Além do Sol e da Lua – Capítulo 8

CAPÍTULO VIII- … Sangue rubro…

Sangue rubro 3 (httpwww.deviantart.comartDark-Fields-151570906)

Após darem as costas às línguas de fogo que lambiam a abóbada estrelada, ao irmão mais novo pareceu que a noite de Haure’ärna ficara estranhamente fria e escura. A caminhada até a fazenda dos Dimethio estava tardando bem mais do que o habitual, assim lhe aparentava. Talvez porque se sentisse imensamente cansado. Suas pernas latejavam com maior ardor do que as chamas que ele tencionara desbravar. Nas mãos e pés nasciam-lhe calos, e certamente não era natural alguém aperceber-se do calor do próprio sangue a circular sob as unhas. O dia fora longo demais, e tudo que desejava era poder deitar-se em sua cama macia forrada de palha e capeada por linho, dormir feito pedra e acordar na manhã seguinte para descobrir que vivenciara somente um pesadelo hiperdetalhado e impressionantemente real.

Sangue rubro (httpbrowse.deviantart.comartfire-45734782)

Uma coruja piou em algum lugar para além da cortina cor de ébano, quebrando a monotonia do concerto formado pelo farfalhar do capim pisoteado, o cricrilar dos grilos e a música das cigarras. Seth então despertou do devaneio. Bem devia saber que a essa altura seus lençóis brancos enegreciam e encolhiam à medida que o fogo devorava-os, e obviamente seu travesseiro já não passava de um montículo de cinzas. Pilastras e paredes, vigas e estantes – tudo de madeira, um banquete para as serpentes chamejantes. As flamas se alastrariam por toda parte, especulava o menino. Nenhum livro se salvaria. De poucos com sorte sobraria uma capa de couro torrada.

O semielfo conseguira absorver quase toda a informação disponível no acervo. Lera romances e poesia, geografia e história, contos e estórias. Mas repudiava os tratados de filosofia, evitara-os todos. Identificava-os facilmente: eram aqueles que apenas na décima página propiciavam ao leitor um vislumbre do tema sobre que o autor decidira dissertar. Décima página invariavelmente, como se existisse um padrão; e era aí, na décima página, que Seth bocejava, fechava o volume e, decepcionado, empurrava-o de volta à prateleira. Nem em suas mais negras conjecturas ele pudera imaginar um incêndio na morada. Mais do que um incêndio até: um incêndio provocado. Se pudesse tê-lo previsto… Ah, pela Lua fugidia, se o tivesse previsto, teria agido de maneira diferente. Teria mastigado cada obra de sua biblioteca. Teria mesmo se dedicado diligentemente a decifrar os símbolos místicos dos pergaminhos de magia. “Runas…” Sim, runas, assim Mestre Paetros os chamara.

A coruja crocitou mais uma vez, e outra, e outra. Lao soergueu a cabeça da relva para escutar. O som distanciava-se. A ave planava para longe, provavelmente à caça de roedores. Caiu o silêncio, e Seth pôde retornar a matutar em paz. O cérebro trabalhava febrilmente, e em seus recantos mais tenebrosos ouviam-se ecos e viam-se fantasmas das labaredas rugindo. Daí surgiam lamentos… e questões. “Para você, o que significa a destruição daquela casa?”, interrogou-se a si mesmo. Não. A voz era dele, lógico, a voz indistinta do pensamento. Porém os termos em que propusera a pergunta, o tom em que a enunciara… Um tom de escárnio. Enlouquecera? Realmente divertia-se à custa da própria desgraça? Nada disso. Seu duplo estava de volta e consigo trazia o hábito de ridicularizar a tudo e a todos sem remorso; com ele não havia tempo ruim. “O que significa, hã?”, insistiu.

“Você sabe!”, rebateu com um quê de desprezo. “Era meu lar.” Recusou-se a usar “nosso”, uma vez que o gêmeo não passava de um recém-chegado. “Era meu teto e meu chão. Meu marco zero. Lá se refugiavam minhas memórias mais belas…”

“Ha! Você de fato é um fracote. E tão tolo quanto nosso irmão vive afirmando. Mas não necessita que eu o lembre disso, certo? Memórias, memórias… Ninguém pode comer memórias. Nem bebê-las. Elas não alongarão sua vida e qualquer felicidade que delas advir será passageira e falsa. Ninguém pode viver no passado. Nem do passado.”

