais pelo mero instinto de espetar e cortar do que pela disciplina militar. “Como um enxame de vespas.” Ao redor seus subordinados riscavam-lhes as armaduras e feriam-lhes pele e carne, e de vez em quando arrancavam urros de dor com lacerações mais severas, porém os adversários revidavam impassíveis, ignorando a tormenta, eventuais lesões e o perigo de morte, aguilhoando por detrás dos escudos com a ferocidade da cauda de um escorpião. O cavaleiro sabia por experiência que os elfos lutavam imbuídos de um frenesi tão implacável que não raro sobrepujava a mais sagaz das estratégias bélicas, do mesmo modo que o coração era capaz de dominar a razão.

E agora aquelas bestas enfurecidas acercavam-se dele. – À primeira oportunidade, garoto, pose de morto, ouviu? Protegê-lo-ei a qualquer custo, mas não arrisco predizer por quanto tempo durarei. – Não esperou a anuência do escudeiro. Brandiu a lâmina para estancar o golpe de um atacante que emergia do véu de chuva. O braço não recuou um milímetro ante o bloqueio, o que indicava que ele ainda estava em forma. Desvencilhou sua espada da arma do outro, pressionou-o com uma investida do escudo e, pegando-o desequilibrado, aproveitou para abrir-lhe um talho profundo na base do pescoço. O seguinte abateu com dois cortes baixos em arco que o rasgaram logo acima dos joelhos, e quando o maldito curvou-se, Sidrik rodopiou e decapitou-o. Mais dois vieram e afundaram, um esventrado e o outro golfando sangue. No quinto o cavaleiro já ostentava os pulsos, as coxas e o rosto lanhados, porém a chuva lavava de imediato toda ferida, e ele ainda se julgava bem disposto e, por mais contraditório que fosse, menos abatido do que antes. De armadura arranhada, amassada aqui e ali, recebeu com um sorriso selvagem o sétimo oponente e finalizou-o com uma estocada que lhe atravessou a fenda no escudo – a exata fenda que ele utilizava para contra-atacar –, enterrando a lâmina em sua barriga, sentindo-a raspar contra suas costelas. Ao desentranhar a espada, encarou-lhe os olhos e estremeceu: mesmo no derradeiro suspiro, suas íris faiscavam de ódio como se houvessem capturado um dos relâmpagos lá do céu. Sidrik devolveu-lhe a expressão determinada. Não fraquejaria, muito menos agora que recuperara a juventude. O fogo que antes lhe ardia somente a perna, acometida de um mal qualquer, no momento se alastrava por todo seu corpo, até a ponta dos dedos. Ele era “Rochedo” de novo.

Numa pausa para o fôlego, vislumbrou Emet. Afora a palidez e a vista arregalada, o rapaz parecia estar suportando com louvor a carnificina do campo de batalha. Não o incomodou que o garoto o mirasse como se ele fosse uma assombração. “Ou um animal faminto.” Achava que cada participante de uma guerra submetia-se a essa metamorfose aterradora. Realmente devia estar uma desgraça só: respingado de sangue, enlameado, descabelado e, apesar de tudo, sorridente. Não lhe admirava que espantasse Emet. “Tudo bem, contanto que ele sobreviva…” E ao virar-se à caça de mais adversários, descobriu que o temor do escudeiro não se dirigia a si próprio – ou não apenas a si próprio: desde o início Emet estivera contemplando boquiaberto a aproximação de um elfo alto e parrudo, um verdadeiro brutamonte, que portava um enorme machado de dois gumes às costas. O sujeito avançava a passos largos, num entusiasmo que não combinava nem um pouco com o clima geral, e os guerreiros, tanto humanos quanto elfos, afastavam-se dele conforme prosseguia. Talvez seu porte os induzisse a manter distância ou – tão provável quanto – talvez ninguém com um mínimo de sensatez ousasse se intrometer no caminho de um gigante. Em armadura de placas e de machado em riste ele cruzou o palco onde as gentes se matavam e rumou diretamente para Sidrik.

