Além do Sol e da Lua – Capítulo 6 1/2

CAPÍTULO VI- Interlúdio: algures na floresta

O presente capítulo insere-se entre as páginas 1 e 2 do capítulo 6, já publicado. A motivação para escrevê-lo veio da sugestão de um amigo que, com razão, apontou que o ritmo do referido capítulo estava um tanto quanto arrastado. Concordei. Esta parte segue a perspectiva de um personagem novo (i.e., não mencionado anteriormente), mas sua trajetória conecta-se com outras partes da história, esclarecendo mais alguns detalhes da trama e levantando outras questões. Espero que curtam! 😉

Algures na floresta 3 (httpbrowse.deviantart.comartEnchanted-forest-325054186)

Soren gostava da noite sem Lua. A mata desfilava à frente, pelos lados e atrás dele, árvore após árvore, pinheiros e ciprestes e abetos pululando desordenados como os lanceiros de um exército indolente. “Como nossos lanceiros”, riu-se. Ali tão ao norte da Floresta das Agulhas onde se encontrava, a vegetação fechava-se a ponto de às vezes os troncos obstarem o trespasse de seu cavalo. O rapaz mantinha o garrano num trote lento. Era menos pelo risco de enganchar o casco numa raiz saliente, porque não se avistavam carvalhos ou olmos ou salgueiros nas redondezas. O perigo mais certo e mais insidioso era que tropeçasse numa pedra ou num buraco, ambos mais frequentes naquele terreno acidentado que, rumo ao norte, mesclava-se com planaltos e montanhas.

Mas havia outra razão para seu avanço cauteloso: podia estar sendo seguido, ou assim lhe haviam advertido. Bandoleiros espreitavam em qualquer terra de ninguém que se prezasse, e o bosque denso, longe da estrada ou de uma capital, era sem dúvida terra de ninguém, não importava o que pensasse o Rei ou o Grão-Duque. Inexistindo espadas, inexistia lei, e sem lei… “Os gatunos festejam”, sorriu. Outrora, também ele teria festejado, pois as sombras nunca o haviam traído durante suas missões de ladroagem. Agora já não tinha certeza. O General falara-lhe de Cavaleiros, embora as sentinelas do vale e do Desfiladeiro dos Cem Ecos não tivessem anunciado a presença de nenhum. “Mesmo assim ele estava inquieto.” Não tinha ideia do que esperar. O que era um mau sinal. Soren torcia por que as sombras não o houvessem abandonado, e quanto mais silenciosos fossem os passos de seu cavalo, menos atenção chamaria e menores as chances de emboscarem-no.

Soren aspirou o ar noturno. A fragrância silvestre colocou-o a sonhar acordado por um segundo. Entre os batedores do General, era ele quem tinha o faro mais apurado, e orgulhava-se disso. O perfume lembrou-o do vale de onde partira fazia três dias; mais importante: era o vale para onde podia retornar e para onde retornaria. Seu lar. Era bom contar com um lar, depois de tanto tempo vagando por ruas lamacentas e hostis. Fora lá, no vale, onde ele deixara o irmão. “Em segurança”, reconfortou-se.

Tree Silhouette Against Starry Night Sky

Ergueu o rosto para o céu, e seu capuz deslizou para os ombros, mas Soren não se incomodou, sabendo que seu cabelo negro lhe bastava para ocultar a identidade. As estrelas refulgiam azuladas acima dos ramos e agulhas das pináceas. Tempos atrás, sete anos, quando a Lua ainda existia e ele precisava aguardar pelas noites em que ela não aparecia, também apreciava as madrugadas escuras e silentes. Nessas ocasiões ele saía para fazer o que fazia de melhor, enquanto Anabel ficava cuidando de Sorek, o irmão de Soren, de vigília no casarão em ruínas que servia de abrigo ao bando de enjeitados de Haventhenia, a capital do Reino. E em meio às tábuas apodrecidas do assoalho, sob o raro teto que sobrava, entre janelas quebradas e paredes que não espantavam o frio dos invernos, havia órfãos e abandonados, doentes e rejeitados, delinquentes… e semielfos.

