Nômades da Desolação – Parte 6

O rapaz era tão esquelético que desmontaria se houvesse correntes de ar na Desolação. Era tão pálido que parecia doente – e talvez realmente estivesse. Porém mesmo assim conseguia puxar aquela carreta pelo solo traiçoeiro da zona morta. Enfurnados em órbitas profundas – um aspecto que a lâmpada em sua mão realçava a um nível macabro –, seus olhos fixavam-se em Cari como se ela fosse a coisa mais interessante que já contemplara em toda a vida. Era rude encarar alguém tão afrontosa e prolongadamente, mas ele parecia não ligar para o decoro. Na verdade havia um quê de selvagem em seus modos; e a garota adivinhava que não era mera impressão oriunda das roupas largas e surradas que ele vestia nem de seus cabelos escorridos e mal cortados. A Cari o rapaz lembrava um não vivente, uma criatura inventada por adultos para assustar crianças malcriadas. Nas histórias que os pais haviam-lhe contado quando mais nova, a Desolação drenava o espírito dos que ficavam para trás e tornava-os não viventes, seres apáticos, irracionais e sem vontade de viver: era a mentira perfeita para disciplinar a filha aventureira que insistia em vadear perto da Linha da Vida. Agora, no entanto, ela duvidava de que o alerta se baseasse numa historinha fabulosa.

– Apresento-lhe meu filho – remarcou Marian, dessa vez imprimindo algum sentimento na voz.

“Filho?” Cari analisou-o de cima a baixo. Era menor do que ela, o que combinava com seu porte mirrado e sua musculatura chupada. Mas agora deduzia que o tamanho miúdo era uma questão de idade: o rapaz devia ser mais jovem do que ela. Dava-lhe dez ou onze anos. Suas feições, apesar do estado lastimável, eram as de um menino. O olhar dele, tão firme que era como se a despisse mentalmente, não continha um traço de malícia, só curiosidade infantil – eis o que a garota afinal concluiu.

– Batizei-o de Lucio.

E Lucio abriu um farto sorriso num cumprimento, as narinas dilatadas de ansiedade. Talvez mal soubesse falar de tão simplório que era, Cari supôs, mas se expressava com uma vivacidade que ela teria achado esquisita, se a zona morta já não lhe houvesse oferecido um vasto repertório de esquisitices. E, bem, ao anunciá-lo como filho, Marian teria querido dizer que ele era de seu próprio sangue e que saíra de seu ventre – como os bebês da Carroça das Parteiras? Não, não podia ser um não vivente, pois, de acordo com as histórias, só quem era deixado para trás virava um não vivente – e só gente mais velha era deixada para trás. “Alguém que nasceu no escuro. Filho de Marian.” Fazia quanto tempo que a mulher morava na Desolação? “Anos, pelo visto.”

– O nome Lucio pertence a uma época que se perdeu, uma época em que os nomes tinham significado – explicou a moça. – Lucio significa luz. É o que ele é para mim aqui.

Na explanação, Cari rastreou o que lhe soou como orgulho. Marian devia amar o filho como qualquer outra mãe, e percebê-lo fez dissolver-se a couraça de desconfiança que a garota construíra para si. Retribuiu a Lucio o sorriso amigável, e o rapaz alargou o dele em resposta, as íris esverdeadas cintilando em face da novidade que era Cari.

– É um bom menino – a mulher anuiu para si. – Foi ele quem notou a movimentação dos lobos. Nós dois observamos de longe você e seu amigo os enfrentarem, e admito que pensei em ir embora quando a situação me pareceu sob controle.

Lucio balançou a cabeça de maneira espalhafatosa, e na prática todo seu corpo e a lâmpada que segurava acompanharam o movimento. A luz oscilou brevemente. Então o rapaz franziu o cenho e projetou os dentes numa cara feroz, os dedos curvando-se como garras, numa imitação de lobo em pose de ataque.

– Sim, foi o que se passou, querido – acatou Marian. – Lucio me impediu de abandoná-los, crianças. Porque logo a fera pulou sobre seu amigo… – e indicou Soni com um gesto – e resolvi intervir. Lucio foi pegar a carreta em nossa cabana enquanto eu me encarregava de espantar os animais restantes.

“Se podia amedrontá-los com os ossos, senhora, por que não se revelou mais cedo?” Por que esperara as circunstâncias piorarem? Não, Cari estava sendo injusta e ingrata. Porque, em contrapartida, Marian poderia ter-se recusado a ajudá-los e ponto, e se houvesse optado pela inércia, Soni estaria morto e irreconhecível. Como a mulher tinha Lucio para proteger, era no mínimo compreensível que houvesse relutado em sacrificar-se por dois estranhos.

– Vocês serão meus hóspedes esta noite.

A garota auxiliou a moça a deslocar Soni com cuidado para a carreta, bem como as mochilas de ambos os jovens, e depois o trio formado por Cari, Marian e Lucio revezou-se em duplas a fim de puxá-la. A pessoa desocupada carregava a lâmpada.

Após meia hora de caminhada, a mulher quebrou o silêncio no turno de ela e Cari conduzirem o transporte.

