Dicas do King

SKComo prometido, trago neste post alguns excertos do livro On Writing: a memoir of the craft, de Stephen King.

A obra é em parte uma autobiografia e em parte um acervo de dicas valiosas sobre a arte de escrever. Nela, King relata momentos-chave de sua trajetória como escritor, desde suas primeiras incursões no terreno da narração de histórias, na infância, até o acidente que se tornaria um divisor de águas em sua vida: o atropelamento em junho de 1999, que lhe deixaria sequelas físicas e psíquicas a serem superadas por nada menos do que sua dedicação à literatura.

Antes de prosseguir às citações, fica uma observação: o livro não se pretende um manual de produção literária. Isso porque, afora os manuais de gramática e um ou outro manual de estilística, não existe isso de um conjunto de regras invioláveis no que tange à arte em geral, nela incluída a arte da escrita. Há no máximo uma espécie de código de boas práticas – o que pode ser definido mais precisamente como um acervo de recomendações amigáveis. É do que cuida On Writing: de uma coletânea de dicas baseadas no processo de criação e desenvolvimento literários de SK. Uma vez que são recomendações com lastro na experiência de um escritor, são subjetivas, pessoais. Mas são orientações que funcionaram e têm funcionado para King e, portanto, podem se aplicar com perfeição aos aspirantes a escritor.

Seguem elas abaixo. (Duas advertências. Uma: colhi os trechos que me chamaram mais atenção durante a leitura, guiando-me pelo objetivo de me aprimorar na escrita; mas ressalto que os excertos destacados obviamente não exaurem todo o conteúdo do livro. E duas: relevem eventuais inadequações de redação ou uma obscuridade de sentido aqui e ali; empenhei-me na tradução, é verdade, mas não sou especialista nessa área.)

Coragem para persistir

Acho que eu tinha quarenta anos antes de perceber que quase todo escritor de ficção ou poesia que já tivesse publicado uma linha sequer era acusado por alguém de desperdiçar seu talento concedido por Deus [com ideias bestas]. Se você escreve (ou pinta ou dança ou esculpe ou canta, suponho), alguém vai tentar fazê-lo se sentir muito mal por isso (KING, Stephen, On Writing. New York: Scribner, 2000. p. 47).

 

Vocabulário

Uma das piores coisas que você pode fazer a sua escrita é embelezar seu vocabulário procurando por palavras longas porque talvez você esteja um pouco envergonhado de suas palavras curtas. É como vestir um bicho de estimação com traje de gala (p. 112).

Lembrem que a regra básica de vocabulário é usar a primeira palavra que vier a sua cabeça, se for apropriada e vivaz (p. 113).

 

Emprego da voz passiva

Evite a voz passiva. (…) Não direi que não há lugar para ela. Imagine, por exemplo, que um sujeito morra na cozinha, mas termine em outro lugar. Falar que “O corpo foi carregado da cozinha e foi colocado no sofá” é uma maneira justa de se relatar o acontecimento, embora “foi carregado” e “foi colocado” ainda me causem náuseas. Eu os tolero mas não os aplaudo. O que eu aplaudiria é “João e Maria carregaram o corpo para fora da cozinha e o colocaram no sofá“. Por que o corpo tem de ser o sujeito da sentença, afinal? Está morto, por Deus! (p. 122-123)

 

Advérbios: a clássica citação

Creio que a estrada para o inferno está pavimentada por advérbios, e gritarei isso dos telhados (p. 125).

 

O que é boa escrita?

Boa escrita frequentemente significa pôr o medo e a afetação de lado. A própria afetação, a começar pela necessidade de definir alguns tipos de escrita como “bons” ou “maus”, é um comportamento temerário. Boa escrita também é fazer boas escolhas quanto às ferramentas com que pretendemos trabalhar (p. 128).

 

Nos diálogos, simplicidade na indicação dos interlocutores

Tudo o que peço é que vocês façam o seguinte (assim como se lembrem do seguinte): enquanto escrever advérbios é humano, escrever simplesmente ele disse ou ela disse é divino (p. 128).

 

Escrita é sedução

O objeto da ficção não é correção gramatical, mas fazer o leitor se sentir bem-vindo e então lhe contar uma boa história… é fazê-lo se esquecer, tanto quanto possível, de que está lendo uma história. Parágrafos de uma só oração se parecem mais com uma conversa do que com escrita, e isso é bom. Escrita é sedução. Um bom papo é parte da sedução. Não fosse assim, por que tantos casais que começam à noite num jantar terminam na cama? (p. 134)

 

Fantasia

Mesmo após mil páginas não queremos deixar o mundo que o escritor construiu para nós, ou as pessoas fictícias que aí vivem. Ora, você não o deixaria nem depois de duas mil páginas, se houvesse duas mil. A trilogia de J. R. R. Tolkien é um exemplo perfeito disso. Mil páginas sobre hobbits não foram o suficiente para três gerações pós-Segunda Guerra de fãs de fantasia… Daí Terry Brooks, Piers Anthony, Robert Jordan… e meia centena de outros. Os escritores desses livros estão criando os hobbits que eles ainda amam e que ainda os consomem; eles estão tentando trazer Frodo e Sam de volta dos Portos Cinzentos porque Tolkien não está mais aqui para fazê-lo por eles (p. 136).

