Elementos da fantasia: o vilão

VaderO que faz um bom vilão? Bem, certamente nada relacionado ao adjetivo “bom” no sentido de “moralmente bom”. Em contrapartida, também não é algo ligado necessariamente à ideia de “mau”. Tampouco é algo no “meio-termo”, algo dentro de uma escala de cinza da moralidade. Então: o que é? Sabemos que um vilão, como todo personagem (exceto talvez os mais remotos coadjuvantes), precisa ser profundo e complexo, características que lapidam sua verossimilhança, mas a verdade verdadeira é que essa afirmação não diz muito. Afinal, o que profundidade e complexidade significam?

O consenso mínimo é que o arquétipo do Lorde das Trevas – o antagonista sem compaixão que, sem motivo aparente, planeja destruir a civilização, escravizar os povos livres ou dominar o mundo – não é mais tão apelativo quanto já foi outrora. A tendência hoje reside na ambiguidade: um vilão, assim como qualquer pessoa, conta com múltiplas faces. Isso não invalida o tema que pretendo abordar. Não. Mesmo um vilão dotado de qualidades que o redimem continua sendo um vilão, na medida em que se interpõe entre o protagonista e seus objetivos.

Até n’As Crônicas de Gelo e Fogo, com seus personagens cinzentos (i.e., nem pretos nem brancos), temos heróis e vilões: numa leitura superficial, cabe identificar aqueles com os Stark e estes com os Lannister. Há o embate entre a “vitória honrada”, dos Stark, e uma “vitória a qualquer custo”, dos Lannister. É claro que o senso de honra starkiano os leva a cometer erros graves, o que atrai o desagrado do leitor. É claro que Tyrion não se enquadra como Lannister: ele mantém seus escrúpulos. E é claro que Cersei e Tywin apoiam-se em razões (para mim) justificáveis quando se utilizam de traição e intriga e trapaça para vencer a guerra dos tronos. Mas eu desafio qualquer um a exclamar, sem hesitação, que gostaria bem mais de ver Arya ou Jon ou Daenerys quebrarem a respectiva cara, do que alcançarem o sucesso. Sim, temos nossos heróis, por mais imperfeitos que sejam. Por extensão, temos os vilões: todos os que obstam a glória dos heróis.

Ok, feita essa defesa da atualidade da discussão a ser travada, acrescento duas notas sobre a importância do vilão. Muitas vezes, é ele quem impulsiona a trama. Pela lógica, um vilão complexo resulta numa trama complexa e mais interessante. Em segundo lugar, é quase inevitável que, ao longo da leitura, adotemos uma ótica estruturalista – ou seja, mentalmente, organizamos os personagens de acordo com critérios dicotômicos: “bom x mau”, “honrado x traidor”, “arrogante x humilde”, “corajoso x medroso”, “ousado x prudente”, e assim por diante. É comum traçarmos comparações entre o protagonista e o antagonista e, desse modo, a identidade de um depende da identidade do outro. A impressão que temos do herói está diretamente conectada à impressão que temos do vilão. A conclusão é que um vilão complexo contribui para que o herói fique ainda mais complexo.

Agora prossigamos ao que interessa. Quais são os atributos de um vilão memorável? Nos tópicos que enumero abaixo me baseei em dois artigos do site Mythic Scribes[1]. Eis os cinco traços essenciais de um vilão.

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Saruman

Saruman, d’O Senhor dos Anéis, além de proeminente na ordem dos magos, é retratado como detentor do poder da palavra… muito embora não deva ser lá tão difícil incitar bandos de orcs à violência.

Poder. Todo vilão deve ser poderoso, imensamente poderoso – de preferência, deve inspirar a sensação de que é imbatível. É ele o maior desafio que os protagonistas precisam enfrentar, e o leitor há de senti-lo como uma ameaça toda vez em que ele se mostrar em cena. Evidentemente, esse poder é passível de assumir variadas formas: desde a força física, nua e crua; passando por habilidades arcanas inigualáveis (o que, aliás, é bem comum na fantasia); seguindo para recursos em abundância, como dinheiro, armas, servos e espiões, ou ainda um exército de causar assombro; até, por fim, influência.

Exploremos mais a fundo esta última. Pode ser que o vilão capture as mentes de seus seguidores por meio de uma oratória quase hipnotizante. Talvez ele conquiste a devoção pregando ideais interessantes – apesar de deturpados pelos métodos que adota para alcançá-los. Ainda, é possível que sua capacidade de convencimento se apoie exclusivamente em carisma. Ora, por que um vilão não poderia ser um líder carismático? Por que ele tem de evocar continuamente o clichê do tirano que mata seus próprios asseclas? Será que isso não soa exagerado? Porque, ao proceder assim, ele termina por reduzir seus contingentes, não? Sobretudo: desde quando o medo em seu estado mais puro consiste em maneira eficiente de se instilar a disciplina e a lealdade? Por si só, o temor é um meio custoso demais de se impor a ordem, pois basta que o líder vire as costas para a traição acontecer.

