Nômades da Desolação – Parte 2

Nômades da desolação 5

O estômago roncou de novo, mas dessa vez Soni obrigou-o a aquietar-se. Fome: era natural senti-la perto do desjejum, embora naquele breu imutável não se pudesse ter certeza das horas. O rapaz nem se incomodou em conferir a posição do sol acima da teia de galhos desfolhados e enegrecidos, porque já sabia o que esperar. Ele e Cari já somavam dez dias na Desolação, mais do que o suficiente para que houvesse aprendido a não contar com uma mísera réstia de luz penetrando o teto fuliginoso do bosque. “O teto que não é bem um teto e que de fuligem não tem nada.” Pois o céu estava limpo, descoberto, como na tarde em que ele e Cari haviam conversado sobre a Linha da Vida. A memória parecia tão distante, perdida no tempo. “Nós também.” Mas ao contrário do azul de doer os olhos daquela ocasião, nas alturas agora predominava um laranja envenenado ou um bronze velho acinzentado. Da aurora ao pôr do sol o mundo era um ocaso taciturno ali.

E à noite… Não. Ainda faltava meio dia para as trevas, e o bom senso ditava que não se devia pensar nelas prematuramente. “À noite…” Tarde demais: a lembrança maldita chegava-lhe à mente sem permissão. O escuro tão denso que pesava; mais preto do que o negrume que vem com as pestanas fechadas; pior do que um pesadelo, pois equivalia a ficar consciente durante um sono profundo, sem sonhos bons nem maus, fitando a escuridão infinita do nada absoluto. A barriga de Soni gemeu um segundo turno, dessa vez de nervosismo. Por um instante torceu por que Cari não o pegasse naquele estado de mais puro terror. Não desejava posar de faminto ou cansado ou melindroso ou medroso na frente da amiga – por mais que ele próprio se julgasse tudo isso.

Cari andava adiante dele em passos firmes e cuidadosos, sem transparecer o menor sinal de medo ou hesitação. Longe de Soni duvidar da coragem dela, porém desconfiava que sua tranquilidade devia-se sobretudo ao empenho que vinha dedicando àquela missão, e não a uma intrepidez fervilhante. Decerto uma centena de conjecturas pululava-lhe na cabeça, dado seu jeito de avançar quase em transe, como se alheia aos perigos à espreita na zona morta. E Soni despreocupou-se, menos pelo autocontrole que a amiga exalava e mais pelo fato de que tão absorta estava, que não interromperia seu ritmo para checá-lo atrás. Inexistia risco de que o percebesse esbaforido, com as íris suplicando por uma pausa para o almoço e com cada nervo ocupado em domar um berro ensurdecedor. O rapaz não tinha ideia de por que gritaria, mas sabia que queria. Talvez para extravasar alguma frustração, talvez para aliviar a tensão, talvez para conservar a sanidade.

“Talvez por aquilo!” Pois ali o desespero era reação mais sensata do que a calma demente de Cari. Soni engoliu o berro que lhe subiu à garganta. Tinha gosto de vômito. Torceu o nariz ao fedor repulsivo que escapava do amontoado de peles à frente.

– O urso está morto, Soni. Não precisa surtar.

O rapaz indignou-se.

– Eu não ia surtar. – A voz saiu nasalada, porque ele apertava as narinas entre os dedos.

Cari agachou-se junto da carcaça, a face mais séria do que o normal ao examiná-la. O rapaz acercou-se com prudência, vigiando os arredores. A fome esvaía-se na mesma proporção em que o cheiro nauseabundo aumentava. “Pelos ossos, a Desolação conseguiu matar um urso. Um urso gordo, parrudo e assassino!” Se bem que o animal parecesse mais magro do que deveria, agora que Soni conferia-o de perto. Ele jazia sobre as quatro patas, como se descansasse. Mas o corpo nem remotamente sinalizava boa saúde, que sua pelagem semelhava folgada demais, cinzenta demais. “Decrépita demais”, arrepiou-se.

– Vamos logo, Cari, antes que algum animal apareça em busca de comida. – Lobos: eis o que receava.

A amiga rejeitou a pressa com um aceno tranquilo da mão.

– Este cheiro vai é afastá-los, em vez de atraí-los. E observe: há moscas em meio aos pelos – e Soni viu-as; todas mortas, feito passas num bolo. – Já faz tempo que desfaleceu. Nenhum animal ajuizado tocaria esta carne.

