CONTO: Amor proibido

Amor proibido (httpcoconut365.deviantart.comartNight-58608188)

Noite alta de primavera. Solidão na campina. O vento soprava, e a grama sussurrava segredos e esperança.

O vento parou de soprar. A grama sussurrou.

– Demoraste tanto. Achei que não virias – falou para quem chegava.

– Sério? – perguntou. – Faz tempo que nos encontramos assim, sempre no mesmo dia, sempre sob as mesmas estrelas. Não devias desconfiar de mim. – Tirou o capuz e simulou ofender-se.

– Sério que acreditaste? Estava só a te provocar – sorriu. – Não duvidava de que vinhas.

Sorriu de volta.

– Bem sabia. Só devolvi a provocação.

Sorriu mais ao sorriso que recebia. Era mais vasto que o céu e o mar juntos, mais quente que as termas daquela viagem de seus oito anos e mais alegre que o trinado bobo dos pássaros dos jardins de seu castelo. Era o que havia de mais bonito no mundo, o riso de quem se ama, para quem ama.

Chamou para sentar-se perto de si. Cobriu-lhe as mãos com as suas. Estavam frias, mas logo aqueceriam. Sempre as achara delicadas demais, com dedos finos e longos demais, mesmo para alguém da nobreza. Não tinham calos de quem escrevia com o bico de pena. Certa vez as levara aos lábios e notara que não tinham perfume e concluíra que as preferia assim. Fitou-lhe o rosto, os olhos cinzentos, que por um instante baixaram de pudor, para depois encararem em retorno.

– Desde que ajustamos este dia para nos encontrarmos, minhas decanas têm sido ao mesmo tempo mais felizes e mais tristes. Felizes por causa da perspectiva de te reencontrar. E tristes por causa da expectativa que fica até eu, toda vez, te reencontrar. Sabes de uma coisa?

Fez que não sem desviar o olhar.

– Hoje as horas correram devagar na aula de História.

– Hauredëi é dia de aula de História?

– Para mim é. Mas eu não queria saber do passado, da história de pessoas desinteressantes. Só pensava no presente, neste aqui e agora sob as mesmas estrelas; e pensava no futuro, na história que desejo viver a teu lado. Só tu me importavas. Só tu habitavas meus pensamentos.

– Não insistas nessa conversa, que não levas jeito para a coisa – e conteve um risinho. – Posso apostar que ficaste a refletir sobre o que dizer enquanto eu me demorava, e eis que me sais com uma tirada vulgar e trivial.

Bufou e contestou:

– Não aproveitei teu atraso para romantizar. Arranjei outras formas de me distrair, como assobiar ou… – atrapalhou-se, sem ideia de como prosseguir – ou… – interrompeu-se. A mente vazia não ajudava. Depois acrescentou tardiamente: – Bem, me entretive de outras maneiras. E o que proferi foi, realmente, vulgar e trivial, mas só porque era verdade! – ressaltou. – As verdades mais verdadeiras são assim, tu sabes.

– O que sei é que nossa verdade é segredo. Se for revelada, não será vulgar para ninguém, e sim incomum para todos. Será tão incomum que uns e outros desaprovarão. E tampouco será trivial; será polêmica e controversa, isso sim. No mínimo discutirão se nossos encontros são crime, imoralidade ou pecado. Ou tudo isso junto. E divergirão se merecemos chibatadas, o degredo ou a fogueira. Ou algo pior.

– Mas tu não crês em nada disso, crês? – a consternação fez vibrar suas palavras. Alisou-lhe a bochecha com suavidade. – Ou ainda hesitas? Ainda tens dúvidas? Ainda… – aproximou a face – temes?

Reparou no trepidar de seus lábios, tão sutil que apenas alguém a centímetros de seu semblante e demasiado concentrado em suas reações, como estava, teria percebido.

– Temo tanto quanto tu temes – respondeu. O suspiro que liberou teve o peso da terra inteira. – Sei que tens medo também, não negues; afinal, continuamos a nos encontrar sob a proteção da capa da noite.

– Eu dispensaria essa proteção se tu concordasses. E te protegeria.

Fungou uma risada.

– Me protegerias? E quem protegeria a ti?

– Tu.

Descartou-lhe a resposta com um peteleco no meio da testa. Chiou de dor, porém não sentira dor alguma.

– Adivinhei que falarias alguma besteira sem sentido. Sabes que não me convences com essa tua lógica circular.

– Heh, me conheces esse tanto? – fingiu espantar-se. – Mas, ei, também consigo te decifrar. Posso enxergar teu coração através de teus olhos, e ele reluta, se encolhe, se acovarda e… – Tentou encostar nariz com nariz, mas, ao invés de unirem-se, afastaram-se. A incerteza era forte demais para que um único passo intrépido a dissipasse. A ousadia fez com que se arrastassem para longe, perdessem o equilíbrio e caíssem para trás. E gargalharam da cena lastimável.

