Nômades da Desolação – Parte 5

Cari virou-se para contemplar o lobo já sobre Soni. Por um segundo seu coração apertou, mas não mais do que isso. Ela acabara de abater quatro animais em sequência, e mais um não era problema. Alinhou três flechas entre os dedos e em instantes engatilhou uma após outra na corda. Em rápida sucessão, todas elas voaram contra a fera, cravando-se duas em seu flanco e uma em sua pata dianteira esquerda. Era uma técnica que Gerion ensinara-lhe, para caçar uma presa que se metesse a fugir ao primeiro disparo. O revés era que a velocidade dos tiros comprometia a pontaria, mas era indiscutível a letalidade do resultado. Nenhum animal tinha fôlego para permanecer de pé depois de uma saraivada daquelas.

Porém o lobo nem se abalou. Sem dúvida sentiu os projéteis espetarem-se fundo, pois a cada ferida a abrir-se ele contorceu-se num breve espasmo de agonia. A pata atingida quase cedeu ao peso do corpo que era mais ossos do que carne. Cari já mantinha pronta a quarta flecha quando o animal lançou-lhe uma mirada insignificante, maxilares trêmulos, porém sorridentes, com dentes lambuzados de vermelho. Não avançou contra ela; continuou em cima de Soni, prensando e abocanhando, refém do instinto, sem medo da morte. E a garota concluiu que os lobos da Desolação não eram mais espertos do que os de fora: eram apenas mais desesperados. “Mais insanos.” Ao atirar mais uma vez, ela mesma provou o sabor do desespero – um gosto pastoso que nunca antes experimentara. A seta perfurou o crânio do animal, que recuou centímetros pela força do impacto, cambaleou entre ganidos falhos, gotejando saliva, e desabou sobre Soni.

O rapaz não se mexia, mas Cari não se permitiu fraquejar. Não era hora para lamentos. Conteve o grito que lhe subiu à garganta, diante daquele fato tão duro que parecia irreal: Soni estava morto. “Morto…” Não fazia sentido. Ele e ela – ambos eram imortais, logo se esperava que vivessem juntos ainda por anos a fio. Ou teriam vivido. Teriam persistido lado a lado para sempre, se Cari não houvesse proposto essa aventura idiota. E Soni avisara-lhe tanto. “Não mais.” Agora não mais poderia contar com seus avisos, com sua cautela irritante, com alguém que lhe guardasse as costas… “Não importa.” No momento não importava, porque a garota tinha certeza de que liquidara os lobos que se avizinhavam por trás. Sua retaguarda não mais precisava da proteção de quem fosse.

A adrenalina ressurgia em Cari e expulsava emoções inferiores, deixando espaço só para o ódio – ódio puro e fervilhante. Soni sacrificara-se por ela: em retribuição, havia de cuidar para que o corpo do rapaz não virasse banquete. Seu braço doía de repuxar e liberar a corda naquele ritmo frenético, mas não tencionava parar até que restasse nada além dela e de seu luto. “Paz.” Queria recuperar a paz dos tempos idos em que o céu era azul e o vento era fresco. Queria levá-lo de volta, apesar de saber que as coisas não seriam como antes. Eles quase se haviam beijado naquela ocasião sobre a colina, mas então ela fingira não notar. Fora uma boba, e a lembrança despertou-lhe somente mais ódio.

Trincou os dentes em resposta ao músculo que latejava, alheia ao mundo a escurecer, e pôs-se a disparar com mais vontade. Todos os sobreviventes da matilha investiam sem hesitar contra Soni, despreocupados com a roda de animais mortos que o envolvia. Ele servia como a isca perfeita, de modo que Cari mal necessitava mirar, que o movimento dos inimigos era previsível. As flechas antecipavam-se à trajetória deles. Para a garota, como não mais se achava cercada, aquilo não era mais difícil do que o exercício a que Gerion submetia-a quando não passava de aprendiz em arquearia. À época alvejava os troncos e galhos marcados pelo mestre, na ordem estabelecida por ele. A pequena Cari – a menininha cujo braço cansava depois de retesar a corda uma única vez – ficaria orgulhosa de quem se tornara: uma caçadora experiente, que somava um sem número de presas abatidas. Talvez reprovasse a frieza da jovem que hoje portava seu nome, todavia a menininha era inocente, desconhecia a morte. No pretérito ela teria cruzado a Linha da Vida só para desafiar a autoridade dos pais, não para transformar a realidade dos nômades. Soni acompanhara-a porque acreditara nela, em sua capacidade de realizar mudanças.