Tudo verdade. O Seth de olhos prateados era sempre racional. Calculista. Inteligente até. Com suas palavras, julgava-se capaz de ferir não importava quem. O garoto das íris cinzentas não devia replicar-lhe (replicar-se a si mesmo) apelando para o sentimentalismo. Entretanto o fez: a dor era por demais recente para que ele não a instrumentalizasse na discussão-reflexão.

“Você não compreende! Foi onde nasci, onde cresci. Era onde habitava…”

“Por acaso também era onde pretendia morrer?”, cortou-o o outro, a prata no olhar fulgindo como se tivesse capturado um relâmpago. Chegara ao âmago da questão.

“…”

“Queria morrer ali? Queria passar o resto de seus anos na encruzilhada do vácuo com o lugar nenhum?”

“Não”, murmurou.

“Sei que não. Sei que você anseia por conhecer o mundo. Os livros de sua mãe não eram bastantes, não é? Oh, sim, existem bibliotecas maiores, gigantescas, bibliotecas cujos pináculos rasgam as nuvens e cujas torres encobrem o Sol até a badalada do meio-dia. E elas encerram estantes não menos magníficas, você sabe. Leu sobre ela, a academia sem deuses… Como era mesmo o nome?

“Academia San-Elëar”, respondeu o semielfo, exalando pedantismo. Deleitou-se com aquela possibilidade de esfregar sua erudição no nariz empinado do duplo, que se achava tão melhor do que ele.

Naturalmente, o gêmeo não se impressionou:

“Heh, percebo que sua memória não é completamente inútil. (De qualquer modo, san-elëar se traduz para “sem deuses” na Língua Corrente, e portanto me expressei corretamente.) E quanto à Brumathëvira, hã, onde foi dada à luz sua… nossa mamãe? Muitos pergaminhos indicavam provir de lá, de Voiläpa-Pörte.”

“Cidade Ametista.”

“Sim, Cidade Ametista. Então… você falou que aquela casa era seu marco zero. Bem, receio que seu marco zero esteja neste momento em processo de carbonização, enquanto desaba sobre si mesmo. Você não é mestre do fogo, não pode controlá-lo, não pode detê-lo. A segunda questão é: o que fará agora e depois, agora que seu marco zero se esfacela, e depois que ele se transformar em pó?”

“Fundarei um novo!”, exclamou convicto.

“E abandonará o passado?”, desafiou o dos olhos de prata.

“Não de todo. Abandonarei o que precisar abandonar.”

“Bom, muito bom”, assentiu satisfeito. “Eis minha terceira questão: por quê? Por que queimaram seu lar? Por que os Cavaleiros incendiaram sua casa?”

“É… Por quê?” Desconhecia a resposta e, para defender-se, devolveu a pergunta, inseguro.

Silêncio. Agora tanto dentro de sua mente quanto fora, nos arredores de relva e penumbra em que nenhuma alma viva perambulava. O Seth das íris brilhantes calara-se, desconcertado por não lograr solucionar o problema que lançara. Talvez desde o início o menino estivesse conversando consigo mesmo. Talvez a sensação de que o gêmeo estivera ali houvesse sido apenas uma sensação, infundada.

Ora, por essa linha de raciocínio, fora então ele próprio quem, sozinho, superara a angústia. Estufou o peito, orgulhoso de si, todavia nem Berek nem Lao deram-lhe atenção. E daí? Era como nas estórias que sua mãe e Mestre Paetros haviam-lhe contado, nas estórias que ele redescobrira ao aprender as letras. Nessas fábulas, a princípio o Herói não era poderoso, majestoso, invencível – não era Herói, ainda não. Era uma pessoa comum ou menos do que isso às vezes: uma pessoa de porte risível. O ponto de partida de sua jornada – seu marco zero – sempre congregava tragédias das mais horripilantes, e a cada curva ele deparava-se com provações terríveis. Ah, mas o Proto-Herói estava destinado a virar Herói! Por conseguinte ele não desistia, enfrentava os perigos sem nunca olhar para trás. De quando em quando sofria derrotas, no entanto no fim triunfava. Sempre. No final o Herói (Herói completo, agora sim) ficava com a donzela e o trono. Antes um humilde plebeu, no final o Herói tornava-se rei.

