RESENHA: Perdido Street Station

PerdidoNova Crobuzon é uma cidade esquálida onde seres humanos, refeitos e raças arcanas vivem em perpétuo estado de medo em face do Parlamento e de sua milícia brutal. Isaac, um cientista brilhante, é requisitado por um homem-pássaro, um garuda, para recuperar-lhe a capacidade de voo, confiscada quando lhe arrancaram as asas como punição por algum crime que ele teria cometido. Mas um espécime que Isaac estuda em seu laboratório ao longo das pesquisas ameaça a cidade inteira, e eis que uma lagarta de cores vivas que se alimenta de alucinógenos cresce para devorar a todos.

A sinopse acima não retrata com fidelidade a magnitude do livro. Nenhuma sinopse retrata com fidelidade livro nenhum.

Miéville

Miéville

Perdido Street Station, de China Miéville, é uma obra que transborda originalidade e ambição, como se tivesse sido escrita com o exato propósito de romper com inúmeras convenções do gênero da Literatura Fantástica.

Fazendo jus a seu estonteante potencial criativo, o romance renuncia a qualquer rótulo conhecido e extrapola toda sorte de classificação, tamanha sua ousadia em transitar para além das fronteiras de vários subgêneros.

Não é o bastante dizer que ele se encaixa na grande área da alta fantasia, caracterizada por se dedicar à criação de mundos alternativos. Em seu cenário, Perdido congrega elementos de steampunk, com dirigíveis cruzando os céus de Nova Crobuzon e computadores mais mecânicos do que eletrônicos. Em suas ideias, carrega a consistência da ficção científica. No contexto e nas raças – termo que, apesar de um tanto impreciso, já está consagrado na literatura baseada em worldbuilding, referindo-se aos diversos povos/espécies que habitam um universo secundário ao nosso –, fica evidente a pegada do new weird, focado no cenário urbano e, mais especificamente, em seus submundos fétidos, sujos e escuros, à margem das leis e da sociedade bem-comportada. Nos vilões (se é que podem ser assim designados), constata-se um pouco do horror inominável e incompreensível de um Cthulhu lovecraftiano. E, entre os temas abordados, há uma filosofia inovadora.

New Crobuzon (httpjustinoaksford.deviantart.comartNew-Crobuzon-266049682)

Nova Crobuzon

Nova Crobuzon, cidade que serve de palco à trama, não fica atrás da Terra-média ou de Westeros em complexidade. Reitero: cuida-se de uma cidade, um ambiente de dimensões mais restritas se comparado aos planos clássicos da Literatura Fantástica, que costuma trabalhar com um continente ou mais de um até. Ainda assim, Nova Crobuzon nada tem de restrita em seus horizontes.

Sua organização é intrincada a ponto de rivalizar com as metrópoles de nossa realidade: é como um mosaico, construído a partir da segregação socioespacial tão comum na urbanidade contemporânea, em que cada grupo de pessoas ocupa um território específico. Daí se formam guetos, centros comerciais, bairros residenciais e áreas controladas por máfias ou algo como warlords citadinos.

Sua estética é magistralmente descrita. O olhar de Miéville para detalhes arquitetônicos é invejável: ler os parágrafos de Nova Crobuzon nos faz acreditar que estamos andando por uma cidade real – e é como se, durante essa caminhada, nossa percepção do cenário urbano atingisse um nível extraordinário: notamos cada sutileza do ambiente, o jeito como os diferentes estilos dos prédios se conjugam ou se sobrepõem ou se confrontam.

Perdido Street Station (httpdcept.deviantart.comartPerdido-Street-Station-290606773)

Perdido Street Station

Também impressiona a habilidade do autor com figuras de linguagem. Entendam: Nova Crobuzon é uma cidade que de modo algum se aproxima de uma noção de “belo”. É poluída, cinzenta, malcheirosa e caótica. Mas as palavras de Miéville conseguem, surpreendentemente, revelar a beleza nesse cenário tão feio e hostil à primeira vista. Se o visual não atrai, o texto, ao contrário, sim – ou ao menos por um tempo. É que a linguagem adotada pelo autor pode ser qualificada como barroca – eis o termo que vi usarem em outra resenha (com que concordei) e que significa rebuscada.  É uma linguagem rebuscada, densa, contaminada de adjetivos – e até determinado ponto eu a apreciei, mas depois me cansei (embora tenha prosseguido até a última página). É uma leitura que exige muito comprometimento.

