Além do Sol e da Lua – Capítulo 9

CAPÍTULO IX- … E Luar Escarlate

Luar escarlate 1 (httpbluehybun.deviantart.comartabandoned-farm-house-190413544)

– O sangue está fresco – afirmou Berek ao alisar a pelagem de Branca. Depois esfregou os dedos lambuzados de vermelho na relva. – O massacre se deu hoje, isso é certo. Mas não sei dizer precisamente quando, se de manhã, de tarde ou há poucos minutos. Quanto aos Dimethio, tenho…

Os Dimethio! Seth esquecera-se deles, de tão absorvido que ficara pela tragédia. O mais velho viu o mais novo pôr-se de pé e arrancar rumo ao casebre, com Lao nos calcanhares. Já esperava essa reação.

– … tenho um mau pressentimento – arrematou com amargura, e então se certificou de não perder o rastro do irmãozinho, que o matador ainda podia estar nas redondezas. Céus! Quando o tolo ia aprender a manter-se distante do perigo?

Seth ultrapassou a casinha – um anexo contendo uma latrina afixada sobre uma fossa –, cuja silhueta de longe se mesclava à da morada. Com largas passadas, cruzou a varanda descoberta e esbaforido parou à soleira. A porta fora arrombada, o frágil trinco de ferro provavelmente não resistira sequer a três investidas do corpanzil de Atröxis. O menino esquadrinhou o interior, o coração descompassado.

“Teriam os Dimethio sido…”

O ar dentro da casa estava severamente pesado. Semelhante ao mormaço intolerável que antecede precipitações de verão, uma sensação pachorrenta ali reinava tirana. O negrume era inescrutável, inviolável. Na janela oposta ao umbral, a única da saleta-corredor, Seth notou as venezianas fechadas. Podia adivinhar que as do quarto e as da cozinha tampouco estariam abertas, visto que no aposento o fedor de sangue não dava mostras de dissipar-se nem de, no mínimo, circular.

“Sangue de quem? Teriam os Dimethio sido… assassinados?”

O garoto ouvia a própria respiração. Um leve formigamento rastejou-lhe perna direita acima quando a cabeça de Lao esbarrou nas ataduras que a envolviam, enquanto o cão esgueirava-se por entre ela e o portal. As patas do animal emitiram um ruído abafado ao passear sobre a madeira da porta caída e fizeram toc toc ao atingir o assoalho de cerâmica. O brilho das estrelas projetava uma réstia tímida tão somente no limiar e, talvez pela péssima iluminação, a Seth parecia que Lao encarnara um lobo caçador, com o corpo gingando gracioso e sorrateiro e – especulava (pois daquele ângulo não podia confirmar com o olhar) – com os dentes arreganhados. Lembrou-se de que, no episódio do arbusto, fora Lao que confrontara Atröxis. O cachorro-lobo devia ansiar por um segundo duelo, dessa vez sem interferências. Dessa vez, tratava-se de vingança pelo extermínio de inocentes.

Núncia da tormenta, uma lufada rugiu do oeste, agitando as mechas cinzentas do mais novo. O mais velho chegou nesse momento, arfando:

– Seth… você… corre demais… quando está… desesperado.

– Não, você é que corre devagar – sussurrou em réplica. – Se há sete anos minhas pernas não fossem tão curtinhas, Raio teria mordido seu traseiro, não o meu.

Berek encobriu um risinho com a mão ao recuperar o fôlego. Lançou a Seth um discretíssimo encolher de ombros – um “sinto muito” não verbal e sem valor – e espiou o interior do casebre:

– Que breu! Você consegue enxergar alguma coisa?