“Sim! Construo aqui e agora um novo marco zero! Minha jornada começou”, pensou Seth embriagado de excitação.

“Ha! que piada!”, gargalhou o duplo. Ele estava ali, só não sabia a resposta para sua terceira questão. “Ei, quer ouvir um segredo?”, sussurrou. “NÃO EXISTEM estórias sobre semielfos, tonto! Eles… nós nem sequer temos uma história, meu caro. E ainda por cima em seu conto o semielfo vira rei?!”

“Você é um nojento, sabia?”

“Sou? Oh, bem… eu sou você, sabia?”, zombou com um sorriso malicioso.

“…”

“Escute”, suspirou. “Eu adoraria ter uma coroa de ouro, rubis e diamantes negros sobre minha fronte. Uma mocinha de lábios carnudos para encostar nos meus também não seria nada mal. Mas… sejamos realistas. O Herói persegue a glória. Nós, nosso irmão e o cão estamos sendo perseguidos. Em suma: amadureça, pirralho! Que tal primeiro lidar com aquele problema que permanece não resolvido?”

“Por que os Cavaleiros atearam fogo a minha casa?”

“Isso!”, e recolheu-se o gêmeo.

Seth refletiu, refletiu, refletiu até não poder mais, até suas têmporas doerem. “Por que queimaram meu lar? Por quê? Por quê? E por que estamos demorando tanto para encontrar os Dimethio?”

Sangue rubro 4 (httpfrozenstardust.deviantart.comartFields-of-darkness-96700076)

Ele e Berek marchavam havia mais de uma hora sem trocar palavra. A mudez decerto facilitava a meditação, porém depois de nenhum estalo desentravar-lhe os neurônios, depois de nem uma mísera vela alumiar-lhe o espírito, o mais novo resignou-se e decidiu rachar o pétreo silêncio:

– Eu bem que falei para abrirmos o vinho… – e sorriu.

O mais velho grunhiu e soltou um “ha-ha” sem graça. É, não fora mesmo uma grande piada. Ademais, Seth não tinha certeza se a garrafa de vinho estava perdida efetivamente. Seu porão-adega simplesmente havia sido escavado no solo, sem passar por acabamento algum; todos os cantos eram de terra batida ou pedra, e o suporte das bebidas situava-se distante da escada de madeira; desta possivelmente só restaria um esqueleto enegrecido delineando as arestas, mas com sorte as flamas não tocariam o recipiente de vidro nem o conteúdo alcoólico, que não entraria em combustão.

Berek manteve-se quieto, também tinha suas preocupações.

Mestre Paetros não dera as caras. Era traço bem conhecido de sua personalidade, a impontualidade. O velho tão metido a jovem considerava dispor de todo o tempo do mundo para cumprir seus compromissos. Por isso se atrasava quando bem lhe aprazia, só precisava de uma justificativa mirabolante para envernizar seu pedido de desculpas amarelo e seco, como as folhas de uma caducifólia às vésperas do outono. A última havia sido… “Cavalos selvagens?” Sim, cavalos selvagens! Demorara porque um repentino estouro de cavalos selvagens fizera-o tombar de sua montada e a égua, aterrorizada, galopara para longe, no rastro de poeira da manada. Por milagre o Mestre não sucumbira sob a profusão de cascos estrondeantes. Por milagre, oh, sim! Por um milagre providenciado pelo deus dos ateus! Contudo naquele ano, no ano anterior a esse, Marco Paetros com efeito batera à porta dos irmãos atrasado, a pé, de vestes surradas e com a clavícula grotescamente fora do lugar. Mas em ocasião alguma sua irresponsabilidade atingira o ápice de faltar a suas promessas.

Juro que retornarei para vê-los sempre que puder.

Mestre Paetros jamais se desonraria. Porém o fez. “Devia ter aparecido! Devia ter vindo para o aniversário de casamento de nossos pais… e para o aniversário da morte deles. Devia ter vindo para nos ver, a nós, seus pupilos!” Onde aquele beberrão, preguiçoso, imprestável teria se enfiado? Se tivesse chegado a tempo, nada disso teria acontecido, e se nada disso tivesse acontecido, eles estariam em casa a essa hora, divertindo-se com as histórias do Mestre, rindo adoidados, bebendo o vinho!