New Crobuzon 2 (httpjjeeaann.deviantart.comartNew-Crobuzon-alley-356853101)Um último aspecto que merece destaque em Nova Crobuzon são suas dinâmicas sociais. Miéville intercala a trama principal, em terceira pessoa, com momentos mais reflexivos, soturnos, narrados em primeira pessoa pelo garuda Yagharek. É por meio dos olhos de águia desse personagem que vislumbramos cenas furtivas, preciosas, da vida urbana. Simultaneamente, em seus monólogos, sentimos sua solidão. São trechos quase poéticos, dignos de serem lidos em voz alta. Em outras ocasiões, nas partes em terceira pessoa, também somos apresentados a dinâmicas interessantes – a exemplo da comunidade de garudas que mora no topo dos arranha-céus, por temer os habitantes que vivem no solo. Ainda, cabe mencionar a greve dos vodyanoi (seres anfíbios capazes de modelar a água como bem entendem), que, na luta contra os patrões (os donos dos portos de Nova Crobuzon), empregam suas habilidades para desnivelar o rio e erigir barreiras aquáticas, impedindo a circulação de mercadorias para dentro e para fora da cidade.

Isaac (httpjustinoaksford.deviantart.comartIsaac-Dan-der-Grimnebulin-266048655)A meu ver, os personagens não cativam tanto quanto deveriam. É verdade que o protagonista, o cientista Isaac Grimnebulin, conseguiu me entusiasmar, justamente em razão do próprio entusiasmo que ele deposita em suas pesquisas. Também simpatizei com Yagharek e, admito, fiquei torcendo por que ele pudesse voar de novo. Além deles, ninguém mais me interessou. Os personagens secundários permanecem secundários, com pouca ou nenhuma evolução ao longo da história. E mesmo os conflitos de Isaac e Yagharek acabam sendo postos de lado quando a ação começa, já que Miéville não se aprofunda na psicologia deles. O lado bom disso: o ritmo da narrativa é de tirar o fôlego (daria um filme sensacional!). O lado ruim: os personagens mais se assemelham a peões reféns das circunstâncias. Eles praticamente não impulsionam a trama com suas decisões, e sim se movem de acordo com um aglomerado aleatório de causas externas. A autonomia cede lugar ao acaso, o que pode distanciar o leitor de preferências mais intimistas.

Yagharek (httpjustinoaksford.deviantart.comartYagharek-the-Garuda-266049074)Outros personagens marcantes são: Lin, amante de Isaac e uma khepri, pertencente a uma espécie dotada de corpo humanoide e cabeça insetoide que produz arte – esculturas coloridas – a partir do muco (na prática, saliva) que secreta; Derkhan, uma jornalista homossexual que critica ferrenhamente o governo corrupto e truculento de Nova Crobuzon e, por isso, termina perseguida; Lemuel Pigeon, um exímio conhecedor de inúmeros contatos dos submundos da cidade; e a Fiandeira (the Weaver), uma criatura sob a forma de uma aranha tenebrosa que pode manipular a teia invisível que perpassa o tempo e o espaço, interconectando os atos do presente às várias possibilidades de futuro.

Lin (httpjustinoaksford.deviantart.comartLin-the-Khepri-266048750)A participação da Fiandeira no enredo lembra um deus ex machina atuando nos bastidores, planejando as desventuras e reviravoltas que os protagonistas têm de enfrentar. Mas há um porém nesse raciocínio: as intenções da criatura são insondáveis para nós, leitores, e também para os demais personagens. A Fiandeira tece e torce seus fios guiando-se por um único intuito: tornar a narrativa, a grande narrativa universal, mais bonita, atraente e interessante. Para ela, o fluxo da História é arte. O problema é que ninguém consegue acessar sua interpretação de beleza: não temos como saber o que, para a Fiandeira, é “mais bonito” ou “mais interessante”. Logo, se ela é um deus ou algo que o valha, é um deus extremamente caótico, o que deixa tudo mais imprevisível e, consequentemente, mais divertido.