– E eu o traí – sussurrou para si, sem transparecer o menor indício de remorso.

Agachou-se para apanhar mais setas quando os que deduzia serem os dois últimos lobos saíram da mata, correndo por sobre os irmãos caídos para reclamar um pedaço de Soni. Os olhos de Cari não se desprenderam deles, mas sua mão tateou o solo sem sucesso. Terra. Folhas secas. Nenhuma flecha. Espiou a aljava: vazia. Examinou os arredores à cata de uma haste partida, uma ponta solta, qualquer objeto afiado que pudesse valer como munição. Nada. Reparou que os animais já pulavam sobre o corpo e agiu de ímpeto: largou o arco, porque de nada prestaria na luz do ocaso que minguava depressa, e logo o clarão da fogueira também encolheria.

– Soni! – gritou enquanto acorria até dele.

Os lobos debruçavam-se sobre o rapaz, farejando e torcendo o pescoço em busca do melhor local para morder. A fera que o matara tombara sobre ele e terminara posando de cobertor de peles, o que ironicamente barrava o acesso dos outros animais à carne.

– Saiam! Vão embora! Deixem-no em paz!

Cari aproximava-se aos berros, mas desconfiava que não conseguiria espantá-los apenas com isso. Tinha de arrancar uma seta de uma das carcaças e usá-la para perfurar os olhos dos predadores ou então… Uma fisgada no tornozelo quase a fez tropeçar. Já no meio do círculo de lobos caídos, a garota olhou para trás ao esfregar a perna machucada: um dos animais lutava para levantar-se e estendia a cabeça em sua direção, com maxilares arreganhados. E no entorno mais feras reviravam-se no chão, arrastando-se para perto dela, rosnando ou abocanhando o ar com ruídos ávidos. Era impressionante o quanto os desgraçados agarravam-se à vida mesmo na zona morta. Talvez a fome ainda os movesse, apesar da dor e da ruína.

– Deixem-no!

Adiantou-se determinada pelo tapete de feras, desviando-se de uma ou outra que tentasse mordê-la. Lembrou-se de sua adaga e revoltou-se por somente agora, tarde demais, cogitar utilizá-la: deixara-a na mochila, e não havia como retornar para pegá-la. A urgência embotava seu raciocínio. Os lobos moribundos atrapalhavam seu avanço. Precisava de uma flecha, somente uma, qualquer uma, a ponta de uma… Viu os predadores abrindo uma brecha para atacar o pescoço de Soni e, nesse instante, ouviu o som de ossos. Cari já se apercebera de que, no solo infestado de folhas do bosque, passos descuidados semelhavam o estalar de ossos. “Mais lobos”, refletiu. O ruído aumentava. “Muitos deles”, e quedou de joelhos quando de novo cravaram dentes em seu tornozelo.

Com sua perna livre desferiu pontapés contra o animal atrevido e engatinhou para longe dele ao sentir a mordida afrouxar. Afastou os cabelos da testa: estava bem menos suada do que esperava. Amparou-se com os braços para não desabar e escrutinou as redondezas, prevendo a movimentação de uma segunda matilha entre as árvores, embora não pudesse confirmar. Não enxergava nada além da fogueira, vacilante à medida que a noite engolia a Desolação. Sua única certeza era que o som de ossos ecoava mais próximo, sempre mais próximo. Imaginava que os lobos em breve desfigurariam o rosto de Soni. “E a culpa é minha.”

– Soni, me desculpe…

O barulho de ossos repicou novamente, dessa vez tão perto que pareceu menos o reverberar de passos e mais… “Um chocalho?” Entre os animais, a quietude instaurou-se enquanto o estranho chacoalhar ressoava um, dois, três turnos. As feras tombadas aquietaram-se, como se desistindo de abocanhar Cari, e as que fuçavam Soni ergueram a cabeça para escutar, imóveis de tão atentas, as orelhas palpitando. A garota decidiu não desperdiçar aquela chance. Empertigou-se e com um impulso rumou para o rapaz, ignorando o tornozelo lanhado a pulsar.

