Nômades da Desolação – Parte 7

Nômades da Desolação (httpjrcoffroniii.deviantart.comartSpooky-Forest-Study-299778920)

“Desolação.” Agora a Desolação estava dentro dela. Esse pensamento faiscou na mente de Cari para depois boiar à deriva, como se não passasse de uma conclusão insignificante. Para a menina apática, nada mais importava. Não lembrava se suas esperanças haviam acabado antes ou após o pesadelo. Na verdade, nem isso importava. Só lhe restava esperar, mas não tinha ideia do que esperar. Esparramada junto à borda da cama em posição nem um pouco confortável, a garota fitava a mecha de cabelo que lhe encobria a visão, porque nada de mais interessante existia no mundo e nada era digno de mais atenção no momento.

Cari nunca fora dada a pesadelos. Ou tinha um sono imperturbável, ou simplesmente não se recordava de qualquer sonho ao acordar. Nessa manhã, porém, as imagens da madrugada anterior ainda infestavam sua cabeça, insistentes que nem moscas. Velara Soni por horas a fio, ao luar que as nuvens tapavam de vez em quando. Marian trouxera-lhe guisado de coelho, e a comida quente deixara-a sonolenta. Ainda assim se recusara a ceder ao cansaço em detrimento do amigo. No fim se permitira cochilar por no máximo três horas, e o pesadelo viera – e durara pelo que lhe parecera meio dia.

Estavam ela e Soni correndo à exaustão, correndo com os pés a arder, o sangue a borbulhar e o coração como se para explodir. O cenário passava veloz e disforme à lateral de sua vista, enquanto Cari concentrava-se nas luzes à frente. Eram as luzes da Caravana, desfocadas mas acolhedoras. E ela avançava quase em transe, alheia ao ar escasso e ao terreno acidentado, puxando o amigo pelo pulso, ignorando seus resmungos de que estava cansado e dolorido. Não pararia por nada. Prometera que retornariam e cumpriria a promessa. Entretanto, por mais que movesse as pernas, por maior que fosse a distância percorrida, não conseguia aproximar-se. As carroças afastavam-se mais e mais. Zombavam de seu empenho. Especulara se era o amigo quem a atrasava, e mal tivera tempo de reprovar-se por esse pensamento absurdo quando Soni tropeçara, e ela soltara-lhe o braço. Ao virar-se para ajudá-lo, já se encontrava longe, longe demais para sequer tocar-lhe os dedos, e ele estendera a mão em sua direção e gritara seu nome, e ela fizera o mesmo, mas o abismo entre os dois continuara a crescer. E antes de as trevas engolirem-no, Cari ouvira-lhe a voz, um eco fantasmático. “Eu avisei que falharíamos”, dizia.

A menina marchara no escuro por horas intermináveis. No sonho, seu âmago nutria somente o desejo de rever a Caravana. Soni ficara para trás, e ela esquecera-o quase que totalmente. Uma minúscula parte de si, vagamente consciente de que tudo ali estava errado, vagamente consciente de que sonhava, teimava em arrepender-se de ter abandonado o amigo – mas não era essa parte de si que mexia seu corpo. E quando a escuridão já começava a dar-lhe ânsia de gritar, ela captara luz adiante. Luz e música. Lira e flauta produziam uma melodia simples, ótima para marcar o ritmo numa viagem, e a voz doce de Holi aquecia a noite. Reconhecia a canção. Por estradas inexistentes era o título.