Seth pediu silêncio, o dedo em riste, a expressão preocupada. Estaria Atröxis de tocaia? Teria ele preparado uma emboscada? Não, absolutamente. O menino podia imaginar o elfo gigante ali dentro, um sorriso maníaco com dentes em excesso visíveis impresso na carranca, a espada serrilhada e ensanguentada (sangue quente, agora) erguida em pose de batalha. Calorosa recepção… Sim, bem podia imaginar isso, embora acreditasse que o teto fosse baixo demais para Atröxis e sua arma pavorosa. Por outro lado, o elfo escondido nas sombras, aguardando tranquilamente suas presas invadirem-lhe o covil, essa sim era uma cena inconcebível! A paciência não aparentava perfilar entre as virtudes de Atröxis (se é que ele dispunha de alguma) e sem a menor dúvida dissimular-se não fazia seu estilo. O elfo era do tipo que matava sem dó quando desejava. Atröxis não era como Hälioren, a Cerva Castanha de Brumathëvira, que empregava embustes e engodos para, pela eternidade, aprisionar seus desafetos na floresta.

Seth:

Na cantiga com que mamãe me ninava há oito, nove anos atrás, Hälioren acode um grupo de crianças élficas a encontrar a saída do bosque encantado. Elas tinham resolvido fazer um piquenique em meio às árvores escuras do outro lado do rio e acabaram sendo atraídas para o coração da mata por uma trilha de estrelas pálidas.

– Fogos-fátuos, brilhos agourentos – explicou-me Mestre Paetros algumas primaveras mais tarde. – Não são estrelas de verdade.

Eu pesquisei a respeito nos livros de minha mãe. Num deles, sobre alquimia, descobri que o fogo-fátuo surge a partir da queima de gases provenientes da decomposição de matéria orgânica. É por isso que o fenômeno costuma ocorrer em pântanos e cemitérios. Aliás, ao seguirem as luzes, as tais crianças élficas desembocaram num local sagrado, cheio de pedras e esculturas bonitas. Túmulos – foi essa a conclusão a que cheguei após juntar as duas informações, embora sensatamente tal palavra não constasse na canção de mamãe. Aventurar-se nas profundezas de uma floresta que não conheciam direito à cata de fogos-fátuos: ah, pelo Sol de todo dia, só mesmo crianças de uma fábula seriam tão estúpidas!

Luar escarlate 5 (httpjcbarquet.deviantart.comartForest-is-Home-205543513)

Mas o problema da trama não residia nesse ponto. A grande complicação apareceu enquanto eu folheava um segundo livro, um compêndio de contos. Um dos títulos com que me deparei era familiar: A Cerva Castanha de Brumathëvira. O que li, todavia, não correspondia ao que habitava minhas memórias. Na versão do livro, Hälioren não ajuda ninguém. E não são crianças se divertindo na mata, e sim garimpeiros cuidando de seus negócios. Garimpeiros gananciosos que se embrenham cada vez mais fundo no bosque assombrado (e não encantado) em busca de pepitas de ouro e diamantes. No caminho para a riqueza, eles derrubam árvores para fazer lenha, maculam córregos para se lavar, trucidam animais silvestres para se alimentar. Logram obter algum metal e pedras preciosos, porém isso só serve para lhes atiçar a cobiça. Não param de procurar novas jazidas de gemas e novos depósitos auríferos, e continuam a semear a devastação por onde passam com pressa, negligenciando o tênue equilíbrio de Brumathëvira. Numa noite, entreveem luzes fantasmagóricas junto às raízes emaranhadas e folhas secas no solo, tomando-as erroneamente por joias a refletir o luar. “Fogos-fátuos, brilhos agourentos”, pensei eu. Afinal os garimpeiros são conduzidos para um cemitério e, crendo haver ali tesouros enterrados, reviram os túmulos (sim, no texto essa palavra é adotada abertamente).