*****

Perinëo avistou de longe o homem que procurava: encanecido, ensopado, talvez esbaforido, mas ainda de pé. Não se surpreendeu… Na realidade torcera por que ele não sucumbisse à saraivada nem ao fio da espada de um de seus elfos, mas no íntimo nutrira a certeza de que sua presa superaria essas provações sem dificuldade – do contrário não seria digna de sua revanche. O capitão tinha uma vaga consciência de que sorria de êxtase, agora que se postava diante de si aquele que por décadas visualizara como seu objetivo. As gotas delineavam-lhe as covinhas da face imberbe, escorriam-lhe pelos lábios e borrifavam-lhe os dentes. “Haulogen.” Ficara grato pela compreensão de seus arqueiros, que não haviam contestado quando ele anunciara que só disparariam uma única leva de setas, porque sua vontade de vingar-se apenas seria saciada com um combate frente a frente. Perdera ótimos soldados por causa desse capricho. E a viúva posara de insolente após domar a tormenta: à ordem de Perinëo de livrar-se de toda aquela água, respondera que não podia fazê-la evaporar e sem aviso a despejara sobre o regimento de humanos.

“Que audácia.” Anärea agia como bem lhe aprouvesse. O capitão nem imaginava onde ela teria se enfiado no meio da batalha. Estaria quieta em algum canto, satisfeita com seu truque de chuva? Decerto não. Jurara protegê-la, mas a prioridade era ajustar as contas com o Haulogen, e a maga afirmara que sabia se cuidar. Estava a três passadas de seu alvo, que o aguardava pacientemente. Seu sorriso alargou-se enquanto ele levantava o machado com ambas as mãos e, meio segundo depois, deixava-se tragar pelo impulso do golpe descendente. O cavaleiro esquivou-se para o lado, como era previsível, todavia Perinëo não lhe deu trégua e, mal se firmou no solo, engatou na sequência um corte horizontal que teria ceifado o adversário em dois, não houvesse ele se ajoelhado. Ao clarão de um raio estudou-lhe os traços: era uma versão mais idosa de Rodrik, conforme o haviam pintado nos Salões da Vingança. Os filhos mais se assemelhavam aos pais à medida que envelheciam. E perto dele o capitão entreviu mais alguém: um menino – um menino desesperado. O cavaleiro o forçara a abaixar-se para escapar à lâmina do machado. Protegera-o. “Ora, ora…”

– Haulogen – silvou; não era uma pergunta.

O cavaleiro lutou para reerguer-se, pois a armadura pesava-lhe nos ombros, mas preservou a compostura quando retorquiu:

Sidrik Haulogen.

– Filho de Rodrik, eu suponho.

O outro assentiu.

– Então talvez tenhas ouvido falar deste machado. Era de meu irmão quando teu pai o matou.

De novo Sidrik fez que sim. Perinëo lambeu os beiços.

– O fedelho aí é caro a ti, velhote – e indicou o escudeiro com um meneio de cabeça. – Meu irmão também era caro a mim – sorriu.

E de súbito investiu contra o rapaz, porém o cavaleiro empurrou-o para longe do alcance da arma e interpôs-se entre ele e o capitão.

– Sou eu seu adversário.

– Não cabe a ti decidir.

A lâmina zuniu e espirrou água, zuniu e agitou o ar, zuniu e intimidou quem estivesse próximo, mas não tocou Sidrik nem o menino. E o capitão brandia a arma ciente do pleno controle que detinha sobre ela, gingava o corpo ciente de que ditava o ritmo da dança, predava ciente de que acuava suas presas. A armadura completa retardava-lhe os movimentos, e ele também guardava ciência disso. Por culpa do equipamento, até quando o cavaleiro puxava o escudeiro pelo colarinho para salvá-lo do fio do machado – até nessa reação desengonçada existia mais elegância do que no mais fluido dos ataques de Perinëo. O velho não tinha maus reflexos para a idade que devia contar.

Maldizendo a agilidade do adversário, o capitão escarrou e relanceou o panorama por um instante: em segundo plano Anärea bamboleava pelo campo de batalha como se nada, nem sequer a chuva, pudesse atingi-la. Vestia somente seu manto branco e manejava um chicote de múltiplas correias (tirado sabia-se lá de onde) e a cada estalo ensurdecedor fazia-o enroscar-se no pescoço de um humano desprevenido, alguém já ocupado com outro oponente, e o arrastava para junto de si engasgado, sufocando, e pousava em seu crânio a mão livre (enquanto a outra permanecia segurando o açoite), ao que o apresado debulhava-se em convulsões ruidosas antes de morrer. Depois de observá-la dominar a tempestade, Perinëo constatara que ela era uma maga da água: talvez ela agora estivesse afogando os que terminavam reféns de sua chibata ou, ainda, talvez estivesse manipulando-lhes o sangue para ocasionar alguma hemorragia interna. Era uma viúva poderosa, obstinada e cruel.

