CONTO: O som do silêncio

Conto inspirado na música The sound of silence (Simon & Garfunkel).

Simon[1] acordou no escuro, como ultimamente vinha acordando.

Arrastou-se junto à borda da cama e tateou o chão em busca da lanterna, até encontrá-la. O exercício permitiu-lhe espreguiçar-se. Apertou o botão, mas nenhum facho de luz sucedeu-se ao clique. Clique-clique-clique: três cliques e, além deles, só o silêncio. Nem assim a luz veio. Sacudiu a lanterna, bateu-lhe na lateral, clique-clique de novo: sem sucesso. Esfregou as têmporas, frustrado. Já sabia como aproveitaria aquele dia: teria de procurar baterias.

Mas antes disso virou-se para o lado oposto da cama, pegou uma caneta de tinta quase ressequida encravada atrás das folhas de um calendário pendurado ali na parede e, com ela, riscou mais um quadradinho na página daquele mês, outubro. Mesmo sem lanterna, com sua visão já habituada à treva ele folheou o calendário e fez uma rápida contagem mental de quanto tempo já se passara. “Cento e vinte e oito dias.” Cento e vinte e oito dias desde o Golpe. O Golpe que derrubara o regime mecanizado e tirânico de outrora. “O Golpe que quebrou a cidade.”

Espreitou pela persiana da janela à cabeceira. Agora era essa sua rotina e, como ela, a paisagem lá fora não mudava. O céu nublado escondia a lua e as estrelas. Os arranha-céus vazios, negros e quietos vigiavam as ruas como obeliscos monstruosos, todos encobertos pela manta cinzenta de uma urbe imersa em sono enfeitiçado, uma urbe que talvez nunca despertasse novamente. De quando em quando um rastro de luz cruzava os andares superiores dos edifícios, varrendo a escuridão, porém tão logo ele afastava-se as sombras procriavam como baratas e engoliam os focos havia pouco iluminados.

Dark city

Simon sabia que a fonte luminosa era um holofote, resquício de uma era perdida, sucata da utopia eletrônica que fora a cidade antes do Golpe. “Distopia.” Sim, para ele e os colegas, aquela rede de circuitos perfeitamente interconectados numa ordem digital a congregar o sistema bancário, o funcionamento da política, a prestação da justiça, a administração dos serviços públicos, o entretenimento e a produção cultural – aquele leviatã tecnológico sempre fora uma distopia.

E, pelo visto, mais gente pensava do mesmo jeito, porque o grupo anarquista que resolvera pôr fim à opressão do sistema, cento e vinte e oito dias atrás, explodira exatamente o centro nervoso do colosso maquinal e assassinara seus operadores. Mas o tiro – o Golpe – saíra pela culatra: quando a ruína abatera-se sobre a harmonia robótica, arruinara também as vidas de inúmeras pessoas, que toda a população dependia visceralmente de seus bytes e fluxos de dados e programação nos devidos eixos. E o holofote a circundar perpetuamente a cidade, congelado num desajuste técnico inexplicável, encarnava uma imagem, concomitantemente debochada e triste, de que a revolução dera defeito.

O silêncio ao redor oprimia. Era como se desde o Golpe a urbe viesse prendendo a respiração, sufocando, agonizando. Talvez não respirasse mais. Quando o pandemônio sugerira instalar-se, as elites haviam migrado para suas mansões no campo, receosas de que os terroristas as enxergassem como antiquadas e conservadoras – o que com efeito eram – e como um novo alvo – o que não queriam ser. Os saques haviam-se multiplicado ante a interrupção dos sistemas de segurança de bancos, lojas e residências. E alguns deflagravam incêndios e explosões e destruição – loucos de nascença ou desorientados momentâneos que visavam a participar da derrota das velhas regras, ou interessados em imprimir uma marca no caos que se expandia pela história e espaço urbanos. Pela força, poucos se haviam autonomeado senhores de quarteirões inteiros, na vacância dos senhores antigos. Os prudentes haviam saído da cidade, sobrando apenas os acomodados demais (que não pretendiam ir a qualquer outro lugar), os pobres demais (impossibilitados de rumar para qualquer outro lugar) e os que não tinham nada a perder e muito a ganhar.