– Creio que meu filho se afeiçoou a você, criança. Jamais o vi tão alegre antes.

À frente Lucio seguia com disposição invejável, assobiando uma cantiga que adicionava um contraponto doce ao chacoalhar de ossos e ao som das rodas da carreta.

– Eu gosto dele – retrucou Cari. – Ele certamente sabe como manter o bom humor nas terras devastadas.

De esguelha a menina captou Marian a seu lado assentir distraidamente, mas seu foco permanecia em Lucio. O rapaz transbordava uma satisfação contagiante. Descrevia malabarismos com a lâmpada – e, Cari especulou, desnorteava e nauseava os vagalumes lá dentro – e desbravava a escuridão sem medo. Nesse quesito a garota julgou-o parecido com ela, mas enquanto Cari era corajosa porque aprendera a controlar-se, a serenidade de Lucio devia-se à inocência. Isso não contradizia o argumento de Marian? Ela sugerira que os nascidos no escuro temiam-no mais, logo o que se esperava era que o rapaz estivesse encolhido em choque ou tiritando desesperado em meio ao breu.

Não, talvez não fosse essa a ideia que pretendera expor. Talvez Lucio visualizasse a Desolação de um jeito peculiar porque não conhecia nada além dela. Não o assustava a perspectiva de jamais deixar a zona morta, pois desconhecia que, em algum lugar, o sol era mais luminoso e mais quente. Cari tentou decidir se Marian era uma mãe horrenda por ocultar do filho o céu azul e a campina verde depois da Linha da Vida. Não conseguiu chegar a uma conclusão. Afinal, não era totalmente cruel impedir o rapaz de enxergar um mundo bonito que acabaria por degradar-se se tudo transcorresse como vinha transcorrendo. E se Lucio arranjava um motivo para cantarolar na Desolação, não havia puro mal na escolha de Marian. Alguém como ele só sentiria medo ante a mais séria das ameaças. “Acha-se seguro com a mãe, os ossos e a lâmpada por perto”, ponderou a garota. “Tenho de relaxar também. Tudo dará certo. Soni vai se recuperar.”

– Senhora Marian… – começou Cari – a senhora realmente… assassinou pessoas de seu clã?

A mulher suspirou e por um momento nada disse. Quando a garota ousou espiá-la com o canto da vista, Marian respondeu, e Cari rapidamente desviou o olhar, embaraçada.

– Sim. Mas não me orgulho do que fiz.

Mudez de novo, até a menina voltar a tocar no assunto.

– Por quê? Por que o fez, então? – Após verbalizar a questão, tomou-se por tola: ninguém cometeria uma chacina sem uma excelente razão – e imaginava que não queria descobri-la. “Não”, refutou-se. “Nem a mais nobre das razões justificaria tamanha atrocidade. Não me persuadirá, diga o que disser.”

– Foi por causa de um homem. Ou teria sido no passado – corrigiu-se. – No passado eu teria matado por esse homem. Porém os eventos mudaram de rumo. – Cari pressentiu-a dar um puxão mais violento na carreta e, para evitar tropeçar, teve de adaptar-se ao ritmo dela. – O que fiz, fiz pelo filho dele.

“Filho?” A garota refletiu se era de Lucio que ela falava. “Talvez.”

– E a senhora está… arrependida do que fez?

Marian encolheu os ombros, o que resultou num solavanco para o transporte.

– Bem, não importa agora – grunhiu. – Nada lhes devolverá a vida. É um dos vários limites que deve aceitar alguém capaz de dobrar o fluxo da vida: os mortos não retornam. A morte é o curso natural de tudo que vive.

“Não de tudo”, contestou a menina intimamente. “Não é o curso natural das pessoas.” Engoliu a seco e estremeceu. “Se Soni tivesse…” Abanou a cabeça para dissipar o pensamento. Soni estava vivo e ficaria bem. Tinha de convencer-se disso e, para tanto, preferiu redirecionar a conversa para outras áreas, inclusive porque Marian não se mostrava interessada em desenvolver sua explicação. O máximo que conseguiria extrair dela era aquele relato misterioso sobre um homem e o filho desse homem.

– Como espantou os lobos, senhora? – E, por mais que não acreditasse nesta bobagem mística, forçou-se a aduzir: – Foi magia? O Velho Tobi usa ossos e instrumentos de osso em muitos rituais; ele fala que são eternos, ao contrário da carne que apodrece, e que por isso têm propriedades especiais, indecifráveis para os- qual é mesmo a palavra? – Vasculhou a memória: – Leigos. Propriedades indecifráveis para os leigos: é o que ele vive comentando. Foram os ossos que enxotaram os lobos?

– Sim e não. Foram os ossos, mas não foi magia. Minha tática contém tanta magia quanto os rituais do Velho Tobi. É a fé que move ambas as coisas. As pessoas creem que os ritos são úteis, logo eles parecem funcionar e parecem indispensáveis. Mera aparência. E os lobos creem no perigo que os ossos trazem, logo eles os temem – umedeceu os lábios. Depois escancarou a boca num sorriso presunçoso: – Fui eu quem lhes ensinei o terror, e eles foram inteligentes o bastante para aprender depressa. – E com a mão que não puxava a carreta, apanhou a lâmpada apagada, então presa à faixa que lhe servia de cinto, e sacudiu-a diante dos olhos de Cari. Os crânios nela enganchados alvoroçaram-se como um animal que busca secar a pelagem.

