Como será a literatura de ficção em 2043?

Dystopian

Ewan Morrison escreveu um ensaio criativo para o jornal britânico The Guardian especulando sobre as características da literatura de ficção em 2043. O humor (negro) contido em suas reflexões acerca de um futuro distópico é, no mínimo, interessante. Levanta questões sobre pirataria; sobre democratização do acesso ao conhecimento e à cultura e aos meios de sua produção e divulgação; sobre os limites que o capitalismo impõe à seara literária; sobre a interação entre cultura e tecnologia. Mais importante: o texto – como qualquer texto – veicula as opiniões de seu autor, de sorte que precisa ser lido com cautela e olhar crítico. Cabe ao leitor decidir se endossa ou não o que lê. De minha parte, não concordei com algumas das posições expostas no artigo, mas tirem suas próprias conclusões. Eis o link (em inglês).

Abaixo resumo os principais prognósticos que Ewan se arriscou a fazer:

1- Forma multimidiática: singularmente, não haverá mais livros  sejam impressos, sejam digitais –, e sim os chamados “títulos”, franquias bem-sucedidas que explorarão um mesmo conteúdo ao longo de uma gama variada de áreas de entretenimento: romances e ebooks, aplicativos, adaptações cinematográficas, séries de TV, jogos de computador, merchandising diversificado, fanfiction, etc. etc. etc. – tudo em torno de uma única narrativa. Já então as editoras terão se fundido com emissoras de rádio e televisão, agentes, estúdios de cinema e empresas de games, formando consórcios globais. O resultado é que apenas cerca de 10 “títulos” farão sucesso por ano, enquanto o restante do mercado será praticamente desmonetizado, contando mormente com obras autopublicadas, baratas e derivativas.

2- Franquias extrapolarão seus autores, que flexibilizarão os direitos autorais a fim de admitir que os fanfictions de maior qualidade se tornem oficiais, repassando aos escritores uma parcela dos lucros (bem similar ao que já acontece com o Universo Expandido de Star Wars). Concomitantemente, os “títulos” se submeterão a ousadas experiências de crossover, dando origem a obras como Shades of Hermione (Harry Potter + Cinquenta Tons de Cinza) e The Twilight Code (Crepúsculo + O Código Da Vinci).

3- Interpretando pessimisticamente algumas ideias otimistas de China Miéville, Ewan sugere que a tecnologia possibilitará a cada leitor encarnar um (re)escritor do que lê, gerando versões alternativas de romances clássicos ao manipular livremente o respectivo texto, que estará disponível para download gratuito. O Diário de Anne Frank atingirá a cifra de 45.000 histórias paralelas.

4- As sensações de pastiche, de contínuo remake e de consumo cíclico, presentes nesse admirável mundo novo de 2043, redundarão numa impressão de escassez ou ausência de inovação no âmbito cultural. Por volta das décadas de 2020-30, com tanto conteúdo de graça circulando, as pessoas já terão deixado de pagar por novos personagens e novos enredos, ao passo que os monopólios midiáticos temerão investir em ficção genuinamente nova, sem qualquer precedente de sucesso. Daí se perpetuarão os reboots de O Homem de Ferro 3 e Se Beber, Não Case 3.

5- A progressiva eliminação dos intermediários que figuram nas cadeias de produção, editoração e comercialização literárias – livrarias, estoques, pequenos agentes e pequenas editoras –, pondo o escritor em contato direto com o leitor, terminará por eliminar o último desses profissionais: o próprio autor. Na verdade, o primeiro livro desenvolvido inteiramente por um computador foi publicado em 2008: True Love, uma variação de Anna Karenina, de Tosltói. De então em diante os algoritmos terão se aperfeiçoado a ponto de permitir a criação automática de tramas, personagens, frases – tudo de acordo com um gênero pré-programado, bem como replicando o estilo do escritor que se tomar como base. Crepúsculo e o Mar, narrativa vampiresca com a voz de Ernest Hemingway (autor de O Velho e o Mar), será uma das obras assim elaboradas.

 

E a pergunta que remanesce: e se essas tendências já estiverem em andamento hoje? Digo que louvo algumas de suas consequências e tremo de pavor em face de outras, mas nutro esperanças por nossos escritores e leitores.

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2 respostas em “Como será a literatura de ficção em 2043?

  1. Eu acredito na globalização e na fusão das rádios, emissoras, jornais, editoras e internet. Não sei se… Esse fenômeno da cadeia global vai ser bom para os paises de terceiro mundo, todavia, que a globalização está ocorrendo em nossos dias, isso está, e com rapidez. E a tendência é que ela corra ainda mais depressa, derrubando as fronteiras das pátrias para construir um governo mundial, regido pela ONU. Bom, essa é minha opinião, não vou me estender com isso.

    • Concordo em parte. Acho que a fusão das grandes empresas de comunicação já está em andamento, ao menos no que tange ao compartilhamento de informações, já que é bem comum, por exemplo, os jornais buscarem suas fontes nas reportagens uns dos outros. Daí que o conteúdo transmitido costuma ser igual em todos os jornais; é verdade que cada um deles fará sua própria leitura dos fatos, mas os assuntos em pauta serão os mesmos. E nisso reside a importância da mídia independente e das redes sociais, que divulgam aquelas notícias que a grande mídia deliberadamente ignora.

      Já quanto à possibilidade de um governo mundial, sou extremamente cético, hehehe! Não vislumbro isso acontecendo tão cedo, e acho que traria uma boa dose de consequências negativas. Também vou me restringir a emitir apenas essa opinião superficial; não quero me estender. Mas, de qualquer modo, gosto dessas especulações.

      Abraço!

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