Nômades da Desolação – Parte 4

O rapaz obedeceu. Era uma das pinturas da mãe de Cari, decerto. Reconhecia as pinceladas meio borradas, um estilo que tencionava retratar quão efêmeras eram as imagens capturadas. E as cores eram vivas como as que Teani gostava de usar. “Um vale.”

– A Caravana não chegou a acampar perto desse vale. Paramos bem mais ao sul, mas você e eu mergulhamos nas águas do rio da pintura, o rio formado a partir da combinação desses outros dois aí representados. – Soni lembrava-se da água morna e cristalina, rasa no trecho em que se haviam banhado, permitindo vislumbres das pedrinhas em seu leito. Ele a amiga haviam apanhado um peixe com as mãos nuas depois de uma tarde exaustiva tentando encurralar os cardumes. – Mamãe se admirou com a cor incomum do rio ao passear rumo ao norte, onde as águas eram mais profundas. Aí pediu a meu pai que a acompanhasse até mais longe, até avistar esse vale que você tem em mãos. Quando ela me mostrou a pintura, insisti que me guiasse até o lugar, mas então a Caravana já se preparava para partir. Logo, sem opção, à medida que nossa carroça se distanciava eu ia virando o rosto na direção em que, segundo minha mãe, o vale se localizava. Porém a floresta bloqueava minha visão. Só quando saímos dela pude ver o que tanto queria ver. Galguei aquela colina mais elevada, a norte de onde a Caravana estava quando a deixamos, e entre as árvores, quase no horizonte, consegui divisar uma cachoeira e a ponta de um lago enorme. E no dia seguinte, quando a Desolação já tinha tomado conta da floresta – fez uma pausa – enxerguei essa mesma paisagem.

Nômades da desolação 8 (httpwww.natemaas.com201106yosemite-valley.html)

Ok, o vale na imagem é o Yosemite, entre as montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia. Como é relativamente similar ao cenário descrito por Cari, serve ao propósito de ilustrar este conto.

– Está dizendo que…?

– Que, mesmo em plena zona morta, havia verde e luz aí… – Meditou um instante e reformulou: – Ao menos é o que suponho ter visto… – Balançou a cabeça enfaticamente e de novo reformulou: – Não. Tenho certeza de que vi. Levo comigo incontáveis dúvidas, mas quanto a isso não levo nenhuma.

Soni nem se atreveu a contrariá-la. Refletiu que não raro as pessoas confundiam ilusões com realidade, especialmente quando desejavam ardentemente algo. Cari e o pai do rapaz eram assim, bem como o próprio Soni, ao divagar sobre o amor que alimentava pela amiga. Mas não expôs essas conclusões.

– Existe um vale saudável no meio das terras devastadas: sabe o que isso significa? – indagou Cari. – Significa que alguns dos exilados ainda estão vivos. Provavelmente habitam esse vale.

O rapaz podia antecipar como findaria o raciocínio de Cari.

– O que pessoas inteligentes fariam depois de banidas? O que fariam para sobreviver, hã? – questionou a amiga. – Buscariam não perder o rastro da Caravana e permaneceriam sempre perto da Linha da Vida, para quando tivessem de atravessá-la à procura de comida. Avançariam conforme a Desolação avançasse e eventualmente atingiriam esse vale que não perece. Pessoas inteligentes se fixariam aí. Como sua mãe.

Soni percebeu-se sorrindo feito um idiota, os cantos da boca alargando-se e a face esquentando, sem conseguir controlar qualquer dessas reações ou parar de admirar as íris reluzentes de Cari. No íntimo desconfiava que a mãe não procedera do jeito cogitado pela amiga. Se houvesse seguido a Caravana, ainda que de longe, sua mãe poderia ter criado problemas para ele e o pai, e Teani não se teria arriscado a tanto; do contrário sua despedida – pacífica, voluntária, justamente no intuito de evitar transtornos – talvez não houvesse valido de nada. Julgou-se um péssimo filho por acalentar tão poucas esperanças por revê-la. O sorriso que ele ainda preservava não se devia à ideia de Cari propriamente, e sim à preocupação que a amiga nutria acerca dele. “Ela se importa.” Ora, então a jornada visava também à felicidade dele. Não era mero capricho dela. Por conta disso, Soni preferiu não revelar suas conjecturas pessimistas sobre o destino da mãe. Afinal, a amiga podia estar certa sobre o assunto. “Por mais que tenha se enganado sobre a rosa e sobre os lobos.”