E eis que, dentre as faias e freixos, emerge Hälioren. A Cerva se põe a observar os homens que sem remorso violavam os leitos dos mortos. Até ser percebida, conforme almejava. Suas órbitas parecem transbordar prata líquida; à sombra das árvores, seu pelo é de um castanho lustroso, mas basta que a Lua nele resplandeça para que adquira um fulgor argênteo. E assim acontece. Os garimpeiros lambem os beiços e desatam a perseguir Hälioren. Mas não a capturam. Em vez disso, a Cerva os leva à perdição. O labirinto esverdeado se converte em negro à medida que a vegetação se adensa. Logo os raios do Sol e a claridade da Lua não mais podem atravessar as folhagens. Cegueira. O canto dos pássaros, o zumbido dos insetos, o assobio do vento por entre os troncos – todos os sons da floresta ficam para trás. Surdez. Hälioren é Senhora de Brumathëvira e se empenha em garantir que os homens maus jamais achem água para saciar a sede, comida para sobreviver, abrigo para se proteger. Seus machados perdem o fio ao findar o outono, e no inverno não arranjam madeira adequada para acender uma fogueira. E jamais encontram a saída do bosque, permanecendo enclausurados nas trevas para sempre. Ou pelo menos até o fim de suas vidas.

Luar escarlate 4 (httpdarksilverflame.deviantart.comartDark-Territory-211984513)

Se o destino dos garimpeiros foi merecido? Se Hälioren agiu corretamente? Admito, não foram bem essas as questões que perpassaram minha mente quando terminei de ler o conto. O que me incomodou de verdade foi a incongruência entre as estórias, a da canção de ninar de minha mãe e a do livro. Para ser mais claro, ambas tinham lá suas semelhanças – eu as identifiquei –, mas nem por isso deixavam de apresentar enredos e desfechos completamente divergentes. Eu contava sete anos então, não pude aceitar (não queria aceitar!) que mamãe me havia mentido. Portanto, deduzi que as duas versões deviam existir. Havia dois (ou mais) contos sobre a personagem Hälioren, e em cada um deles a Cerva se comportava de maneira distinta. Hoje já não penso mais assim, apesar de ainda não acusar minha mãe de mentirosa. Para mim, o que ela fez consistiu numa mera adaptação da estória original, alterando trechos específicos de modo a torná-los apropriados aos ouvidos de uma criança de berço. Prefiro entender isso como uma intervenção criativa, plenamente justificável, e não como uma mentira condenável.

Todavia, algo preservei do dia em que desenterrei aquele compêndio de contos. Sobre uma coisa – uma única coisa – minha opinião não mudou. Da ótica do menino de sete anos que eu era, se Hälioren salvava uns e matava outros, ela não era confiável. O que consternou o garotinho de sete anos não foi o fato de a Cerva ardilosamente trancafiar pessoas em Brumathëvira para que morressem. Para o garotinho, teria sido melhor se Hälioren desde o início houvesse explicitado sua natureza horrenda. Mas assim não se deu. A Cerva com que sonhara quando bebê tinha duas caras, bondosa para uns, fatalmente malvada para outros, pouco importava se culpados ou inocentes. O garotinho cresceu e hoje bem sabe que não existem duas estórias oficiais de Hälioren, e sim uma versão original e outra adaptada. Ora, esse mesmo garotinho deveria ter crescido o bastante para compreender que a Cerva era tão impiedosa quanto um dragão, pois Hälioren, a heroína das crianças élficas, não passava de uma invenção de sua (minha) mãe. Mas o garotinho escolheu crescer apenas o tanto que lhe permitiu aprender uma palavra mais rebuscada para “duas caras”: dissimulada. Para mim, teimoso que sou, Hälioren, a Cerva (Às Vezes) Castanha (Às Vezes Prateada) de Brumathëvira, persiste sendo – antes de perversa – dissimulada que nem os fogos-fátuos, a perfeita alegoria da falsidade.

Luar escarlate 3 (httpwww.deviantart.comartDeer-in-Forest-153657861)

Atröxis não era Hälioren. “Ainda que nenhum deles tenha chifres!”, riu para si da piada íntima, ao acorrer-lhe novamente a imagem do elfo com galhadas à careca saltitando pela campina com os colegas veados. E Atröxis não era Hälioren porque não era dissimulado. Gostava de ferir e de matar e não precisava fingir que não. Era demasiado forte para que necessitasse disfarçar sua real natureza. Sim, o elfo era o dragão cruel que devorava os crânios de suas vítimas e depois largava as carcaças decapitadas sobre uma pilha tão alta quanto uma montanha. Mas esta era outra fábula.