“Crânios… de lobos?” Não, eram pequenos demais. Crânios de filhotes. A garota prendeu a respiração. Sorte que, à fraca luminosidade, Marian só podia intuir sua reação desconcertada. Cari não era do tipo que se apiedava de animais mortos; o coração esfriara depois de tantas caçadas. Mesmo assim, se fosse verdade, era sadismo excessivo até para uma caçadora, até para uma sobrevivente da Desolação. “E até para alguém que se empenha em defender o próprio filhote a qualquer custo”, e voltou o rosto para Marian e na sequência para Lucio. O que Gerion pensaria daquilo? Ele respeitava a natureza com um fervor que a menina não compartilhava e não compreendia de todo. “Bem, no mínimo ele saberia identificar os crânios… Ah, pelos quatro ventos, antes de tudo, como Marian os abateu?” Era suposto que a matilha vigiasse dia e noite suas crias. Inexistia brecha a ser explorada. Algo não se encaixava ali, pelo que não podia confiar na mulher. E decidiu que à primeira oportunidade escaparia com Soni, ainda que tivesse de carregá-lo nas costas.

– Meus ossos e os ossos de Tobi – prosseguiu a moça. – Todos são como as cordas de marionetes. Com eles montamos um teatro, eu para os lobos, ele para os bobos. – “Engana-se ao imaginar que todos vêm sendo enganados”, e Cari trincou os dentes num desafio implícito. – E eu já fui como ele, quando líder de meu clã.

“Uma líder como Tobi.” Uma líder instruída nos mesmos saberes do Velho Tobi e, possivelmente, conhecedora dos segredos dos clãs. E se ela rejeitara o nomadismo – e se a sangue frio matara gente sob seu cuidado –, talvez não se incomodasse em partilhar um ou outro dos fatos mais sórdidos com a garota. Talvez estivesse mais do que disposta a fazê-lo, já que transparecia reprovar os métodos de Tobi, que mantinha os leigos na ignorância. “Ele manipula mais do que o fluxo da vida, esse patife.” Com pergunta atrás de pergunta, bem poderia guiar Marian a narrar todos os podres que desconfiava existir, mas isso implicava que teria de arriscar-se a passar a noite em sua cabana… “Não devo.” Pois a prioridade era tirar Soni daquela enrascada – da enrascada em que o metera. “No vale. No vale encontrarei as respostas que procuro.”

Cari matutava com o olhar pregado no solo, acompanhando o rastro de luz que a lâmpada imprimia em raízes, pedras e folhas caídas. Até que o raio luminoso fugiu para longe de seu alcance, e a menina ergueu o semblante e constatou Lucio desatando a correr em direção a uma casa. “Uma casa como as dos antigos.” Conteve um riso incrédulo. Lá estava uma construção fixa, de toras, tão recoberta de hera e musgo que parecia integrar o meio natural. Era como se o bosque a houvesse aprisionado. E o mais importante: não tinha rodas. De quando em quando o clã avistava edifícios similares, restos abandonados da aurora do tempo. Todos mantinham distância, porque o Velho Tobi assinalava que existiam bons motivos para o abandono dessas moradas: era melhor não mexer com o que estava adormecido. Uns falavam em maldições, outros em assombrações e outros ainda em fontes da Desolação, e exatamente por tudo isso a garota sempre quisera arrastar Soni para explorar uma dessas casas sem rodas. Virou-se para a carreta e fitou o rapaz desmaiado. “Acho que só teria conseguido levá-lo comigo se ele estivesse desacordado como agora”, sorriu, mas foi um sorriso sem humor, que a situação era desgraçada demais para piadas. “Tirarei nós dois daqui.”

Quando se voltou para a construção de novo, Cari percebeu Lucio acenando-lhes efusivamente com a lâmpada de vagalumes, um pêndulo de luz abanando o escuro. Seria mera impressão, ou o foco luminoso parecia mais forte do que antes? Vagalumes não eram como uma fogueira, cujo brilho aumenta quando atiçada. O que estaria causando o fenômeno? “Não é nada. Devo estar cansada, apenas isso.” Depois Lucio disparou rumo ao casebre e desapareceu dentro dele junto com a lâmpada. A garota demorou menos de um segundo para notar que, mesmo sem iluminação, ainda conseguia enxergar o cenário à frente. Até o momento, após dez dias vagando pela zona morta, sua visão não se acostumara ao inescrutável breu noturno, um negrume tão imaculado quanto o reflexo de um abismo num espelho. Mas agora… Identificava os contornos da morada, alguns detalhes do solo perto dela, o perfil de um muro aparentemente cilíndrico de curto diâmetro, com uma cobertura. “E uma horta”, e arregalou a vista às mudas que, imersas em penumbra, espreitavam por detrás de uma cerca ao lado da casa. Reparou nisso tudo apesar da ausência de luz. No passo seguinte, o ar a seu redor mudou.

