CONTO: A música que toca

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Estava na penumbra, assim como nas outras vezes. Esperava. Adiante, sobre um piso quase espelhado de tão lustroso e sob luzes que deslumbravam, reluzia o piano. E o piano também esperava, e sua placidez contrastava com a ansiedade daquele que se preparava para tocá-lo. Convidava como um anfitrião sorridente e ao mesmo tempo intimidava como um salto no vazio.

Ele pisou firme, para certificar-se de que ainda havia chão sob si. Havia. Reconfortou-se, só que as mãos não interromperam aquele abrir e fechar involuntário, e o corpo permaneceu oscilante, descarregando o peso ora numa perna, ora em outra. Imaginava que, tão logo se sentasse no banco, o rival e o juiz se poriam a examiná-lo, entretanto não fazia sentido tamanha angústia. Após tantas provas como aquela, achava que já teria superado a apreensão e a sombra. Supunha que avançaria confiante e de cabeça erguida. Pensava que não deveria duvidar do brilhantismo de sua performance. Mas não. O suor, o borboleteio no estômago, tudo isso era igual.

Aspirou um pouco do ar abafado. Cerrou os punhos para retomar o autocontrole. Tudo bem que o medo de falhar ainda estava ali, a acompanhá-lo como zeloso guardião. Era bom que assim fosse, porque lidar com o medo era parte do teste: era o que o tornava digno de si mesmo e do piano. E moveu-se apesar do temor, que a paixão falava mais alto. Eram os dedos que o conduziam: queriam deslizar pelas teclas como sempre haviam feito. E os ouvidos cobiçavam a música, e o coração palpitava desejoso das emoções que ela evocava.

Sentou-se e ajeitou a postura. A partitura estava à frente de si, mas ele conhecia-a de cor. Pousou os dedos sobre o teclado, com a delicadeza de quem acaricia uma nuvem. Jamais seria rude com algo tão precioso. Havia cumplicidade e mesmo intimidade entre ele e o piano, mas nem por isso devia ser indecoroso. Naquele momento cada gesto seu tinha de ser igualmente apaixonado e cuidadoso, porque é isso que significa amar do jeito mais belo que existe.

E a melodia começou a irradiar.

Primeiro com a sutileza de quem compartilha segredos.

Depois com a sinceridade do amante que sussurra à borda do ouvido.

E depois brilhou como o último raio de sol numa tarde de outono, para enfim desabar como gentil chuva de verão. E cada nota era uma gota límpida como vidro. E cada gota formava três círculos-marolas em poças que lembravam prata polida.

A música que toca 2

E a música pulsava em tons de azul e de ouro. E moldou a imagem da cidade de noite, com as luzes piscando suavemente no ritmo dos acordes. E numa espiral de aquarela a cena dissolveu-se e deu lugar ao céu estrelado. E o céu expandiu-se para acolher a música, porque ela transcendia o espaço, tocando estrelas e viajando com a luz. E prosseguiu fazendo galáxias nascerem e morrerem e renascerem, porque transcendia o tempo. Era mais velha que o universo e, no entanto, sempre nova, porque transcendia a lógica.

Um rastro de suor desceu da têmpora do pianista e chamou-o de volta à realidade das coisas. As visões minguaram, e o teste impôs-se. O rival e o juiz estavam a avaliá-lo, e o menor equívoco seria o bastante para arruinar tudo. E se fracassasse, a que propósito teriam servido tantas horas de prática, tantos dias dedicados e tantas madrugadas insones? Se falhasse, todo o tempo investido se resumiria em nada? Um único erro, num fugaz segundo, poria a perder o esforço de uma vida?

Queria tanto impressionar o rival e o juiz, mas naquelas circunstâncias… Engoliu a seco, enquanto mais linhas de suor brotavam. Não sentia os dedos: afundavam no piano que virava areia movediça. A vista turvava: a partitura embaçava como janela irrigada por tempestade. O equilíbrio desfez-se: não mais havia banco sob si. Não mais havia chão. Via-se pairando sobre um fosso escuro, de onde provinham ecos fantasmagóricos e atormentados e ventos gélidos e ululantes. E de súbito a força que o mantinha suspenso sobre o abismo cessou, e ele pegou-se caindo e caindo e caindo. E caindo. Sua mente gritava para o mundo e para ninguém, enquanto o ar rugia tonitruante como o bocejo de um leviatã. Perderia os sentidos antes de atingir o fundo sem fundo.

Então escutou o choro: um choro familiar e, no entanto, estranho. Logo discerniu que os lamentos vinham dele mesmo, embora seja difícil para qualquer um reconhecer a própria voz. E viu. Ali, bem diante de seus olhos marejados, estava um menino de nove anos, soluçando de cócoras à frente de uma caixinha de música quebrada. Fora um acidente, mas o objeto era o predileto de sua avó, e ele estava profundamente arrependido. Balbuciava que não desejara aquele resultado, que sentia muito, que não mais conseguia ouvir a música e que isso o deixava triste. O menino chorava copiosamente, e o pianista o teria consolado, se já não soubesse o que se seguiria. A avó – do pianista e do menino, que era o pianista aos nove anos de idade – disse que jamais ficaria brava com ele e que a caixinha poderia ser reparada, mas que a música não sairia como antes. Se ele quisesse recuperá-la, teria de buscá-la em outro lugar: em seu coração. Foi quando o menino começou a ter aulas de piano, e a primeira música que diligentemente aprendeu a tocar foi a da caixinha quebrada. Tocou-a para a avó um sem número de vezes, e toda vez a melodia ressoava em seu coração.

