Nômades da Desolação – Parte 8

Nômades da Desolação 14 (httpnele-diel.deviantart.comartForest-Glade-425986033)

– Essa é a pessoa responsável por salvá-lo – disse Cari. – Nossa anfitriã. Marian.

Soni não escondeu a surpresa. O nome era-lhe familiar também e nada de reconfortante evocava.

– Agrada-me vê-lo desperto, criança – saudou Marian com um tom que não demonstrava agrado nem desagrado.

– Vamos, Soni, diga obrigado – pressionou a menina. – Somos hóspedes na casa de Marian. Estamos seguros aqui. – “Teria a rosa me matado ou apenas me feito mortal, tal como Soni é agora?”, e escrutinou o olhar impenetrável da hospedeira. Teria ela extinguido a imortalidade do amigo intencionalmente – e não por acidente? “Nada revela. Não estamos seguros.”

Soni contornou seu estado atônito para balbuciar um agradecimento que não enganaria o mais ingênuo dos homens.

“Péssimo mentiroso.” Mas Marian não transpareceu perceber a desconfiança que exalava do amigo como a radiância de um vagalume.

– Trouxe-lhe uma refeição quente, rapaz. Coma. Precisa se fortalecer.

Soni pegou a vasilha, checou o conteúdo e tornou o rosto para Cari, como se aguardasse instruções. Sua apatia era idêntica a das pessoas que o Velho Tobi enviava ao exílio na Desolação. Talvez especulasse que a comida continha veneno de alguma espécie, porém a garota achava no mínimo contraditório que Marian houvesse prevenido que ele sangrasse até a morte para, depois, envenená-lo. Além do mais, o aroma era delicioso e punha sua boca a aguar.

– Não espere que o ajude a se alimentar – grunhiu Cari. – Se consegue fazer truques com a lupa, consegue também erguer uma colher. – Como Soni era destro, e como era seu braço esquerdo que estava debilitado, não encontraria dificuldades para executar atividades rotineiras, contanto que exigissem uma só mão.

O amigo provou o caldo, e dessa vez foi sincera a sensação que se lhe gravou no semblante: satisfação. Descobriu-se com fome e meteu-se a comer com vontade, não se importando que o caldo estivesse pelando. Marian anuiu para si numa aprovação discreta, e Cari detectou um vislumbre de sorriso nos lábios dela.

– Vou deixá-los a sós – disse a mulher. – Vocês devem ter muito para conversar. Podem permanecer aqui o quanto quiserem, mas não sei por mais quanto tempo Lucio e eu nos demoraremos neste refúgio. A Caravana deve estar partindo enquanto falamos.

A menina amaldiçoou-a intimamente por lembrar-lhe que acabariam ficando para trás. Não ansiava por compartilhar com Soni esse receio, mas agiria pior se o privasse de desvelar a verdade. Seria trair a confiança dele… “Já a traí tantas vezes que mais uma não fará diferença.” Interrompeu o raciocínio. Observou Marian esgueirar-se porta afora em passos meticulosos. Refletiu melhor. E decidiu não ocultar nada. Pois o amigo tinha o direito de conhecer todos seus erros, para opinar sobre o curso de ação que adotariam. “Para escolher.” Omitir qualquer detalhe seria manipulação, e manipulação era a marca distintiva do Velho Tobi. A garota não se portaria como ele. E, embora jamais admitisse para si, Cari estava ávida por conselhos, por alguém que a admoestasse com frases irritantes como “Eu bem que avisei” ou então com algo mais ríspido como “Você está errada. Que ideia estúpida!”. Não queria guardar consigo toda essa responsabilidade, mas tampouco confessaria sentir-se tão vulnerável, tão dependente de outra pessoa.

– Ei… – Soni começou. Cari reparou que ele descansava a colher. Retribuiu-lhe a expressão séria. – Antes, minutos atrás, você sugeriu que eu produzisse uma chama com o sol e a lupa. – Meneou a cabeça rumo à janela: – O sol não brilha na Desolação e, contudo, lá fora brilha. Estamos dentro ou fora dela?

– Nem dentro nem fora.

– Estamos numa casa sem rodas, não é? – não disfarçou a apreensão.