“Sim, Atröxis nunca armaria uma cilada. Ele o atacaria e o liquidaria assim que o visse”, esclareceu Seth a si mesmo. “E no entanto você e Berek ainda estão respirando”, confortou-se. “Atröxis não está ali dentro.”

“Brilhante dedução, venerável mestre”, debochou o duplo. “Uma dúvida remanesce, contudo: teria Atröxis assassinado os Dimethio?”

A pergunta incisiva desencadeou imediata movimentação por parte do mais novo. De relance, viu (ou as íris fulgurantes do gêmeo viram) sobre a mesinha da saleta-corredor um pequeno objeto, similar a um pedaço de osso, talvez uma vértebra. Uma pederneira de sílex. Não havia mais motivo para a prudência. A noite não os resguardaria dos Cavaleiros caso estes resolvessem se mexer.

Seth pegou o instrumento e atritou-o contra o ferro de um dos candeeiros próximos ao batente. Uma centelha luziu e o óleo fez o resto. Pronto! Luz. Agora até Berek era capaz de enxergar o interior do casebre. A tal mesa redonda estava intacta, embora a toalha branca sobre ela pendesse desajeitada, arrastada para a borda; estava molhada, da água que entornara de um jarro de flores virado. Uma das duas cadeiras que rodeavam a mesa jazia destroçada a um canto; a outra se encontrava tombada sobre o próprio espaldar. O vidro de um dos candeeiros ao lado da janela fora estilhaçado, os cacos cintilando no assoalho, a pintura desgastada denunciando um risco absurdamente cavado para uma parede de tijolos, além de ligeiramente manchado de vermelho.

– Sinais de luta – disse Seth.

– Ou de ameaça – sugeriu Berek. – É possível que o matador… Atröxis? – e, incerto acerca do nome, dirigiu um olhar ao irmãozinho, que assentiu sério. – É possível que Atröxis tenha destruído os móveis e… brandido a espada – e dedicou um gesto à parede danificada – somente no intuito de amedrontar os Dimethio e forçá-los a fazer o que ele mandasse. Ou a dizer o que ele mandasse.

– Acha que eles nos delataram?

– Talvez, se a outra opção fosse a morte… – O mais velho pincelou o médio e o anelar esquerdos no chão e recolheu três pequeninas gotas de sangue. “Sangue dos cães apenas”, pensou.

– Não acho que eles nos traíram – retorquiu Seth, categórico.

O mundo não é tão ruim quanto você imagina! Deixe de ser teimoso e encare a verdade: as pessoas podem escolher o caminho correto.

Assim lhe falara o Sr. Cahtóris, e a lição do velho sedimentara terreno no espírito do semielfo. Ele confiava nos Dimethio. Mesmo. Porém Berek requisitaria provas…

– Eles não nos traíram – prosseguiu – porque os Cavaleiros prescindiam de qualquer informação que o fazendeiro ou sua esposa pudessem oferecer. Hidëo, o capitão do trio, ao me encontrar pela segunda vez, em Tiberia, revelou saber que eu tinha estado escondido no arbusto mais cedo. Quanto ao porta-bandeira e Atröxis, não tenho certeza. Porém Hidëo não precisaria que alguém lhe contasse que havia pelo menos um semielfo perambulando livre e solto por aí… e que eu era esse semielfo.

– Faz sentido – concordou Berek. Pediu a Lao que farejasse o sangue em seus dedos para desvendar a quem pertencia. – Só que… e se os Cavaleiros, cientes de que você era semielfo, só quisessem descobrir onde você residia?

Seth bufou.

Armado da pederneira, o mais novo deslocou-se ao quarto do casal e acendeu um dos candeeiros do aposento.

– Veja! – e mostrou ao irmão a cama dos Dimethio, desarrumada, algo que o duplo já havia captado com um olhar de esguelha. – A cama está desfeita. Você disse que Atröxis tinha estado aqui hoje, não é? Bem, agora se conclui que ele veio hoje à noite. Os Dimethio já deviam estar dormindo (ou se preparando para dormir) quando ele apareceu.