– Não existem animais ajuizados aqui. – “Na zona morta, nada preserva o juízo”, pensou. – E eu não estava falando do urso: existe alimento mais fresco. – “Nós.”

Escutou-se um farfalhar distante, como o de folhas esmigalhando-se, ao que Soni gemeu e Cari levantou-se bufando.

– Certo, certo, vamos. – Espanou a poeira das roupas e a seguir bateu uma palma na outra, para limpá-las também. – Ia esfolá-lo, mas isso nos tomaria dois dias pelo menos.

– E, na Desolação, um casaco de urso não teria a mínima utilidade – acrescentou o rapaz. De costas para ele, a amiga não reparou em sua expressão desdenhosa, que sugeria uma crítica de “Perda de tempo”.

Cari já se embrenhava entre as árvores, sem se preocupar em replicar. Depois de dez minutos de silêncio agourento entre eles, além de sons agourentos nos bastidores da mata, a amiga estacou e disse:

– Ouça, Soni: há medo verdadeiro aqui, assim como em qualquer floresta que se preze. Quando acharmos um motivo real para senti-lo, vamos enfrentá-lo. Por enquanto, não se deixe levar por temores infundados – e voltou a andar.

Soni cerrou os punhos e os dentes, e a contragosto pôs-se a caminho. Concordava com a atitude da amiga, mas detestou seu jeito de comunicá-la. “Estúpida, estúpida!” E ele era um completo idiota por grudar-se em seu encalço, que nem um cachorrinho tão fiel quanto inconsequente. Era alguém dispensável nessa missão. “Um fardo.”

Ora, por que continuava a segui-la, então? Em pensamento tentou enumerar suas razões. Uma: porque não mais lhe sobrava escolha. Não se imaginava retornando metros e metros sozinho… “E no escuro”, estremeceu. E fazia-o para o bem de todo o clã; claro, por isso também. “Isso se a hipótese de Cari se confirmar.” E o terceiro motivo proveio de uma voz mais fraca do que um sussurro, relegada a um canto remoto de seu âmago, e à sugestão dela Soni sentiu o rosto aquecer. “Porque é ela, tonto”, insistia-lhe a voz. Por ela, por Cari, o rapaz prosseguiria, não importava quanto durasse a jornada. “E não importa se estamos perdidos.”

Sim, guardava consigo a convicção de que não intencionalmente a amiga os guiara à perdição. Agora ela desconhecia o caminho de volta, o de ida, qualquer deles. “Ah, se no mínimo a tola tivesse deixado a rosa no devido lugar…”, remoia. A quarta e última vez em que lhe perguntara sobre o rumo da jornada fora há cinco ou seis dias.

– Descobrirá quando chegarmos lá – ela respondera num tom displicente.

A questão não a perturbara, mas Soni não se contentara com a resposta – na verdade reprimira a vontade de soltar um palavrão e chiar: “Sua serenidade me irrita. Você pode ser cega quando persegue seus ideais, mas não me mantenha cego se pretende que eu a acompanhe inferno adentro”. A partir de então ele desistira de inquiri-la a respeito, antevendo que novamente receberia uma réplica insatisfatória. O que Soni não compreendia era isto: se realmente estavam sem trilha (como apostava que estavam), como Cari conseguia disfarçar tão bem as incertezas que a consumiam? Pois havia incertezas, não? A segurança dela ao desbravar as terras devastadas não apontava nessa direção. O rapaz mordeu o lábio inferior, desconcertado. Como lidar com aquela dissonância de informações? A amiga pisava quase sem produzir ruído, a despeito do solo recoberto de folhas e galhos quebradiços. De quando em quando saltitava por sobre raízes salientes ou pedras limosas, equilibrando-se com a agilidade de uma gata. Não era a atitude de alguém desnorteado. Teria Soni se enganado?