Cari avizinhara-se apressada do círculo dourado, a respiração ofegante. Sua gente divertia-se, e o que ela mais queria era participar da festa. Fogueiras crepitavam entre carroças e tendas, a carne girava em espetos sobre o fogo, e as pessoas rodavam dançantes no entorno. Espiando por detrás de um tronco, a garota identificara rostos familiares. Fariqui, Trevi e outras sentinelas prevaricavam, bebendo enquanto admiravam as moças que rodopiavam, e de vez em quando gargalhando de um comentário sujo. A bela Moari enfeitiçava a todos com seu baile sinuoso, os pés descalços pisando a grama com a leveza de uma filha do vento, os cabelos e as fitas do vestido espiralando em volta de si. As crianças brincavam de faz de conta ou produziam desenhos de sombra com suas mãos e a luz que irradiava das fogueiras. Até Marti, sempre tão quieto, não estava parado entretido com um livro: pelo visto, Alani arrastara-o para dançar consigo. Com seu jeito efusivo e radiante – que Cari tachava de “irritantemente entusiasmado” e que, segundo Soni, era como se ela emitisse uma energia própria, “que nem uma estrela”, palavras a que Cari torcia o nariz –, Alani encorajava Marti a dar passos desajeitados e levava-o a corar a cada risinho adorável que irrompia dela, quando ele repetidamente atrapalhava-se com as pernas da menina roçando nas suas. O movimento animava todos os detalhes da cena, porque o movimento era vida, e ali a vida pulsava na alegria dos viventes. Não era como na zona morta, escura e estéril.

E, enfim, sentados sobre uma pedra, ela aninhada nos braços dele, Cari discernira a mãe e o pai. Ele falara algo junto ao ouvido dela, e ela abafara o riso. Ela acariciara a face dele, áspera da barba por fazer, e ele encostara o nariz no dela. Ele beijara-a, e ela beijara-o, e eles beijaram-se. Fora quando a garota, impaciente e nem um pouco interessada naquela intimidade melosa, decidira aparecer e chamá-los. E o sorriso sonhador de sua mãe desmanchara-se em horror. Ela gritara apavorada enquanto seu pai postava-se à frente dela, protegendo-a. De imediato o festejo cessara, e o pânico alastrara-se pelo clã. Uns se encarregaram de recolher os pequenos às tendas, enquanto outros, mais curiosos, aglomeravam-se atrás dos pais de Cari, acotovelando-se e espreitando por entre as cabeças e os ombros dos demais, os olhos esbugalhados, os dedos apontados. E entre os sussurros a menina detectara o motivo do rebuliço: “Não vivente”, escutara. Tentara explicar que eles estavam enganados, que ela não era uma não vivente, que era apenas a Cari de sempre, mas ninguém parecia entender um mísero fonema que saía de sua boca.

Eis que a multidão abrira-se para formar um corredor, e por ele chegara o Velho Tobi com seu cajado e seus ossos. Ele estacara a menos de três metros da garota e agitara os braços, e o som de chocalho reverberara pelo ar impregnado de fumaça e fagulhas, em meio ao silêncio que agora dominava as pessoas. Cari desprezara aquela pantomima, como sempre achando que tudo não passava de uma farsa, uma grande besteira. Lançara um olhar suplicante aos pais, mas eles retribuíram com indiferença e, pior, medo. Enraivecida com o grau de tolice que contaminava todos, arriscara um passo: convencê-los-ia falando olho no olho, daí não restaria margem para enganos.

Mas sua bota não atingira o solo. Alguma força invisível obstruía-lhe o caminho. Não, não era isso. Era como se algo a empurrasse para trás se ousasse avançar: era como navegar contra a corrente ou velejar contra o vento. Ela afastara-se para tomar impulso e pressionara, mas no mesmo instante o Velho Tobi brandira seu cajado, e ela sentira uma ventania repeli-la. O Velho Tobi prosseguira balançando os ossos, o semblante duro, os olhos brilhantes de um misticismo que a menina odiava. Embora duvidasse de seus poderes, não conseguia resistir-lhe. Para cada centímetro que ele galgasse, ela recuava um centímetro. Ele e ela eram como pedras imantadas de idêntico polo.

