Leitura obrigatória: Aqueles que se afastam de Omelas

Omelas 2De Ursula K. Le Guin, super-recomendo o conto Aqueles que se afastam de Omelas (The Ones Who Walked Away From Omelas).

Fala de uma cidade chamada Omelas, pacífica, esplendorosa, repleta de felicidade, a joia mais perfeita. É um lugar difícil de imaginar, mas eis que a autora nos relata mais um detalhe sobre ele: “Em um porão sob um dos belos prédios públicos de Omelas, ou talvez na adega de uma das suas espaçosas residências particulares, existe um quarto com uma porta trancada e sem janelas”[1]. Nesse quarto há uma criança. Ela está mal nutrida e abandonada. Vive em constante sofrimento.

Omelas 3 (httpbrowse.deviantart.comartOmelas-The-Cellar-148128136)Todos sabem que ela está lá, todas as pessoas de Omelas (…) Sabem que ela tem que estar lá (…) Todos acreditam que a própria felicidade, a beleza da cidade, a ternura de suas amizades, a saúde de seus filhos (…) até mesmo a abundância de suas colheitas e o clima agradável de seus céus dependem inteiramente do sofrimento abominável da criança (…) Se ela for retirada daquele local horrível e levada para a luz do dia, se for limpa, alimentada e confortada, toda a prosperidade, a beleza e o encanto de Omelas definharão e serão destruídos. São essas as condições.[2]

Trata-se de um conto que põe em questão determinada concepção de justiça. É justo sacrificar a dignidade da criança em proveito do bem-estar de uma cidade inteira? Essa condição é moralmente aceitável?

Omelas 4 (httphliwwa.deviantart.comartOmelas-Concept-art-134303519)

Traçando um paralelo, contagiado pelo espírito das manifestações que têm se propagado por várias cidades brasileiras, a reivindicar que os governos revisem suas prioridades, pergunto: é justo sacrificar a saúde, a educação e a qualidade de outros serviços públicos em proveito das aparências, em proveito de uma cidade apenas superficialmente esplendorosa (uma cidade cartão-postal) – em proveito, mais especificamente, das obras da Copa? Essa condição é moral ou civicamente aceitável?

Acho que não preciso responder, que a resposta é evidente.

(Estou ciente de que acabei reduzindo o brilhantismo do conto com essa minha analogia forçada, baseada numa filosofia política de botequim. Em contrapartida, creio que, se eu não tivesse feito a associação que ora fiz, teria incorrido numa omissão imperdoável.)

Bem, para os curiosos sobre o final de Aqueles que se afastam de Omelas, podem ler o original em inglês na íntegra aqui.

E em português aqui.

E para outros escritos filosóficos de literatura fantástica, de minha autoria, chequem as seções: ContosNovela e Romance.

Omelas 1


[1] SANDEL, Michael J. Justiça: o que é fazer a coisa certa? 9ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012, p. 54-55.

[2] Ibid., p. 55.

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4 respostas em “Leitura obrigatória: Aqueles que se afastam de Omelas

  1. Pingback: Sugestão de leitura: Aqueles que se afastam de Omelas - Roda de Escritores

  2. não tô podendo com isso, não iria aguentar ver o sofrimento de uma criança, para a felcidade de outros

    • Mas isso não está distante da nossa realidade, quantas crianças no mundo não trabalham em fábricas, colheitas? ou até mesmo quantos adultos não trabalham de forma quase escrava? Nossos eletronicos, comidas, roupas, limpeza nas ruas e instituições… tudo isso vem do sofrimento de outras pessoas para nos tornar um pouco mais felizes. Todos nós somos cidadãos de Omelas só q não nos afastamos nunca.

      • Muito bem colocado! E acho que a situação é até pior do que em Omelas: em Omelas, todo mundo sabe da criança presa no porão, todo mundo constantemente se lembra dela. Mas, em nosso mundo, nem sempre a gente se dá conta de que outros sofrem para que vivamos felizes e com conforto… Curti a reflexão! 😀

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