“Tanto melhor. Significa que ela sabe para onde está nos levando.” Cari merecia um grão de confiança, porque afinal eles ainda estavam vivos. Contra todas as expectativas, em plena zona morta, ainda estavam vivos. Mas por quanto tempo, se as provisões rareavam, a água não era fácil de encontrar e a caça semelhava virtualmente inexistente? Aliás, talvez a marcha leve da amiga fosse apenas hábito de caçadora. Soni já a auxiliara em duas ou três expedições e nessas oportunidades conferira de perto a habilidade de que outros só ouviam falar. Seria mais exato contar que ele voluntariara-se para assisti-la a carregar os animais abatidos até a Caravana, porque de resto, segundo Cari, o rapaz só atrapalhara: respirava alto demais, era péssimo em camuflagem e, a uma passada em falso, rompera um graveto e afugentara uma corça assustadiça.

E à símile dessas ocasiões agora a amiga caminhava como se no rastro de presas imaginárias, farejando, bamboleando feito uma leoa. A principal diferença era que agora as presas eram efetivamente imaginárias. No quinto dia na Desolação, acabado o suprimento de carne, Cari detectara numa reentrância rochosa uma raposa magricela que mal se aguentava de pé: não era presa digna do nome. Tanto que só a alvejara com uma flecha (e à queima-roupa) para que não tivesse de matá-la torcendo-lhe o pescoço, trabalho mais sujo. O animal servira para uma única refeição, mas, após, a sensação de jejum não desaparecera. Daí em diante, à falta de caça, haviam-se arranjado com frutas e sopa dos vegetais que Soni afanara da Carroça dos Mantimentos: comida de pouca sustância. Em breve esses alimentos também findariam, e até o momento não se haviam deparado com substituto adequado: nada além de amoras murchas, cogumelos certamente venenosos e ruibarbo selvagem amargo. Embora Cari se negasse a reconhecer, a escassez de comida era, sim, um problema – e grave. Nas circunstâncias, fazia-se urgente até, visto que não vislumbravam perspectiva de onde ou como se reabastecer de provisões. Ficavam a racionar migalhas, logo não era à toa que Soni estivesse faminto.

O rapaz arrastava-se aos tropeços no encalço da amiga. Por onde passava irrompia ocrac crac de folhas amassadas e ramos partidos. Era um som abafado, como acontecia com todo som na zona morta. Soni e Cari ainda não se haviam acostumado à acústica daquele cenário e, portanto, evitavam trocar palavra. Seu último diálogo prolongado ocorrera à soleira da Desolação, havia dez dias. “No início desta loucura. Então eu ainda podia voltar atrás.”

– Por que fez isso, estúpida?! – esbravejara ele quando ela, no mesmo movimento gracioso com que coletava setas do chão, agachara-se junto à rosa (além deles, a única vivente naquele canto da zona morta) e arrancara-a pelo talo espinhoso. No átimo em que enunciara a frase Soni apertara a garganta, pois estranhara a própria voz. A despeito da indignação que imprimira no grito, soara-lhe como se houvesse tapado a boca com a palma: um ruído contido, sufocado. “Sufocante.”

– Esta flor tem resistido no miasma daqui – respondera Cari ao afixá-la ao cinto. Também sua voz semelhava estrangulada, mas ela não demonstrara desconforto. – Planejo desvendar se persistirá resistindo fora do chão.

– É uma planta! E plantas. Vivem. No solo! – contestara ainda sem conseguir acreditar. Depois engolira a seco e inspirara fundo. Atormentava-o a transmutação espectral que acometia seu timbre.

– Não neste solo árido. Faz cerca de uma semana que a Desolação reclamou este trecho, logo faz cerca de uma semana que a luz do sol não alcança esta flor. Apesar disso ela tem batalhado e sobreviveu até agora. – Cari aprumara-se, acomodara melhor sua mochila aos ombros, dera as costas a Soni e arrematara: – Será um experimento, tal como os de seu pai.

– Será um experimento fracassado como os dele, você quer dizer – debochara. – E, pelos ossos, como sairemos daqui se você liquidou nosso único ponto de referência?

– Quando regressarmos a Desolação já terá se expandido por mais duas centenas de metros, pelo menos. Ter deixado a rosa onde estava de nada teria adiantado. Raciocine: nem eu lograria avistá-la nesta escuridão – bufara. – Mal enxergo minha mão diante de meus olhos. Creio que devíamos ter acendido a lâmpada antes de entrar.

– Heh, é sério que você, justo você me pede para raciocinar?

Soni escutara-a resfolegar em meio às trevas.

– Sim, é o que lhe peço. E também que se acalme e que pare de falar. Parece que estamos conversando debaixo d’água aqui. Não gosto disso.