E Simon. Simon só buscava ver no que ia dar aquilo tudo, uma ideia que a princípio o entusiasmara, mas que com o tempo se revelara imensamente estúpida. E agora ele estava sozinho no escuro.

“Olá, escuridão, minha velha amiga”, pensou, esboçando um riso cansado para a noite. “Vim conversar com você de novo.” Indiferente, a treva cuspiu-lhe mais silêncio. Entretanto Simon já se acostumara, e para ele os ouvidos moucos da sombra eram mais uma carícia do que um punho de ferro na cara. Rememorou o sonho que tivera como se o narrasse ao breu noturno e silente, não se importando se era ou não escutado.

Era uma visão ligeiramente arrepiante, em que ele caminhava solitário por aquelas estreitas ruas de paralelepípedos. À medida que avançava, todavia, começara a notar a presença de outras pessoas. Silhuetas o espiavam de cantos obscuros, de becos laterais ou de trás de vidros foscos, e mal ele virava-se para encará-las, todas se apressavam em sumir. Por mais que ele corresse não as alcançava; por mais que gritasse, elas o ignoravam. De repente dobrara uma esquina e, com a vista embaçada como se refém de uma luz cegante, vislumbrara: uma verdadeira multidão aglomerava-se na praça adiante. Dez mil. Talvez mais. E, apesar de tanta gente reunida, o silêncio persistia.

O tormento de Simon era que essas imagens não pareciam oníricas exatamente. Não. Eram menos oníricas do que proféticas. Nas atuais circunstâncias, talvez já fossem reais, deduziu com um calafrio. Abanou a cabeça. Desnublou as ideias. “Besteira”, descartou a reflexão. Vestiu o sobretudo e saiu à procura de baterias. Com sorte, na loja de conveniência a uns dois quarteirões de sua casa – de onde vinha abastecendo-se de enlatados – teria restado pilhas e baterias. O lugar era mirrado o suficiente para não atrair os saqueadores, o que já contava pontos à boa sorte.

DarkA visão que lhe fora plantada no cérebro – a visão que deixara sementes enquanto ele dormia – ainda remanescia dentro do som do silêncio. No sonho as ruas eram habitadas por fantasmas de pessoas; na realidade, povoavam-na os fantasmas do passado. Simon lembrava-se de uma época em que as noites eram brilhantes e coloridas e agitadas. Outrora milhares de festas aconteciam simultaneamente, em locais públicos ou nos terraços privados dos ricos, nelas rolando de álcool a cristais de metanfetamina. A música eletrônica tocava incessante pela madrugada, e agora seus ecos repicavam na mente de Simon. Levantou a lapela para escudar-se do frio e da umidade. Recordou-se de um barzinho ali perto onde se entretinha criticando o governo com os amigos da faculdade. Qual teria sido o destino do local? Havia quanto tempo não o visitava? “Cento e vinte e oito dias.” Saudoso e curioso, resolveu conferir e mudou de curso. Tornaria à esquerda na próxima rua e…

Foi quando apunhalaram seus olhos.

A sua frente piscou o flash do neon de um letreiro colossal, que rachou a noite. E na luz nua, junto ao espectro difuso do neon, ele viu… “Dez mil pessoas. Talvez mais.” Não, decerto não era tudo isso. É que, ofuscado como estava, para cada gente de carne, Simon visualizava mais três ilusões fugidias. Como nunca se apercebera de uma multidão tão perto de seu lar? Imaginara-se sozinho e abandonado, quando ao fim e ao cabo lhe teria bastado vagar um pouco para encontrar outros tantos. Dezenas. Uma centena. Enquanto seu olhar ajustava-se à luminescência, ele aproximou-se cauteloso.