E havia quem fosse um pouco de tudo. Soren, por exemplo, era mestre em dissimulação; a cada noite sem Lua ele atravessava os guetos malcheirosos da cidade e, por brechas que já conhecia na muralha, adentrava em sua ala nobre, rica… “Vulnerável.” Encoberto pelas trevas, era fácil cometer pequenos furtos, driblando os guardas, pulando cercas, escalando muros ou meramente abrindo as janelas que os idiotas não se preocupavam em trancar. Mais tarde o General o congratularia por sua esperteza na habilidade dos pontos cegos ou algo que o valesse, mas Soren riria ao escutar aquele nome pomposo e replicaria: “Pontos cegos? Não. É só experiência de vadio”. Vez ou outra assaltara casais de amantes, pais de família que voltavam a casa depois da diversão na taverna ou no bordel, gente sonsa, mas bem vestida. Embora algumas vítimas estivessem armadas, todas se rendiam ao sentirem a adaga de Soren contra o pescoço. O truque era ser sorrateiro. O rapaz jamais se desfizera dela, ainda a levava consigo, para dar sorte. Procurou-a sob o manto, para certificar-se de que ainda estava lá. “Não está!”

Um ruído sobressaltou-o.

“Passos?” Passos adiante, na floresta. Perto. A vantagem do solo engolido por folhas era que nem o mais sutil dos caminhantes passaria despercebido a ouvidos atentos. A desvantagem era que o mesmo valia para ele: por mais prudente que fosse, Soren não conseguiria abafar todo som que emitia. E agora se achava sem adaga! “Má sorte.” Pensou em recuar, mas descartou a ideia. O General lhe confiara uma missão, e o rapaz não o decepcionaria. Prendeu a respiração. Se o pior acontecesse, tinha seu arco já encordoado e flechas ao alcance dos dedos. Aproximava-se devagar, os olhos cravados na escuridão à frente. Foi quando farfalharam mais agulhas, ao que ele engatou uma seta à corda, de reflexo.

Algures na floresta 2

Contudo não atirou.

Porque o barulho distanciava-se. A criatura distanciava-se. “Ou alguém.” Entre as árvores divisava uma cor que se destacava: não era preto, tampouco verde que beirasse o preto. De manhã devia ser uma tonalidade qualquer de branco, mas na noite desluarada era um cinzento intenso. Novamente retesou o arco, mas afinal concluiu que a pretensa ameaça era nada além do tronco pálido de uma bétula. Guardou a arma enquanto lutava para conter um acesso de riso.

Quando se tornara tão impressionável? Ao que parecia, as advertências do General haviam surtido efeito. Porém os Cavaleiros trajavam vermelho, não branco: raios, por que cogitara que a brancura adiante de si pudesse ser mais do que uma estúpida árvore?! Decerto estava delirando. Ele que já enfrentara sua cota de perigos pela vida inteira e escapara ileso sempre (e sem se descuidar do irmão), ele que, na juventude, nunca fora apanhado pelos guardas, nem sequer quando o descobriam e o perseguiam – ele, justo ele, delirava. Devia atribuir mais crédito a sua habilidade. “Habilidade dos pontos cegos”, riu-se. Até porque, conforme os rumores, os Cavaleiros fediam a sangue. E até o momento o olfato de Soren não captara nada semelhante a sangue.

“Ah, aqui está.” Encontrara a adaga. Enfiara-a no cinto, não dentro das vestes. “Sorte.” Contemplou a lâmina a refletir o negrume. No passado, quando bancava o gatuno, usava-a tão somente para ameaçar, portanto nunca a manchara de sangue – exceto uma vez, e não se arrependia de tê-lo feito. É que, se o sumiço da Lua houvesse se limitado exatamente a isso, Soren não se teria importunado. Gostava do escuro.

Todavia, com a Lua extinta viera aquela radiância doentia. Escarlate, comentavam. “Luar Escarlate.” Haviam-se difundido boatos sobre um deus vingativo que trataria de castigar todos os semielfos. E haviam começado a falar de Cavaleiros caçadores. As reações haviam variado de canto a canto, mas em comum partilhavam a brutalidade. Mesmo do Oriente vinham chegando notícias de massacres. Em Haventhenia, o rei que muitos julgavam um erudito, mais tolerante do que seus antecessores, decretara a chamada Purgação: os semielfos que habitavam a periferia teriam de ser expulsos, encarcerados ou mortos, bem como o refugo humano que os acolhia. E, assim, na noite seguinte à do Luar Escarlate, a Guarda Real cercara e invadira o casarão que abrigava o bando de Soren.