E ao refixar a atenção no duelo, de repente o capitão notou algo que até então lhe passara despercebido: era coincidência ou proposital que o Haulogen se desviasse sempre para a direita? Interrompeu os golpes e, no momento que se seguiu, ele e o cavaleiro trocaram olhares penetrantes enquanto ofegavam, e o menino engolia o medo e o choro. A perna direita do velhote vergava-se ligeiramente. Sinal de cansaço? Não. Era um indisfarçável sinal da idade, a indicar que naquele ponto sumia o aparente vigor do adversário para dar lugar à vulnerabilidade. Perinëo sorriu. Investiu com o machado como se visasse o escudeiro à esquerda do Haulogen. Uma finta. Num milésimo mudou a trajetória da arma, perfazendo um corte da esquerda para a direita contra o cavaleiro, que pego de surpresa só lograria esquivar-se se mexesse primeiro sua perna enferrujada – e a velhice traiu-o. Perdeu estabilidade e caiu. Até que se levantasse, nada protegeria o menino que se encolhia paralisado. O capitão aproximou-se e ergueu a lâmina. E baixou-a.

E, contra todas as expectativas, a despeito da sólida armadura e da perna encanecida, diante de si estava o Haulogen bloqueando-lhe o ataque com o escudo, e à chegada dele o garoto fora tirado da reta, jogado ao solo.

*****

Emet provou o gosto da lama na queda. A espada reserva de seu mestre, que vinha agarrando como se se agarrasse à vida, escapuliu dentre seus dedos. Pôs-se de joelhos. Cada músculo seu trepidava. Sidrik o teria repreendido: teria dito que ele devia ter aproveitado a chance para fingir-se de morto. Mas ele precisava saber o que sucedera ao cavaleiro. Precisava. A figura dele assomava ali ao lado, ereta e resistindo, de modo que amparava o rapaz do temporal oriundo daquela direção. “Rochedo” escudara a machadada. Havia pouco preferira estritamente evitar os golpes do elfo brutamonte, pois temia que se aparasse qualquer deles, com ou sem escudo, o impacto daquela arma monstruosa seria o bastante para nocauteá-lo. Só que dessa vez bloqueara. “Por mim.” Emet não conseguia enxergar do ângulo em que se achava, mas cogitava que o escudo do cavaleiro estava fraturado. Talvez o braço estivesse quebrado. Contudo ele mantinha a postura. Nada o afetava. O escudeiro viu-o travar um passo, trôpego, ao que o inimigo, de espanto, recuou um passo. Daí escutou um ruído de início no limiar da audição, mas que evoluiu para um rugido, para um brado de guerra, e o urro provinha de Sidrik, do fundo de sua garganta, de seu peito, de seu coração, e enquanto gritava ele avançou mais e mais, e com braço e escudo partidos repeliu sofregamente o machado que acabara de deter – e abriu a defesa do elfo. Estarrecido, o adversário não reagiu, e o cavaleiro alçou a espada e espetou. Emet não teve uma visão desimpedida do corte; a manopla de Sidrik obstruía-a. Porém vislumbrou o sangue esguichar quando o inimigo largou o machado – e desabou com ele. “Terminou.”

Ouviu um berro estridente atrás de si. – Não! Não! – Discerniu a palavra que se repetia, sobrepondo-se ao barulho da tormenta. Um chicote rasgou a cortina de chuva, e era um chicote diferente do que o menino já observara o pai usar quando guiava a carroça: o açoite estalou como um robusto galho a rebentar e apertou-se em torno da goela do cavaleiro, que se desfez de escudo e espada e levou as mãos ao pescoço tentando livrar-se do estrangulamento. Sem sucesso: estava exausto. Emet contemplou atônito a mulher acercar-se de Sidrik, agora ajoelhado, e tocar-lhe a nuca. Não podia permitir que a maga o matasse. O cavaleiro tremelicava em espasmos, agonizando. O escudeiro girava a cabeça a esmo, aflito e impotente, mas sabendo que tinha de agir, senão… Relampejou – e eis que ele avistou a espada reserva de seu senhor e tateou até segurar o punho metálico, enlameado e pegajoso. Posicionou-se à retaguarda da elfa, os braços tremendo, os olhos fechados, e estocou como fazia no parco treinamento que recebera. Um golpe desajeitado, mas nele Emet injetou toda a força que arranjou em si. A lâmina penetrou com facilidade. O menino não ouviu nenhum arquejo, nenhum último suspiro, somente o trovão. Soltou a arma quando a lâmina rebrilhou vermelha. A maga tombou com a espada ainda enterrada no dorso. Depois dela o cavaleiro caiu também, enquanto Emet quedava ajoelhado, a boca seca apesar da chuva, sentindo mais frio do que alguma vez já sentira.