Na ausência de Marco, ele, Berek, era o líder. Céus e mares! Era ele quem guiava o grupo e não obstante sentia-se cego e desnorteado, como um mosquito a investir furiosa e incessantemente contra uma janela fechada, intentando atravessá-la. Já haviam andado mais do que o suficiente para avistar os candeeiros da fazenda, entretanto somente a luz das estrelas combatia o negrume. Amaldiçoava-se a si e sua imprevidência. Tanto fogo lá atrás… Devia ter arrancado um pedaço de pau e improvisado uma tocha, idiota! Não, não. Talvez fosse melhor que continuassem sob a capa da noite. Torcia por que os tais ginetes em escarlate acreditassem que ele e o irmãozinho morreram no incêndio. Era uma hipótese plausível, mas não o convencia plenamente. Não podia arriscar acender um facho e assim denunciar sua presença a assassinos que potencialmente estavam em seu encalço e que na escuridão certamente enxergavam com maior eficácia do que Seth.

“Ah, onde estão as malditas luzes?!”

Não sabia que horas eram. Quão tarde devia ser? O Sr. e a Sra. Dimethio eram gente do campo, agricultores, tinham de se levantar cedo. Logicamente já deviam ter ido se deitar. Sim, e eles não esperavam visitantes noturnos. Era por isso que as luzes estavam apagadas. Sim, era apenas por isso, sim… “Então por que este mau pressentimento não me deixa?”

De súbito o mais velho estacou e decretou:

– Para o norte.

– Norte?! – bradou o mais novo. Um corvo empoleirado no galho de uma árvore próxima agitou as asas num grasnido. – A propriedade do Sr. Dimethio fica mais para o sul. Se não sabe onde estamos, Berek, basta admiti-lo.

– Não sei onde estamos! – resmungou carrancudo. – Mas posso descobrir. Se enveredarmos para o norte até o capim desaparecer sob nossos pés, é porque alcançamos o monte calvo, que nos fornece uma excelente referência. Se somente encontrarmos relva e mais relva, então avançamos demais para o oeste.

– Você acha que nós viemos parar muito ao sul?

– Sim. Desconfio que, sem querer, tomamos o sudoeste, não o oeste. Tanto que ainda não há sinal do monte calvo.

– Para o norte, então.

Nem sequer dez minutos haviam se passado, com o corvo praguejando a todo o momento a suas costas (“Por que este mau pressentimento persiste?”), e Seth gritou:

– Olhe! Bem em frente.

Um cercado. Estacas conectadas por fios de arame.

– Será a fazenda do Sr. Dimethio?

– Sim, é sim – disse Berek, radiante. Ele era um ótimo líder, ah, se era! E tudo sairia conforme planejara. – Agradeça-me depois, irmãozinho.

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2 respostas em “Além do Sol e da Lua – Capítulo 8

  1. Olá,
    .
    Estive ausente, mas cá estou novamente para ler essa ótima história. Em comparação com os dois últimos esse foi mais reflexivo, mas também foi muito bom.

    Confesso que algumas vezes me perdi durante a alternância de foco entre Seth e Berek ainda mais com os pensamentos de Seth, ou seu gêmeo.

    Ah lembrei de um fato interessante, quando Seth foi capturado seus olhos brilharam de uma forma diferente, seria a manifestação desse seu Eu destemido que está incubado?

    A história está ótima!

    Ah, vou aproveitar e fazer um convite, já não estou atualizando meu blog por que aceitei o convite e estou publicando agora na coluna de literatura do site Kalango Atômico, quando puder passa por lá.

    Abraço

    • Obrigado por ler e comentar, Jefferson!
      Verdade, acho que ficou meio confusa a sucessão de falas/pensamentos do Seth e de seu duplo. Vou indicar melhor quem falou o quê. Vlw pelo feedback. 🙂
      Sim, o olhar prateado tem a ver com a manifestação do gêmeo, isso inclusive vai ser sugerido no capítulo seguinte. O fato é que nem eu tenho lá muita certeza das razões por detrás do duplo; tenho algumas ideias, mas há muita coisa obscura ainda, hehe!

      Ah, bem que reparei que seu blog estava meio parado. Imaginei se vc teria viajado ou algo assim. Fiquei um tempo sem postar aqui também, mas em breve voltarei à rotina de antes.
      Podexá, passarei a acompanhar suas postagens no Kalango Atômico. 🙂
      Abraço! o/

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