Espadas, lanças, bestas, tochas. No pânico que se instaurara, uns haviam logrado fugir, esgueirando-se pelas janelas ou por fendas na madeira despedaçada das paredes. Outros haviam sido detidos, degolados ou estripados. No desespero, poucos haviam tentado subir no telhado só para saltar ao chão e cair de mau jeito, sendo logo capturados ou silenciados. Soren e Anabel haviam aproveitado o instante em que três parceiros seus eram abatidos para pular janela afora. Depois o rapaz sentiria remorso, mas naquela hora era cada um por si. A adrenalina suprimia esses juízos de valor. Ambos arrastavam Sorek consigo, para que corresse mais depressa. E haviam corrido. Mas numa curva – na curva fatídica…

Soren fechou os olhos. Recusava-se a sustentar o olhar do fantasma que se materializara em seu caminho, encarando-o, meneando a cabeça – uma cabeça sem rosto – num gesto de reprovação, apontando-lhe de maneira bruta, acusadora, sem palavra, nem o menor dos murmúrios, pois conservava em si o silêncio dos que já se haviam ido. Seu cavalo rinchou de leve e remexeu o pescoço, e de súbito o rapaz notou que lhe agarrava e puxava a crina com força demais. Deteve-se: o animal não tinha culpa de seus tormentos pretéritos. Soren deu-lhe tapinhas amigáveis, como que se desculpando por envolvê-lo em seus problemas. Ninguém mais devia lidar com seus arrependimentos senão ele próprio. “Na curva…”

Na fuga durante a noite da Purgação, ele, Sorek e Anabel haviam-se refugiado aninhando-se à lateral de um gradeado desgastado aos fundos do casarão.

– O que você aprontou desta vez, Soren? – cochichara a menina.

Eu?! Não fiz nada! – ultrajara-se. Aí ponderara: – Bem… ao menos nada que exigisse essa… reação. – Nos arredores irrompiam gritos e choro e vidro estilhaçando e aquele tinido seco de uma espada rasgando carne e raspando em osso. O fogo pusera-se a estalar aos primeiros focos de incêndio. – Por que isto…? Por que este massacre teria algo a ver comigo?

Anabel encolhera os ombros:

– Você é conhecido dos guardas.

– Ah, isso faz um enorme sentido – retorquira mordaz. – É sério: a gente além da muralha é rica, tão rica- tão rica que vocês nem podem imaginar: nenhum nobre daria por falta das poucas moedas que tomei, ou então de um anel brilhante quando possuem mais de trinta. E, se eles estão atrás de mim, esperta, por que mataram Andros, Colin e Nina a sangue frio, hã?

– Não sei – devolvera ela aos soluços.

– Foi a Lua – divagara Sorek, voltando o nariz para um céu que começava a esfumaçar. O cheiro de queimado já se anunciava. – É uma punição. Eles estão aqui para nos punir.

E Soren não se contivera e prensara o braço do irmão entre os dedos num beliscão que o teria feito berrar, se Anabel não lhe houvesse tapado a boca.

– Diga essa besteira de novo, e sou quem há de puni-lo, Sorek – avisara o rapaz num ímpeto de fúria.

O menor esfregara o antebraço no local da vermelhidão e, apesar de magoado, insistira no argumento:

– Mas você viu também, irmão. A luz vermelha… E a canção de perdão: todos a ouvimos! As pessoas na rua falam que o Senhor da Lua desceu a Vartäe para… a purificação, você sabe.

Os três haviam-se entreolhado mudos no lapso em que, dentro do casarão, súplicas iniciavam e findavam bruscamente, e de aço na mão os brutamontes empurravam para fora uns e outros a espernear.

– Isto com certeza não parece a justiça do Rei – confessara Anabel, sombria.

– Não interessa! – cortara Soren. – Senhor da Lua ou não, não precisamos aceitar o destino que ele nos impõe. Não mereço o castigo, não fiz nada. Não fiz nada – repetira fitando Anabel, que então concordara. – E Sorek deve ser o mais inocente daqui…

– Mas… – Sorek ia contestar, à beira do pranto.