Aspirou um frescor de que já não se lembrava; suas narinas dilataram com aquela sensação revigorante. Arrepiou-se, mas foi agradável: era bom constatar que sua pele ainda reagia a variações de calor. Havia umidade e friagem e cheiro de madeira nova. O ambiente não era estagnado, nem quente nem frio, como acontecia com o clima na Desolação. Cari varreu o panorama com os olhos, e em toda parte, entre as árvores, a escuridão inclemente fitava-a, mas na clareira onde estava – na clareira onde a cabana situava-se – tudo era claro. Ali conseguia ver as palmas, esfoladas de tanto disparar. Via Soni estirado na carreta, gemendo no sono e sofrendo de espasmos furtivos como soluços, talvez por causa do ferimento no ombro, talvez por causa de um pesadelo. Via a máscara de desinteresse que era o rosto de Marian. E, através da porta que Lucio deixara aberta, via um clarão alaranjado e aconchegante, como o fogo que, na Caravana, as famílias acendiam em suas tendas nas madrugadas de inverno. Era óbvio: aquela área específica permanecia intocada pelos efeitos da zona morta. “Mas como?”

Nômades da desolação 11 (httptehbeardedone.deviantart.comartCreepy-Cabin-Fixed-137979281)

A mulher deslocou-se até a mureta cilíndrica e meteu-se a girar a manivela acoplada a um dos suportes da cobertura. Logo um balde subiu, içado por uma corda.

– Você deve estar com sede depois do que passou. – Marian mergulhou as mãos em concha dentro do balde e depois as levou à boca.

Ao aproximar-se, Cari verificou que o balde continha água até a borda e deduziu que o buraco de onde a moça o recolhera conduzia a um lago no subsolo; especulou se o miasma da Desolação estendia-se até as profundezas da terra e, assim, acabava por macular mesmo uma fonte subterrânea. Não que isso importasse ali, pois aquele local parecia protegido contra o definhamento. “É como se eu tivesse atravessado a Linha da Vida para o lado certo.” Marian despejou um pouco da água sobre as mãos da garota. Os calos e os pequenos cortes arderam, mas o alívio veio depressa. Cari lavou-as bem, porque haviam matado demais naquele dia. Só então se arqueou sobre o balde e bebeu em goles ruidosos, sorvendo cada filete que escorresse pelos beiços.

Uma vez satisfeita, ela contemplou a imagem de sua face adquirir forma na água que cessava de tremer. “Estou imunda”, foi sua primeira conclusão. Não devia impressionar-se – não depois de exterminar dezenas de lobos e esfregar a cara na camisa de um moribundo ensanguentado. A segunda conclusão foi que, se o reflexo era visível, existia luz acima dela. E era verdade. Inclinou a cabeça para o alto, e lá estava: o céu estrelado, a lua cheia, tudo incrivelmente límpido e nítido, sem a aparência fuliginosa que caracterizava a zona morta. A fuligem concentrava-se no entorno daquele recorte celeste quase circular, por onde o luar penetrava como um raio de sol a romper as nuvens após a chuva. Eis que se comprovava que o miasma não se instalava dentro daquele perímetro. Era o véu prateado da noite enluarada – a noite de além da Linha da Vida – que iluminava o lugar.

– Faz doze anos que iniciei meu exílio – comentou a mulher num tom de conversa. – Nesse cálculo, adotei a medida de ano que os clãs abandonaram: quatrocentos dias, que era quanto tardava para se completar um ciclo das quatro estações, ou ao menos era essa a referência que nossos antepassados usavam, segundo os registros históricos. Mas o avanço da Desolação, nossas migrações, as mudanças constantes de cenário, tudo isso tornou sem sentido que continuássemos a tomar como base de tempo as estações, já que ficou mais difícil apurar a transição de uma para outra. – Cari mirou-a de soslaio, indagando-se aonde ela procurava chegar. – Na verdade, acho que eu mesma teria perdido a conta não fosse o nascimento de Lucio. Para mim, o crescimento dele é que tem demarcado a passagem do tempo. É estranho.

E realmente era. A menina não entendia por que imortais como eles deviam ligar para o transcurso do tempo. Tal como Marian, o Velho Tobi cultivava um hábito que ela julgava inútil: mantinha um diário de viagem em que narrava os eventos mais importantes que a Caravana presenciasse; e o líder já escrevera tanto, que os relatos já superavam um total de vinte volumes; sabia-se que em suas páginas ele bem tentava contabilizar os dias, mas os cálculos eram obscuros e desorganizados, e Cari nunca descobrira quando a contagem começara, porque os primeiros volumes, encardidos e quase esfarelados, eram conservados trancados numa das arcas do velhote. Mais de uma vez a garota enfurnara-se no vagão do líder com o objetivo de arrombar os baús, mas sem sucesso.