Até que estacou e abafou um gemido. Pois descobrira o motivo de jamais antes ter reparado naquelas pessoas: o silêncio as acompanhava. Nenhuma delas produzia um ruído sequer. Todas mudas. Surdas. Pisavam com cuidado, como se temerosas de romper a quietude. Deslocavam-se feito almas penadas nas brumas de um sonho. “Como em meu sonho.” Quando se comunicavam – se se comunicavam, porque a maioria ou fitava o chão, apática em meio ao silêncio lutuoso, ou contemplava a placa de neon, como que venerando um deus –, faziam-no por gestos. Conversavam sem falar. Ouviam sem escutar. Escreviam canções que vozes nunca haviam compartilhado. E ninguém ousava perturbar o som do silêncio.

E talvez tenha sido isso que perturbou Simon. Não saberia dizer se foi o nervosismo ou a ira que o incitou a agir. Talvez uma mistura dos dois. Cambaleou para junto daquelas pessoas que circulavam como gado humano, mais plácidas do que ovelhas, e aí murmurou: – Tolos.

Ignoraram-no.

Tolos! – repetiu mais alto. – TOLOS! – gritou. “O que raios vocês estão fazendo?” Simon tremia. Não compreendia. – POR QUE VOCÊS…?! NÃO SABEM QUE O SILÊNCIO…

Da multidão proveio um shh! coletivo, feito gás a escapar.

– … cresce como um câncer? – completou uma voz atrás dele.

Simon voltou-se por um instante e de relance, banhada em neon, captou a figura de uma mulher, os cabelos curtos, a tez escura. Acenou em concordância: a intervenção dela fora bem-vinda, que ele era péssimo com metáforas e símiles e linguagem figurada. Mas depois retornou ao que interessava. Já ia adiantar-se e continuar a discursar quando ela o deteve pelo pulso.

– O que vai lhes dizer, hã? – cochichou a moça. – Ouçam minhas palavras que talvez eu lhes ensine? – sugeriu num tom de escárnio. – Agarrem meus braços que talvez eu os alcance? – e agitou os próprios braços no ar. Sorriu: – Você não é mais iluminado que o letreiro ali, sabia?

Simon desconcertou-se. Antevia aonde a moça pretendia chegar, só que não aceitava deixar aquela gente ao desamparo. Era verdade que ele não encarnava um mestre da sabedoria, mas era instruído o bastante para… Ah, quem aquela mulher pensava que era para criticá-lo daquela maneira?

– Quem no inferno é você? – perguntou indignado.

– Bem, no inferno talvez me reconheçam. Mas aqui e agora sou ninguém. Assim como você – e cravou-lhe o indicador no peito. – Como eles – e dispensou um gesto à multidão, que novamente se pusera a ocupar-se com o silêncio. – Mas pode me chamar de Melodia. Melodia “Granada”[2].

A moça tragou-o pela praça, contornando o povaréu que deambulava sem destino.

– Para onde está me levando? – Ele desvencilhou-se do aperto dela. – E por que me impediu?

– Por quê? Boa pergunta! Não precisava tê-lo impedido. Não teria feito diferença se você tivesse prosseguido. Eles só iam mandá-lo calar com seus shhs, e eventualmente você teria desistido. Não entende que não pode convencê-los? – Melodia suspirou. Jogou as mãos para cima, irritada. – A história e a mitologia mostram que não devemos nos curvar a falsos ídolos, mas as pessoas ainda não aprenderam que todo ídolo é falso. No caso, a placa de neon – e apontou.

E Simon finalmente a leu quando ela piscou, sussurrando nos poços do silêncio. E o letreiro dizia: “A palavra dos profetas está escrita nas paredes do metrô e nos corredores das casas”.

– Você deve saber o que tem escrito nas paredes do metrô e nos corredores das casas, não é…?

– … Simon.

– Você sabe, não é, Simon?