Fora aí que Cari percebera que carregava seu arco às costas e uma flecha à cintura. Não estranhara que as armas houvessem surgido do nada: só engatara a seta na corda e retesara-a até o máximo. Encarara a face pintalgada de sinais do Velho Tobi, seu nariz de bruxo, suas sobrancelhas grossas, seu bigode grisalho – e hesitara. Mas o líder do clã, não. Segurara o cajado com as duas mãos e desferira um golpe horizontal contra o espaço vazio, e a garota fora atirada para trás e chocara-se contra uma árvore, arfando e engasgando com saliva. O impacto fora mais forte do que o de um soco no estômago, a ela esforçara-se para não vomitar. O Velho Tobi acercara-se dela, a projeção de sua sombra inflando e cobrindo todo o campo de visão da menina, até as trevas consumirem-na.

E então Cari despertara. Agora a luz matutina, rósea e pálida, escorria através da janela e embrenhava-se entre as mechas e os cílios dela. “Não vivente.” Ela não era uma não vivente, mas a despeito disso o Velho Tobi lograra mandá-la de volta à escuridão. O pesadelo parecera tão real. Impressionantemente real. “Não, foi só um sonho besta, nada mais.” Ela e Soni já contavam mais de dez dias na Desolação, e nenhum dos dois transformara-se em não vivente. O amigo talvez houvesse experimentado uma mudança nesse sentido, ao perder a imortalidade. Mas quem naquela casa tinha mais aparência de um não vivente era Lucio. O menino e sua mãe deviam ter dormido no chão perto da lareira, uma vez que Soni ocupava a cama.

A garota examinou o amigo novamente. Inconsciente. Sono de ferro. Estaria ele tendo pesadelos também, ou já teria tido? Cari torceu por que fossem sonhos bons, porque ela só lhe traria más notícias quando ele acordasse. Ainda não desvendara as intenções de Marian e, bem, até o momento a mulher não dera mostras de que pretendia machucá-los. Mesmo assim Cari não confiava nela. Uma pessoa tão desinibida para efetuar sacrifícios era tudo, menos confiável. Se Soni não despertasse, ao menos isso a pouparia de encarnar a emissária da desesperança. Mas não queria que se passasse assim.

Suspirou, e a fragrância de madeira verde invadiu-lhe as narinas. Espreguiçou-se após levantar-se, até escutar o estalo agradável nos músculos de braços e pescoço. A um canto, estavam seu arco e umas quatro flechas que ela reouvera dos lobos antes de partir com Marian. Ao lado jaziam as mochilas dos jovens, que Lucio, em sua infinita gentileza, tivera prazer em transportar quarto adentro na noite anterior. Cari agachou-se junto a sua mochila e tateou o interior à procura da adaga. Não a encontrou. Imaginou se a teria esquecido enterrada no dorso do lobo sacrificado. Sua memória era enevoada, que muita coisa acontecera desde então.

No final deu de ombros e dirigiu-se à janela, por onde uma brisa intermitente entrava. Apoiou-se no parapeito e contemplou o círculo da aurora lá em cima, um redemoinho de lilás, laranja e azul entremeado por fiapos de nuvem, cercado pela muralha cinza-bronzeada da Desolação. O vento soprou contra sua testa e agitou-lhe a franja rebelde, e Cari supôs que ele devia provir das alturas, pois era gelado e seco, e o ar não circulava na zona morta que, estendendo-se por quilômetros, rodeava a clareira de Marian. A tal brisa só podia pertencer a uma altitude etérea, intocada pelo miasma. Como a menina já suspeitara na noite passada, todo o cenário nas proximidades estava em perfeitas condições, fervilhante da vida a renascer: o orvalho nas folhas; a relva viçosa que disputava espaço com os galhos e folhas ressequidos, que atapetavam o local antes de Marian restaurá-lo; a cantoria de alguns pássaros madrugadores, talvez de passagem por ali durante sua fuga das terras devastadas. As pessoas que consideravam as casas sem rodas fontes da Desolação certamente não sabiam o que diziam.