Aceitou a mão que lhe estendia. Permitiu-se içar e recompôs-se, mas não desenredou os dedos.

– E tu: que fizeste hoje? – indagou para recomeçar.

– Para mim Hauredëi é dia de descanso. Passei-o na biblioteca.

Não pôde evitar rir.

– Só tu gastarias um dia livre com leituras! Eu prefiro cavalgar.

– Mas repara que nosso encontro também me influenciou, como a ti. A biblioteca é uma de minhas rotinas; não houve novidade nisso. Mas, por pensar em ti, hoje foi a primeira vez em que desbravei uma seção empoeirada e esquecida, com escritos que não são mais lidos e que datam de quinhentos anos atrás.

– E que escritos são esses?

– Poemas.

Engasgou no próprio riso.

Poemas? Lês poemas e depois te metes a criticar meu romantismo, ora essa!

– Não deboches de mim – corou, mas preservou a compostura. – Só espera, pois ainda não terminei o relato.

Assentiu e silenciou.

– Os poemas que li são da autoria de Hëren. Ele foi um dos raros governantes de Brumathëvira a ser deposto pelo Conselho antes de concluir o mandato. Sabes por quê?

Fez que não.

– Porque escrevia seus poemas. E os escrevia porque amava. E amava tanto e tão zelosamente, que acabava negligenciando seus deveres para com seu povo. Sabes o que ele escrevia?

De novo fez que não.

– Juras de amor e de fidelidade eternos.

Com seriedade, fez que entendia.

– Pronto. Podes rir! Contei o que tinha para contar – disse.

Mas a austeridade não sumiu quando respondeu:

– Eu não permitiria, sabes? Não deixaria que jurasses a mim.

– Como não? – franziu o cenho. – Por que não? – agitou-se.

– Porque a eternidade para mim é diferente da eternidade para ti.

– Não me importo.

– Mas eu, sim – contrapôs. – Seria injusto.

Fitaram-se por um momento, sem palavra. O vento repôs-se a soprar.

– Façamos assim – encetou após meditar. – Minha sugestão deve te agradar, pois gostas do que é lógico. Juremos fidelidade pelo tempo que durar nosso amor.

– Não é lógica, isso – rebateu. – É obviedade. Se juramos fidelidade por amor, o amor é requisito para o juramento.

– Pois que seja – irritou-se. – Não tentes me engambelar. Bem sei que entendeste o que eu quis dizer. – Fez uma pausa. Umedeceu os beiços. – O amor que tu e eu procuramos exige duas pessoas, e só duas: eu e tu. Quando eu partir – mordeu o lábio por um segundo –, e eu partirei…

Eu sei – cortou. Baixou o olhar. Encolheu as pernas e abraçou-as com força. – Eu sei – repetiu num murmúrio. – Só… não desejo conversar a respeito agora.

– Concordo. Não vale a pena. O clima não é propício.

Deitaram-se na relva que sussurrava com o vento. Alinharam-se ombro a ombro, as mãos enredadas explorando uma à outra, as mãos livres explorando o céu constelado.

Apontou para a Lua, que arriscava espiar de trás de uma nuvem. O luar prateou a campina.

– O deus de meu povo condena o que fazemos. – As íris cinzentas cintilavam na noite, marejadas. – Está escrito.

– Há muita bobagem escrita em livros caros e bonitos. E há muita sabedoria que jamais foi proferida.

– Mesmo assim…

Virou-se de lado para admirar quem estava junto de si. O rosto perto do seu tornou-se até deparar com seus olhos azuis.

– Não deves te preocupar. O que fazemos concerne apenas a nós. Não perturbamos ninguém, nem sequer os deuses. Eles têm pendências mais imediatas para resolver.

– Eu também. E tu.

– Minhas pendências inexistem ou são remotas. Só serão imediatas se a sucessão chegar até mim, e ainda que isso ocorra, sempre posso renunciar à coroa. Tuas pendências são hipotéticas, pelo que me consta. Só nascerão quando… ou se, algum dia, tu assumires uma posição oficial de renome.

– Oh, agradeço o voto de confiança.

– Não desconverses – e riu. Afagou-lhe os cabelos. – É que ainda receias, não é?

Voltou a deitar-se de barriga para cima. Imitou o gesto e apontou para a Lua.

– Pensa desta maneira. Teu deus é chamado Sentinela dos Quatro Cantos, já que nada lhe escapa. Diz-se que, mesmo na Lua Nova, quando o olho dele está fechado para esta parte do mundo, tudo acontece sob sua vigilância. Significa que – ergueu o indicador em sinal de atenção –, quando me conheceste, foi com a conivência dele. E quando, a cada noite, nos encontramos, ele é cúmplice de nosso segredo. Se nos apaixonamos, é porque ele compactuou conosco. Vês? Até agora, não nos condenou.