– Foi quando Lucio nasceu que resolvi me assentar. Até então eu vinha acompanhando a Linha da Vida em sua marcha perpétua. Punha-me em movimento quando ela se movia. Se precisasse de comida, eu a cruzava para o lado verde, e sempre que corresse o risco de topar com gente, regressava ao lado cinzento para me esconder. Numa dessas idas e vindas me deparei com uma casa abandonada. Não como esta aqui. A primeira que encontrei era de pedra do piso ao teto. Era confortável e oferecia amparo contra a chuva e, como os clãs não ousavam se aproximar dela, representava um refúgio perfeito. E já que tinha cortado laços com os nômades, nada seria mais apropriado que renunciar de vez ao nomadismo. – Fez uma pausa em que desceu o balde pela corda para reenchê-lo. – Mas meu novo estilo de vida teve curta duração, pois a Desolação e sua fome insaciável não pouparam minha morada.

Suas feições esboçaram um sorriso afetuoso de que Cari não achou que fosse capaz. Ao seguir a linha de seu olhar, a garota discerniu Lucio parado à soleira, ostentando o deslumbramento habitual. Sua felicidade era tanta e tão palpável que ele podia encarnar o mais hospitaleiro dos anfitriões. “Sempre viveu sozinho. Por isso está entusiasmado com a perspectiva de que eu e Soni pernoitemos aqui, como dois amigos.” Não conseguia forçar-se a não gostar do menino e de sua alegria tão espalhafatosa quanto quieta. “Mas não planejo ficar. Sinto muito.”

– Lucio, ajude-a a transportar o amigo dela para o quarto. – O rapaz obedeceu de imediato, ávido por mostrar-se prestativo. – Cuidado, meu bem, a ferida dele ainda está aberta. Carreguem-no devagar. Isso mesmo. Busquem conservá-lo imóvel ao deitá-lo na cama. Estarei atrás de vocês com a água. Teremos de limpar o machucado antes de tratá-lo.

Cari levantou Soni pelos braços logo abaixo das axilas, enquanto Lucio segurou-o pelas pernas. Não era pesado, mas era mais pesado do que a garota esperava, de modo que não pôde evitar cambalear vez ou outra. Quando o corpo oscilava, ela temia que seu ferimento terminasse alargando-se, ou que as ataduras afrouxassem, ou ainda que o sangue recomeçasse a pingar; mas nada disso ocorreu. Andava de costas à medida que Lucio orientava-a pela casa com acenos furtivos de cabeça. De tão engajada na tarefa e nas instruções recebidas, captava só breves relances do cômodo por onde passava: uma fogueira ardendo viçosa dentro de uma reentrância revestida de pedras; duas cadeiras envelhecidas; e uma estante abarrotada de potes e garrafas. A escassa poeira do interior cintilava ao luar que irradiava pela janela.

No quarto, Cari pousou o amigo na cama delicadamente. As peles sobre o estrado tornavam-no mais confortável. O aspecto de Soni não estava melhor nem pior do que antes, e a menina contentou-se com um alento tão insignificante quanto esse. Sentou-se no chão, encostada a um dos pés da cama. Lucio esgueirou-se porta afora enquanto Marian fazia o caminho inverso. A moça depôs o balde com água perto da menina.

– Teremos de remover o curativo, criança. Ajude-me com isso. Lucio foi buscar os remédios de que necessitaremos.

O machucado sob as ataduras tinha uma aparência horripilante: um rombo largo, com pele retalhada, pegajoso de sangue semicoagulado. O estômago de Cari não se embrulhou ao esfregar um pano úmido em torno da ferida e derramar bocados de água sobre ela, com cada enxágue molhando também as pelagens que forravam o estrado. Sempre desacordado, Soni reagiu ao tratamento remexendo-se de leve, comprimindo as pestanas e grunhindo baixinho. O coração da garota consternou-se com o sofrimento dele: o amigo dormia, mas era um sono conturbado. Mesmo assim não interrompeu o procedimento: sabia que, embora o lobo que mordera Soni não avistasse comida havia semanas, toda sorte de sujeira devia acumular-se em seus dentes e, por consequência, numa ferida daquelas. Purificá-la prevenia infecções, isto é, assumindo que o amigo já não houvesse contraído uma doença qualquer. A cada careta que ele produzia, Cari quase podia sentir-lhe a dor. E culpava-se. E no íntimo ficava a suplicar-lhe perdão atrás de perdão, obsessivamente.

– Seu amigo é forte – disse Marian no tom neutro de quem profere uma observação, não um elogio. – É franzino, mas está resistindo bem. Não basta corrigir o fluxo da vida para alguém retornar da soleira da morte. Demanda também vontade de viver. Demanda…algo por que viver.

“Ou alguém”, pensou a garota. Olhou para Soni com ternura. Sim, ele era forte e muito, mas sua força não residia em atributos físicos. O heroísmo ou a bravura não faziam parte do estilo dele, e raramente agia por impulso. Era meticuloso demais. Em geral sua paranoia com segurança conservava-o distante de encrencas, porém quando isso não funcionava Cari protegia-o. Mas dessa vez os papéis haviam-se invertido. “Foi ele quem me protegeu.” Surpreendera-a – e certamente surpreendera a si próprio também.