Já o rapaz gostara de saber que Cari desgostava daquele lugar, porque daí se deduzia que ela não era inabalável.

– Você vem me ajudar ou não? – A voz brotara de trás, o que o espantara. Havia três segundos a amiga estivera a sua frente. Soni virara-se para contemplar Cari acenando-lhe do outro lado da Linha da Vida – do lado certo. Concluíra que, se o breu ao redor o cegava, e se também era surdo aos passos da amiga, não a notara cruzar a fronteira da zona morta. “É que nem um fantasma, ela.”

Soni auxiliara-a a encher com gordura animal a lâmpada de cerâmica por um orifício em seu topo. Era um modelo similar ao que as sentinelas portavam em suas rondas e igual ao que os adultos compartilhavam quando se metiam a confabular até tarde sobre coisas sérias e bobagens. Nessas ocasiões, por uma brecha em sua tenda o rapaz espiava o círculo amarelado tremeluzente, empestado da fumaça dos cachimbos: as pessoas, seu pai entre elas, riam de piadas indecentes, tomavam decisões e ponderavam sobre o futuro. Soni invejava-as, pois elas não precisavam sujeitar-se ao toque de recolher. Mas agora que burlara esse mesmo toque de recolher, de bom grado ele cambiaria qualquer senso de aventura pela chance de estar deitado em sua esteira, com o travesseiro sob a cabeça. Agora, às portas da Desolação, sua vidinha ordinária e segura não parecia tão ruim.

– Ei, cuidado para não queimar minha mão.

– Apenas segure pela alça e vai ficar tudo bem – afirmara Cari enquanto riscava a pederneira contra a lâmina de sua adaga, produzindo faíscas próximo ao bocal da lâmpada.

– Você nunca caçou à noite. Nunca teve de usar uma destas – balbuciara.

– Não há risco. É fácil botá-la para funcionar. Vê? – dissera quando o fogo luzira e começara a arder.

– Certo, sem risco – concordara. – Suponho que a chama vá se concentrar no bocal. É para onde escorre a gordura que a alimenta. Até que é bem engenhoso.

– Que seja – desdenhara. – Vamos logo. Antes que as sentinelas reparem nesse…engenho em ação.

Soni entregara a lâmpada a Cari, pois era ela quem os guiaria. Assim que haviam atravessado a Linha da Vida de novo, porém, o fogo perdera algo de seu brilho, e a luminosidade que emitia encolhera.

– Acha que devo protegê-la com a mão para que o vento não a apague?

– Não. Aqui o ar não circula – assinalara o rapaz. – E imagino que o mesmo vale para a luz e para o som. A lâmpada enfraqueceu porque nenhuma luz é forte na Desolação, só isso. – “Estamos condenados”, acrescentara no íntimo.

Soni não se equivocara. Com efeito as terras devastadas aparentavam confiscar o viço de tudo. Não era como se uma cúpula invisível bloqueasse os raios solares e o luar; mais correto seria pensar que, ao adentrar a área afetada pela Desolação, ambos dissipavam-se, evaporavam, diminuíam em esplendor. Talvez assim se desse com o movimento também, especulara o rapaz. Pois no quarto dia haviam atingido o rio que percorria o bosque, e Soni tivera certeza de que a correnteza estava menos caudalosa do que no mês anterior, quando o clã realizara aquela travessia, numa época em que o verde exuberante ainda despontava nos arredores. Claro, talvez nada de errado existisse no rio em si, talvez o problema repousasse no terreno de suas margens, ou talvez algo a montante entravasse seu fluxo. “Meu pai apreciaria este enigma”, refletira ao curvar-se com Cari junto às águas a fim de reabastecer os odres. Elas escoavam como se dotadas de viscosidade – não tanto quanto o sangue ou o mel, no entanto se podia defini-las como viscosas mesmo assim. Fora a amiga quem ousara beber delas primeiro, para mostrar que não ofereciam perigo. Soni provara em seguida e tampouco identificara impureza.

Idem sucedia com o calor. Não que a zona morta fosse fria. O rapaz já presenciara invernos congelantes, e certa vez o clã enfrentara uma nevasca. Daquelas madrugadas brancas, Soni lembrava-se de como demorara a adormecer, que o frio alojara-se em seus pés de tal maneira, que nem a fogueira a crepitar no centro da tenda, meias e dois cobertores haviam bastado para expurgá-lo. Ululava com estardalhaço lá fora, e a armação de lona sacudia-se com violência, como se prestes a sair voando a qualquer momento. Cari gripara e submetera-se a uma dieta de caldos quentes e chás até melhorar. Tempos difíceis.

