Além do Sol e da Lua – Capítulo 6

CAPÍTULO VI- De sábios e deusesDe sábios e deuses

O que devia fazer? Como fugir de uma vila-fortaleza cujas muralhas assomavam com espigões de doze, quinze metros de altura? Voando? Escavando um túnel subterrâneo? E como o Sr. Cahtóris sabia de sua topada com os Cavaleiros? Ah, abominável pergunta insistente! O garoto conseguia lidar com o dilema entre a curiosidade e sua vida, mas, se é que seus cálculos estavam corretos – e estavam, porque aquela sensação de vômito engolido na boca do estômago era bem real –, poderia satisfazer a curiosidade em detrimento de uma vida alheia, em detrimento da vida de seu irmão?

– Aqui está, jovem Seth – o menino percebeu que o velho lhe estendia uma taça (e intimamente torceu por que ele não estivesse esperando uma resposta naquela incômoda posição por tempo demais). – Uns goles de sidra para prestigiar uma garganta cansada. Brindamos?

– Claro – entusiasmou-se.

– Gostaria de fazer as honras?

– Com prazer – concordou prontamente, só então se preocupando em procurar uma coisa ou alguém meritoso o bastante de tal préstimo. Pensou em brindar ao Festival Escarlate, todavia a festa nada significava para ele. Em seguida lhe passou pela mente a ideia de homenagear “aqueles que não odiavam semielfos” (ou algo semelhante), mas a frase longa limitaria em dois terços o poder sonoro de seu pronunciamento. – Er… é… – olhou em volta por uns instantes. E deparou-se com o quadro, aquela mulher. Pôs-se de pé num salto, resoluto.

– Brindemos, Sr. Cahtóris! Brindemos à moça que a pintura ostenta – e fez um gesto com a taça em mira do alvo. O timbre de sua voz pré-adolescente tendia a oscilar entre um mais ou menos grave vibrante e um agudo estridente (este em geral se manifestava quando ele gritava com o irmão). Eis que agora surgia um meio-termo, brotando naturalmente como se sempre houvesse estado ali, embora Seth pudesse jurar que aquele tom de voz, melodioso qual o de um menestrel-orador, não era dele.

Eloquente feito um barão mentiroso que tenta explicar sua conduta torpe por meio de voltas e floreios de linguagem – porém cujo discurso, em essência, quer dizer “Estava no lugar errado, na hora errada e decidi me deitar com a senhorita errada. E como, pelos céus, eu podia saber que ela tinha só dez aninhos?! Sou vítima do péssimo senso de humor do Destino, sou sim, é isso que sou!” –, até Lao levantou uma das orelhas para escutar seu dono (a boca permaneceu junto à tigela, devorando vorazmente os petiscos), pois especulava que, ao contrário de sua analogia baronial, Seth tinha mais a falar do que desculpas esfarrapadas.

– Sr. Cahtóris – começou o garoto –, nos olhos da dama corisca um brilho especial, raro até. É diferente da cobiça nos olhos dos homens que me fizeram cativo e diferente da obstinação artificial nos olhos dos guardas tiberienses. Nos olhos da senhora resplandece honra: a coragem para não fraquejar diante do medo e a astúcia para enfrentá-lo e prosseguir pela rota certa, por mais umbrosa e enevoada que seja. E por isso brindemos à moça, cujo valor do espírito excede o de meu Mestre e rivaliza com o de meus pais!

– Boa bebida e belas palavras, meu jovem! – congratulou o velho. – Chave de ouro para fechar uma tarde que dormiu cedo demais.

E cruzaram-se as taças no ar, logo rumando para as bocas secas.

– Fico contente por tê-la trazido à tona, a minha amada – continuou o comerciante. – Ariela era seu nome, e eu a considerava minha esposa, apesar de jamais termos nos casado em cerimônia. Ela era cheia de vida. E pura. E linda! Mesmo um vale verdejante com um lago de águas mansas em seu coração, cintilando sob o alvorecer, precisaria de muitos retoques para lhe fazer frente. Mas não… ela não era elfa, e um dia veio a falecer…

Seth viu-se desconcertado. Cravou as unhas nas mãos. Aguardava o eventual – inevitável, supunha – desabafo melodramático do vendedor, que incautamente ele teria desencadeado. Escavou com mais força as palmas.

– Porém essa é uma história para outro dia – disse o Sr. Cahtóris apenas, com jeito sério, conquanto não se demonstrasse abalado nem ofendido. Devia já ter superado a perda, com certeza. Pois ele então era um ancião de alvos bigodes, pelos germinando dos ouvidos e coluna encurvada; e a mulher no quadro não teria mais de trinta anos.