Desenterrou uma seta de um animal efetivamente morto. O chocalho agitava-se, o som mais agudo, mais similar ao de ossículos entrechocando-se. E não cessava a hipnose dos lobos. “Estão desprevenidos.” Esgueirou-se até eles e elevou o braço, decidida a apunhalá-los com a flecha, mas antes que o fizesse ambos os animais entreolharam-se, ainda sem devotar-lhe atenção, e ficaram a encarar o norte. Cari estacou em face da cena. Sua raiva era tanta que a punha a respirar pela boca e a enroscar ferreamente os dedos em torno da haste do projétil. Teria prosseguido. Queria furá-los, vingar-se, mostrar que as garras fabricadas pelas pessoas eram tão afiadas quanto as deles. Contudo a curiosidade falou mais alto, e a garota voltou-se para a direção que os lobos fitavam. Era de onde provinha o chacoalhar. E lá, além dos troncos, emergindo da escuridão sólida como ônix polido, Cari divisava… “Luz?”

Como toda energia na Desolação, era um brilho tênue, mas que crescia à medida que sua fonte avizinhava-se. Era amarelado e tremeluzente, e concentrava-se num círculo pequeno, como acontecia com a lâmpada que os jovens haviam trazido. Seria alguém do clã? “Se for, chegou tarde”, suspirou a garota. E o som de ossos vibrava pela clareira. Seria o Velho Tobi em pessoa? Cari repeliu essas suposições quando a seu lado os lobos meteram-se a rosnar baixinho. Já se aprontava para atacá-los, mas antes que se mexesse eles distanciaram-se em passadas incertas, deram as costas à luz após dois ou três relances furtivos, e partiram.

Por uns segundos, a garota observou-os sem entender. Ao que parecia, o brilho e os ossos haviam-nos espantado. “Mas por quê?”

– Soni!

Aflita, Cari abaixou-se e, com cuidado, empurrou para longe a fera que jazia sobre ele. Deslizou o indicador pelo semblante do rapaz e constatou que morrera de olhos fechados. “Melhor assim.” O estrago no ombro parecia feio, mas não conseguia visualizar com clareza na treva noturna. Captava vislumbres avermelhados rebrilhando de leve à vista da fogueira ali perto: sangue empoçara sob o corpo, decerto. Tentou imaginar um jeito de carregá-lo até a Caravana, mas, antes de pensar em fazê-lo, tinha de certificar-se de algo. Recusava-se a crer que Soni estivesse morto. E na calmaria do momento, embalada pela cadência do chocalho, Cari confrontou o peso incomensurável da tragédia: um mundo sem Soni era sombrio e solitário demais para existir, e a mera insinuação de que esse mundo estivesse prestes a nascer deixava-a nauseada. Como poderia viver sem uma das pessoas que fizera dela quem ela era? Era o mesmo que perder Gerion ou os pais ou a si própria. A Cari que conhecia dependia de Soni para ter sentido… “E juízo.” Quem a repreenderia quando se enganasse a partir de agora? Quem lhe diria entre risos “Eu bem que avisei”?

Talvez de novo se equivocasse e, a fim de tirar a prova, depôs a mão sobre o peito de Soni. Veio-lhe uma vaga impressão de que um episódio semelhante àquele ocorrera recentemente, mas então o coração do rapaz batia como o galope de um cavalo. Agora não sentia nada. Apreensiva, encostou o ouvido em sua camisa, sem se importar com o cheiro rançoso de sangue e pelo encardido que a empestava. Não estava certa se escutava algo ou não. O chacoalhar de ossos, já tão próximo, sufocava a palpitação cardíaca enfraquecida. “Por favor, que esteja batendo. Por favor.” O chocalho soava vigoroso em seu crânio, impedia-a de concentrar-se, irritava-a! “Silêncio!”

– O menino não está morto, se é o que teme – comentou uma voz feminina, num tom indiferente. – Mas está morrendo.