 

“Eu posso fazer melhor do que isto”

A maioria dos escritores pode se lembrar do primeiro livro que pôs de lado pensando: “Eu posso fazer melhor do que isto. Raios, eu estou fazendo melhor do que isto!” O que poderia ser mais encorajador para o escritor iniciante do que perceber que seu trabalho é inquestionavelmente melhor do que o de alguém que recebeu por suas obras (p. 146).

 

Ler para escrever

A leitura constante vai colocá-lo numa posição (num estado mental) em que você pode escrever proveitosamente e sem consciência disso. Também vai mantê-lo sintonizado com o que já foi escrito e o que não foi, o que está ultrapassado e o que está fresco, o que funciona e o que simplesmente fica largado, agonizando (ou já morto) na página. Quanto mais você ler, você ficará menos sujeito a fazer de si mesmo um tolo com a caneta ou processador de texto (p. 150).

 

Temas

Acho que você começa interpretando a dica “escreva sobre o que você conhece” da maneira mais larga e inclusiva possível. Se você é um encanador, você conhece encanamentos, mas isso está longe de corresponder à totalidade de seu conhecimento; o coração também sabe das coisas, assim como a imaginação. Ainda bem. Não fosse o coração e a imaginação, o mundo da ficção seria um lugar demasiado árido. Talvez nem sequer existisse (p. 158).

 

Por onde começar?

A situação vem primeiro. Os personagens – sempre rasos e sem traços marcantes, para começar – vêm depois. Uma vez tendo essas coisas em mente, ponho-me a narrar (p. 164).

 

Descrição

Nós todos já ouvimos alguém dizer “Rapaz, foi tão legal (ou tão horrível/estranho/engraçado)… Nem consigo descrever!”. Se você quiser ser um escritor bem-sucedido, você precisa ser capaz de descrever, e de um modo que desperte o reconhecimento do leitor. (…) Uma descrição superficial deixa o leitor se sentindo desorientado e míope. Uma descrição excessiva o enterra em meio a detalhes e imagens. O truque é encontrar um feliz meio-termo. (…) Não posso me lembrar das vezes em que achei necessário descrever a aparência dos personagens de uma história minha – prefiro deixar o leitor imaginar os rostos, o físico e as roupas por si mesmo. (…) A descrição tem início na imaginação do escritor, mas deve terminar na do leitor (p. 174).

Em muitos casos em que um leitor põe de lado uma história porque “ficou chata”, o tédio emergiu exatamente porque o escritor acabou se encantando com seus poderes de descrição e perdeu de vista sua prioridade, que é manter a bola rolando [e a história avançando] (p. 178).

 

Diálogos

Como acontece com todos os demais aspectos da ficção, a chave para escrever bons diálogos é a honestidade. E se você for honesto quanto às palavras que saem das bocas de seus personagens, descobrirá que se submeteu a uma boa dose de crítica por parte do público-leitor. Não se passa uma semana sem que eu receba pelo menos uma carta irritada (ou, em muitas semanas, mais de uma) me acusando de ser grosseiro, lunático, homofóbico, maníaco, frívolo ou um completo psicopata (p. 185).

 

Personagens secundários não se consideram secundários

É importante lembrar que ninguém é “o cara mau” ou “o melhor amigo do protagonista” ou “a prostituta de coração de ouro” na vida real; na vida real cada um de nós enxerga a si mesmo como o personagem principal, o protagonista, “o cara”, porque a câmera está em nós (p. 190).

 

Audiência

Eu acho que não deve ser permitido a uma história sair de seu estúdio ou sala de escrita a menos que você esteja confiante de que é algo razoavelmente atrativo para os leitores [reader-friendly, no original]. Você não pode agradar a todos os leitores todo o tempo; não pode nem agradar a alguns leitores todo o tempo, mas você deve se esforçar para tentar agradar a alguns leitores por algum tempo. Creio que foi William Shakespeare quem disse isso (p. 196).

 

Uma nota de alento

Merdas acontecem aos melhores de nós. Há uma história de que o arquiteto do Flatiron Building cometeu suicídio ao perceber, pouco antes da cerimônia de inauguração, que tinha se esquecido de inserir banheiros masculinos em seu protótipo de arranha-céu. Provavelmente não é verdade, mas lembre-se disto: alguém realmente projetou o Titanic e então o rotulou como inaufragável (p. 213).

 

O objetivo da escrita – ou: por que você empunha essa caneta?

Escrever não significa fazer dinheiro, ficar famoso, arranjar encontros, trepar ou descolar amigos. No fim das contas, escrever serve para enriquecer as vidas daqueles que lerão seu trabalho e enriquecer sua própria vida também. Serve para despertar, aproveitar a vida e superar as adversidades [getting up, getting well, and getting over]. Serve para que você seja feliz, ok? Serve para ser feliz (p. 269).

 

Por fim, como não fui o primeiro nem serei o último a ter a ideia de traduzir trechos do On Writing, deixo o link de um artigo do Henry Alfred Bugalho, que fez a mesma coisa, mas com alguns enfoques diferentes dos que escolhi. Deem uma conferida: <http://blogdoescritor.oficinaeditora.com/2012/02/sobre-escrita-por-stephen-king.html>.

Chequem ainda o excelente podcast de Stephen King no Ghost Writer, com Eduardo Spohr, Affonso Solano e Raphael Draccon como convidados (em dois volumes): <http://programagw.podomatic.com/entry/2012-10-15T15_17_44-07_00> e <http://programagw.podomatic.com/entry/2012-10-23T06_34_23-07_00>.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s