O vale também seria assim, ou então seria mais esplendoroso, até. “Mas o vale é amaldiçoado”, e Cari esmigalhou a hera que escalava a borda da janela. “Sacrifícios.” O desalento apertou seu peito e revirou seu estômago. O vale fora uma ilusão, o sonho tolo de uma otimista ingênua. “Esqueça-o.” O objetivo atual era mais modesto: a Caravana – precisava alcançá-la com Soni. Não podia abandoná-lo como fizera no pesadelo. A Cari do pesadelo não era ela: uma pessoa egoísta e insensível, uma jovem demasiado ansiosa para regressar aos braços dos pais e uma não vivente. Sacudiu a cabeça com veemência. Ela não era nada disso, e por nenhuma razão sacrificaria Soni. Bolaria um plano quando ele acordasse. Enquanto isso fingiria desfrutar da hospitalidade de Marian.

Nômades da Desolação 2 (httpangela-t.deviantart.comartLovely-Dark-and-Deep-141874580)

Mas existia algo de estranho ao redor, algo que destoava das explicações da mulher. Ela afirmara que não era capaz de ressuscitar o que deixara de viver, logo de onde, em plena Desolação, brotara tanto verde? Marian falara em reativar a vida, o que levava a crer que, ao intervir na clareira, o miasma já fizera estrago. Sim, claro que abundavam os sinais de definhamento: eram nítidos nos troncos, todos cinzentos e bem mortos, embora nenhuma árvore ali fosse negra e retorcida e fedesse a podridão, como era típico da zona morta. Por outro lado, a fertilidade do lugar não era menos aparente: estava presente na singela horta de Marian, na rosa que Lucio colhera, nos brotos de árvore nova que, se espichasse a vista, Cari conseguia detectar em meio à grama. Em certa medida, todos esses traços apontavam para a ressurreição de uma paisagem já esgotada – o que Marian dissera ser impossível, não?

E havia ainda os crânios, os únicos elementos que maculavam o aspecto sublime do ambiente. Com o dia nascendo, a garota via-os sem dificuldade: uns inertes, semienterrados que estavam, e outros balançando ao sabor da brisa, pendendo de ramos. Todos eles parcialmente enegrecidos, como se chamuscados. “Que ritual doentio ela…?”

Um gemido a suas costas foi seguido pelo ranger de madeira, depois por um sussurro indistinto de tão baixo, quase um sopro, mas que pouco a pouco se tornou inteligível: água. Alguém implorava por água.

– Soni.

O amigo despertava. Uma insinuação de sorriso tomou forma no rosto de Cari, e seu coração pulou uma batida, mas ela não perdeu a calma. Soni erguia a mão num gesto débil quando a menina passou por ele em marcha firme. “Água.” Tinha tanto para lhe contar, mas não era hora. “Água.” Estrondeou pelo salão de entrada, onde o rapaz Lucio ainda dormia enroscado num cobertor. “Água.” Queria abraçar o amigo, falar que sentia muito, mas isso viria depois. “Água.” Aproximou-se do buraco com o balde que captava água, encheu-o e já ia carregá-lo para o quarto, quando Marian tocou-lhe o ombro. Ambas trocaram olhares, a moça fez que entendeu e murmurou algo sobre preparar um caldo de pato – segundo ela, bom para quem convalescia.

Reentrou no quarto com o balde, e no encalço se anunciou Lucio com um ressoante bom-dia, munido de um copo de cerâmica, para que Cari melhor ministrasse a água ao amigo debilitado. A menina reclinou-o devagar e deu-lhe de beber. Soni engasgou-se de tão sedento e tossiu um pouco. Depois moderou o ritmo dos goles e pediu mais. Somente aí descerrou as pestanas, e a garota sorriu ante seus olhos verdes e lacrimosos, tão familiares. A alegria era genuína, porque a saudade era demasiada: fazia tempo que não os via abertos. Agora, sob a luz fria e sutil de uma alvorada precedida por dez dias escuros, aquelas íris pareciam tão mais bonitas do que já haviam sido – e tão brilhantes e tão vivas e tão cheias de vida. No momento eram fendas estreitas, espremidas pela claridade súbita, mas ao inclinar-se sobre elas Cari achou que poderia admirá-las para sempre.