Não, o clima da Desolação nem sequer se aproximava disso. E não obstante uma sensação esquisita rastejara pelo corpo do rapaz na última noite. Até então ele e a amiga vinham mantendo uma rotina de catar lenha e aprontar uma fogueira a cada crepúsculo. Não era uma tarefa árdua, porque dispunham de madeira seca em abundância nas cercanias. Revezavam-se em turnos de vigília por insistência de Soni, embora Cari houvesse-lhe garantido que não encontrariam predadores em condições de fazer-lhes mal; a raposa moribunda que a amiga flechara era prova viva – agora morta – dessa tese.

Só que na noite anterior o cenário mudara: o silêncio de sempre cedera espaço a um concerto de uivos – roucos como era típico da acústica peculiar ao ambiente, contudo penetrantes. Um arrepio apunhalara a espinha do rapaz, que urgira com Cari para que se escondessem ou trepassem numa árvore ou algo do tipo.

– Lobos raramente atacam pessoas, Soni – comentara a amiga como se proferisse a verdade mais óbvia do universo. – Gerion me ensinou que eles uivam para marcar o território. É um aviso, não uma ameaça.

O rapaz pegara-se meditando sobre qual era exatamente a diferença entre aviso e ameaça. Concluíra que, naquela situação desgraçada, decerto eram sinônimos.

– Só partirão para cima de nós se corrermos. Do contrário ficarão cautelosos.

Não era uma informação animadora. Não, nem um pouco. Soni duvidava de que conseguiria impedir suas pernas de mexerem-se sozinhas em busca de salvação. Já então malograva evitar que tremessem, à medida que um uivo ecoava do norte, outro respondia do sul e mais três emergiam do oeste – todos se fundindo num único som agudo que vibrava os tímpanos e acelerava o coração. À penumbra mortiça do dia que morria o rapaz discernira Cari munir-se do arco encordoado e engatar uma seta. Era nada mais do que uma precaução, lógico, mas uma precaução que sinalizava o receio da amiga.

– Eles devem ter ouvido seus passos – brincara sem a menor sombra de humor. – Na realidade, podem ter ouvido meus passos também. A audição deles é sensível o bastante para captar as folhas caindo das árvores durante o outono, Gerion me explicou.

Gerion era o mestre-caçador do Clã de Marian, que viajava mais ao norte. Propalavam que não estreitava laços com nenhuma pessoa, nem com os membros de seu próprio grupo, e ele mesmo não ocultava que preferia o isolamento do ermo ao alvoroço de uma caravana. A exceção em sua tendência à solidão fora Cari: a amiga afeiçoara-se ao rústico de cabelo comprido e de barba por fazer – e que sempre ostentava a aparência de necessitar desesperadamente de um banho, conquanto não cheirasse mal; o perfume dele era o das matas inexploradas, de pinhas e de chuva, defendia Cari. Gerion instruíra-a em muitos assuntos de sobrevivência, de preparação de armadilhas a rastreamento, de fabricação de flechas a arquearia, de domesticação de animais vivos a curtimento da pele dos mortos. O Clã de Tobi não possuía um mestre-caçador, pelo que a amiga anunciava que seria o primeiro. “Ou a primeira”, corrigia-se. “A primeira mestra-caçadora.”

Gerion era sábio em seu ofício, logo era sábio fiar-se em suas lições. “Mas Gerion jamais perambulou pela zona morta.” Numa ocasião, o pai de Soni solicitara a assistência do mestre-caçador e de outros homens para examinar os marcadores que ele fincara na paisagem antes de a Desolação espraiar-se; mas então Gerion e os demais haviam cruzado a Linha da Vida por algumas horas no máximo – e não haviam se distanciado em excesso da Caravana. Salvo os pobres coitados que eram deixados para trás, ninguém se havia arriscado tanto quanto os dois jovens nas terras devastadas.

– Provavelmente os lobos perceberam que entramos no território de caça deles e estão nos mandando dar o fora – teimara Cari.

– Território de caça? Heh, você e eu sabemos que não há caça aqui – o rapaz apontara. – Ou não havia. Até chegarmos – repensara com um calafrio.

