Cenários fantásticos: George R. R. Martin e Westeros e além

Mapa 3

Sim, outro post com excertos descritivos e imagens magníficas (ou, às vezes, recomendações de ilustradores magistrais). Desta vez, de George R. R. Martin.

Sei bem que em minha primeira postagem da sequência Cenários Fantásticos posso ter passado a impressão de que a ambientação em Martin seria desprovida de personalidade. Realmente, ao contrastá-lo com Tolkien, receio que tenha sido essa a impressão que prevaleceu. Mas reparem que toda comparação tende a ser parcial, tendenciosa, além de limitada, reducionista. Nas comparações do artigo precedente assumi deliberadamente uma postura que conferia primazia a Tolkien.

Agora é a vez de elogiar a genialidade de Martin.

Não se seguirá aqui uma lista de lugares e seus atributos, como ocorreu no post dedicado à Terra-média. E assim será porque, a meu ver, os castelos e os marcos geográficos de Westeros, as Cidades Livres e aquelas da Baía dos Escravos, entre vários outros locais, não são facilmente adjetiváveis.

Sim, Martin é habilidoso em cunhar descrições fascinantes, capazes de atiçar a imaginação do leitor, repletas de detalhes interessantíssimos. Se é verdade que há cenários genéricos aos montes em As Crônicas de Gelo e Fogo, não é menos verdade que os cenários que de fato importam para a trama contam, cada qual, com traços marcantes, em sua estética e em suas dinâmicas sociais. Não é nesse aspecto que reside a impossibilidade de defini-los.

O ponto é que a série de Martin, character-driven como é, permite que os ambientes mudem de feições de acordo com os olhos do personagem em cena. Por isso é complicado designar-lhes uma ou outra qualificação específica: por causa de sua maleabilidade. São os personagens que emprestam aos lugares criados pelo autor uma parte de sua tão bem trabalhada personalidade, e os lugares se veem moldados a partir do que os personagens sentem ou pensam. Se em Tolkien nos deparamos com uma ambientação de personalidade inerentemente forte, em Martin temos uma ambientação que sofre de múltiplas personalidades – mas, ei, trata-se de uma esquizofrenia saudável e extremamente recompensadora a quem a acompanha.

E eis que personagens complexos geram cenários igualmente complexos.

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O insight abaixo contém inúmeros spoilers. (Não sei dizer até que livro d’As Crônicas eles se estendem, pois minha memória me impede de identificar a qual livro pertence cada um dos eventos mencionados adiante.) Estejam avisados!

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Mapa 1É pela razão acima exposta que Winterfell para o Bran-de-antes-da-queda – um vasto complexo de torres e bastiões e telhados e janelas e muros que lhe possibilitam tocar o céu, um misto de liberdade, aventura e ousadia juvenil – é diferente de Winterfell para o Bran-após-a-queda – uma quase prisão onde precisa aprender a ser um senhor na ausência de Robb.

Winterfell para Theon Greyjoy é primeiro uma conquista, um meio de provar seu valor ao pai e de superar a irmã, um palco para exercer, de maneira desastrada, uma autoridade que não lhe cabe; mais tarde, depois de ter o espírito quebrado pelas torturas de Ramsay Bolton, Winterfell torna-se para Theon um antro de fantasmas e uma tormentosa e constante lembrança de sua traição.

O Ninho da Águia para Catelyn é um símbolo de esperança, para Tyrion encarna o desespero de um julgamento injusto e, para o Mindinho, consigna a realização de suas ambições. Porto Real para Sansa perde sua beleza no exato momento em que Eddard é decapitado.

E embora todas as cidades de além do Mar Estreito compartilhem alguns elementos culturais que as levam a se enquadrar no estereótipo (ou rótulo pejorativo) do “exótico” – afinal são retratadas pela perspectiva de ocidentais, westerosi –, cada uma é individualizada sob o olhar e mediante os feitos de Daenerys: Qarth é a salvação, Yunkai é a oportunidade (e, eventualmente, o berço da “Quebradora de Correntes” e libertadora de escravos) e Meereen se revela um atoleiro de intrigas tão sinistro quanto a Fortaleza Vermelha em Porto Real. Jon, Bran e Samwell Tarly interpretam distintamente a Muralha.