– Obrigado – disse somente. – E ainda bem que me contou, porque eu já traçava planos para retornar à Caravana. Nossa missão parecia não progredir, daí que o melhor a fazer seria me retirar sorrateiramente.

Cari estalou a língua e exclamou:

– Outra mentira, Soni! – O rapaz estacou, sem saber a que ela referia-se ao acusá-lo de mentiroso. A amiga esboçou um sorriso travesso: – Medroso como você é, não voltaria sozinho.

– Estou aqui com você, não estou? – retorquiu com uma careta.

Cari divertiu-se com a irritação dele.

– Sim, está. E eu não teria me imaginado com mais ninguém na Desolação. Confesso que me imaginei sozinha aqui, mas, se em companhia de alguém, só me imaginava com você, Soni.

– Quer dizer que chegou a se conceber sozinha na zona morta? Desacompanhada por mim? Achou que eu não apareceria naquela noite, é isso? – Sua indignação persistia. – Por que não estou surpreso? Agradeço o voto de confiança…

– Bobo. Você ignorou o restante de minha sentença para se concentrar num único ponto dela.

– No ponto que interessa.

– No ponto que interessa a você. No ponto que, para você, é conveniente enfatizar – cruzou os braços. – Sim, cheguei a me visualizar sozinha aqui, porque não sabia o que se passava dentro de sua cabeça. Ainda não sei. E creio que às vezes nem você sabe. Não era impossível que você não desse as caras na noite marcada.

– Mas eu vim, não vim? – pressionou.

– Veio. Deseja ouvir de minha boca? Pois bem: você veio, está aqui. O que indica que me equivoquei parcialmente. O que implica que lhe devo desculpas parciais. – E a contragosto murmurou: – Desculpe-me em parte.

– Como é? – o rapaz fez menção de não escutar.

– Desculpe-me – ela repetiu mais alto. – Está satisfeito?

– Bastante – sorriu triunfante.

Cari riu em retorno, e Soni juntou-se a ela, até que gradualmente o riso minguou, que nem uma chuva de verão prestes a ceder. O rapaz encarou a amiga, que lhe retribuiu o olhar. Agora ambos estavam silenciosos, mas ela ainda sorria quando se lhe dirigiu:

– Enganei-me vezes de mais para alguém responsável por nos guiar. Mas preciso que você continue confiando em mim, entendeu?

Soni entendia, embora não entendesse a razão da súbita formalidade de Cari.

– Aja conforme minhas palavras, certo? – O plácido sorriso não sumia. – Primeiro: peço que se acalme…

– Eu não…

– Peço que não se mova bruscamente.

Pelos ossos, o que Cari pretendia? Se de um lado a tranquilidade dela fazia-o relaxar, de outro aquele suspense desnorteava-o.

– E peço que dome seu medo. Pois eles são capazes de senti-lo, os lobos que nos rodeiam.

Nômades da desolação 6

Soni demorou a processar a informação. Piscou, franziu a testa e de novo piscou. Quando a compreensão abateu-se sobre ele, o ar escapou-lhe. O sorriso gentil não desaparecia do semblante da amiga. Era uma tática frustrada para confortá-lo, porque agora, se prestasse atenção, o rapaz lograva captar o estalido no limiar da audição: ocrac crac de passos. O crac crac de antes, mas multiplicado por dez, vinte, a toda volta – como se o próprio solo do bosque rastejasse. Soni tinha uma vaga consciência de que seus lábios tiritavam, enquanto figuras grandes deslizavam pela borda de sua vista. Não se atrevia a mexer nada além dos olhos, o coração disparado, a voz presa. A custo discernia pedaços das criaturas à espreita: uma pata, um focinho, uma cauda, a pelagem de um dorso, todos entre as árvores.