Até agora – enfatizou como que discordando.

Incomodou-se com a reticência e fechou os olhos, mas persistiu argumentando.

– Então pensa de outra maneira. Sabendo que teu deus não evitou que me conhecesses, mesmo podendo fazê-lo, conseguirias viver feliz consciente de que eu estaria por aí, longe de ti? Imagino que não. Portanto indago: teu deus te colocaria para sofrer desse jeito?

– Talvez fosse essa a condenação – murmurou hesitante. – Alguns sacerdotes de meu povo defendem que deveríamos enfrentar essas provações, porque seria o certo a se fazer.

– E tu achas que seria o certo a se fazer?

Meneou a cabeça.

– Não tenho certeza.

– Logo, te portarias de modo que talvez, só talvez, fosse correto, mas que certamente não seria bom. Seria uma escolha insensata.

Seus dedos, ocupados em tatear-lhe os cabelos, deslizaram-lhe até a ponta da orelha e, a seguir, acariciaram-lhe o queixo para, enfim, massagear-lhe o pescoço, os ombros e o início das costas. Sentiu o corpo sob sua mão tremer de leve, e seu corpo reagiu igual. Aproximaram-se e, dessa vez, não se afastaram. As defesas caíram.

– Não fiz essa escolha insensata. Afinal, estou aqui, não estou?

– É verdade.

– Ficaria contigo mesmo se me portasse de modo errado.

– É o que esperava ouvir.

Olhos azuis miravam olhos cinzentos, e a Lua mirava a campina.

– Quando te vejo assim tão perto, me fogem as palavras. Somente um bardo mudo, a dedilhar um alaúde sem corda, para uma plateia de surdos, saberia descrever, com canto e música impossíveis, o que sinto quando estou contigo.

– Heh, depois dessa, nunca mais poderás reclamar dos poemas que leio.

– Admito que formulei esses versos enquanto vinha para cá, e os refinei enquanto tardavas a aparecer.

– Oh, então não passaste o tempo assobiando ou… (como disseste?) te entretendo de outras formas? Fazias poesia.

– Sim. Mas não só faço poesia. – Baixou o tom para falar ao ouvido. Somente os que amam, bem como as estrelas, confidentes de quem ama, poderiam escutar. – Não só faço poesia, mas também a exercito. Fazer poesia é diferente de exercitar poesia, sabias?

Fez que não.

– Podes me ensinar?

Fez que sim.

A respiração era quente e descompassada. A noite era fresca e serena, mas o suor viria.

O vento parou de soprar. A grama sussurrou.

E sussurraram.

*****

Anteaurora de primavera. Umas poucas aves madrugadoras anunciavam que em breve o Sol surgiria. As estrelas uma a uma se apagavam à medida que o céu clareava.

Aninhavam-se de maneira que, a um passante descuidado, pareceriam uma única pessoa. O amor que fizeram na campina aberta, sobre a grama orvalhada às vésperas da manhã, em meio ao vento intermitente, ao zumbido conspiratório de insetos enxeridos e sob a coberta argêntea do luar, fora o melhor que poderiam ter desejado. Apenas a Lua e as estrelas foram testemunhas, mas nenhuma delas contaria, porque era segredo.

– Tenho de ir. Tenho de voltar antes de raiar o dia.

– Queria que ficasses – e apertou-lhe a mão, como se guardasse algo precioso.

– Também queria.

Levantaram-se.

– Decana que vem, na mesma hora, sob as mesmas estrelas?

– Sim, mas… creio que não são mais as mesmas estrelas, entendes? Após a noite de hoje- não, a cada noite em que nos encontramos, as estrelas mudam. Ficam mais brilhantes e mais bonitas. Quando não estou contigo, não brilham tanto assim.

Assentiu calmamente, como que absorto num devaneio.

– E, bem, a campina mudou também. Não é mais uma campina qualquer. É nossa campina.

– Tens razão. Então… até o próximo encontro, sob as mesmas estrelas diferentes.

E haveria outros encontros. Muitos e idênticos e diferentes. E a felicidade duraria até o fim, porque o conto termina aqui.

Mas o final definitivo viria mais tarde, quando a Lua se escondesse para sempre e quando a madrugada cintilasse escarlate. Sobreviria punição, por ousarem demais numa época que não tolerava a ousadia de um amor proibido.

Mesmo assim nunca se arrependeriam.

Porque amar era bom. Bom como a campina era boa, como a noite era boa, como as estrelas eram boas. Tudo tão inocente e puramente bom quanto é bom estar junto.

E não se arrependeriam, porque nenhum mal fora feito quando se amaram.

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