– Quieto, Sorek. – Fora Anabel quem se pronunciara, sua expressão agora dura, inflexível, como se defendesse a maior das verdades do mundo. Era igual àquelas ocasiões em que ela e Soren metiam-se a discutir por uma bobagem. “E ela sempre ganhava.” Naquele momento o rapaz nunca o teria admitido, mas no íntimo estava apavorado: fora a coragem da amiga que o acalentara. – Nós vamos sobreviver – jurara ela, abrigando as mãos de Sorek entre as suas.

O menino engolira o choramingo e assentira.

Haviam engatinhado ao longo da parede de trás do casarão. O lampejo das flamas lá dentro produzia silhuetas dançantes, sinistras, através das janelas logo acima das cabeças do trio. Num repente sucedera-se um tilintar violento atrás deles, de uma vidraça a fragmentar-se após terem arremessado algo ou alguém contra ela, mas eles não se haviam tornado para conferir, somente haviam apressado o avanço à medida que choviam cacos sobre si e pelo solo.

Haviam parado ao atingir a extremidade do muro. Ali a cobertura acabava, pelo que, se pretendiam salvar-se, teriam de prosseguir ligeiros como o vento por metros de terreno aberto, à vista de tantos inimigos e ao alcance de projéteis sem rumo. Não podiam retornar nem demorar-se, porque ainda não tinham ideia do que ou de quem atravessara a janela, se era ameaça – ou, antes disso, se estava inteiro ou estatelado, alquebrado, agonizando em meio à vidraça partida.

– Você é o mestre das sombras, irmão. E tem uma adaga, não tem? Faça algo, por favor! – demandara Sorek, mal disfarçando a tensão.

– Claro. E que tal se eu me encobrir em minha capa de noite e apunhalar esses malditos pelas costas, todos simultaneamente? Gostaria de ver isso?

– Se gostaria! – entusiasmara-se.

– Eu também – replicara tão irônico quanto otimista. Afinal, se a Lua sumira de uma noite para outra, sob o efeito de uma mágica que Soren nem sequer suspeitava existir, o que o impedia de encarnar naquele exato segundo um Assassino apto a dissolver-se no escuro e sem pudor de matar? Ou então um dos Imortais, semielfos que abduziam ou abatiam membros da nobreza em plena luz do dia, para disseminar medo e caos entre a população? “Não. Naquele ponto da vida eu ainda era fraco e covarde, e sabia disso.”

E como ninguém se movesse pelo minuto subsequente, como ninguém ousasse espreitar para além do muro, da borda do casarão – “Da curva” –, todos eles temerosos do horror que chegassem a contemplar – “E como naquela idade Sorek ainda não captava o sarcasmo” –, o pequeno teimara:

– O que está esperando, Soren? Vingue nossos amigos.

– Está falando sério, tolo? Jamais matei uma pessoa antes, não dá. – Refletira: – Bem, se tiver de começar agora talvez…

Um estrondo abalara o interior da casa arruinada. Encostados na parede, os três haviam oscilado enquanto as chamas punham-se a rugir e a encrespar-se como as ondas de um mar de tempestade febril. Soren não se entristecera ao perceber que o lar já estava condenado pelo incêndio, porque na realidade ele sempre estivera condenado. “Heh, o fogo apenas fez o trabalho que o tempo em breve teria feito.” E quando o fumo espesso ficara a desprender-se das inúmeras frestas da construção, junto com as brasas a pairar, o rapaz entrevira um vulto cruzar-lhe o canto da visão… Bem que tentara segurá-la, mas quando dera por si já era tarde demais. Era irrefutável que alguém tinha de aventurar-se, pois do contrário eles teriam permanecido ali, relutando de estômago embrulhado, com fumaça entranhando-se na garganta. Anabel fora quem se arriscara no final. Por impulso. “Não. Não por impulso. É que ela era mais valente que eu.”

E eis que a assombração acusadora que acompanhava o Soren cavaleiro na Floresta das Agulhas, o fantasma cuja face até então não pudera discernir, moldou o semblante para o de alguém familiar: ele mesmo. O próprio Soren. “Não estou morto”, pensou. “Estou louco.” Até que uma lufada dispersou aquele produto de seus devaneios de olhos abertos e, no lugar dele, assomou a figura de Anabel. O rapaz não se surpreendeu ao reparar que ela também meneava a cabeça, exatamente como seu delírio anterior fizera. Porém, diferente dele, não se vislumbrava uma chispa de reprovação em sua expressão. Era como se ela dissesse “Não se culpe. Não deve.” Porque Anabel sorria.