– Eu me distraí com nossa conversa – esclareceu Cari. O rapaz mirou-a com íris suplicantes, e uma parte de si, quase nula, que não se afogava em desespero, odiou-se por demonstrar tamanha vulnerabilidade. – Os lobos devem ter se acostumado às exigências da Desolação. Se se aproximaram, estão mais ousados que os de além da Linha da Vida. – A amiga deslocou-se até o arco. Depositou uma dezena de setas no chão, pois era mais fácil apanhá-las fora da aljava. Ajustou uma delas à corda. Seus movimentos eram vagarosos, mas não tensos. – Estão mais astutos, para nos cercarem com sutileza, e durante o dia, quando não costumam caçar. É quase como se tivessem preparado uma emboscada.

Soni ergueu-se de um pulo, mas não encontrava firmeza nos pés. Hesitante, varreu o entorno: não queria confirmar com a visão o que sua mente já suspeitava. Os animais entravam na clareira onde ele e Cari esperavam. Esgueiravam-se por entre os troncos em progressão coordenada, ou que no mínimo semelhava coordenada. Circundavam o rapaz e a amiga, como se intentando encurralá-los. Crac craccrac crac.

– Temos de correr – urgiu entre os dentes, e sua voz saiu mais rouca do que previra. – Por favor, Cari – implorou após engolir um choramingo.

– Você não corre mais que um lobo. Não é páreo sequer para os bichos esqueléticos daqui. E certamente não rivaliza com a matilha inteira. – A amiga retesou a corda, e os dedos que pinçavam a flecha quase tocaram sua bochecha. Como as penas da haste encobriam-lhe os lábios, o rapaz não podia confirmar se Cari sorria, porém deduziu que sim. – E se fugir, Soni, você vira presa.

E disparou. O tiro cravou-se fundo, bem no meio da testa de um dos animais. Ao som abafado seguiu-se um ganido. O lobo agitou a cabeça como se uma nuvem de mosquitos o incomodasse. Rosnava, salivava, abocanhava o vento e uma ou duas vezes tentou espanar com a pata algo invisível à frente de seu focinho. Depois cambaleou, ébrio, e desabou sobre as folhas secas.

O rapaz adivinhava o objetivo de Cari. Tinham de fazer-se temidos, bancar uma ameaça maior para enfrentar a ameaça que os acuava. Precisavam mostrar à matilha que caçá-los não valia o esforço, porque eles resistiriam. Precisavam mostrar quão perigoso era caçá-los, e que o risco não compensava o ganho. “Mas ela não enxerga que os lobos daqui são diferentes.” Ou melhor, enxergava em parte: admitira que eram mais discretos e mais ardilosos. O que se recusava a confessar era que se enganava, novamente se enganava. Esses lobos não se deixariam intimidar.

Seus olhos dourados eram inchados e sem lustro: olhos exaustos do miasma. Os corpos eram esquálidos, as costelas em realce, a ponto de Soni identificar que tremiam a cada respiração. O pelo cinzento parecia couro encanecido, e as passadas não eram lânguidas e acuradas, e sim trôpegas. Mas o pior de tudo, o rapaz notou, era que todos semelhavam sorrir. Sorriam como os cães da Caravana à espera de um osso: a língua salivante pendendo boca afora, o olhar vidrado, a baba escorrendo reluzente à vista da fogueira, feito mel. Soni não achava graça nenhuma naquilo, mas para os lobos a situação devia ser hilária.

Havia mais de um mês penavam para rastrear carne decente, mas agora se deparavam com dois filhotes de gente, e não tão mal alimentados. E daí que a fêmea lançava garras voadoras? Eles dispunham da vantagem numérica, e o mais primitivo e implacável dos instintos movia-os: a fome. E a fome sobrepunha-se ao medo e a qualquer senso de irmandade para com o companheiro abatido ou para com outros que viessem a tombar. Se possuíssem o discernimento para ponderar que estavam prensados entre a morte pela fome e a morte pelas setas, talvez preferissem a segunda opção: que uns morressem para que outros degustassem o butim.