Poder é importante, mas seja criativo ao introduzi-lo na trama e reflita bem sobre como o vilão o empregará.

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O Mindinho

O Mindinho

Inteligência. Vilões são inteligentes. Nem todos eles precisam ser mestres em jogos mentais, senhores da manipulação, estrategistas infalíveis. Mas é importante que gostem de jogar com (ou melhor, contra) os protagonistas, e que realizem jogadas que mesmo o leitor – alguém que teoricamente torce contra ele – consiga admirar. N’As Crônicas de Gelo e Fogo, podemos nutrir nossas antipatias com relação a Tywin ou o Mindinho, mas vê-los atuando, contemplar suas táticas em funcionamento, constatar o sucesso de seus planos – tudo isso é instigante. N’As Crônicas do Matador do Rei, é essencial que o rival de Kvothe, Ambrose, seja capaz de ludibriar nosso sagaz herói vez ou outra. Na série A Torre Negra, de Stephen King, Randall Flagg, a quem o pistoleiro insiste em perseguir, encarna um perfeito Loki, com seus ardis e embustes.

Walter o'Dim

Walter o’Dim, um dos alteregos de Randall Flagg n’A Torre Negra.

Um vilão de renome precisa antecipar-se aos protagonistas em, pelo menos, dois passos. Deve conseguir enganá-los, talvez até controlá-los, guiá-los, para consumar seus próprios objetivos. Cabe um alerta aqui: nada de torná-lo algo como um deus ex machina, alguém que, dos bastidores, seria o responsável por cada grande evento da narrativa, como se estivesse manipulando a tudo e a todos. É inverossímil que exista um ser assim tão onisciente, dotado de uma cognição absurda, apto a, mediante seus atos e decisões, interferir em toda cadeia causal – exceto, é claro, se seu vilão for um deus ou algo que o valha, mas neste caso há de se ter cuidado para não deixá-lo todo-poderoso.

Por fim, anoto que, por mais inteligente que seja um antagonista, ele comete erros. É desses erros que os heróis colhem a glória.

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Imoralidade. Vilões costumam ser imorais, mas isso não significa que não tenham seus valores, seus princípios, seu código de conduta. De fato, um antagonista pode ser genuinamente bem-intencionado no que tange a ideais: se neles crê piamente, fará de tudo para atingi-los. A outra possibilidade é que ele invoque esses ideais – não raro vagos e ambíguos – como escusa, como justificativa para as ações que perpetra, a exemplo de Voldemort, que alardeia estar agindo em prol do “bem maior”.

Voldemort

Voldemort

A vida não é RPG. Na realidade as pessoas não se enquadram em alinhamentos, como bom ou mau, caótico ou justo. Não é adequado classificá-las de acordo com suas virtudes e defeitos, porque elas mudam – sempre estão mudando. Usamos estereótipos para simplificar as coisas, mas nenhuma definição rígida consegue retratar a identidade de alguém. Em ficção, o autor também pode adotar estereótipos, porém o melhor é que o faça pela boca de seus personagens, ou então que os restrinja aos personagens secundários. Já os protagonistas e antagonistas demandam complexidade. Se o herói evolui ao longo do enredo, o mesmo deve se passar com o vilão. Se o herói tem muitas caras, a depender de a quem se dirige ou da situação em que se encontra, o mesmo vale para o vilão.

Além de valores (torpes ou nobres), um antagonista tem uma história e, mais relevante ainda, tem motivação. Quanto a esta, evite escolher o caminho (aparentemente) fácil da loucura: se por um lado a insanidade serve de trunfo para explicar tudo, por outro ela acaba não explicando nada; há algo que cronológica ou logicamente a provoca ou a aciona, pelo que a loucura consiste numa falsa causa: a causa real vem antes dela. Aqui você pode fazer como Rowling e dedicar praticamente um livro inteiro a aprofundar o background de seu vilão, como é o caso d’O enigma do príncipe. Ou pode optar por lançar apenas uma luz indireta sobre a trajetória de seu antagonista, contanto que haja iluminação suficiente para que o leitor perceba as nuances dele, bem como as mudanças que vivenciou.

Portanto, sim, que seja imoral o vilão, mas não só isso.

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Coringa

O Coringa

Ferimento. Antagonistas possuem chagas e cicatrizes. São quebrados, mental ou fisicamente. Darth Vader não só foi corrompido pelo Lado Negro, mas também teve o corpo gravemente ferido. O Coringa experimentou sua dose de traumas para se tornar quem é – como ele mesmo gosta de ressaltar. N’As Crônicas do Matador do Rei, não sabemos quanto de verdade contém o mito de Lanre e Lyra, mas podemos especular que os membros do Chandriano – o grupo arqui-inimigo de Kvothe – confrontaram provações terríveis como pressuposto para virarem a entidade amaldiçoada que aparece na saga. Em Martin, Tywin posa de implacável na guerra dos tronos em razão do desgosto que seu pai fraco e leniente trouxe à família Lannister. Cersei é inescrupulosa em parte porque é ambiciosa – uma ambição que é negada às mulheres de sua época – e, ademais, porque sofre pelos filhos. São chagas de ordem emocional.