Como na ocasião em que ele enfrentara o caolho Beni e não delatara Marti… “O que lhe valeu uma surra nos dedos de ambas as mãos.” Marti conseguia ser mais fracote do que Soni, mas, bem ao contrário deste, não compensava o que lhe faltava em músculo com cautela e astúcia. Era aficionado por histórias de ficção especulativa, as que continham inventos maravilhosos ou narravam proezas que desafiavam as leis naturais. Lia tanto que, conforme a zombaria da garotada, logo estaria usando uma das lunetas projetadas pelo Tio Sofi, que consertavam a visão. Em sua inocência Marti replicava que mal podia esperar por essa chance: não entendia como as pessoas achavam ruim ter de portar na vida real uma invenção de que, até então, somente ouvira falar nos livros.

No intervalo entre as aulas Marti recolhia-se solitário a seu mundinho privado de folhear páginas, absorver palavras e imaginar universos, ignorando os perigos à espreita no universo que importava. Os vigilantes do Velho Tobi eram encarregados de supervisionar as crianças, e todas elas – inclusive Marti – sabiam que a literatura que contestava os limites da natureza era proibida. E todos com um mínimo de juízo temiam os inspetores do líder – exceto Marti, propenso a esquecer o juízo num balão de ar quente, ou no fundo do mar, ou nas estrelas, ou em qualquer outro lugar absurdo para onde a ficção o levasse.

Ora, dera-se que, enquanto estava entretido com o quarto volume d’Os contos de Megan, o mais medonho dentre os olhos do Velho Tobi flagrara-o sonhando demasiado alto: o caolho Beni. Cari testemunhara a cena: Beni aproximara-se com sua musculatura de cavalo, cara equestre e cabelo trançado feito crina, e seu corpanzil bloqueara a luz do sol, obrigando Marti a desenterrar o nariz do livro e apontá-lo para cima. Mas antes que a menina cogitasse intervir, Soni já se interpunha entre o brutamente do Beni e o mirrado do Marti, alegando que a obra era dele e que com a melhor das intenções emprestara-a ao pobre coitado que então abraçava os joelhos, o fascínio de havia pouco transformado em terror. A mentira era crível, em razão da reputação de inventor e encrenqueiro do pai de Soni: apenas uma família tão rebelde guardaria exemplares de livros classificados como heréticos.

Mas o irracional do Beni não ligava para as circunstâncias do delito, somente para as consequências. Fosse de Soni ou de Marti a obra, confiscara-a na mesma, e a tradição mandava incinerá-la. Num ímpeto de fúria, Soni esbravejara:

– O livro não é meu nem seu para queimar, tonto. Pertence a todos os clãs. Você não pode queimá-lo só porque não pode lê-lo, seu zarolho.

A insolência só servira para triplicar a punição, e eis que seis reguadas contra os dedos esticados viraram 18. O Tio Sofi enfaixara as mãos de Soni e reclamara com Tobi, mas de nada adiantara. Por três semanas o amigo dependera das anotações de Cari, a fim de acompanhar as lições. A garota revoltara-se com Beni e Tobi, mas Soni dissuadira-a de tentar qualquer vingança, ao que Cari ficara a remoer a injustiça com desgosto e a refletir sobre como teria se virado se fosse ela a punida: não teria podido caçar com os dedos imobilizados. A contrapartida foi que, de tão agradecido, Marti presenteara o amigo com uma dezena de livros e uma centena de guloseimas.

“Por que fez isso?”, perguntou em silêncio para o rapaz estirado na cama. Marian e ela já haviam acabado de lavar o machucado, e no ínterim Lucio trouxera as pomadas e emplastros e depois saíra trotando a sua maneira jovial. A moça aplicara os medicamentos, costurara uma cadeia de pontos, providenciara novas ataduras. Agora a respiração de Soni era ritmada e tranquila, mas ele ainda parecia imerso em sono profundo.

Decerto haveria cicatrizes: o pedaço de carne que o lobo arrancara não voltaria a crescer, e talvez se tornasse mais difícil mover o braço daí em diante. “Por que fez isso, bobo?” Quando ele protegera Marti, Cari propusera-lhe essa mesma indagação. Aí Soni dera de ombros e confessara que não sabia por que fizera o que fizera; retrucara que não pensara num motivo. Embora avaliasse que a atitude inconsequente do amigo não combinava com sua personalidade, a menina tomara como sincera sua resposta e não mais o perturbara. E dessa vez ele fora imprudente de novo. “Tolo”, reprovou-o. “Tola”, reprovou-se. Ajoelhada à borda da cama, enfiou o rosto entre as palmas, exausta.

– Para você.

A voz atrás dela era rouca e instável. Cari girou para topar com o sorriso radiante de Lucio. O menino curvava-se para adaptar sua altura à dela, ainda de joelhos; a mão estendida ofertava-lhe uma flor. Uma rosa. A garota devolveu o sorriso.

– Então você não é mudo. É só tímido. – Aceitou a gentileza. – Muito obrigada – e pendeu ligeiramente a cabeça para o lado, semicerrou os olhos e salientou as covinhas do sorriso, fazendo-se o mais encantadora possível.