Daí que naquela noite, na noite anterior, Soni e a amiga não haviam dormido recostados contra uma árvore e com uma fogueira aconchegante a estalar diante dos olhos. Cari insistira que o fogo serviria para assustar os lobos se eles resolvessem agir, todavia o rapaz fingira não prestar atenção. Somente um lugar alto os resguardaria dos predadores: Soni enfiara tal ideia na cabeça, e nenhum argumento ou proposta alternativa dissuadira-o do brilhantismo dela. Como suspeitavam que as árvores podres da região não os aguentariam – nem se cada um se empoleirasse numa árvore distinta –, a opção sobrante fora escalar uma encosta de bordas íngremes e rochosas. Certamente os lobos não poderiam subir com garras e dentes. Até Cari confessara que pernoitar ali em cima seria conveniente, porque quando amanhecesse a altitude – a assomar por sobre as copas do bosque – propiciaria um relance panorâmico dos arredores; então a amiga teria melhor noção de quanto chão faltava para alcançarem seu destino, qualquer que fosse ele.

A complicação imprevista fora a superfície diminuta da elevação, que mal comportava ambos os jovens e suas mochilas. Obviamente não cabia uma fogueira no espaço disponível, o que se adequava perfeitamente aos planos do rapaz: para ele, as chamas só atrairiam os lobos, em vez de espantá-los. Não importava o que dissesse Cari sobre a péssima visão noturna deles: nem a mais cega das toupeiras ignoraria um clarão amarelo pulsando em meio às trevas da Desolação. E, se os lobos escutavam tão bem assim, Soni apostava que escutariam as brasas pulando dentro do fogo.

O rapaz e a amiga haviam procurado acomodar-se como possível, usando as tralhas de travesseiro e deitando-se de costas um para o outro. Os uivos haviam-se repetido madrugada adentro, até que à beira do sono haviam assumido a sonoridade de uma sirene hipnótica, quase um acalanto. Nesse ínterim Soni ponderara se Cari mentira ou não a respeito de avistar dali de cima o ponto de chegada deles. Pensara de novo em sua esteira, pois a pedra sob si era áspera. Pensara se a amiga nutria por ele igual sentimento que ele nutria por ela: pressentia-a respirar atrás de si num ritmo sereno que combinava com sua personalidade. Pensara no pai: seu velho adoraria estudar a física distorcida da zona morta se a oportunidade surgisse. E pensara na mãe: estaria ela ainda vagando pela Desolação, forte, saudável, resistindo? “Resistindo como a rosa resistiu?”

Abrira as pestanas em hora avançada da noite, mas tardara em reparar que estava desperto. A escuridão inescrutável não cooperava. Estendera o braço direito na expectativa de que o tato lhe ajudasse a distinguir o sonho da realidade, mas seus dedos haviam roçado no vazio. Fora difícil movê-los: pareciam dormentes. Eis que se localizara: estava à beirada de um aclive rochoso; ele e Cari haviam decidido pernoitar ali para escapar de algo. Lobos. Na sequência sua mente sonolenta processara outra conclusão: seu sangue estava gelado. Não era um frio devido a um ambiente frio, e sim à completa ausência de calor em seu corpo. Estaria morto? Virara-se de barriga para cima, e durante esse esforço sentira cada membro seu recusar-se a obedecê-lo, todos letárgicos, como se rangessem feito os de um ancião. “Ou os de um não vivente.” Talvez houvesse rolado barranco abaixo e rachado o crânio, mas sua alma permanecera ao lado de Cari. Não esperaria menos de sua alma.

“Que besteira. Não posso ter morrido.” Concentrara-se no céu noturno para atestar a si mesmo que estava delirando. Contempladas da zona morta, as estrelas eram fugidias e desfocadas. Soni conseguia identificá-las forçando a vista e a imaginação, todavia elas não eram palpáveis o suficiente para dissipar-lhe as dúvidas. A agonia voltava à tona. Mas justo nesse momento, perto dele Cari murmurara no sono, abalando o silêncio macabro que pairava sobre o mundo. Ao rapaz o som parecera real, impressionantemente real. Tão real que o fizera ruborizar à percepção de que estavam imensamente próximos um do outro.