Ela nunca acusara Soren. Nunca o teria acusado. Mas, por alguma razão insondável, isso de ele responsabilizar-se e ela não lhe seguir o exemplo piorava terrivelmente a situação. “Na curva…”

Na curva fatídica, se lhe houvesse puxado o ombro, o braço, a mão, dois dedos, Anabel não teria recebido um tiro frontal. Talvez houvesse sobrevivido. Nós vamos sobreviver, ela afirmara. “Nós quem?! Que grande mentirosa…” Ao dobrarem a borda do casarão no encalço da amiga, haviam se deparado com um besteiro, que não hesitara no disparo à queima-roupa, e o dardo se alojara entre os seios de Anabel. Naquele milésimo o tempo correra devagar para Soren, o pandemônio emudecera, e ele domara a ânsia de vômito, a loucura, a fraqueza, a covardia. Sacara a adaga e, como o soldado não tivesse como se defender, agarrado que estava à arma, a lâmina afundara-lhe no pescoço. As golfadas do homem que se afogava no próprio sangue misturavam-se com os arquejos do rapaz, que deixara escorrer pela mão, antebraço e cotovelo o rubro do ferimento que abrira, até que todo seu ódio escorresse com ele.

Fora quando, ao espasmo derradeiro do inimigo, escutara seu irmão gritar atrás de si. Desenterrara a adaga e virara-se: outro guarda prendia Sorek pelo braço, impassível ante seus esforços de soltar-se. Soren esmagara o cabo da arma ao investi-la contra o coração do sujeito, certo de que sua raiva lhe permitiria trespassar a armadura de placas do adversário, certo de que seria capaz de gerar um rombo no peito do cretino e fazê-lo ajoelhar-se e… O homem esquivara-se com um simples passo para trás, agarrara o pulso do rapaz e o torcera, obrigando-o a largar a adaga. No fim fora Soren quem se vergara: à dor. O guarda dissera-lhes que eram felizardos, pois os escolhera para um destino menos cruel: o encarceramento. E quando o rapaz achava que lhe quebraria o braço, o homem afrouxara o aperto.

Ele e uma comitiva de mais dez soldados haviam guiado Soren, o irmão e mais uma vintena de outros semielfos ou enjeitados para fora de Haventhenia, rumo ao Pilar das Lamentações, uma torre-prisão no norte longínquo reservada aos perpetradores dos crimes mais hediondos. Mas acontecera de, a uma altura do trajeto, pararem e mudarem de direção. Fora então que o guarda que rendera Sorek revelara ser um general: General Paetros, comprometido com a proteção dos semielfos. Porém, com a ascensão d’O Absoluto, arauto do Luar Escarlate, o símbolo por detrás das chacinas, ele e os seus haviam revisado os objetivos: à época já se organizavam militarmente numa resistência. A Resistência.

Soren e os demais não eram cativos, jamais haviam sido. Eram recrutas para a causa. No casarão, esclarecera o General, alguns guerreiros – como ele – haviam atuado sob o pretexto de atacar e apresar semielfos, a fim de salvá-los. “Mas não puderam salvar todos.” Marco Paetros e companhia não haviam matado ninguém durante a Purgação, só haviam detido o máximo que haviam conseguido. “Mas não todos.” Daí se haviam oferecido para escoltar os supostos prisioneiros até o cárcere nortenho, tarefa que os guardas não estavam dispostos a desempenhar, diante da longa viagem que teriam pela frente. Os veteranos dentre os militares conheciam o General de vista ou de nome, e os novatos eram capazes de identificar o sinete que ele apresentara: o anel com o perfil da águia dourada, a indicar sua elevada patente e, sobretudo, que tinha o favor do soberano. Haviam consentido. E, uma vez distantes de Haventhenia, Marco Paetros e os seus haviam conduzido Soren e o restante dos semielfos não ao Pilar das Lamentações, e sim a um refúgio. Um vale. “Anabel jamais o viu.”