Outras ocasiões e outras músicas sucederiam. No Natal ele tocava para a família reunida: quem conhecia a letra cantava, e quem não conhecia só entoava em murmúrio a melodia. Tocava para fomentar o clima durante namoros e tocava para afogar as mágoas após decepções amorosas. Tocava sozinho quando a solidão baixava, pois a música agia como companheira nessas horas: sabia exatamente o que lhe falar, desde palavras doces até filosofia da aurora do tempo. E tocou no enterro da avó, para confortar a si mesmo e a todos. E chorou enquanto as notas alçavam voo uma a uma, as mesmas notas da caixinha quebrada, que de novo enchiam seu coração.

Foi quando escapou do abismo. Tragou fôlego avidamente, como se retornasse à superfície de um lago depois de quase se afogar. O ar que respirava era frio e revigorante como o das montanhas. De início dedilhou as teclas com a fúria desesperada de quem se agarra a um penhasco, mas os toques logo suavizaram. Recompôs-se. Percebeu que a música que agora tocava era a mesma que sempre tocara. Como nas outras vezes, a melodia carregava memórias, vivências e sentimentos, e tudo isso era mais concreto e mais cheio de significado que as visões abstratas de antes. Sim, as luzes da cidade de noite, o céu estrelado, o ciclo de galáxias – tudo isso era belo e brilhante, mas não fazia parte de quem ele era. O que devia guiá-lo eram as experiências que a música construíra para ele – o que era mais importante que uma explosão de cores ou que a idade do universo.

Por isso tocou para resgatar o passado, para lembrar; tocou para perpetuar o presente, para tecer novas memórias; tocou para desvendar o futuro, para afastar os véus do tempo. Tocou para a avó, para os pais, para a família reunida no dia de Natal, para todos seus amores e, sobretudo, tocou para si mesmo e para seu coração.

Não tocou para o rival nem para o juiz.

Quando acabou, sorria e chorava, porque os momentos felizes e os tristes fundiam-se em sua cabeça. Tinha certeza de que venceria.

Depôs as mãos sobre as coxas, à espera dos aplausos.

Nenhum veio.

Não havia ninguém para aplaudi-lo.

É que não havia nenhum rival além dele mesmo.

E não havia nenhum juiz além dele mesmo.

Não precisava – nunca precisara – da aprovação de ninguém, exceto da própria.

O desafio sempre fora superar a si mesmo. O teste fora autoimposto.

E ele não precisava agradar ninguém além daqueles que desde sempre já o ouviam tocar.

Porque a música era dele, mas não só.

Era também de todos os que se encantavam com ela.

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14 respostas em “CONTO: A música que toca

    • Hahahahaha, acho que você captará a essência do conto como ninguém. 😛
      Levando em consideração que o escrevi num momento em que, supostamente, deveria estar estudando, o próprio contexto acaba se reportando a esse mesmo tema: concentração-esforço-superação.
      Só é uma pena que a vida de concurseiro não tenha a musicalidade presente no texto – modéstia à parte. XD
      Obrigado por ler e por comentar, Brenda! Beijos!

      • Hahahaha, sim, tem uma moral. Mas no momento acho que prefiro escrever sobre morais a segui-las – mais por preguiça do que por evil alignment. 😛
        Sobre o Good Omens: caramba, não sabia! O.O
        Hehe, eis mais uma coisa para fazer nestas “férias” de uma semana.
        Mas, ei, é da BBC, o que remete a notícias, o que remete a estudo. T____T (Em algum lugar, uma voz distante sussurra “Sahel”.)
        Mas vou conferir! 😀

    • Muito obrigado, Wilton! Que bom que gostou. 😀 Admito que esse foi um dos contos que escrevi com o coração, porque ele se reporta a um momento de minha vida em que, digamos, o medo do fracasso estava em alta, hehe! Abraço! o/

      • A experiência de vida, momentos de altos e baixos, servem como uma ótima ferramenta de escrita, sem sombra de dúbia 🙂

  1. Rodrigo, há quanto tempo! Venho comentar sobre esse cultíssimo conto. Parabéns pela escrita, narrativa. A forma como vc deixou essa lição de moral e superação de si mesmo, foi deveras encantador. Não gosto de me comover, mas teve uns trechos ai que me tirou lágrimas. Fantastic! Continue a escrever pelo bem da literatura culta, não tenho mais o que dizer. Amanhã posto no face esse belíssimo conto, o qual me fez viajar pelo imaginário e ao mesmo tempo pela autoestima, abraço!

    • Brigado por passar aqui, ler e comentar, Claudeir! 🙂
      Este foi um conto que surgiu de uma vez só. A inspiração bateu por causa das circunstâncias da época em que escrevi. Que ótimo que o resultado agradou.
      Claro que pode compartilhar e fico feliz que o faça.
      Abraço! o/

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