Então a amiga, ainda adormecida, aninhara-se junto dele, decerto num movimento involuntário para resgatar o calor que a Desolação também sugara dela. Soni arquejara quando os dedos frios de Cari haviam pousado em seu pescoço e aí haviam deslizado para seu peito, como se lhe medindo os batimentos cardíacos, agora descompassados. O toque dela exorcizara os dedos fantasmáticos que lhe haviam arrancado o calor do tutano dos ossos. O rapaz tinha certeza de que um rubor intenso tingia-lhe a face e, por culpa disso, sentira um ardor crescer dentro de si e alastrar-se para as extremidades. Estava vivo, e como estava. O calor regressara, mas Soni não saberia dizer se era físico ou metafísico. Tanto fazia.

Aparentemente a amiga não guardava lembrança da noite anterior, e o rapaz supunha que era melhor assim. Se ela não estivesse imersa em sono pesado naquele minuto, teria estrangulado Soni, em vez de ter simplesmente tateado seu pescoço. “Acho que estou exagerando.” Cari podia ser gentil. Agora ela só bancava a muda porque devia ter muito a refletir. Ou talvez estivesse irritada por eles terem procedido do jeito dele e não do jeito dela na madrugada pretérita. Ou estaria envergonhada? Talvez lá no fundo de si a amiga enterrasse tribulações e fraquezas, e na friagem noturna aquilo aflorara, de sorte que a pretexto de rolar no sono ela buscara conforto junto de Soni. O rapaz conteve uma gargalhada. Estava ciente de que essa última hipótese era uma grande idiotice, mas agradava-lhe bastante cogitar que pudesse ser verdade.

Um ruído esvoaçante sobressaltou-o. Uma sombra riscou a luz fosca lá em cima, seguida de um grasnar deprimente. Soni observou uma revoada de pássaros por entre as folhagens. Voavam para longe num ritmo sofrível, como se carregassem pedras. Talvez nenhum deles viesse a atingir a fronteira da Desolação. Decerto cairiam antes disso, mas o rapaz invejou-os, pois ao menos contavam com um meio de fuga. “Enquanto eu estou amarrado a Cari e seu mau humor.”

O mais provável era que Cari estava aborrecida por ter-se enganado sobre os lobos. Oh, sim, porque ela enganara-se, conquanto não admitisse. Definitivamente os predadores os teriam atacado, e uma mera fogueira não lhes teria domado a fome. A amiga comportara-se da mesma maneira quando descobrira ter-se equivocado sobre a rosa. Um dia após tê-la tirado do solo, a flor perecera. Soni não se surpreendera: precisara conter-se para não pronunciar um “Eu bem que avisei”. Bem, o que estava feito, estava feito, e inexistia como remediar a curiosidade de Cari. O rapaz aprendera a acostumar-se à frustração que um espírito investigativo desenfreado trazia: nesse aspecto, a amiga assemelhava-se muito a seu pai.

Nômades da desolação 4 (httpcamille3v3x3.deviantart.comartRose-167646642)

O Esquisito, o Herege, o Irresponsável, o Calamitoso, o Desgraçado: esses e outros apelidos mais grosseiros repicavam na memória de Soni. O pai merecia a má fama, porque fora ele próprio quem a construíra para si. Sua paixão por invenções e novidades não conhecia limites, apesar de que a tolerância do clã – especialmente do Velho Tobi – para essas extravagâncias era bastante limitada. Novo era sinônimo de encrenca, ruptura e caos. Os mais supersticiosos temiam-no, e os menos o reprovavam com o olhar. Pais e mães torciam o nariz quando seus filhos procuravam-no com fascínio nos rostos, pedindo ao Tio Sofi um vislumbre de sua última pesquisa ou invento. O pai de Soni sorria ao presentear as crianças com bonecos de corda, lupas e imãs, que os adultos não encontravam utilidades criativas para tais coisas. Quando menor, o rapaz odiava que o pai distribuísse seus objetos encantados entre a garotada: não tinha o direito de ser generoso com ninguém mais além de seu filho – e certamente não, nunca, jamais-jamaiscom os rivais de seu filho. À medida que crescera terminara por consentir nisso, não exatamente porque superara o egoísmo infantil, e sim porque reconhecera que não daria conta de tantos brinquedos, particularmente depois que o pai descobrira um método de imantar qualquer pedaço de metal.

