George R. R. Martin responde a fãs & dicas de William Faulkner

Pegando o gancho do último post, sobre cenários em As Crônicas de Gelo e Fogo, trago agora a entrevista abaixo. É antiga, datada do verão de 2011. Nela, George R. R. Martin, eleito pela revista Time uma das “pessoas mais influentes do mundo”, responde a perguntas enviadas pelos fãs do Facebook da Amazon Books.

Notem que alguns trechos contêm orientações úteis a quem deseja escrever fantasia, especialmente no que concerne ao desenvolvimento da trama e à criação de personagens.

 

Martin cita o grande escritor estadunidense e nobel de literatura William Faulkner, conhecido por seus personagens complexos. Numa pesquisa superficial pela internet, encontrei dicas valiosas creditadas a Faulkner, originadas a partir das aulas que ministrou e das palestras que concedeu à época em que ocupou a posição de Escritor Residente na Universidade da Virgínia. O artigo que encontrei continha sete excertos das transcrições baseadas nas lições que Faulkner ofereceu nesse período. Ei-las.

William Faulkner

“O jovem escritor seria um tolo se seguisse uma teoria. Ensine a si mesmo por meio de seus próprios erros; as pessoas só aprendem errando. O grande artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos.”

 

1- Pegue o que precisar de outros escritores [mas, devo acrescentar, nada de plágio!] – 25 de fevereiro de 1957, durante uma aula de escrita.

Acho que o escritor, como já disse antes, é alguém completamente amoral. Pega tudo o que precisa, quando precisa, e o faz tão aberta e honestamente porque ele próprio espera que o que ele produzir será bom o suficiente para que, depois dele, outros tomem empréstimo de seus escritos, e é permitido que essas pessoas assim procedam, do mesmo modo que ele viu-se permitido pelos melhores dentre seus predecessores a emprestar o que eles haviam escrito.

 

2- Não se preocupe com estilo – 24 de abril de 1958, durante uma aula para graduandos.

Acho que, em grande parte, é a história que determina seu próprio estilo, de sorte que o escritor não há de se preocupar muito com isso. Se estilo o incomodar, então ele escreverá vazios preciosos [precious emptiness] – não necessariamente nonsense… será bonito e bem agradável de ouvir, mas não terá lá muito conteúdo.

 

3- Escreva a partir de sua experiência – mas trabalhe com uma definição bem larga do que é “experiência” – 21 de fevereiro de 1958, durante uma aula de ficção norte-americana para graduandos.

Para mim, experiência é tudo que você já tiver percebido. Pode vir de livros, de um livro – uma história – que é verdadeiro/a o bastante e vivo/a o bastante para mexer com você. Isso, em minha opinião, é uma de suas experiências. Você não precisa imitar as ações e reações dos personagens do livro que leu, mas se elas o atingiram como se fossem verdadeiras, como se fossem coisas que as pessoas realmente fariam, coisas cujo sentimento por detrás você pôde compreender, então se trata de uma experiência para mim. Logo, conforme minha definição de experiência, é impossível escrever qualquer coisa que não seja uma experiência, porque tudo que você já tiver lido, ouvido, sentido ou imaginado é parte da experiência.

 

4- Conheça bem seus personagens e a história se escreverá por si mesma – 21 de fevereiro de 1958, durante uma aula de ficção norte-americana para graduandos.

Eu diria que você deve guardar o personagem dentro da mente. Uma vez em sua mente, se estiver bem delineado e for verdadeiro, ele fará todo o trabalho por si mesmo. A você, tudo o que resta a fazer é andar no encalço dele e transcrever o que ele fizer e o que ele disser. É a ingestão e, a seguir, a gestação. Você precisa conhecer seu personagem. Precisa acreditar nele. Precisa sentir que ele está vivo, e aí, é claro, você terá de fazer escolhas entre as várias possibilidades de ação, de maneira que elas se adaptem a esse personagem em que você crê. Depois disso, o labor de passá-lo ao papel é mecânico.

 

5- Use dialetos com moderação – 06 de maio de 1958, no programa de rádio “Qual é a palavra certa?”.

Acho que é melhor usar tão pouco dialeto quanto possível, porque isso confunde quem não está familiarizado com determinado modo de falar. Nenhuma pessoa deve permitir a seu personagem falar totalmente em seu próprio vernáculo. A melhor maneira de indicar um dialeto é por meio de toques simples e esparsos, mas reconhecíveis.

 

6- Não esgote sua imaginação – 25 de fevereiro de 1957, durante uma aula de escrita.

A única regra que sigo é: pare enquanto ainda está quente. Nunca exagere ao escrever. Sempre interrompa quando o ritmo estiver fluindo bem. Assim fica fácil retomar o processo mais tarde. Se você se exaurir, terminará refém de uma magia letal e se encrencará.

 

7- Nada de desculpas – 25 de fevereiro de 1957, durante uma aula de escrita.

Não tenho paciência com gente que arranja desculpas. (…) Pessoas assim jogam a culpa por não estarem escrevendo num monte de coisas. Já ouvi uns dizerem “Bem, se eu não fosse casado e não tivesse filhos, seria escritor”. Já ouvi outros dizerem “Se ao menos eu pudesse parar de fazer o que faço, seria escritor”. Não acredito nessas bobagens. Creio que, se você realmente quiser escrever, você escreverá, e nada o impedirá de fazê-lo.

 

Algumas delas, especialmente a última, me acertaram como um tapa na cara. Outras serviram de alento. Espero que as aproveitem também! 🙂

Ah, sim, segue o site de onde colhi essas observações: http://www.openculture.com/2013/03/seven_tips_from_william_faulkner_on_how_to_write_fiction.html. Há ainda dicas de Hemingway e F. Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby, livro que inspirou a adaptação cinematográfica a estrear em breve aqui no Brasil.

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5 respostas em “George R. R. Martin responde a fãs & dicas de William Faulkner

  1. muito boas. Aquela sobre parar quando ainda esta quente, eu já conhecia. As outras são novas para mim.

    • Vlw por comentar!
      A dica que eu mais gostei foi a do “Conheça bem seus personagens e a história se escreverá por si mesma”. Quando vc tem uma boa noção das características de seu personagem, de como ele se comporta e tal, a história que vc (autor) escreve se torna a história que ele (personagem) conta e vive. Acho que só assim para a trama não parecer artificial. (Eu, por exemplo, ainda não ouso deixar o personagem totalmente livre, ainda planejo o enredo de antemão e tal, em vez de permitir que ele se escreva sozinho, hehe!) Mas achei excelente a dica.

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