Simon sabia. Em pichações e grafite, havia frases de desespero e esperança, desalento e reconforto, porque inexistia consenso sobre as consequências do Golpe. Ninguém tinha certeza se a revolução fora boa ou ruim. Mas, em meio a tantos juízos díspares, algumas frases repetiam-se. “Silêncio e paz.” Ele engoliu em seco. “Silêncio e sossego.” “Silêncio e amor.” Isso explicava muita coisa.

– Quem? – ele balbuciou.

– Quem foi o responsável pelo silêncio? Quem cunhou as frases e reprogramou o aviso de neon? Sei lá. Talvez os revolucionários. Talvez uma dissidência deles – encolheu os ombros. – Na verdade o grupo se fragmentou já faz um tempo. Mas sem dúvida foi gente desencantada com o Golpe, gente que tencionava remediar seus piores efeitos, pacificar as ruas. – Ela fungou uma risada: – Em vão. Não se pode forçar a roda do tempo a girar ao contrário. Não dá para reconstruir a estrutura obsoleta de antes. Ah, e repare no seguinte, Simon: escreveram “Silêncio” com a inicial maiúscula. Obviamente não por respeito à gramática. É que o “Silêncio” dos… profetas não se refere apenas àquele silêncio – e indicou a multidão. – Também é o nome do grupo revolucionário. Sei disso porque – umedeceu os lábios – já o integrei.

Simon recuou. Melodia quebrara a cidade? Matara? Ela…?

– Você escreveu as frases? Você…? “Silêncio e… amor”? – desafiou-a com asco na voz. – Depois de tudo o que aconteceu, vocês vêm pregar amor?! Mas que…

– Idiotice. Sim, pura idiotice – ela assentiu. – Não fui eu quem escrevi as frases. Antes do Golpe eu era uma poetisa, tecia críticas políticas em minhas obras, mas preferia ser mais sutil que essa coisa de “Silêncio e paz”, “Silêncio e amor”. Concordo que o movimento desandou. Eu e meus companheiros não pensamos no depois, neste momento pós-revolução. Disso me arrependo, mas não de ter matado quem matei. Eles mereciam morrer – confessou entre os dentes.

Simon recuou mais.

– Simon, você se lembra de como o antigo regime se autodesignava?

– Autocracia.

– Sim. E por quê? Que significado eles atribuíam ao nome?

– Eles defendiam que o “auto” em “autocracia” correspondia à palavra “eu”, que por sua vez remetia a “cada um de nós”. Logo, a Autocracia era o “poder de cada um de nós”. Mas… eu e meus amigos discordávamos. Interpretávamos o “auto” como referente a “automático” e “automação”, porque a Autocracia era o império do complexo maquinal que se espraiava por toda a cidade com seus fios e circuitos. – E a explicação levou-o a recordar-se dos colegas da faculdade. Todos eles já haviam saído da urbe, e ele agora lamentava que não os tivesse acompanhado quando a chance se apresentara.

– É mesmo? Vocês supunham que era isso que significava? – indagou Melodia, o divertimento estampado no sorriso reluzente de neon azul. – Espertos e criativos, mas nem se aproximaram da verdade – meneou a cabeça em negativa. – O termo “autocracia” é mais remoto que você e seus amigos imaginavam. Temo que o sentido original tenha se perdido no tempo. “Auto” equivale a “por si mesmo”, sendo “autocracia” “poder por si mesmo”. Na autocracia, o governante detém poder ilimitado e absoluto, e era bem assim que funcionava nossa Autocracia. As pessoas acreditavam que as decisões cabiam a elas, com todos aqueles plebiscitos… Mas não passava de mera ilusão. Você se lembra de como fazíamos para votar, Simon?

– Acessávamos nossa conta. Selecionávamos o assunto na pauta de votação. Escolhíamos umas das três opções disponíveis, A, B ou C.