– Ei, você – disse ele, a voz vacilante. Também sorria, um sorriso trêmulo, fraco, mas ainda assim ali. – Você e eu… – franziu o cenho – nós estamos vivos?

Estendeu os dedos para tocá-la, e a menina teve de abafar o riso. Era mesmo Soni quem estava diante de si: Soni e suas preocupações infundadas.

– Claro que estamos vivos, tolo. O que o faz pensar o contrário?

Ele respirou fundo e continuou a elevar o braço, um esforço que parecia exaustivo. Cari reparou que era o braço comprometido, mas Soni não se mostrava ciente disso. Não se importava. A mão dele roçou-lhe a cabeleira.

– A rosa. A rosa em seu cabelo – esclareceu ele.

Num movimento sofrido, Soni tirou-lhe do rosto a mecha rebelde, a que teimava em cegá-la parcialmente. Prendeu-a atrás da orelha de Cari.

– A rosa é igual à de antes. A que deu início a tudo. A que murchou. – Deixou a mão tombar sobre o peito que subia e descia lentamente. – Achei que tínhamos ido parar no mesmo lugar para onde ela partira depois de morrer.

Cari fungou ao ouvir tamanha estupidez e deu-lhe um peteleco no meio da testa. O rapaz chiou, mais de indignação do que de dor, supôs a menina.

– Você é um péssimo mentiroso, Soni – fitou-o séria. – Nada disso se passou por sua cabeça, não é? Todas as rosas se parecem, e quem morre não vai para lugar nenhum, você bem sabe. Só o que é vivo se move, como diz o Velho Tobi.

– E desde quando você recita o que o Velho Tobi diz?

– Às vezes ele acerta – admitiu a contragosto.

– Acerta o vento, só se for.

A voz de Soni recuperava o vigor, e ele, o temperamento. Cari buscava provocá-lo, pois não aguentava que posasse de coitado moribundo. Se o amigo se portasse como um enfermo apático ou resmungão, a garota não o perdoaria nem se perdoaria: uma visão dessas seria deprimente demais. Sabia que agia de maneira egoísta, mas não exigiria muito dele. Seria cuidadosa. “E tudo voltará a ser como antes.”

– Heh, provavelmente eu morri e fui jogado num universo paralelo onde uma sósia de Cari acata religiosamente cada asneira do Velho Tobi.

– Como sempre, as asneiras vêm de você.

– Ah, é? Então como você explica as árvores, ó sábia? Tudo o que é vivo se move, mas elas estão vivas e não se movem.

– Você inverteu a lógica de propósito. Não é “tudo o que é vivo se move”, e sim “tudo o que se move é vivo”.

– Que seja – bufou. – De qualquer modo, você incluiu num mesmo grupo tanto o que não se mexe quanto o que está morto. Não negue – ele cruzou os braços e balançou de leve a cabeça sobre o travesseiro, o divertimento estampado nas feições.

– Não nego. – Foi a vez de Cari de bufar, embora sem o menor traço de irritação. Tencionava apenas encobrir o riso. Não planejava vencer aquela discussão e desconfiava que Soni tampouco. – É só que, bem, nem você pode negar que as árvores se movem quando crescem. Raízes e galhos se alongam, o tronco estica e alarga, folhas nascem.

– Ora, se é assim, então uma montanha também se mexe quando encolhe até virar rocha e pedra. É raciocínio barato associar a vida ao movimento, e vice-versa.

– Sim, e é mesmo. Raciocínio barato do Velho Tobi. Logo – um sorriso matreiro esquentou-lhe as bochechas –, você concorda que aquela raposa encanecida é uma farsa.

– Parece que sim – ele ergueu as sobrancelhas. – Mas também parece que a pessoa que mais o criticava, que mais o acusava e que mais desconfiava dele acabou dando-lhe algum crédito lá atrás em nossa conversa. Não imaginava que você fosse tão volúvel no que respeita ao Velho Tobi, mas… aparentemente sua opinião sobre ele mudou, não?