– N-não foi nada – encabulou-se Lucio. Empertigou-se, piscou e desviou o olhar para disfarçar o desconcerto. Em vão.

– Não é isso que você deve dizer após dar alguma coisa, Lucio – repreendeu Marian mais atrás, os braços cruzados. – O que foi que lhe ensinei?

Lucio mordeu o lábio e forçou-se a arrostar Cari. Inspirou em busca de coragem e, corando mais a cada palavra, recitou:

– A flor não é minha para lha dar. Apenas a acomodei onde melhor se harmoniza nos arranjos do mundo. O lugar ideal para uma flor é no cabelo de uma donzela.

A garota não pôde evitar assombrar-se com a solenidade da sentença. Já escutara algo semelhante antes, e da boca do Velho Tobi: numa aula, ele contara que outrora, no mais remoto dos passados, as pessoas acreditavam que, como tudo que fabricavam provinha da natureza, nada pertencia a ninguém. Por isso, em toda troca era praxe reconhecer que inexistia o dar e o receber: tratava-se puramente de realocar as coisas numa disposição mais aprazível, e a beleza do mundo assentava-se no eterno remanejo dos bens. Porém essa razão perdera-se com o tempo. Não obstante, as frases e os ritos bem se haviam mantido intactas, reproduzindo-se não pelos valores que antigamente haviam prestigiado, e sim puramente por consistirem em tradição. Mas depois até essa crença desaparecera. O Velho Tobi sustentava que esses ensinamentos detinham nada além de vago interesse histórico, indigno de nota, e que hoje não mais tinham aplicação. Era bobagem reverenciar a natureza no discurso se, agora, essa mesma natureza perseguia os clãs sem piedade. “Temê-la, sim. Respeitá-la, não.” Cari lembrou que a réplica de Soni ao caolho Beni pretendera resgatar essa lógica: o livro de contos não lhe pertencia, ele falara, nem pertencia a Beni nem a ninguém. Aliás, fora o amigo quem lhe ensinara como responder àquele adágio em desuso, após vasculhar o Vagão da Biblioteca.

– Eu lhe agradeço por zelar pelo equilíbrio do mundo – declamou ela. E prendeu a rosa entre os cabelos.

Lucio espantou-se no primeiro instante, no segundo sorriu, no terceiro assentiu e no quarto foi embora satisfeito.

– Que tipo de criação ele teve? – questionou-se Cari.

– Minha – pronunciou-se Marian. Só então a garota deu-se conta de que fizera a pergunta em voz alta. Ia desculpar-se pela rudeza, mas a moça prosseguiu sem manifestar-se incomodada. – Criei-o para um mundo em transição, em que o futuro é incerto e o passado pode vir a ser recuperado. Quando engravidei, percebi que teria de me estabilizar num só lugar. Precisaria estocar mantimentos, pois não poderia caçar enquanto estivesse amamentando. Mas, sem carroça ou montaria, eu não andava mais depressa que a Linha da Vida. E concluí que teria de aceitar o avanço da Desolação e, de algum modo, preservar a vida na habitação que escolhesse. Falhei nas primeiras tentativas: como disse, não é fácil manipular o fluxo da vida, e é ainda mais complicado manipular a vida de todo um ambiente. Mesmo assim, completei meu primeiro refúgio cem dias antes de dar à luz Lucio, mas ele durou por menos de cinquenta dias. Tempo de menos para o fim da gestação, tempo de mais para me obrigar a sair dali, que o nascimento poderia acontecer antes de eu encontrar um novo refúgio. Daí que resolvi ficar sob aquele teto, entre aquelas paredes, pois ali havia comida e água e lenha. E calhou de meu parto ocorrer de noite, na escuridão da zona morta.

“E eis que Lucio nasceu no escuro.” Sim, isso explicava. No entanto, era de admirar-se que Marian houvesse parido sozinha e no breu enlouquecedor das terras devastadas. Cari não conseguia visualizar-se em situação tão angustiante. Receava não possuir fibra suficiente para tamanha proeza. Comparado a isso, o combate contra os lobos até que não parecia tão desesperador.

– Após a chegada de Lucio, me demorei menos de um ano no Primeiro Refúgio: deixei o local quando os alimentos estavam prestes a escassear e a madeira já definhava. Tive outros refúgios desde então, mas os tenho abandonado sempre num prazo de vinte ou trinta dias, e entre um refúgio e outro Lucio e eu costumamos andar por até cem dias, levando uma vida precária durante esse período. Estamos tentando alcançar o rastro dos clãs. Não quero que meu Lucio cresça distante da civilização. E – abriu um sorriso sutil –, se nos deparamos com você, criança, presumo que nos aproximamos bastante.