G.R.R.MartinApesar do evidente realismo que permeia suas histórias, há também aquela magia que só um construtor de mundos apaixonado pelo fantástico sabe manejar. Nas palavras de Martin, num texto intitulado On Fantasy, extraído de seu site oficial, eis a simbiose entre realidade e fantasia:

Fantasia é prata e escarlate, índigo e celeste, obsidiana raiada de ouro e lápis-lazúli. Realidade é madeira compensada e plástico, ambos feitos de um marrom lodoso e oliva monótono. Fantasia tem gosto de pimenta e mel, canela e cravo, carne vermelha crua e vinhos tão doces quanto o verão. Realidade é feijões e tofu, e cinzas no final. Realidade corresponde aos shoppings de Burbank, às chaminés de Cleveland, a um estacionamento em Newark. A fantasia está nas torres de Minas Tirith, nas antigas pedras de Gormenghast, nos salões de Camelot. A fantasia voa nas asas de Ícaro, a realidade, na Southwest Airlines. Por que nossos sonhos diminuem tanto quando finalmente se tornam realidade?

Lemos fantasia para descobrir as cores de novo, acho. Para provar temperos fortes e ouvir as canções que as sereias cantam. Há algo de longevo e verdadeiro na fantasia que se comunica com uma parte profunda dentro de nós, com a criança que sonhou um dia que caçaria nas florestas da noite, e se banquetearia nas concavidades das montanhas, e encontraria um amor que durasse para sempre em algum lugar ao sul de Oz e ao norte de Shangri-La.

[E aqui ele termina com, suponho, um trocadilho, não um erro de digitação:]

Todos esses podem guardar o paraíso que desejam. Quando eu morrer, iria o mais cedo possível para o meio da Terra [ou para a Terra-média, porque no original está escrito “middle Earth”].[1]

E paro por aqui. É o bastante.

Recomendo os seguintes ilustradores:

A seguir alguns trechos que me chamaram a atenção. E vocês? Que cenários lhes vêm à mente?


Mapa 2

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Winterfell

Winterfell 1

Para um rapaz, Winterfell era um labirinto de pedra cinzenta, com paredes, torres, pátios e túneis que se estendiam em todas as direções. Nas partes mais antigas do castelo, os salões inclinavam-se para cima e para baixo, de modo que nem era possível saber ao certo o andar em que se estava. Meistre Luwin dissera-lhe uma vez que o edifício fora crescendo ao longo dos séculos como se fosse uma monstruosa árvore de pedra, com ramos nodosos, grossos e retorcidos, e raízes que se afundavam profundamente na terra.

Winterfell 3

Quando saía de baixo dessa espécie de árvore e subia perto do céu, Bran conseguia ver todo Winterfell de um relance. E gostava do aspecto do lugar, estendido à sua frente, apenas com aves a rodopiar sobre sua cabeça enquanto toda a vida do castelo prosseguia lá embaixo. Bran podia ficar horas empoleirado entre as gárgulas sem forma, desgastadas pela chuva, que matutavam no topo da Primeira Torre, observando tudo: os homens que se exercitavam com madeira e aço no pátio, os cozinheiros que cuidavam de suas plantas no jardim de vidro, cães irrequietos que corriam para um lado e para outro nos canis, o silêncio do bosque sagrado, as moças que mexericavam junto ao poço das lavagens. Fazia-o sentir-se senhor do castelo, de um modo que nem mesmo Robb conheceria. (A Guerra dos Tronos, Ed. Leya, p. 60-61)

Winterfell 4

Como não sei se posso reproduzir, fiquem com o link da esplêndida ilustração de Ted Nasmith de Winterfell: http://tednasmith.mymiddleearth.com/2012/09/05/winterfell/.

2 respostas em “Cenários fantásticos: George R. R. Martin e Westeros e além

  1. Mais uma maravilhosa postagem.

    Há spoilers até o quinto livro.

    Interessante, todos esses cenários são fantásticos, mas os que apareceram na série e mais me chamaram a atenção são: Pyke, as Gêmeas, o Septo de Baleor e Ponta Tempestade, sem falar nas árvores coração e no Punho dos Primeiros Homens. É cenário demais.

    • Caramba, as Gêmeas! É mesmo, concordo, também gosto muito delas. Pyke idem! É meio salgado e estéril, mas curto muito a ideia das pontes conectando as torres.
      E quero ver Dorne na série, mas até lá vai demorar um pouco. =/

      Sobre cenários, adorei quando (acho que num capítulo do Tyrion) o Martin se referiu a dois livros de um explorador, um sobre maravilhas da natureza e outro sobre maravilhas feitas pelos homens, tipo as sete maravilhas do (de nosso) mundo.

      Obrigado por ler e comentar. 🙂

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