– Não, não. Quando disse que ele acertava às vezes, falei sem convicção – coçou o nariz. – Mas fui convicta o bastante para guiá-lo até a conclusão que eu desejava.

Soni revirou os olhos:

– Oh, sim. Isso resolve tudo, então. – Ambos se encararam por uns segundos, até que o amigo permitiu escapar um riso das ventas, que evoluiu para uma gargalhada rouca. Cari, que já sufocava de conter a própria risada, liberou-a em seguida. – Papai arrancaria tufos do cabelo ante sua falta de coerência, Cari. E se são essas as boas-vindas que recebo (uma discussão idiota e sem sentido), prefiro retornar ao embalo dos sonhos.

A garota sabia que Soni apenas fingia o ressentimento – e fingia mal. Mas o comentário inquietou-a, e ela teve de perguntar:

– Sonhos bons ou maus?

O sorriso do amigo feneceu, e ele baixou o olhar e sussurrou para si:

– Maus. Não lembro direito. As cenas e sons estão distantes agora, atrás de muitos véus. Quero que fiquem assim.

Cari afastou-se dele com uma flexão rápida e meteu-se a perambular pelo quarto, as costas viradas para Soni, até decidir girar e, mirando-o de esguelha, pedir-lhe:

– Não volte a dormir, então. Permaneça comigo no mundo dos despertos. – Não pretendia soar carinhosa nem sentimental, mas estava tão feliz que não conseguiu evitar. – Nós dois estamos fadados a travar discussões bobas uma após outra, para todo o sempre. – “Ou pelo tempo que lhe sobra”, mas por ora não lhe contaria que ele não mais era imortal. – Não vai se livrar de mim. – “Não vou perdê-lo novamente”, pensou.

Soni tentou ajeitar-se de lado na cama, porém a fraqueza impediu-o. Deslocou-se por centímetros e no fim desabou praticamente na mesma posição de antes, arfando tanto que a menina receou tratar-se de uma crise respiratória. Acercou-se dele, a expressão severa.

– Por quê? Por que se arriscou? – e o eco do pretérito, de quando lhe endereçara uma indagação similar, ressoou feito zumbido de flecha.

Ele massageou o pescoço com o braço bom, desvencilhando-se do olhar dela.

– Você sabe a resposta – falou para o teto. – A resposta é que não sei a resposta. Somente fiz o que me veio à mente.

– Você não é assim – contestou ela. – Não é impetuoso, não é audaz, não é corajoso…

– Oh, muito obrigado – grunhiu mordaz. – Tem razão, não sou um primor de valentia. Mas se eu não tivesse agido – e suas íris cravaram-se nas dela –, eu e você seríamos festim de lobos na certa.

Cari não duvidava. Tinha certeza de que não teria resistido se a matilha houvesse atacado em sincronia por todos os lados. Cobrir uma circunferência completa, protegendo flancos e retaguarda, teria sido impossível – e qualquer ponto cego teria sido fatal. O fogo tático de Soni possibilitara controlar o avanço dos lobos. Mesmo assim…

– Mesmo assim você foi longe demais. Quase morreu. – Ela não gritava. Jamais gritaria. Persistia serena como de costume, embora o timbre estivesse duas oitavas mais agudo. – Sua vida não é só sua. Você não tinha permissão para jogá-la às feras.

– Eu sei! – trincou os dentes de raiva. – Já o sabia antes de você descobrir. Sempre reconheci que parte de minha vida era sua e de ninguém mais. – Corou, mas forçou-se a prosseguir. – Naquela hora, quando a besta pulou sobre mim, tive medo. Nada, nenhuma coragem havia em meu coração. Minutos antes, admito que tinha ficado eufórico com a perspectiva de vitória, mas depois… depois eu – umedeceu o lábio –, mais do que nunca, me desesperei. Creio que até mijei nas calças – e fungou uma risada sem graça. – Mas, se fosse preciso – e devolveu a austeridade ao semblante –, faria tudo de novo sem hesitar, mesmo com o medo corroendo cada um de meus ossos.