Havia um segundo motivo para a mudança de atitude de Soni. Após amadurecer, ele passara a entreouvir os boatos que disseminavam a respeito de seu velho: falsidades e injúrias vindas da boca de gente estúpida. Uma boa tática para combater essas ofensas era contestá-las com atos – e nisso a gentileza do pai desempenhava seu papel. Não importava que o acusassem de aproveitar-se da ingenuidade das crianças, de corrompê-las, de distanciá-las de seus deveres para com o clã. Pois o único resultado concreto de suas ações, visível inclusive aos descrentes, era o oposto do que se dizia: ele não as pervertia, e sim as maravilhava.

Evidente que essa imagem de homem amável não funcionara com todos. As pessoas cujas tendas haviam sofrido as consequências de um incêndio acidental, provocado pelas experiências com fogo de seu pai, essas se ressentiriam eternamente. A alcunha de Desgraçado proviera daí. O título de Irresponsável nascera de suas andanças na Desolação, quando se punha a medir com passos a distância entre os marcos que pregara numa árvore ou cravara no solo: assim lograva calcular quantos metros a Linha da Vida avançara ultimamente. Com o tempo, a expansão da zona morta reduziria de ritmo, cismava ele, embora as contagens não comprovassem essa sua tese. Eis que 132 passadas haviam aumentado para 247, depois haviam caído para 98 e então haviam oscilado para 322. Os dados não cooperavam, mas o pai não desistia. Por seu turno, o povo alvoroçava-se que ele quisesse desvendar um mistério que devia permanecer como mistério. Era descuido, atrevimento desmedido da parte dele. Tentar compreender forças ocultas era uma irresponsabilidade tremenda.

O Esquisito advinha de sua mania de ficar resmungando para si sobre suas teorias. Haviam-no batizado de Calamitoso por causa de seus experimentos fracassados. E o Herege era de autoria do Velho Tobi, da vez em que o pai de Soni bolara um mecanismo para fazer uma carroça mover-se de moto próprio, sem tração animal e sem o sistema de pedais. A mecânica envolvida era inteligente – “Engenhosa”, como o rapaz preferia chamar. Consistia em dois pistões acoplados à traseira da carroceria, ambos largos e pesados e que, quando acionada uma alavanca, eram empurrados para trás; um segundo toque na alavanca soltava-os, e ambos se chocavam num baque estrondoso contra a retaguarda do transporte, impelindo-o para frente. Cari sugerira que a mesma lógica orientava seu arco e flecha: a corda tensionava-se quando puxada e relaxava quando liberada. O pai de Soni explicara que o princípio era ligeiramente diferente: um arco operava com base em elasticidade, enquanto sua invenção dependia do que ele denominava de molas.

Mas para o Velho Tobi não interessava como o mecanismo agia, e sim que o pai do rapaz obtivera êxito em seu intento: por um curto intervalo, em terreno desimpedido, aquele tal de autocarro efetivamente rodara sozinho. O líder do clã quase surtara ao contemplar o espetáculo: clamara que não era suposto um objeto inanimado mexer-se por si mesmo, que só os viventes possuíam esse dom. E daí que um invento daqueles fosse de utilidade inconteste para um povo nômade obrigado a optar entre marchar ou morrer? E daí que os transportes à vela também prescindiam dos viventes quando o vento soprava? O vento era uma benção da natureza: ninguém devia confundi-lo com aquele autocarro, que violava tão frontalmente as leis naturais. “Ora, a Desolação anda sozinha, e nada há de vivo nela”, confidenciara Cari a Soni, e o rapaz dera-lhe razão.

Mas no fim a palavra do Velho Tobi prevalecera, como sempre. A invenção fora destruída. A maioria apoiara a decisão do líder, esquecendo-se de como as ideias do pai de Soni às vezes se mostravam mais abençoadas do que o vento. Ele curara a vista fraca de Moli, encomendando uma luneta especial de Iori, o Fazedor de Vidro. Fora ele quem consertara a bússola de Hamri, o Capitão da Caravana. E quando o clã afinal se deparasse com o Oceano, seu projeto de arca gigante talvez salvasse a todos, inclusive as gentes de outros clãs, que vinham imitando o povo de Tobi. “Mas ele não foi capaz de salvar a mamãe”, pensou com amargura. Soni não o culpava por isso, mas…

Um som de raspar atiçou-lhe a audição.

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