– Oh, estamos. Mas peço que esqueça tudo que já escutou sobre casas sem rodas. Estamos seguros aqui – “Seguros sob este teto. Mas não com Marian: o que ela ganharia tornando a mim e a Soni mortais?” A visão dos crânios enfileirados ao redor da clareira, como um teatro de fantoches macabro, faiscou em seus pensamentos. “Não vivente.” O Velho Tobi barrara sua passagem, jogara-a para trás, prensara-a contra uma árvore. “Foi só um sonho.” Em plena manhã morna e agradável, um calafrio percorreu sua espinha, e Cari rechaçou-o. Não pretendia lidar com esse enigma no momento e não sozinha.

Agachou-se junto da cama. A conversa ocorreria em cochichos, porque envolvia acusações, confidências e, sobretudo, confissões. “Confissões de meus enganos. Graves. Graves enganos.” E falou tudo. Narrou o resgate de Soni, com os ossos que afugentaram os lobos e com Marian torcendo o fluxo da vida. Contou-lhe como isso funcionava, como a vida circulava pelo mundo e como matar um animal permitira-lhe recuperar a vida que se esvaía de seu corpo. E revelou-lhe que, agora, era mortal. O amigo tateou o rosto, o pescoço, o peito, as costelas e os braços, como se a mortalidade lhe formigasse a pele. Tentava discernir algum reflexo físico de sua nova condição, mas sem sucesso. O único indício de que regressara das portas da morte era o vazio em seu ombro esquerdo, a cicatriz que nunca se fecharia, por ora enfaixada por três camadas de atadura.

Cari buscou tranquilizar-se, assegurando-se de que arranjaria um meio de persuadir o Clã de Tobi a acolhê-lo novamente. Estava preparada para responsabilizar-se pelo que lhe acontecera. “Não vivente.” E expôs o que faltava, pois era melhor desencravar a seta de uma vez. Relatou a história de Marian e Lucio, os traços de vida que se espraiavam pela clareira e como o refúgio verdejante onde estavam originara-se de sacrifícios – dezenas de sacrifícios. E, por fim, partilhou sua suposição sobre o tal vale amaldiçoado.

– Perdoe-me, Soni – desabafou. – Trouxe-nos para um atoleiro, e não vejo como escapar dele. Não podemos retornar nem prosseguir. Sei que lhe fiz mil promessas, mas agora… – Curvou a cabeça: – Desculpe.

Ouviu o amigo suspirar e depois um ruído seco, de quando ele largou a colher na vasilha agora vazia. Espiou-o com um dos olhos e notou que a fitava intrigado.

– Sério: o que você fez com a verdadeira Cari, sósia?

– O quê? Não entendo. – “Está debochando de mim?” Mas sabia que não estava. Ele também sussurrava, a austeridade dissipando qualquer divertimento na voz. A garota não achava realmente que Marian os estivesse espionando, porque não fazia seu estilo escultar através das paredes a tagarelice de adolescentes. Seus planos certamente usariam métodos mais refinados. Ainda assim, existia algo de íntimo em palavras enunciadas com a entonação de dois amantes que trocassem carícias. Era como se uma conspiração alternativa estivesse em vias de formar-se, para contrapor-se à conspiração em que Marian e seu filho deviam estar engajados. Sobretudo, era bom ficar ao lado de Soni a pretexto de ouvi-lo. O hálito quente que saía de sua boca a cada sílaba era como o sol por entre as folhas de uma bétula. Sinalizava vida. Era vida.

– Sou eu quem não entendo. A Cari que conheço não se desculpa tão facilmente. Ela morderia a língua antes de reconhecer que errou. Ou então se valeria do artifício das desculpas parciais.

– As pessoas mudam. Eu mudei. E os erros que cometi foram severos demais para que meu orgulho os apagasse.

– Bem, alguns diriam que esse seu orgulho exagerado está longe de ser uma qualidade, mas aprendi a gostar dele.

A menina não se convenceu. Talvez Soni estivesse de pilhéria, o que a confundia – e confundir-se a irritava.

– Meu orgulho? Gosta dele? Por quê? – inquiriu.

O amigo abriu um sorriso indulgente.

– Porque. Só porque.