Cari piscou incrédula. E entendeu. Ao enfrentar os lobos, Soni não agira impelido por audácia repentina. Não fora um surto de inconsequência, um desvario, um soluço de bravura. Durante o ato, enquanto chacoalhava a tocha improvisada, ele não domara o medo nem o superara nem ao menos o contornara. Movera-se a despeito do medo. Sim, Soni era forte. “Muito.” Mas era um tipo diferente de força, uma coragem peculiar. Significava bem mais do que não se deixar abalar pelo medo: cuidava-se de aceitá-lo e extrair gana dele. Era fazer medo e coragem andarem lado a lado, como amigos ou irmãos – ou como um só. E a garota concluiu que, se naquele momento o amigo tomasse a iniciativa de beijá-la, ela não o repeliria.

Mas eis que Lucio reapareceu para cortar o clima. A menina captou o toc toc alvoroçado de seus passos e, resgatando a compostura, voltou-se para apresentá-lo, ciente de que ele estava ansioso por fazer-se notar.

– É a este aqui – e pegou a mão de Lucio e conduziu-o à cama – quem você deve agradecer por não ter sido arrastado inerte até onde está deitado. Ele trouxe uma carreta e depois me ajudou a carregá-lo, seu preguiçoso.

Soni bufou.

– Eu estava inconsciente. À beira da morte. Se para você fui apenas um fardo…

– Não, não foi – apressou-se em retrucar. Por que tinha de provocá-lo dessa maneira? As palavras haviam saído quase que involuntariamente, e ele interpretara o gracejo bem-intencionado como um atentado contra seu orgulho. “Estúpido.” O amigo estragara a beleza de instantes atrás. “Eu também.” – Apenas lhe agradeça de uma vez – impacientou-se, e colocou-o frente a frente com Lucio.

Por um momento Soni arrostou-o mudo, com um tênue esgar de asco repuxando o canto da boca. À luz do dia, mais do que sob o luar ou nas trevas da Desolação, a aparência rústica de Lucio enfeitiçava o espectador desabituado, embora seu espírito curioso soletrasse em letras garrafais “inofensivo”, “amigável” e “a seu dispor”. Cari cogitou cutucar o amigo para que interrompesse o exame rude, mas Lucio mexeu-se primeiro.

– Aqui – disse ele.

Espiando por sobre seu ombro, a garota identificou uma lupa na palma aberta.

– Minha lupa – exclamou Soni, os olhos arregalados. Apalpou os bolsos, decerto à procura do objeto, para confirmar se a lupa que lhe ofereciam era realmente sua.

– Deve ter caído enquanto o transportávamos de lá para cá – observou Cari. – A gentileza de Lucio merece mais um agradecimento, não acha?

O amigo aquiesceu e proferiu obrigado. Esticou a mão para alcançar a lupa, mas deteve-se ao pousá-la sobre a de Lucio, meditando sobre qualquer coisa. Afinal resolveu fechar os dedos do menino sobre o objeto, mantendo-o com ele.

– Guarde-a consigo. É um presente – anunciou. – Você encontrará mais utilidade para ela do que eu.

Lucio recobriu o punho cerrado com a outra mão, como se protegendo algo precioso. Supondo que ele desconhecia a lógica de dar, receber e presentear, Cari imaginou que o menino talvez não houvesse entendido o que se passara e, por precaução, aduziu:

– Soni crê que o lugar ideal para a lupa é com você, Lucio. É onde ela melhor se harmoniza nos arranjos do mundo.

O amigo mirou-a intrigado, e Cari gesticulou que lhe explicaria tudo mais tarde. Ele encolheu os ombros enquanto Lucio sorria, maravilhado com o novo brinquedo.

– Aqui, me deixe mostrar como ela funciona. – Olhou em volta até deitar um relance sobre Cari. – Empreste-me a rosa.