– Ou estavam acordando… e não tiveram tempo para arrumar a cama – contestou Berek, contrariado. O irmãozinho estava vencendo a discussão, droga!

– Não. Hoje de manhã fez muito calor. Se os corpos dos cães tivessem ficado expostos ao Sol durante o dia inteiro, teriam apodrecido. No mínimo teriam atraído moscas e o sangue estaria ressecado. Nós os analisamos e não percebemos nada disso. Atröxis esteve aqui hoje à noite, há algumas horas, talvez minutos. Chegou depois de incendiarem nossa casa, o que suponho ter sido obra do Cavaleiro restante, o porta-bandeira, Vëxilo, já que Hidëo estava em Tiberia.

O mais velho nada acrescentou, ainda se demonstrava reticente. Atrás dele, Lao executava a missão que o mestre maior lhe designara, o focinho a milímetros do piso de cerâmica.

E então Seth decidiu usar o trunfo, a verdade irrecusável.

– Pense. Os Cavaleiros servem a’O Absoluto, bem como o assassino de nossos pais certamente servia. Logo, O Absoluto e por extensão os Cavaleiros sabem quem nós somos e sabem onde morávamos.

Berek mordeu o lábio inferior. O irmãozinho estava com a razão…

Os Dimethio não nos traíram! – repetiu, enfatizando cada palavra, cada sílaba. – Do contrário, maninho, sua própria hipótese é meio incoerente, pois, tivessem o fazendeiro ou sua mulher nos delatado… tivessem eles cooperado com Atröxis, teriam sido poupados… – “Ou não”, temeu. – E não os vejo em parte alguma! – abanou a cabeça e meneou os braços ao redor, indicando o que acabara de dizer.

Lao chamou a atenção dos semielfos com um latido. Descobrira o rastro. O cão saiu trotando pelo capim e levou os irmãos… para junto de Branca! Com efeito, o sangue era dos cachorros, pingara da arma encharcada que Atröxis empunhava. Insatisfeito, carrancudo, entre resmungos (“Ele está correto. Maldição”), Berek retornou ao quarto com Lao e deu-lhe um travesseiro para que aspirasse o odor do casal.

– Atröxis não é do tipo que enterra ou crema seus cadáveres, não é? – perguntou a Seth, que reentrava pelo umbral da porta derrubada.

– Não.

– Ótimo! Então Lao sem dúvida achará os corpos…

– E se não achar? – e o mais novo cruzou os braços. Por que Berek era tão cabeça-dura?!

– Se não achar…?

– Se não achar, Berek, receio que a relação de causa-efeito que você traçou possa estar invertida. Isto é, talvez os Dimethio não tenham sido responsáveis por nós nos tornarmos alvos dos Cavaleiros. Mas talvez nós tenhamos sido responsáveis por eles se tornarem alvos… Infiéis – sussurrou. – Todos aqueles que compactuam com semielfos correm o risco de ser perseguidos… e condenados à morte ou à escravidão.

Muito pálido e lustroso de suor, o rosto de Seth parecia feito de cera se derretendo.

– O que está sugerindo? – inquiriu o mais velho, as sobrancelhas abaixadas.

– Que somos… somos… – e a palavra emperrada entre os lábios enfim aflorou – c-culpados pelo que quer que tenha acontecido aos Dimethio!

– Não! – vociferou Berek, e aproximou-se do irmãozinho para imputar-lhe juízo sacudindo-o pelos ombros. – Não! Não e não, não se culpe, não nos culpe! Não ouse fazê-lo! – e liberou-o, porém continuaria a fuzilá-lo com o indicador rígido apontado contra seu peito. – Até hoje você nem sequer sabia da existência dos Cavaleiros. Eu já tinha ouvido boatos sobre eles, mas imaginava que não passavam de um bando de rufiões encrenqueiros, portando machadinhas e foices enferrujadas como armas. Até agora: até você me relatar sua aventura e até eu constatar do que eles são capazes. Talvez os Dimethio igualmente desconhecessem a presença dos Cavaleiros, ou não os temessem na proporção devida. Neste caso, para nenhum de nós (inclusive os Dimethio) esta tragédia teria sido previsível e, portanto, nenhum de nós mereceria ser culpado. Por outro lado, se os Dimethio conhecessem os Cavaleiros e sua fama de assassinos implacáveis, então, permanecendo na fazenda como fizeram, teriam se arriscado a receber uma visita nada agradável deles. Seth, o único culpado nesta história é Atröxis. Ponto.