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9 respostas em “Além do Sol e da Lua – Capítulo 6 1/2

  1. Muito bom esse capítulo, trouxe respostas e mais dúvidas como todo bom romance.
    Só achei que o ataque do Gerneral ao casarão de Sorek não ficou bem explicado. Por que alguém que almeja a paz entre elfos, semi-elfos e homens faria aquilo? Ele ainda estava sob as ordens do Absoluto? Acho que era bom deixar isso bem claro.
    .
    Parabéns, essa história está bastante empolgante.

    • Obrigado por ler e comentar, Jefferson!

      Tem razão, acabei explicando só por alto. Ficou meio implícito. Acrescentei um parágrafo extra ao final desta página para esclarecer melhor as coisas.

      Na verdade, o General e seus seguidores se misturaram aos guardas para tentar salvar alguns semielfos levando-os como supostos prisioneiros. Não disse ainda o motivo de Marco Paetros não querer revelar quem é, mas isso virá mais tarde. Por outro lado, na página 2, ele conta ao Soren mais ou menos por que decidiu lutar pela causa que luta. Sobre se ele está servindo ao rei de Haventhenia ou não, também será explicado mais adiante, mas por ora respondo “sim e não” (o que não faz nenhum sentido agora, mas fará depois). XD

      Abraço! o/

  2. Ficou ótimo assim. Estava meio estranho ele seguir um General que comandou um ataque onde morreu a mulher que ele visivilmente amava. Mas, agora ficou tudo mais claro.

    Quanto as outras perguntas, vejo que vem mais coisa pela frente. Vou ler o próximo capítulo.

    Abraço.

  3. Pingback: Além do Sol e da Lua – Capítulo 6 | Além do Sol e da Lua

  4. Quanto tempo, hein Rodrigo! Estive um pouco sumido da internet e do ONE, mas retornei e não me esqueci dessa história culta e majestosa. Como sempre digo sobre seus contos, achei muito bem detalhado o cenário, o contexto bem equilibrado, e a parte que mais apreciei ler foi a que o Soren era mestre na arte de dissimular. Como posso dizer, trabalhou bem com a transmissão da psicologia do personagem. Um sujeito muito astuto e oportunista (O Soren).

    Soren é o semielfo se não estou enganado. Olha, eu não curtia muito o gênero medieval, mas de tanto ler seus textos, do J. Nóbrega e de outros autores, acabei pegando gosto por esse tipo de literatura, mas ainda tenho que melhorar muito minha narrativa e principalmente o don’t tell, show-me, mas de qualquer maneira, seguirei lendo “Entre o sol e a lua”.

    Tenho que perguntar, com tanta esperteza assim, o Soren e o irmão dele com certeza têm algum tipo de magia, correto? Do tipo de se camuflar ou disfarçar o som, mas como o texto mesmo diz, o Soren não sabe como abafar muito o som.

    Outra coisa da qual gostei nesse capitulo, foi toda a ação que houve no cenário, inclusive sobre a noite da Purgação. Esta faz lembrar dos holocaustos da idade média, onde a igreja perseguia com tochas e espadas seus opositores. Olha, se há alguma relação entre a Purgação e o terrível inquisição, cara, tenho que dizer que está bem trabalhado.

    Okay Rodrigo, por hora paro por aqui, nesse trecho:

    Na fuga durante a noite da Purgação, ele, Sorek e Anabel haviam-se refugiado aninhando-se à lateral de um gradeado desgastado aos fundos do casarão.
    – O que você aprontou desta vez, Soren? – cochichara a menina.

    Amanhã retornarei para ler, pois está deveras muito bom! Abraço!

    • Fala, Claudeir! Quanto tempo! 🙂

      Que bom que curtiu o capítulo. Elaborei-o justamente com a finalidade de mostrar ao leitor um pouco do que vinha acontecendo mundo afora na história – por exemplo, as perseguições, como vc observou. Sim, há um fundo religioso para esse extermínio, mas não só religioso.

      Esta parte também serviu para eu fugir um pouco do ponto de vista do Seth, que tinha lá suas restrições. Muita coisa que queria explicar não caberia numa narrativa pelos olhos dele, simplesmente porque ele desconhece certos eventos, não os vivenciou, ao contrário do Soren.