– Foi Lucio quem me deu a flor – comentou ao desatá-la do cabelo. Aí repensou os termos que empregara e reformulou: – Se bem que seja mais correto dizer que a rosa estava com ele antes de chegar até mim. Ela não pertence a ninguém, mas… mesmo assim, cuidado para não despedaçá-la.

– É uma rosa – retorquiu Soni. – Tem espinhos, sabe se defender. É uma flor que combina com você, aliás – falou sem malícia. – E o máximo que lhe farei será aumentar seu tamanho com a lente.

– Mas isso Lucio já sabe fazer. Qualquer um sabe. Não o tome por um tolo, porque ele consegue sobreviver na Desolação melhor que você.

– Sim, sim, claro – replicou o amigo com um aceno distraído. Sua mente vagava para longe da conversa, que toda sua atenção concentrava-se em transmitir para o menino os mistérios da lupa.

– Por que não lhe ensina algo mais útil e interessante, como focalizar os raios do sol para acender uma fogueira? – sugeriu Cari.

– Ah, não. Ainda não. O fogo, minha dama – e Soni fez sua cara de mago, típica de quando atuava como professor, alisando uma barba imaginária e incutindo uma entonação mística na voz –, é técnica mais avançada. Não é para iniciantes.

– Não é grande coisa – desdenhou a garota.

Lucio cedeu a lupa a Soni e ficou a assistir à cena com expectativa, agitado feito um esquilo no encalço de uma noz. Cari cruzou os braços, pois achava que o truque por vir não era digno de toda aquela pompa. Uma vez munido de rosa e lupa, o amigo aproximou uma da outra, e nesse pequeno movimento a menina viu duas pétalas destacarem-se da flor para uma queda macia e sinuosa. Antes que pudesse repreender Soni pelo descuido, mais pétalas desprenderam-se, uma atrás da outra, enquanto as que permaneciam no caule murchavam, acinzentavam e apodreciam. O amigo largou a rosa com um misto de terror e repugnância, mas o definhamento prosseguiu até seu término – até nada restar além de pedaços enrugados e meio enegrecidos, como papel queimado. A fragrância doce pairou no ar como uma lembrança fugidia, uma miragem, para enfim sumir.

– O que…? – começou Cari, mas as palavras seguintes fugiram-lhe.

Soni alternava o olhar entre a lupa na mão esquerda trêmula e os resquícios mortos da rosa sobre o colo, que logo espanou para fora da cama com um gesto de repulsa.

– Eu não…

A garota fitou o amigo, ambos com o horror impresso nas feições, ela menos, ele mais. Novamente foi Lucio quem quebrou a sobriedade da situação.

– Fantástico! – exclamou, e arrebatou a lupa de Soni. – Incrível – e pôs-se a admirá-la com brilho nos olhos.

– Lucio, não foi a lupa que… – o amigo tentou avisar.

– Obrigado pelo presente! – e perfez uma curta reverência. – Vou procurar mais uma rosa. Todas as que temos ficariam melhor em você que em nosso jardim – e dirigiu à menina um sorriso amável.

– Ele agora sabe o que é um presente, então – murmurou Cari após o menino retirar-se.

Soni esfregava na camisa a palma que segurara a flor.

– Você acha que a rosa… – hesitou – acha que, bem, ela tinha o propósito de envenená-la, Cari?

– Não. – Foi uma resposta firme, moldada para ocultar suas dúvidas internas. Se a rosa apodreceu, algo similar poderia ter acontecido com ela. Lucio não era capaz disso, não só por causa de sua índole, mas também por faltar-lhe o poder para tanto. Ou era em que Cari desejava acreditar. A verdade era que não o conhecia o suficiente para alimentar quaisquer certezas. A reação inocente dele, quando julgara que a lupa provocara o definhamento da rosa, fora convincente: não levantara suspeita de que estivesse participando de uma conspiração. Marian, por outro lado, assumindo que a flor houvesse-lhe tocado as mãos… “Talvez.”

E Marian entrou no recinto, carregando uma vasilha fumegante e ostentando sua face pétrea.

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