Cari bufou e cruzou os braços. Odiava esses joguinhos.

– Certo, certo, se você quer a versão mais longa – Soni coçou a nuca, desconcertado –, ei-la. Durante nossa viagem, houve vezes em que tive vontade de gritar bem alto com você. Teria berrado em seu ouvido que parasse de me ignorar, que rompesse a mudez e que me contasse sem rodeios a que tínhamos vindo e para onde estávamos indo. O tratamento que você me dispensava parecia injusto: você completamente muda, liderando sem olhar para trás nem uma vez sequer.

A garota deixou mais culpa transparecer no semblante, mas quando avançou para intervir e explicar-se, o amigo amaciou o tom:

– Nossa conversa pouco antes da emboscada da matilha me mostrou o quanto eu tinha me precipitado. Tenho essa tendência de me preocupar mesmo se não existe motivo razoável para preocupação. – “Aprendi a gostar disso em você”, pensou Cari. – Percebi que você não me desmerecia com seu silêncio. Pelo contrário: era só um plano para me fazer uma surpresa. Uma boa surpresa. Significa que você se importa, e eu agradeço. – Sim, o vale era onde esperava deparar com Teani, a mãe de Soni, viva, saudável, alegre. Agora já não sabia ao certo. Não sabia mais nada. O amigo continuou: – Entretanto, no fim resolvi que não ligava para nossos objetivos, para os grandes ideais, para a transformação que você perseguia. Sei que corro o risco de soar egoísta falando dessa maneira, mas a verdade é outra. A verdade é que sou mais simples, por isso prefiro seguir coisas mais concretas. Coisas como você. Você tem seus valores e, sim, deve se ater a eles, porque você o faz muito bem. Já eu me aterei a seus passos, pois isso me basta.

Ela estreitou os olhos e comprimiu os lábios numa linha fina, descrente.

– Quer dizer que você me seguiria mesmo se eu, tão propensa a me enganar, escolhesse a trilha errada? – provocou. – Você seria tão tolo quanto eu, se não mais.

– Talvez sim – concordou. – Mas – e elevou a colher, para enfatizar seu ponto – eu aproveitaria a jornada mesmo assim. E se desconfiasse que você estivesse enganada, eu tentaria aconselhá-la como sempre fiz. E se, numa hipótese remota, você fraquejasse, exatamente como agora, eu a encorajaria. E lembraria que a verdadeira Cari desconhece o desespero e, portanto, você deve desaprender o que essa palavra significa.

Dessa vez a garota não conteve um risinho.

– Seu pai ficaria horrorizado com tantos argumentos sentimentais e sem nexo.

– Ele não é só frieza e rigor científico. Fosse assim, ele teria desistido de medir o avanço da Linha da Vida em sua terceira tentativa frustrada. Creio que ele está na décima sétima tentativa e contando. É uma teimosia que não decorre puramente de seu espírito investigativo, entende?

– Ele procura por sua mãe, não é? – perguntou Cari, sem jeito.

Soni assentiu e acrescentou:

– De qualquer modo, posso formular um argumento mais pragmático. Se de fato me tornei mortal, o Velho Tobi não será gentil comigo: é óbvio que não. Somado a isso, bem… talvez não consigamos voltar à Caravana nem se quisermos: você assim suspeita, eu também, e provavelmente ambos estamos corretos. Logo, não é má ideia conferirmos o vale – sorriu.

– Está insinuando que devemos prosseguir?

– Estou sugerindo que chequemos o vale com nossos olhos, para tirarmos nossas próprias conclusões sobre possíveis sacrifícios e sobre uma eventual maldição – arrematou com uma piscadela.

A menina envolveu-o num abraço apertado, e ele gemeu por causa do braço machucado. Cari largou-o, abanando as palmas abertas num pedido de desculpas, e constatou que ele enrubescia, de dor, de timidez ou de ambas as coisas.

– Sairemos daqui assim que minha ferida sarar – anunciou enquanto massageava o ombro. – Ou antes. Há algo neste lugar que me incomoda. Uma sensação de efêmero. É como se tudo estivesse mal amarrado, prestes a se desfazer. – Alisou o cabelo desgrenhado. – Deve ser a mortalidade falando.

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