RESENHA: A Roda do Tempo – O Olho do Mundo

1- Capa da Intrínseca

Capa da Intrínseca.

Há dias que planejo escrever uma resenha deste aqui, mas um marasmo típico de alguns momentos de nossas vidas – maximizado, aliás, quando terminamos de ler um bom livro –, outras prioridades e, sobretudo, a sensação de que não sou qualificado para falar de uma obra desse calibre – tudo isso ficou no caminho. A verdade é que não passo de um recém-chegado a esse universo que já conquistou os corações de milhões de fãs ao redor do mundo. Sou um retardatário e, exatamente por esse motivo, estou atrasado na leitura da saga, mal tendo iniciado o segundo volume. É relevante que eu esclareça isso, porque suponho que minhas impressões, enumeradas abaixo, seriam diferentes se eu tivesse uma noção mais macro do assunto, que abarcasse o conjunto de todas as histórias que compõem A Roda do Tempo. Portanto, minhas críticas sofrem desse desfalque devido a meus limitados conhecimentos acerca da vasta criação de Robert Jordan.

Uma amiga me sugeriu que eu pesquisasse outras análises da obra, para me inteirar do que já fora abordado e comentado. Admito que tentei fazê-lo, mas logo interrompi a busca, pois receei que uma resenha construída a partir de retalhos das resenhas de outros não fosse exatamente uma resenha de minha autoria. Creio que eu somente precisava de um tempo para pensar e descobrir que, sim, tinha um monte de pontos para levantar acerca do primeiro volume da série.

Como O Olho do Mundo chegará ao Brasil este mês, pela Intrínseca, resolvi estalar os dedos e começar a digitar. A propósito, o livro já se encontra em pré-venda em algumas livrarias.

O romance inaugura uma das mais ambiciosas sagas de fantasia já escritas, se não a mais ambiciosa. E assim é certamente em tamanho: há 14 tomos no total (ou 15, se adicionarmos um prelúdio que se desenrola anos antes do enredo principal, chamado New Spring); cada volume é em si mesmo um calhamaço de mais de 600 páginas.

Robert Jordan é comumente considerado sucessor de Tolkien na seara da Literatura Fantástica de cunho épico. Ele faz jus ao título, e n’A Roda do Tempo os leitores se depararão com mais um confronto de proporções magníficas entre o Bem e o Mal – algo que, posto nesses termos, parece simples, mas que se revela mais complexo (sempre mais complexo) em seus detalhes e na teia de tramas e subtramas. Confesso que durante a leitura d’O Olho do Mundo minha mente propensa a associações teceu inúmeras delas entre vários aspectos da obra de Jordan – até os mais insignificantes – e O Senhor dos Anéis, de Tolkien. Contudo, sendo sincero, nada disso me incomodou. Para cada eventual similaridade havia dúzias de disparidades, pelo que afirmo que qualquer similaridade identificada só pode receber esse nome após uma boa dose de relativizações e ressalvas: ou seja, trata-se de similaridades superficiais, aparentes, que não nos impedem de apreciar a história de Jordan em sua merecida singularidade.

1- CapaBem, comecemos com uma sinopse, para situar os novos leitores (e também para me situar como resenhista):

Um dia houve uma guerra tão definitiva que rompeu o mundo, e no girar da Roda do Tempo o que ficou na memória dos homens virou esteio das lendas. Como a que diz que, quando as forças tenebrosas se reerguerem, o poder de combatê-las renascerá em um único homem, o Dragão, que trará de volta a guerra e, de novo, tudo se fragmentará.

Nesse cenário em que trevas e redenção são igualmente temidas, vive Rand al’Thor, um jovem de uma vila pacata na região dos Dois Rios. É a época dos festejos de final de inverno — o mais rigoroso das últimas décadas —, e mesmo na agitação que antecipa o festival, chama a atenção a chegada de uma misteriosa forasteira.

Quando a vila é invadida por Trollocs, bestas que para a maioria dos homens pertenciam apenas ao universo das lendas, a mulher não só ajuda Rand a escapar, como o apresenta àquela que será a maior de todas as jornadas: ela é uma Aes Sedai, artífice do poder que move a Roda do Tempo, e acredita que Rand seja o profético Dragão Renascido. Aquele que poderá salvar ou destruir o mundo.