O mais novo calou-se por uns vinte segundos, meditativo, e depois propôs:

– Se o Sr. e a Sra. Dimethio não estiverem aqui, se Lao não os achar, talvez tenham sido levados cativos. Não poderíamos ao menos… ir atrás deles?

– Ir atrás deles para quê? Resgatá-los? Está brincando, certo? – perguntou o mais velho, descrente do que acabara de escutar.

O irmãozinho corou de leve. Falara sério, mas ao mesmo tempo tinha ciência de que a ideia era muito, extremamente idiota.

– Seth, suas intenções são boas. Contudo, se nós as seguíssemos isso não mudaria o fato de que estaríamos procurando, no meio da noite sem Lua, pessoas que querem nos matar. Não dispomos de aço e, pensando bem, creio que teríamos mais sucesso nessa empreitada se implorássemos aos Cavaleiros que, por favor, devolvessem nossos amigos queridos, do que se os desafiássemos para um duelo. Não podemos vencê-los, e você sabe.

– E o que faremos?

– Por ora, esperemos Lao voltar da busca. Enquanto isso, podemos enterrar os cães dos Dimethio. Antes que a chuva desabe.

Visto que qualquer discrição já fora abandonada quando Seth resolvera alumiar os candeeiros, os semielfos optaram por abrir as venezianas e deixar o vento oeste expurgar o fedor de sangue que impregnava o interior do casebre. Munidos de um lampião, vasculharam no celeiro um cubículo que o fazendeiro utilizava de depósito e aí conseguiram pás. Guardando uma distância segura do poço, escavaram três covas, uma para cada cachorro, na terra macia atrás da casa. Trovão e Branca não deram trabalho algum, mas, ao transportarem Raio, do buraco em seu crânio vazaram sangue e cérebro. E Seth, que tanto insistira em carregar os corpos pela cabeça (“Porque sou mais cuidadoso que você, Berek”), sentiu-se nauseado. Teria vomitado se já não o houvesse feito no beco do Solidouro, em Tiberia. Teve de trocar de posição com o irmão para que enfim Raio pudesse ser encaminhado a seu local de descanso. Os garotos improvisaram lápides a partir de pequenas pedras que colheram, e então Lao voltou, sem nada para os mestres.

– Eles foram capturados. Eu já desconfiava – anunciou Seth, cabisbaixo.

– Não podemos fazer nada, Seth – resignou-se Berek. Batia uma palma na outra a fim de desempoeirá-las, um gesto que naquele contexto bem podia significar indiferença para com a sorte dos Dimethio. – Vamos pernoitar aqui. De manhã pensaremos no que fazer…

– No que fazer para salvar os Dimethio, você quer dizer?

– Também.

A água do balde escorreu gelada pelos ombros de Seth. Apoiado sobre o parapeito do poço o menino banhava o dorso. Céus! Precisava desanuviar a mente, que o dia fora tremendamente atordoante, longo demais.

“Hidëo puxou o capuz e aí… Branco. Seus olhos eram neve e oceano sob neblina. Eram abismos, disso me recordo bem. Mas depois… Branco.”

“Você não se lembrará”, interveio o gêmeo, como sempre achando tudo muito divertido. “Porque ninguém pode se lembrar de algo que conscientemente jamais contemplou. Não é como se você tivesse perdido uma memória. A verdade é que ela nunca chegou a ser registrada, pois você se recusou a enfrentar a Vontade de Hidëo. Heh! encolheu-se que nem um gatinho assustado! Daí que, no momento em questão, eu tomei as rédeas cabalmente.”