– Certo… Mas e se nenhuma das três fosse satisfatória? E se alguém inventasse a opção D ou a E? Ou uma F? Não era possível, correto? Pense: e se F fosse a alternativa mais transformadora de todas? Pelo sistema em vigor, nunca chegaria sequer a ser cogitada. Porque eram os governantes quem formulavam o elenco de propostas e, com isso, definiam os limites das mudanças que podiam ocorrer. E quem controla o ritmo da mudança, impede que a mais importante delas sobrevenha. Daí que nossa liberdade era só aparente. Nosso poder era falso. – Ficou a observar os adoradores do neon e continuou: – E os zumbis ali representam o ápice de uma passividade que sempre existiu. Tão apegados à tecnologia, que hoje se agarram desesperados à corda que é o letreiro, para evitar se afogar na ruína. Precisam de um norte, e os profetas do neon o oferecem.

Mordeu o lábio:

– Tenho de consertar isso.

 

Simon seguiu Melodia até o prédio em que se afixava a placa de neon. Subiram todos os andares e, no último, ela escancarou uma porta com um chute. Na sala, além de escuridão e silêncio, havia um computador ainda em operação. “Deve se ligar ao letreiro lá fora”, deduziu o rapaz.

– Vou terminar o que comecei – disse a moça ao acercar-se da máquina.

Ocasionalmente a luz do holofote que rodeava a cidade invadia o recinto pela janela à direita, de modo que o cenário alternava-se entre claro e escuro, claro e escuro.

– Espere! O que você pretende…?

– Não é evidente? – retrucou Melodia. – O neon, assim como aquele maldito holofote, previne que abandonemos o passado. Tenho de apagá-lo.

– Está louca? Você mesma falou que a placa servia de guia àquela gente. Aquelas pessoas necessitam dela, do contrário vão perder o apoio que lhes resta. Vão se afogar!

A moça virou-se e deferiu-lhe um sorriso gentil:

– Tudo bem. Que alguns se afoguem. Só assim outros aprenderão a nadar.

– Se acha que vou permitir que…

– E o que você sugere, Simon?! Planeja convencê-los, ó sábio?! Você já o tentou antes e falhou miseravelmente. Suas palavras caíram como silentes gotas de chuva.

– Fodam-se você e sua poesia! Você não pode…

Ouviu-se alguém pigarrear.

– Talvez eu possa ofertar uma terceira via à senhorita e ao senhor. – À porta situava-se um velho de bigodes fartos e oleados, totalmente brancos, sobrancelhas grossas e olhos afiados. Vestia-se como um cavalheiro da Era Vitoriana, de chapéu-coco, bengala e uma corrente de ouro parcialmente encoberta pelo paletó.

Antes que Simon ou Melodia pudessem manifestar-se, ele adiantou-se:

– Meu nome não importa. O senhor e a senhorita são ninguém, eles são ninguém e assim por diante – com a mão que não segurava a bengala, perfez um floreio, impaciente. – Tratem-me por Al se lhes convier. O que importa é o que tenho a dizer.

Pigarreou de novo, dessa vez para limpar a garganta.

– Senhor. Madame – encarou ambos, um por turno. – E se reprogramássemos o aparelho, a fim de alterar os dizeres em neon? E se mudássemos as ordens?

Simon e Melodia entreolharam-se.

– Isso não seria… manipulação? – hesitou o rapaz.

– Oh, sim, seria – acatou o velho. – Uma mentira justificável, virtuosa, mas ainda assim uma mentira. Isso a tornaria menos reprovável? Não sei. Mas a ideia não é má, e suponho que o senhor e a senhorita concordem, não?

– E o que colocaríamos em substituição ao aviso atual? – perguntou a moça.

Al coçou o queixo:

– Que tal algo como: “Os profetas estão mortos e enterrados. A nova palavra está dentro e entre vocês. Precisam falar para encontrá-la.”? Para expurgar o silêncio, eles terão de descobrir as próprias vozes.

– Interessante… – ponderou Melodia. – Mas não confio naquela gente para iniciar uma conversa. Devem estar uns dois meses sem abrir a boca.