Cari girou o rosto para cima e descobriu a origem da luz que contemplara minutos antes: uma lâmpada redonda fluorescente, feita de papel. A radiância que emitia não era como a de uma chama, piscante mas fixa; na realidade era inconstante, como se estivesse a deslocar-se no interior do receptáculo. A garota detectou sombras miúdas através do papel e deduziu que eram vagalumes: uma lâmpada de vagalumes. E a mão que a segurava pertencia a uma mulher. Uma mulher de idade indecifrável e cujo cabelo devia ser loiro, mas que semelhava mais escuro no estado de imundície e desalinho em que se encontrava. Cari devolveu às íris verdes dela um olhar desconfiado, pois a moça exalava ares de astúcia e presunção, logo era melhor não bancar a tola na frente dela.

– Sei que não está morto – retrucou sem demonstrar dúvida ou aflição. – Acabei de verificar que ele ainda respira e que seu coração ainda palpita – mentiu. – Pergunto-me: como a senhora é capaz de afirmar que está vivo? – “E acaso sabe por quanto tempo ele viverá?”, quis acrescentar.

– Afirmo-o porque pressinto o fluxo da vida dele – respondeu com sua monotonia entediada e entediante. – E você também há de aprendê-lo, criança, quando a hora se apresentar.

“Fluxo da vida?” – A senhora…? De qual clã a senhora…? Quem é a senhora?

A seriedade da mulher não abrandou nem se adensou. Emoção alguma maculava sua face de olhar vazio.

– Sou Marian, criança.

– Marian? A Marian? – A líder que massacrara o próprio clã, conforme uma das versões, ou que o levara à ruína ao desencadear um conflito brutal, de acordo com outra. – Marian do Clã de Marian?

A moça anuiu.

– Receio que sim. Suponho que eu seja a única Marian – esboçou um riso triste. – Afinal, depois do que fiz, certamente amaldiçoaram meu nome. Desde então, nenhum pai deve ter batizado a filha com ele. Não traria bom augúrio.

Cari deu-se conta de que ainda apertava a flecha que resgatara. Não hesitaria em usá-la para proteger a si e a Soni de Marian, se precisasse. Nunca depositara muita fé na história da loucura da líder, mas agora que a arrostava não podia correr o risco de ter-se enganado sobre ela.

Marian indicou o rapaz com um meneio de cabeça.

– O fluxo da vida do menino está instável, pois a Desolação trabalha para revertê-lo a seu favor. Posso estabilizá-lo, mas antes temos de parar o sangramento.

A garota franziu o cenho. A mulher propunha ajudá-la? A oferta contrariava suas expectativas a respeito dela. Se era uma assassina – e sua fala anterior realmente sugeria que cometera um ato horrendo –, não podia ser confiável. Mas na mesma sentença, além de convicta de sua conduta, transparecera arrependida. E, bem, Cari não estava em posição de rejeitar o auxílio, pois do contrário Soni… “E Marian nos salvou.” Pendurados na lâmpada, notara uma dezena de crânios; pelo formato, concluía-se que não eram de pessoas, e sim de outros animais; certamente eles chocavam-se uns contra os outros quando a mulher caminhava, pelo que certamente eram eles que produziam o barulho de chocalho que assustara os lobos.

A garota franziu mais o cenho. E tomou sua decisão.

– Tenho água num odre. Servirá para limparmos o ferimento – replicou enquanto se aprumava de pé. – E há trapos em minha mochila com que podemos improvisar ataduras.

Nômades da Desolação 10 (httpkokoszkaa.deviantart.comartinto-the-dark-forest-323481213)

E foi o que fizeram. Soni permaneceu inconsciente durante todo o processo, mas Cari não se inquietou. Tudo daria certo: tinha de fazer dar certo. Prometera-lhe que chegariam juntos ao vale – e manteria essa promessa. A muda de roupa que a garota rasgara para enfaixar o rapaz tingiu-se de vermelho no átimo em que lhe tocou o ombro machucado. Era um paliativo inútil para estancar a hemorragia.

– Por ora tem de bastar – murmurou Marian. – Guardo pomadas e emplastros em minha cabana que resultarão melhor para fechar a lesão. O importante agora é corrigirmos o fluxo da vida do menino.

– Soni. O nome dele é Soni – ressaltou Cari. Parecia-lhe que Marian desmerecia seu amigo ao chamá-lo de menino. Ele possuía um nome, um belo nome, que não devia ser ignorado.

– Muito bem, criança. Como quiser – retorquiu como se não estivesse interessada nesses detalhes.

– Cari. Meu nome é Cari. – “E não sou mais uma criança”, bufou.