À medida que os cúmulos-nimbos avançavam, as lufadas ficavam mais e mais constantes. O garoto virou a cabeça para trás, fechou as pálpebras e enxaguou a cabeleira. As mechas adquiriram uma tonalidade mais escura ao grudar-se-lhe na testa, encharcadas.

“Está me dizendo que você viu o que ocorreu, mas eu não?”

“Exatamente. Você estava ocupado demais, tremendo nos bastidores. Eu apenas aproveitei a oportunidade para protagonizar o espetáculo”, alegou com humildade descaradamente falsa.

“E o que se sucedeu naquela hora? O que você viu?”

“Ha! e por que eu haveria de contar-lhe?”

“E por que não?”

Por que não? Hum… ‘Por que não’ é um argumento geralmente inútil, porém curiosamente se amolda bem à situação que temos diante de nós. Por que não, não é? Por que eu deveria cultivar segredos? Já que, afinal, você tem um quebra-cabeça e tanto para montar e eu possuo pecinhas que podem ser cruciais.”

O duplo fingiu matutar. Seth despejou mais um balde sobre a fronte. Fazia um pouco de frio, mas isso não o incomodava. A baixa temperatura facilitava a concentração e prestava para que expiasse os últimos resquícios de culpa, que as palavras de Berek não haviam sido capazes de liquidar.

“Muito bem, então. Barganhemos. Em câmbio da informação que você tão avidamente deseja, quero uma coisa muito simples: quero que não me reprima! Quando eu lhe pedir para comandar, quando eu tiver de comandar, não importam as circunstâncias, você me permitirá sem hesitar”, propôs, sorridente como uma criança ofertando cinco caramelos por uma barra de chocolate.

Seth não se deixaria ludibriar:

“Soa-me razoável… Mas tenho uma contraproposta. Em troca do que você almeja, quero não só que me forneça essa informação, mas também que me prometa não mais guardar segredos.”

“Heh! você até que não é mau negociador, heim!”

“É pegar ou largar. Decida!”

“Sabe que as promessas foram feitas para ser quebradas, não sabe?”

“Descumpra sua parte do trato, e descumprirei a minha.”

“E como saberá que eu arranjei novos segredos?”

“Saberei. Você fica mais insuportável quando tem algo a esconder”, sorriu o garoto, malicioso.

“Oh, está aprendendo, ó venerável mestre!”, retribuiu o gêmeo com uma piscadela de escárnio. “Certo, acordo firmado. Exigiu-me sinceridade e a obterá. Não se decepcione. Para começar, o episódio do arbusto. Hidëo subjugou Atröxis, que clamou por piedade, e o capitão foi clemente. Mas, ao se erguer, Atröxis murmurou entre os dentes: ‘Maldito… Chegará o dia em que te arrependerás de me dar as costas’”, e produziu uma voz grave e rouca, imitação caricatural de Atröxis.

Só isso?!

“Só”, confirmou monossilábico, quase que se comprazendo com a decepção do outro. “Entretanto há mais um momento que para você, Seth, deve ter passado em branco: quando em Tiberia lhe recomendei que fugisse e fiquei para trás para deter Hidëo. Então nós, eu e o capitão, nos encaramos durante uns bons trinta minutos até que… até que desviei o olhar”, completou com esforço. “Quando dei por mim, Hidëo estava com a espada encostada em meu pescoço. ‘És corajoso, fedelho’, disse-me. ‘Por isso te pouparei esta noite. Mas terás de ficar mais forte se quiseres sobreviver doravante’, e aí saí daquele calabouço de trevas, enquanto você marchava em direção à treliça no final do Aqueduto.”

“Você perdeu, então?”, perguntou Seth, perplexo.

“SIM!”, explodiu enraivecido. “Perdi, perdi, perdi! Perdi, fui derrotado, lambi as botas daquele filho de rameira! É isso por que ansiava ouvir?!” Recompôs-se. “Mas não havia como eu lhe fazer frente. O cretino criou uma centena de infernos de fogo, gelo e miasma a meu redor. E eu consegui superar apenas noventa e nove… Que lástima”, zombou por fim.