Por um tempo restou assim.

– Rapaz – escutou chamarem-no. Era um murmúrio ou menos do que isso. O escudeiro rastejou para perto do corpo estatelado de Sidrik “Rochedo”.

– Rapaz… – disse sem fôlego. – O que está esperando? Finja-se de morto – e cerrou as pestanas a sorrir.

Emet obedeceu, consciente de que seu protetor não estava só fingindo.

*****

– Permaneci deitado lá o mais quieto possível até parar de chover e eu ter a certeza de que todos os elfos tinham ido embora. Eles venceram, e nenhum dos nossos sobreviveu, exceto eu. Quando a noite desceu, marchei de volta pelo trajeto por onde tínhamos vindo. Não há muito a contar. Perambulei pela floresta por dois dias e duas noites, vivendo de frutos silvestres, até por sorte me deparar com um trio de cavaleiros humanos. Eles se dirigiam às minas de prata. Foi aí que descobri que nosso regimento, eu, meu senhor, todos tínhamos participado de uma farsa. A batalha tinha sido uma distração, e enquanto combatíamos os elfos um exército maior e mais forte seguia por outras trilhas até a guarnição das minas, para tomá-la sem enfrentar grande resistência. Eu receberia um feudo e riqueza por ter sobrevivido, mas, pelo que deduzi mais tarde, as recompensas serviam para que eu conservasse silêncio sobre o que narrei. Eis a história.

– Foi isso? – retorquiu uma voz jovial. – Foi essa sua primeira campanha, vovô? Puxa… – sussurrou aborrecido.

– Está decepcionado, Aegnor? – perguntou o velho Emet.

– Não, eu acho. É só que esperava mais. Digo- o senhor matou uma mulher pelas costas. Não vejo honra nisso.

– A mulher que matei era mais letal que qualquer homem que eu viria a confrontar depois. E nada disse sobre honra. – Contemplou o rosto entediado do neto e grunhiu uma risada, desviando o olhar para o teto, para o passado. – Não existe honra na guerra. Nem um mísero pingo. Eis a lição que guardei de minha primeira campanha. O cavaleiro, o elfo, a maga: todas as três pessoas que realmente lutavam por algo pereceram. Mas ao menos cumpriram seus objetivos antes do final. E o engraçado é que ambos os lados clamam a vitória para si nessa batalha pelas minas: nós humanos porque conquistamos a guarnição, os elfos porque mataram mais soldados que perderam. Tolice – bufou. – Não há vencedores numa guerra. – Ficou a menear a cabeça enfaticamente, como se alheio à presença do neto.

– Então… posso ir? – Aegnor arriscou-se a indagar. – Do contrário vou me atrasar para o treino. Era isso que o senhor tinha para me dizer?

Emet piscou três vezes, despertando de suas reminiscências.

– Sim, pode ir – anuiu. – Mas antes que vá, tenho um pedido a lhe fazer. Daqui a alguns anos, você será convocado à guerra, como eu fui. Até lá, até a hora chegar, quero que reflita sobre o que o motiva a desembainhar a espada.

O menino franziu o cenho, sem entender.

– Quero que encontre uma boa razão por que lutar: uma causa que para você faça mais sentido do que meramente ser leal ao Duque ou ao Rei. Pode me prometer isso?

Aegnor captou a seriedade do assunto, empertigou-se e num tom solene proferiu:

– Prometo.

E disparou pelo salão até a porta, onde estacou e virou-se:

– O senhor a encontrou, vovô? Encontrou a causa?

– Sim. – Emet sorriu. – Encontrei uma que me agradasse. Mas você terá de buscar a sua sozinho, entendeu? É assim que crescerá.

O menino assentiu e foi-se, enquanto o velho matutava consigo, tamborilando os dedos na borda da poltrona. “Foi o que meu senhor fez por mim. Proteger quem não tem meios de proteger a si mesmo. Eis a causa. Ora, até que o ranzinza do Sidrik ‘Rochedo’ Haulogen me ensinou algo, afinal.” Levantou-se e massageou as coxas doloridas.

– Nunca pude agradecê-lo – murmurou. – Uma pena. Uma pena.

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