A mulher assentiu mecanicamente e prosseguiu com sua ronda pelo tapete de animais mortos ou quase mortos. A garota não tolerou aquela falta de respeito, entretanto evitou apelar para uma reação explosiva, que não era de seu feitio. Sua resposta foi calma e comedida como de costume.

– Por que está nos ajudando, senhora? Pela maneira como age, dá a entender que está somente desperdiçando seu tempo conosco. Se for assim, não precisa se incomodar. Posso me virar sozinha.

A moça deixou os ossos falarem por si durante uns instantes. Depois rompeu sua mudez:

– Perdoe-me se desaprendi a ser gentil. Sobreviver na Desolação não tem me exigido muita empatia. E – agachou-se para analisar uma das feras – creio que matei gente demais para me importar sinceramente com um menino em vias de morrer.

Cari engoliu a seco. A flecha em sua mão conferia-lhe alguma coragem, mas não tinha ideia se prestaria para enfrentar Marian. Como uma mulher aparentemente comum teria matado tantas pessoas? “E como sobreviveu na zona morta até o presente?” Conteve uma praga ao perceber que, quando fora buscar a peça de roupa na mochila, de novo não aproveitara a oportunidade para munir-se de sua adaga.

– Não necessito explicar meus motivos para você, criança – continuou Marian ao debruçar-se sobre mais um dos predadores. Balançou a cabeça: não era o que procurava. – Escute: faço o que faço porque quero fazer e porque acho necessário fazer; é o bastante. Quanto a se virar sozinha, duvido que você seja capaz de reacender a vida do menino sem o treinamento adequado. Eu posso; já recebi esse treinamento.

Cari cruzou os braços, frustrada ante as circunstâncias.

– Mas preciso de sua assistência. – E a moça acocorou-se diante de mais um lobo e, dessa vez, deu dois tapinhas em seu flanco em sinal de aprovação. – Este aqui está vivo. Servirá.

Acercou-se do corpo de Soni e colocou a lâmpada no solo.

– O fluxo da vida que perpassa o mundo é como um rio que corre em círculos. É impossível identificar onde seu curso se inicia ou onde termina. Ele apenas flui. – Ajoelhou-se ao lado do rapaz e escavou-lhe a cabeleira até afagar a testa sob ela. – Como não sabemos sua origem nem seu fim, não podemos alterar nenhum dos dois. Se interferirmos no meio de seu caminho, talvez construindo uma represa ou um canal, simplesmente o levaremos a desaparecer, pois toda a água escoará para longe. – Relanceou Cari por sobre o ombro e gesticulou para o último lobo que checara, aquele cuja vida confirmara. A garota obedeceu e aproximou-se dele. – Pelo que conhecemos, somos capazes de manipular o fluxo da vida só até antes de ela dissipar-se pelo mundo. O único momento em que isso ocorre é no imediato pós-morte, quando a vida de um vivente jorra que nem um manancial. Nesse estado a vida pode ser moldada, ou então nos possibilita moldar outro fluxo da vida. – Fez uma pausa e transmitiu a orientação: – Crave a seta na fera, criança. Assim poderei redirecionar a vida ao corpo do menino.

“Soni. O nome dele é Soni”, disse para si. E para Marian disse: – Tenho uma ideia melhor.

Deslocou-se até a mochila e pegou a adaga. Regressou para perto do lobo e esperou uma indicação de que a mulher estava pronta para o ritual. À ordem, enfiou a lâmina no pescoço do animal, que se debulhou num espasmo sutil ao perecer. A seguir viu Marian estender o braço esquerdo em sua direção, como se tentando alcançar algo invisível aos olhos. Ao brilho oscilante da lâmpada, reparou os dedos da moça fecharem-se sobre o vazio, ao que seu braço começou a puxar o vento inexistente, a própria noite e o nada. O movimento era suave como o da onda que se quebra na praia, sendo depois tragada de volta pelo oceano para formar-se mais uma vez. Cari nunca contemplara o mar, porém o Velho Tobi encantara todos seus alunos com narrativas fabulosas sobre ele. E à garota a mímica de Marian lembrava o oceano, mesmo que só o houvesse mirado na imaginação. Estendia e puxava, estendia e puxava, estendia e puxava – sempre em curvas delicadas.