Seth sacudiu a cabeça para secar os cabelos minimamente.

“Achei que você era invencível”, declarou. “Eis uma última pergunta. No armazém do Sr. Cahtóris, ao…”, e procurou os termos menos depreciativos possíveis (não gostava de toda aquela história de rédeas e comando), “ao assumir a dianteira, você realmente não sentiu dor alguma?”

“Não, nada mesmo. Nem medo. O do tapa-olho socava e chutava como uma mocinha, afinal.”

“É sério?”, retrucou cético. “Porque sua pose de durão só fez Ulderik nos espancar mais… Vamos, diga a verdade, você me prometeu.”

O sósia liberou um suspiro de resignação.

“Certo, doeu. Um pouco. Só encenei ser resistente feito aço para cutucar aquele idiota. Ha! e a cara dele foi impagável!”, riu-se. “E havia as adagas… adagas ocultas sob as túnicas deles. Você não as percebeu, não é? Bem, estavam lá! A uma reação mais intrépida minha bem poderiam ter nos degolado. Mas medo não senti. Nunca sinto medo.

– Nem qualquer outra emoção – concluiu o semielfo, falando consigo mesmo, e não pensando, para que o gêmeo entendesse que a conversa encerrara-se. Bem, então a aparição do duplo servia para explicar os lapsos de memória de Seth. E também quando se deparara com os anões apostadores em Tiberia, o menino captara algo rastejando nos limites de sua consciência, como um sonho de olhos abertos tingido de preto e prata. As cenas daquele minuto, apesar de novas, haviam-lhe chegado à mente já a desbotar-se – como a escrita de um livro antigo, de páginas cor de areia. Haviam-se desmanchado tal como a areia, caindo em imediato esquecimento. Sim, tudo culpa da intromissão do sósia. Muita coisa se esclareceu, mas não como… “Como o Sr. Cahtóris sabia de meu encontro com os Cavaleiros?”

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5 respostas em “Além do Sol e da Lua – Capítulo 9

  1. Olá, caros leitores eventuais. Faço este comentário só para esclarecer algumas coisas.

    1) Este é o último capítulo do romance que pretendo publicar online. A verdade é que nunca deixei de alimentar esperança de, quem sabe, atrair o interesse de uma editora, quando eu enfim terminar a história. Por esse motivo, evitarei divulgar todo o conteúdo já escrito. Quem ler até aqui, provavelmente notará que o presente capítulo fecha um arco narrativo, daí imaginei que seria um bom momento para interromper a publicação.

    2) Para quem quiser acompanhar a continuação, ficarei imensamente feliz de enviar um arquivo .pdf com o restante da história, numa formatação que, inclusive, torna a leitura mais agradável. Contudo, antes disso prefiro avançar o enredo até o ponto em que planejava findar o primeiro livro.

    3) Aliás, eu estava adiando a publicação deste capítulo justamente para quando eu desse por acabado esse primeiro livro. Mas, bem, como a monografia da faculdade e outras prioridades têm ficado no caminho, sem falar que eu sou mais lento para escrever do que gostaria, não cumpri essa meta. Eis o capítulo publicado, mas a história ainda não se encontra concluída.

    4) Para os interessados: quando eu terminar o primeiro livro, postarei uma notícia no blog comunicando isso.

    É o que tinha para falar. Espero que curtam o capítulo. Abraços! o/

  2. Daee cara.

    Ficou legal esse capitulo. Foi bom tu ter pensado nisso de não publicar tudo – muitas editoras tem uma “politica” de não aceitar livros com mais de 30% do conteúdo publicado na internet ou em algum outro lugar.
    Eu parei de ler no capitulo dois, mas vou retomar a leitura essa semana ;))

    • Sim, verdade. Já planejava interromper a publicação aqui desde o início, porque o final do capítulo dá certo nível de fechamento à história. 🙂
      Sem problemas. Leia quando tiver tempo. Eu mesmo tenho de retornar a comentar no ONE. Em breve darei uma passada lá com mais calma.
      Abraço! o/

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