Mariposa (httpjustinoaksford.deviantart.comartSlake-Moth-266049266)E agora falemos dos antagonistas: as mariposas gigantes sugadoras de pesadelos, maturadas a partir da lagarta colorida apontada na sinopse. Serei sincero: a ideia é genial e não foi mal explorada. Contudo… acho que, para funcionar, um vilão precisa ser mais do que simplesmente todo-poderoso, invencível e letal. É importante que ele tenha algum elemento que o faça atrativo: seja um traço de personalidade, sejam seus motivos, seja uma obsessão – o que seja. Ora, embora representem inimigos difíceis de derrotar, conquanto mostrem deter uma inteligência rudimentar, e ainda que sejam elas mesmas que disseminem, entre as pessoas, os pesadelos de que se alimentam (numa tática aterrorizante de parasitismo), as mariposas não têm esse elemento extra da vilania, porque agem por instinto. É como Jurassic Park: tememos pelos heróis todo momento em que um velociraptor aparece na tela, mas não há grandes conflitos entre o predador e a presa. É mera corrida pela sobrevivência: excitante, mas rasa. (Em contrapartida, a tensão que emerge daí se encaixa com perfeição no gênero do horror: desenvolvê-la não foi um equívoco, só não me agradou muito.)

Cactacae (httpsaltmarsh.deviantart.comartPerdido-St-Station-Cactacae-46002744)

Cactacae

Por fim, o livro contém uma pletora de reflexões instigantes. Afora o teor da pesquisa de Isaac – uma física especulativa a meio caminho entre a ficção fantástica e a ficção científica –, captamos relances das visões de mundo e das culturas das variadas espécies que residem em Nova Crobuzon: desde a solidariedade que une os garudas, um igualitarismo que privilegia o coletivo em detrimento do individual; passando pela comunidade fechada dos cactacae, que moram sob uma redoma de vidro colossal, projetada por eles mesmos, para reter o calor e a luz do sol; até uma explicação de como os khepri, com seus multifacetados olhos de inseto, enxergam e processam dezenas de cenas simultaneamente. Todavia, o que mais me intrigou foi um diálogo entre Lin, namorada de Isaac, e o Sr. Motley, chefão do crime que a contrata para moldar uma escultura de si, no melhor estilo dos líderes megalomaníacos e narcisistas.

New Crobuzon’s architecture moves from the industrial to the residential to the opulent to the slum to the underground to the airborne to the modern to the ancient to the colorful to the drab to the fecund to the barren… You take my point. I won’t go on.

This is what makes the world, Ms. Lin. I believe this to be the fundamental dynamic. Transition. The point where one thing becomes another. It is what makes you, the city, the world, what they are. And that is the theme I’m interested in. The zone where the disparate becomes part of the whole. The hybrid zone. (p. 41)

O assunto que abordam é a transição e a hibridização: para Motley, todo ser possui atributos comuns a outros seres, pelo que inexistiria uma espécie perfeita, completa, pura em si mesma. Cada espécie é híbrida, assim como a própria cidade, Nova Crobuzon, é híbrida. Cada espécie conjuga em si elementos de outras, assim como Nova Crobuzon mistura harmonicamente diferentes espaços. É uma perspectiva que encoraja a superação dos preconceitos vigentes entre as diversas criaturas do universo de Miéville, na medida em que se percebe que a identidade de cada ser mantém conexões com as identidades dos demais. Por mais estranha que seja essa conclusão, o estranhamento há de ser confrontado. (Aliás, talvez por isso Perdido Street Station comece exatamente com uma cena de sexo ardente entre Isaac, humano, e Lin, khepri: é um jeito forçado de chocar o leitor, sim, mas também é uma forma de fazê-lo confrontar, já no início da história, seus preconceitos.)

Uma crítica final que, creio, eu deva fazer: talvez o livro peque por excesso de ideias criativas. Tantas são elas, que parecem mal amarradas em determinadas ocasiões, transmitindo a impressão de “recorte e colagem” e abalando a verossimilhança do mundo de Miéville. É evidente que para outras pessoas o efeito dessa inflação de criatividade pode causar o efeito oposto: afinal, a realidade é de fato complexa e plural e contraditória, e não raro nos surpreende.

Para terminar, digo que foi uma leitura interessantíssima, que para mim alcançou um patamar totalmente singular de originalidade. Foi penosa às vezes, mas gratificante.

Recomendo. É uma experiência única.

New Crobuzon 3

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