– Proponho que adicionemos uma pergunta também, algo como: “O que traria a boa vida para todos e cada habitante desta cidade?”.

– Muito vago – contestou o rapaz.

– E o que o senhor considera “boa vida”? – questionou a moça.

– Ah, mas aí reside meu ponto. – O velho ergueu o indicador, pedindo atenção. – Algumas perguntas não têm uma resposta definitiva. Outras possibilitam várias respostas. E há um terceiro tipo: aquelas que não pedem nenhuma resposta. Não é seu propósito, não é sua razão de ser. Elas incitam as pessoas a pensar e a debater, e isso é o bastante. São essas as mais belas perguntas, meus jovens – alisou o bigode a sorrir.

Melodia encolheu os ombros.

– Não vejo por que não possamos tentar. Se não funcionar, explodimos tudo, ok?

– Quem a batizou de “Melodia” tinha menos juízo que você – ressaltou Simon.

– Meu pai era um romântico. Eu, não. Sou dura como meu nome de guerra: Granada.

E, após gargalhar, a moça engajou-se na reprogramação.

– Pronto. Está feito – estalou os punhos. – Dou um dia para que a galera lá embaixo comece a se matar.

– Você é muito pessimista – disse Simon. – Dou dois dias. E o senhor, o que acha, senhor Al?

Ao tornarem-se, perceberam que o velho afastava-se, recolhendo-se a um canto sombrio, ocultando-se nas trevas. O sorriso simpático. Aos lábios, o indicador em riste. Quando a luz do holofote banhou o aposento novamente, tudo o que sobrou dele foi um eco distante de seu shh. Desaparecera com o silêncio.

 

Da janela provinha um burburinho. Lá fora, as pessoas falavam.


[1] Paul Simon é compositor e cantor da dupla estadunidense Simon & Garfunkel, criadora da música The Sound of Silence.

[2] “Granada” refere-se à gema de cor avermelhada ou arroxeada.  O sobrenome de Art Garfunkel, compositor e cantor da dupla Simon & Garfunkel, é de origem judaica e deriva de uma palavra iídiche que significa justamente “granada”. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Garfunkel.

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4 respostas em “CONTO: O som do silêncio

  1. O conto é magnífico, mas acho que sem escutar a música de inspiração não o entenderei por completo, como estou no trabalho, quando chegar em casa vou escutar e comentar com mais detalhe.
    .
    Mas, parabéns o texto é singelo, profundo, belo e reflexivo. Uma combinação perfeita.

    • Vlw, Jefferson!
      Pois é, com a música ele ganha um novo sentido, porque o leitor vai conseguir associar um ou outro trecho à letra.
      Mas a história que é narrada foi meio que criação minha mesmo – ao menos o contexto, os personagens, as razões do silêncio, etc.. Como a letra da música sempre me pareceu o recorte de uma trama maior, deu pra inventar os detalhes. 😉
      Escute, sim! Não sei qual é seu gosto musical, mas eu pelo menos adoro essa música.
      Abraço!

  2. Só agora fui ter tempo. Escutei a música. A verdade é que não tinha identificado pelo nome, mas cresci escutando essa música ela é realmente maravilhosa, no entanto, nunca tinha prestado atenção na letra e seu conto me fez perceber a grandiosidade dela.

    Simplesmente ótimo tanto a música quanto o conto.

    Aliás, acabei escrevendo um inspirado na música Imagine de John Lennon, publique no ONE quando puder dá uma lida: http://www.onerdescritor.com.br/2013/07/imagine/

    Abraço!

    • Obrigado!

      Darei uma checada em seu novo conto, sim, pode deixar. 🙂 Curto Beatles, e a “Imagine” do John Lennon sempre consegue capturar minha atenção de uma maneira quase hipnótica, hehe!
      Lerei, sim. Aliás, tenho de pôr em dia as leituras e os comentários no ONE, e também as atualizações no blog. É que estou meio enrolado com o fim de período na faculdade.

      Abraço! o/

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