“É, bastante, mas ainda assim estamos longe.” Cari supunha que a Caravana não se pusera em marcha desde quando se afastara dela com Soni, dez dias atrás, ainda mais com os pais de ambos pressionando o Velho Tobi para enviar grupos de busca. Todavia, se os dez dias evoluíssem para vinte e nesse ínterim a Desolação se alongasse, não restaria alternativa ao clã senão continuar a viagem. Sim, talvez acabassem ficando para trás. Antes de iniciar a jornada essa possibilidade não a inquietara, e se Soni pensara a respeito, não externara suas preocupações. Agora, porém, enxergava com mais clareza: o fato era que, se a Caravana se deslocasse enquanto estavam fora, a discrepância de velocidade entre eles a pé, de um lado, e as carroças com rodas, de outro, incrementaria progressivamente a distância que os separava. Desse jeito como conduziria o amigo de volta? A mulher e seu filho haviam conseguido chegar perto dos clãs só porque haviam caminhado praticamente sem pausa por dias e dias. No estado debilitado de Soni, Cari não poderia exigir-lhe esse ritmo exaustivo. Despedira-se dos pais com a perspectiva de regressar fervilhando na mente, mas agora inexistia certeza de retorno.

Mais uma vez se enganara. Fora cega acerca daquele detalhe crucial. Talvez não pudessem voltar. Por isso não sobrava opção: teriam de apostar tudo no vale. Mas como até agora cada um de seus enganos desencadeara males piores do que pudesse antecipar, Cari já esperava que com aquele não seria diferente. Por exemplo: a fala de Marian dera ensejo a que a garota comentasse sobre sua viagem com Soni para dentro da zona morta, mas, se o fizesse, certamente a próxima questão envolveria os motivos dessa aventura, e ela preferia não ter de explicá-los para a moça. E antes que Marian lançasse sua pergunta, Cari decidiu formular uma própria, para esquivar-se:

– E esta cabana? Faz quanto tempo que a senhora mora aqui?

A mulher pôs-se a alisar uma das paredes, impassível ao desvio de rumo da conversa.

– Encontrei-a faz uns vinte dias. – esclareceu. – Como as demais, estava desabitada havia anos. Por isso tive de espanar o pó acumulado, remendar o telhado, reinaugurar a lareira, estocar comida e… – sorriu – reativar a vida.

“Reativar a vida.” Cari já conhecia o método – testemunhara-o em operação, até. Sabia o que era necessário. Eis o pior cenário, e seus enganos sempre achavam um meio de fazê-lo vir à tona. Era como se a ordem das coisas se divertisse semeando o caos nas coisas preciosas para ela. “Para reativar a vida…”

– Manipular o fluxo da vida… – encetou – requer vidas prestes a se extinguirem. – “Sacrifícios.” Não transpareceu assombro. As técnicas de autocontrole de Gerion serviram bem, e a menina rebateu a indiferença de Marian com mais indiferença.

– Correto, criança.

A moça gesticulou para que Cari a seguisse. Guiou-a até o degrau da soleira e aí indicou um canto aleatório da floresta ao redor. A menina espichou a vista e divisou, no limiar entre a luz da clareira e as trevas da Desolação, mais ossos, mais crânios de animais, ora pendurados em galhos, ora repousando no solo. Não reparara neles antes. Todo o perímetro era como um cemitério – um local reservado aos mortos, numa época em que as pessoas ainda morriam; essa era mais uma das lições de história do Velho Tobi.

– Nada das feras que caço é desperdiçado – disse Marian, muito séria. – A carne é alimento, e a pele é cobertor. O osso é o chocalho que doma os viventes: com ele anuncio minha chegada e demarco meu território. Por fim, há a vida. A vida delas restaura o equilíbrio da terra.

“Cruel.” Cari engoliu a seco. “Imperdoável.” Cerrou os punhos. Tiraria Soni dali assim que ele despertasse. “Para o vale.” Se bem que o vale consistisse numa versão em maior escala da clareira de Marian: ambos eram ilhas saudáveis rodeadas por um mar de devastação. O resultado era igual, logo a premissa – a origem – era a mesma. “Não.” Se fosse Soni o observador, já teria feito essa conexão horas atrás. Teria percebido tudo no exato momento em que Marian sacrificara um lobo para salvá-lo. A garota não era Soni, porém, e raciocinava mais devagar. Garantira ao amigo que o maravilharia, mas nada de maravilhoso existia no vale. “Não.” Já não conseguiria mais retornar à Caravana e agora perdera seu norte. Ela e Soni – ambos estavam perdidos. “Não. Eu o arrastei para a perdição na casa de uma louca.” Fracassara. E como que para confirmar sua sina, a menina indagou hesitante:

– O vale também surgiu assim? – “De sacrifícios?”

– O vale é amaldiçoado, criança. Mais amaldiçoado que a própria Desolação.

E Cari sentiu algo dentro de si quebrar-se. “Fé. Esperança. Otimismo. Uma mente livre do desespero, diferente da sua”, replicara a Soni antes da emboscada da matilha. Ele confiara nela. “Tolo.” E ela acreditara tanto que era capaz de transformar… “O quê? Transformar o quê?” Como fora ingênua. E o desespero – esse que lhe era desconhecido – veio.

Nômades da desolação 12 (httpjackeavesart.deviantart.comartIf-you-go-down-to-the-woods-today-372923911)

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