“Que uns morram para que outros sobrevivam”, pensou Soni. E tomou sua resolução. Não havia como escapar. Não havia para onde escapar, que a matilha cercava-os. Crac crac. E aproximava-se. Crac crac. E nesse contexto ele podia pelo menos… “Parar de ser um fardo.” Apanhou do solo um ramo largo e comprido e mergulhou uma de suas extremidades nas chamas, para que se inflamasse. Se o sorriso extasiado de Cari sugeria que ainda tinham uma chance, Soni não ia desperdiçá-la. Ficou a rodear a clareira brandindo a tocha imensa, recém-acesa, e urrando incoerências a plenos pulmões. Não sabia se com isso assustava ou confundia os predadores, pois eles só faziam rir, as mandíbulas arreganhadas como se zombassem de seu teatrinho. Era como se dissessem: “Sua valentia é postiça, fedelho. Você fede a desespero, e nós gostamos”.

Mas o fato era que, por um motivo qualquer, os lobos interrompiam ou reduziam a marcha quando o clarão incandescente varava seu caminho. “Isso! Isso mesmo: cautela, cuidado. O fogo queima, e vocês sabem.” A estratégia funcionava. E enquanto o rapaz bramia e esbracejava, o arco de Cari cantava. E em coro irrompiam ganidos em sequência, porque cada flecha liberada era uma fera apaziguada. Os projéteis fincavam-se em focinhos e entre olhos e em maxilares abertos e entre costelas e em articulações. Em três ocasiões Soni escutou um silvo perto da orelha e imaginou sentir cócegas aí, quando uma seta da amiga cruzava-lhe a visão num voo certeiro. Confiava totalmente nela, e agora inexistia medo. Agora, era ele e Cari quem ditavam o ritmo da batalha. A matilha ainda não recuava, mas era só uma questão de tempo: Soni contava oito animais silenciados, e embora mais uns vinte se ocultassem nas sombras, a aljava da amiga daria conta daqueles tantos. Não, não errava em seus cálculos.

E foi num transe abobalhado que entreviu a fera saltar sobre si. Desequilibrou-se e percebeu-se caindo, depois esmagado contra a terra. Patas calejadas pousaram em seu peito, arrancando-lhe o fôlego. E em meio a arquejos e golfadas, a centímetros do rosto, ele encarou o lobo sorridente e faminto. O bafo quente e fétido agitou-lhe os cabelos. A saliva respingou-lhe no queixo e pescoço. A surpresa privara-o do raciocínio, pelo que a primeira conclusão só brotou em sua mente vazia após dois segundos: derrubara a tocha na queda. O segundo pensamento foi que, se até o momento nenhuma flecha perfurara o monstro, talvez Cari estivesse de costas para eles, lidando com outros lobos. “Não.”

– Ca-!

Teria gritado ao resgatar a voz. Teria gritado se o ombro não houvesse começado a ferver. O calor na Desolação não obedecia ao senso comum, nada devia ferver daquele jeito, não ali. Mas seu ombro fervia. A dor veio em seguida, lancinante, torturante, delirante. Perdeu-se em convulsões e esperneou; perdeu-se em gorgolejos e emudeceu; e perdeu-se em lágrimas e berrou como um garotinho. Oh, ossos, oh, pelos quatro ventos, que alguém findasse aquela agonia! “Por favor…” A fera levava-lhe a carne, o sangue já lhe encharcava as roupas, a vida… “Fluxo da vida…” Esvaía-se. Dissipava-se como tudo na zona morta. Não podia evitar.

E no martírio febril uma minúscula parte de si captou a voz de Cari, e ela falava seu nome. Se a dor não fosse tanta, ele teria ruborizado àquela genuína demonstração de afeto. A minúscula parte de si ouviu um ruído surdo. “Flechas”, divagou, mas o monstro continuava a mexer-se e a morder a despeito delas. A consciência anuviava, a vista embaçava. A minúscula parte de si escutou a própria voz, uma lembrança distante:

“Que uns morram para que outros sobrevivam.” Era o que ele queria, não? “Cari, aproveite para fugir.” Frio. “Por favor…”

Escutou o barulho de ossos uma última vez.

Depois nada.

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