Enquanto isso, com a mão direita a mulher descrevia espirais por toda a extensão de Soni. Cari bem achava aquilo tudo uma grande bobagem, porque nada de assombroso parecia acontecer. Luz e sombra dançavam em torno de Marian, mas somente porque volta e meia seus rodeios encobriam os raios luminosos da lâmpada, causando um efeito estroboscópico nem um pouco impressionante. E se não funcionasse? Enquanto perdiam tempo com o ritual, Soni devia estar agonizando em febre. Teria feito melhor se já houvesse suturado o ferimento ou se já estivesse carregando o corpo rumo à Caravana, refletiu a garota. A víbora do Velho Tobi não enviara ninguém para resgatá-los. Um grupo de busca decerto contaria com um curandeiro, mas agora seria tarde…

Cari avançou determinada a acabar com aquela idiotice, mas algo a deteve. Era o indício de que um fenômeno prodigioso estava em andamento. A fogueira atrás de Marian avivava-se como se alimentada por lenha de qualidade, subindo e na sequência inclinando-se, as flamas convergindo para a área onde a mulher tratava de Soni. Distenderam-se como cabelos numa brisa, quase roçaram o dorso curvado de Marian – e ao final se extinguiram tão súbita e cabalmente quanto um elástico a rebentar. As brasas ficaram a estalar e a pipocar até que a floresta mergulhou na mais pura escuridão, quando a lâmpada junto da moça apagou-se também.

– Está terminado – esclareceu Marian. – A energia dos arredores acabou confluindo para o menino. Minha intenção era apenas conservar a vida que ainda sobrava nele, mas é difícil controlar as repercussões desse processo. A fogueira morreu porque a luz e o calor dependem do fluxo da vida para se propagar. E os vagalumes de minha lâmpada morreram em seguida. Mas você e eu não sentimos diferença alguma, por causa de nossa imortalidade.

Cari aprochegou-se devagar, que nem seus olhos de caçadora logravam perfurar o escuro da Desolação à noite.

– Ele vai ficar bem?

– Ele vai viver, se é o que pergunta. Preste atenção – e silenciou, como se no aguardo de qualquer coisa. – Escute.

A garota ouviu um silvo rasgado: não teve dúvida de que era Soni roncando baixinho. Ele sempre falava que era culpa de um problema respiratório. Cari disfarçou uma gargalhada de felicidade. “Obrigada.”

– A respiração dele está mais possante – comentou.

– Sim – a mulher concordou. – É um menino barulhento. Como disse, ele viverá. Mas quando acordará ou se acordará, vai ficar a cargo da vontade dele. – Do chacoalhar que se seguiu, deduzia-se que Marian apanhara do chão sua lâmpada com ossos dependurados. – E há mais um detalhe: temo que ele não seja mais imortal.

A princípio a garota assimilou aquela notícia sem sobressalto. Tudo bem que não fosse mais imortal, contanto que sobrevivesse. Mas no segundo subsequente a realidade abateu-se sobre ela, e seu estômago comprimiu-se: se Soni não era mais imortal, quando retornassem, o Velho Tobi certamente o exilaria. “Não.” Arruinara tudo! Trouxera uma desgraça pior do que a morte: uma existência condenada à Desolação. Por seu delírio de encontrar uma verdade oculta, Cari destruíra…

– Sei o que está pensando, criança. Já fui líder de um clã, conheço nossas regras. O menino não será bem-vindo. Não, não será – sacudiu os ossos para enfatizar a negativa. – Mas não é hora nem lugar para meditar a respeito. Nada de bom habita as trevas da Desolação.

A garota cerrou os punhos; um deles já envolvia o cabo da adaga.

“Acharei o vale com Soni, e então não teremos de nos preocupar com essa punição estúpida de exílio.” – Não tenho medo do escuro – replicou.

Marian fungou uma risada.

– Ah, criança… Isso é porque você não nasceu na escuridão, logo sempre nutre a esperança de voltar a enxergar a luz um dia.

Ao longe Cari discerniu uma segunda fonte luminosa aproximar-se, redonda, inconstante e fluorescente como a lâmpada de Marian.

– Chegou pontualmente – sussurrou a moça.

– Quem…? Quem vem lá? – inquiriu a garota.

– Alguém que nasceu no escuro.

Cari segurou com mais força a adaga.

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