Acho que o resumo acima é bastante explicativo. Mas existem dois elementos que, a meu ver, valem ser acrescentados para uma melhor compreensão da mitologia elaborada por Jordan. O primeiro: o poder a que a sinopse se refere – the One Power – é feito de duas metades de gêneros opostos. Uma, saidar, a feminina, é mais maleável e passível de ser controlada por quem for instruído adequadamente; é essa parte do poder que as Aes Sedai mulheres tocam e manejam a fim de realizar prodígios. A outra metade é denominada saidin, a masculina, mais irascível e caótica, e no início das coisas foi maculada pelo Dark One, de modo que os homens aptos a manipulá-la acabam sucumbindo à corrupção, à loucura ou à morte. O segundo elemento que serve de pilar à narrativa d’A Roda do Tempo é que, ao longo das eras anteriores ao momento presente da saga, tem se repetido um embate incansável entre o Dark One – o Lorde das Trevas – e os supostos Dragões, homens nascidos com a habilidade de moldar saidin. Conta-se que eles têm fracassado continuamente, terminando insanos ou peões do Escuro. Todavia, insinua-se que esse ciclo maldito está prestes a mudar, e abaixo reproduzo um dos trechos mais épicos que já tive a oportunidade de ler:

A Roda do Tempo gira, e as Eras chegam e passam, deixando memórias que se tornam lendas. A lenda desvanece em mito, e mesmo o mito já há muito está esquecido quando a Era que lhe deu origem retorna. Numa Era, chamada Terceira Era por alguns, uma Era ainda por chegar, uma Era já passada, um vento cresceu nas Montanhas da Névoa. O vento não era o começo. Não há começos nem fins no girar da Roda do Tempo. Mas foi um começo.[1]

Roda do tempo 1

À parte o prólogo – em que é narrada a queda do primeiro Dragão verdadeiro, Lews Therin Telamon, Príncipe da Manhã que enfrentou a Sombra durante a guerra que fraturou a terra –, a história tem um ponto de partida um tanto quanto lento. Jordan nos apresenta ao vilarejo de Dois Rios, aos personagens principais, às relações entre eles, ao contexto pacífico em que se inserem, e a relances dos conflitos e mistérios que mais tarde impelirão Rand al’Thor, o protagonista, a abandonar sua rotina para fugir dos servos do Dark One. Nessa jornada ele será acompanhado por dois amigos de infância, o irreverente e aventureiro Matrim Cauthom e o prudente e leal Perrin Aybara; por sua amada Egwene al’Vere; pela sábia da cidade, a geniosa e orgulhosa Nynaeve al’Meara; por Thom Merrilim, um experiente menestrel; e por Moiraine, uma Aes Sedai, e seu pragmático e severo guardião, Lan Mandragoran.

É uma jogada arriscada introduzir tantos personagens de uma só vez, mas Jordan consegue um excelente resultado. Lapida com esmero a personalidade de cada um deles, possibilitando que o leitor conecte facilmente o nome à respectiva pessoa. Outro mérito do primeiro capítulo é a consistência da ambientação. Se Tolkien é mestre nas descrições físicas de paisagens naturais, que sempre contam com uma magia sutil, Jordan detém especial capacidade para traçar o panorama social de seus cenários. Pinta Dois Rios com suas tradições, festejos, instituições, “causos” e povo, de maneira a nos fazer acreditar que a vida no vilarejo já vinha acontecendo antes de abrirmos o livro e que prosseguirá acontecendo quando o fecharmos. Eis o grau de autonomia de sua criação.

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Essa pegada mais sociológica também está presente em outros locais do universo d’A Roda. O problema é que a grande maioria desses lugares não gravou marcas substantivas em minha mente. Nenhum deles me incitou a exclamar de excitação ou algo do gênero – exceto talvez a cidadela amaldiçoada de Shadar Logoth. O ponto é que, até onde pude notar, o worldbuilding de Jordan é genérico demais – verossímil e denso, mas genérico. Imagino que depois de alguns capítulos o leitor restará farto de tavernas, ao passo que Rand e companhia não, e continuarão se hospedando nelas até que você diga em voz alta “Não! Não quero saber de mais um estalajadeiro!”. É verdade que o grupo está sendo perseguido e que, para forjar um clima de que “inexiste porto seguro”, o autor constantemente recorre a uma engessada sequência de eventos: 1) os personagens chegam a uma nova locação > 2) mais um perigo se anuncia ou alguém se revela um Darkfriend > 3) nova fuga. Nesse arco da história o ritmo é arrastado e me vi pensando que talvez o autor não soubesse muito bem para onde conduzir o enredo. Em contrapartida, a sucessão de cenários, desde cidades grandiosas até fazendas e vilas diminutas (inclusive uma com uma única rua), aprofunda o mundo de Jordan, mostrando que ele não é só feito de capitais e marcos culturais.

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Em Shadar Logoth.