      Sim, o Soren é semielfo, mas tem uma personalidade mais arrojada que o Seth. Confesso que adorei escrever sobre ele, porque esse personagem já possuía todo um passado turbulento, diferentemente do Seth, que ainda é muito novo para acumular tanta experiência de vida. Não, Soren não usa magia para se ocultar – inclusive, no diálogo logo a seguir de onde vc parou a leitura, isso se esclarecerá.

      Obrigado pelo comentário e por visitar o blog. Este meu site tem estado meio parado, não o atualizo há meses. Não deixei de escrever, claro, mas tenho preferido me focar no desenvolvimento do romance “Além do Sol e da Lua” (e numa história curta que venho publicando no ONE), de modo que não tenho produzido os artigos e as resenhas que eu postava aqui (não por falta de material, mas por falta de tempo mesmo). Mas em breve espero voltar à atividade.

      Abraço! o/

  5. Por que esse massacre teria a ver comigo? Esse Soren é um personagem bastante sinico por assim dizer. Gostei da forma como trabalhou com o personagem, digo, a psicologia, mas diante da vida dura e difícil dos semielfos, além de plausível, acho muito coerente, sem querer defender o roubo, mas roubar dos tiranos, é algo interessante de se ler. Lembra a vida dos judeus dos guetos nazistas, os quais eram perseguidos como cães por roubarem migalhas.

    Não sei, mas essa trama toda está com ares de que os semielfos, talvez, em uma hipótese de minha parte, talvez mais adiante, unam forças com os elfos. Mas isso, terei o prazer em esquadrinhar para descobrir. Cara, não sei o que dizer, a história está boa. Pelo que li até hoje, parece se tratar de um escritor que envolve tanto o lado direito quanto o lado esquerdo do cérebro no jogo. Muito bom, continue assim, continue assim…

    Agora o que está me deixando irritado e com os nervos a flor da pele, é a tirania do Senhor da Lua, confesso que esse Lorde mexeu com meus nervos, hehehe… Adorei a capa das sombras do Soren, e sua audácia diante da inquisição do Senhor da Lua, se assim posso dizer.

    Mas a mágica dos semielfos é muito poderosa, e vejo que esse Soren, muito provavelmente seja quem vai enfrentar o Senhor da Lua em algum tipo de batalha épica mais pro final da história. Olha, como diz o ditado: Para cada peixe existe uma isca, e para cada leitor existe uma literatura. E, acho que você está usando a isca certa para fisgar seus leitores, com muito mistério, magia e uma trama digna de novela das oito. Quando essa história virar livro, terei o prazer de tê-la na cabeceira da minha cama.

    Quer dizer que o mundo dos humanos não é feito apenas de tiranos, pois até mesmo no teu conto, muito realístico, há pessoas que protegem os semielfos. Mas isso é fidedigno e deveras muito verídico! Resta saber no que essa trama vai dar, hehehe… Estou ansioso para ler a parte seguinte. No mais, convido-o a ler dois mini-textos que publiquei no One, um se chama: Adágios de sabedoria e o outro se chama A rosa invejosa. Agora, muito obrigado por proporcionar tamanha leitura, digna de ser lida muitas vezes. Aqui termino minhas palavras, pois sou daqueles que gosta de passear nas linhas do texto. Abraços!

    • Sim, ele tem uma personalidade difícil de lidar, e no momento de desespero ele, digamos, carregou mais no cinismo. Mas gostei de escrever os diálogos dele exatamente por isso, hehe!

      Sim, a questão de eles roubarem pra sobreviver não me incomodou. Como os semielfos vivem à margem da sociedade, e como algumas das leis dessa mesma sociedade foram criadas no intuito de segregá-los, nada mais natural do que eles reagirem desafiando (e transgredindo) tais leis. O crime de roubo protege a propriedade – uma propriedade que os semielfos nunca poderiam alcançar.

      Verdade, pode-se comparar isso à inquisição – embora o Senhor da Lua não persiga os semielfos por motivos religiosos.

      Bem, o Soren não vai chegar a enfrentar o Senhor da Lua, infelizmente. Nas próximas páginas se explica o que acontece com ele. Ele é um personagem criado para esclarecer alguns detalhes da trama e, principalmente, para dar motivação para outro personagem.

      Obrigado pelas palavras, Claudeir! =)

      Pode deixar que comentarei em seus contos e em outros que estão pendentes de leitura lá no ONE.
      Abraço! o/

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