Em geral as feridas do vilão estão vinculadas, diretamente ou não, a seus motivos: foram elas que o tragaram rumo à vilania. E mais: abordar essas feridas é conveniente para despertar a simpatia do leitor pelo antagonista. Afinal, não é somente o herói quem enfrenta conflitos psicológicos: os dilemas do vilão também podem ser evidenciados, e neles talvez se esconda a chave para sua redenção.

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Sauron

Sauron

Determinação. Um antagonista nunca desiste. Se o fizesse, a trama perderia um de seus principais estímulos. É por isso que, em grande parte d’O Nome do Vento, a sensação de urgência fica adormecida, na medida em que o Chandriano não se mostra em constante atuação – conforme tive a oportunidade de salientar em minha resenha.

Às vezes um vilão não é meramente determinado, e sim bem mais do que isso: é obcecado pelos protagonistas, um tremendo chato que teima em provocá-los, persegui-los, importunar-lhes a vida. Mas um simples giro de perspectiva nos permite notar que, em contrapartida, são os heróis quem comumente frustram os planos do antagonista – que, é óbvio, não pensa em si como antagonista; de seu ponto de vista, é ele o injustiçado, e para ele tudo teria dado certo, “não fossem esses hippies enxeridos e esse cachorro” (ou algo do tipo). Os exemplos clássicos de vilões obcecados são Morgoth e Sauron, de Tolkien, e o Dark One, d’A Roda do Tempo: eles não hesitam, raramente temem, são donos de uma confiança inabalável, têm plena certeza de que vencerão – e é bom que o escritor faça o leitor acreditar nisso também.

Creio que basta. Já me alonguei demais. Espero que tenha ajudado.

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4 respostas em “Elementos da fantasia: o vilão

  1. Muito bom o post. Realmente, o vilão da trama merece tanta complexidade quanto o herói. Sem um bom vilão, dificilmente se tem uma boa história.
    Hoje em dia – como foi dito no texto – aquele vilão que destrói tudo simplesmente por ser “mal”, não consegue mais atrair. Pelo menos pra mim, um dos únicos vilões que seguem essa linha de espalhar o caos e se sai bem é o coringa. Ele tem um carisma e uma forma de pensar interessante.
    E ai entra a outra questão: Vilões também precisam ser carismáticos. Quando eu digo carismático, não quero dizer no sentido de fazer gostarem dele, e sim no sentido de ter uma personalidade forte e marcante.
    Achei muito bom esse artigo que você nos trouxe. Foi uma boa idéia essa de traduzir um artigo gringo.
    Eu acho que pra lá existem mais dicas voltadas para escritores. Tenho lido alguns dos sites que você deixou o link aqui em baixo, e eles tem me dado uma boa base a respeito de muitas coisas que envolvem a escrita.

    • Isso, perfeito, acho que a melhor palavra é a que vc usou mesmo: personalidade. A personalidade do vilão deve ser interessante ao ponto de interessar o leitor.
      Quanto ao artigo, não foi exatamente uma tradução literal. Quando é assim eu coloco entre aspas, pra indicar que é citação. Foi mais uma paráfrase: peguei as ideias e reescrevi. De quebra, adicionei umas reflexões minhas. XD Ah, e os exemplos d’O Nome do Vento, d’As Crônicas de Gelo e Fogo e d’A Torre Negra também foram um adendo meu. Gosto de trazer exemplos, para mostrar que tanto raciocínio abstrato tem aplicação prática.
      Sim, existem vários sites bons com dicas excelentes sobre escrever LitFan. Em português também, mas ainda os estou buscando. Ademais, há vídeos muito instrutivos no youtube, mas legendá-los (como pretendo) vai demorar bastante, rs!
      Planejo seguir com esta série de posts, “Elementos da fantasia”. Na sequência, estou pensando em tratar de “Sistemas de magia”. Tenho uma ideia já formada para “Guerra e duelos” e algo sobre “Raças/espécies”, mas este ainda está bem vago em minha mente.
      Abraço! o/

  2. Um verdadeiro guia para se criar vilões, muito legal!
    Tudo o que disse ai faz muito sentido, existem clichês que funcionam e que não podemos nos abster deles pois são a essencia de um vilão… ao passo que algumas outras coisas já são ultrapassadas e não interessam muito para quem lê.

    Espero que continue esta série de artigos como vc disse na resposta acima, acompanharei pois são bastante instrutivas pra quem escreve =)

    O blog esta salvo nos meus favoritos, parabéns!

    • Bem-vindo ao blog, Lucas! Que bom que o artigo foi útil! 🙂

      Sim, pretendo continuar esta série de posts e outras também. Ideias e material não faltam. Falta é eu deixar de preguiça e começar a escrever, hauhauhauhauhuaha!

      O blog tem andado meio parado, porque ultimamente tenho me focado numa história maior que estou escrevendo, e a monografia da faculdade é outra prioridade que não posso ignorar… Mas em breve haverá atualizações, podexá!

      Abraço! o/

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