Em larga medida a narrativa se desenvolve através dos olhos de Rand, mas numa ocasião, por força das circunstâncias, o grupo se divide, e aí podemos sondar os pensamentos de outros personagens também – o que configura uma bem-vinda mudança de perspectiva. O fato é que Rand me irritou um bocado. Não por causa de seus medos nem de sua ingenuidade, afinal esta é um artifício para que o leitor aprenda sobre o universo da trama junto com o personagem, enquanto aqueles consistem na reação mais natural às reviravoltas que se abatem sobre seu cotidiano pacato. Perturbou-me, isto sim, sua nostalgia pelo lar e pelo ofício tedioso que então desempenhava: pastor de ovelhas. É sério que você queria isso para sua vida, Rand? Não tenho dúvida de que esse aspecto da identidade do protagonista sumirá nos livros subsequentes (ou não, mas espero não estar enganado). No entanto, os choramingos saudosistas dele simplesmente não se adéquam a meu ideal de herói…

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Agora um parágrafo sobre batalhas, porque batalhas representam outra característica comum à LitFan em geral. Já no primeiro volume d’A Roda há algumas colossais em magnitude. O visual que as descrições de Jordan evocaram em minha cabeça nessas horas foi sensacional, apesar de sua prosa não conter nada da violência nua e crua de um Bernard Cornwell nem as sutilezas táticas de um Conn Iggulden. Em compensação, as magias de Moiraine Sedai nesses momentos são épicas, embora talvez agradem mais os jogadores de RPG. Quanto aos inimigos, uma pena que, para mim, os Trollocs tenham parecido mais uns chatos do que aterradores. O contraponto restou a cargo das aparições de Ba’alzamon – o Dark One – nos sonhos de Rand, Matrim e Perrin, que deram um tom interessante de terror psicológico. Ademais, o combate final conseguiu me tirar o fôlego e me levar ao desespero: realmente temi pelos personagens por uns segundos – um clímax digno do nome.

Eye of the world 3 (httptikosblog.blogspot.com.br201109eye-of-world.html)

Os diálogos me decepcionaram. Por que tudo precisa ser tão sério na alta fantasia? Como raios as pessoas são capazes de monologar por parágrafos inteiros sobre todos os horrores que assolam a civilização, mas desconhecem completamente o humor e o sarcasmo? Muitas das falas me soaram artificiais, excessivamente grandiloquentes – conquanto de vez em quando Jordan retrate com sucesso variantes linguísticas mais coloquiais –, além de abusivamente expositivas. Não raro a fantasia se utiliza de diálogos para explicar ao leitor como as coisas funcionam ou então para esmiuçar um ou outro detalhe importante de seu universo. Concordo que isso é necessário e, às vezes, inevitável. Minha crítica é que Jordan assim procede com uma frequência exagerada. Praticamente toda fala se destina a avançar a história, o que para uns nem de longe é ruim, porque significa que não há palavras inúteis ou papo furado ou lenga-lenga sem sentido. Mas eu – e aqui expresso tão só minha opinião – gosto de diálogos mais casuais volta e meia, pois eles permitem ao leitor se aproximar mais intimamente dos personagens. E gosto de insights inteligentes de filosofia ou de moral, como os de Patrick Rothfuss n’As Crônicas do Matador do Rei, bem como de discussões repletas de subtexto e réplicas cáusticas, como n’As Crônicas de Gelo e Fogo de Martin. Pouco disso se verifica n’O Olho do Mundo – infelizmente.

Um último ponto a ser examinado: Jordan tende a invocar insistentemente profecias e clarividência e o destino (os padrões que a Roda do Tempo engendra, seja lá como Moiraine os chame) para atribuir motivos aos acontecimentos e amarrar a trama. Não sei se essa lógica chegará a ser contestada nos livros seguintes, mas por ora digo que apelar aos desígnios indecifráveis de uma providência superior é uma saída meio pobre. É coerente com o universo do autor? Sim, é. Mas não me convenceu muito.

A despeito de minhas observações – algumas delas injustas, talvez –, é um romance brilhante. E a garantia de que curti é que mal posso esperar para ler o segundo volume, The Great Hunt. Se a obra produziu uma legião assombrosa de fãs e rendeu uma quantidade não menos assombrosa de livros, o mais sensato a se fazer é dar uma chance à leitura.

E recomendo que você, leitor eventual do blog, não fique de fora. 😉

(Em tempo: ainda farei uma postagem no estilo “Autor e obra” sobre Jordan e A Roda.)


[1] Tradução livre da edição em inglês de The Eye of the World. Ainda estou para comprar a versão traduzida da Intrínseca.

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