Tiberia 12E foi aí que Seth decidiu propor a pergunta – aquela por que o negociante ansiava. Talvez porque ela agora palpitasse dentro de seu crânio de maneira excruciante, talvez porque a conversa sinalizasse estar nas últimas, ou talvez devido ao efeito desinibitório (disfarçado de intrepidez), insignificante mas presente, que a sidra proporcionara. Ou talvez por tudo isso. O fato foi que o garoto optou por ignorar todas as ponderações em torno dos riscos de prolongar sua estadia no refúgio que era a casa do Sr. Cahtóris. Afastou inclusive os cálculos que envolviam a segurança de seu irmão. Fez-se de surdo a essas preocupações, em nome da curiosidade e algo mais, algo indecifrável para a noite em questão – indecifrável e, no entanto, importante. O velho sabia tanto, possivelmente devia saber alguma coisa sobre…

– Sr. Cahtóris, eu… o senhor notou alguns machucados em mim que não foram causados nem por Ulderik nem Goethig, nem sequer pela Guarda Tiberiense. Eu os consegui durante minha vinda para cá. – E o menino relatou o encontro com os Cavaleiros, descrevendo Hidëo e Atröxis, e também o porta-bandeira. Contou o que pôde lembrar, uma vez que um borrão branco ainda perpassava uns pontos do incidente. E a pergunta tão promissora no fim se transmutou em narrativa. Houvesse o semielfo sido mais indiscreto – houvesse ele arrematado com um “E o senhor tinha conhecimento de cada detalhe antes de eu lhe ter revelado qualquer deles. Como?” –, teria, de certo modo, desistido no meio do jogo, não importando qual fosse ele.

O velho sabia tanto, possivelmente devia saber alguma coisa sobre… a Noite do Luar Escarlate. “A noite em que meus pais foram assassinados”, pensou. E a noite sobre que Marco Paetros jamais quisera comentar.

O comerciante ouviu pacientemente. Depois, ao término, esboçou uma expressão de espanto – e, dessa vez, fingiu bem. Não fez nenhuma menção de pretender responder à pergunta implícita. E era isso, portanto. Seth perdeu. O vendedor venceu, não exporia como sabia o que sabia.

O garoto ficou desapontado só o tempo até o Sr. Cahtóris desatar a palestrar novamente: só por dois segundos.

– Não preciso falar que estou surpreso por vê-lo vivo. O bando com que você se deparou, jovem Seth, é o responsável por policiar estas terras. O dever desses elfos de vermelho é livrar o mundo de semielfos como você, eliminando uma metade e escravizando a outra.

– Isso eu acho que já entendi… Mas quem são eles exatamente?

– Cavaleiros Escarlates. Elfos que renunciaram à liberdade e à razão em prol de motivos mais… ignóbeis. Por exemplo – erigiu as sobrancelhas –, uma intolerância mortífera para com os mestiços. Não posso afirmar se eles escolheram saciar tais vis apetites a pautar-se pela Vontade, um caminho que vêm sendo abandonado por tantos ultimamente; ou se foram subjugados por aquele a quem servem. Aquele que hoje se arroga o título de “O Absoluto” e que antes dizia ser Argënttion, o Grande.

De sábios e deuses 3

Seth:

Como já apontei antes, quando o assunto é religião, meu conhecimento é praticamente nulo. Praticamente. O pouco que sei aprendi com minha mãe, que era devota de Argënttion…

Naquela tarde, papai, Berek e Lao tinham saído para caçar o jantar. Veio a noite e até então eles não tinham retornado. Nada inquietante, porque meu pai era um guerreiro pujante. No céu ainda brilhava a Lua e ela estava cheia. Uma radiância mágica tingia toda a floresta ao norte, parecia dia – um dia pálido, mas dia mesmo assim. Da varanda, eu admirava o luar.

– A Lua está bonita hoje, não é, querido Seth? – Não a ouvi chegar, os passos de minha mãe eram muito sutis.

– Sim – anuí monossilábico. Eu devia ter uns quatro anos e confesso que, à época, não sentia vontade ou necessidade de falar demais, apesar de, para minha idade, já deter um vasto vocabulário.

De sábios e deuses 4

– O que tu consegues ver na superfície da Lua?

Sempre tive mais imaginação que meu irmão e, logo, respondi prontamente:

– Um rosto. Assustado. Olhando para o sul.

– Sim, um rosto assustado vigiando o sul. Mas o rosto se tornaria para o leste, oeste ou norte, fosse esta noite outra noite. A noite presente é especial, Seth, pois é gêmea da Noite Primeva, a que nossos antepassados mais remotos outrora contemplaram. A abóbada estrelada é idêntica à daquela noite, bem como a imagem da Lua. Não é rara esta coincidência, volta e meia ela ocorre. Porém não é fácil precisar quando, pois o movimento lunar é inconstante. Então novamente te indago: além da face assustada, o que vês na Lua desta noite?

E aí eu banquei meu irmão: entortei a cabeça de várias maneiras, pisquei os olhos, esquadrinhei cada quadrante do círculo alvo. E nada desvendei. Para mim, ou era o rosto, ou nada. Tão concentrado fiquei que não notei minha mãe se ausentando e em seguida voltando. Ora, eu não teria sido capaz de perceber de qualquer jeito: os grilos eram mais barulhentos que o andar dela!

Mamãe se agachou perto de mim e me mostrou uma espécie de tapeçaria, das que a gente prende na parede, feito um quadro. A peça estava vazia, contudo. Completamente branca.

– E aqui? O que vês, meu menino?

– Nada…

Em resposta, ela balançou levemente o pano à luz do lampião.

– E agora? Vês algo?

– Sim. O rosto. Da Lua.

Em meio ao tecido branco, era possível enxergar os riscos da face contida na superfície lunar. Não as linhas irregulares e grosseiras correspondentes ao relevo da Lua, e sim traços mais firmes e acurados, que acompanhavam a trajetória daqueles por alto, mas sem reproduzi-los em rigor. Desenhados com fios de prata, em mira da luminosidade adequada eles se revelavam.

Minha mãe virou a tapeçaria de ponta-cabeça:

– Esta é a posição correta. Eis o símbolo oculto registrado pela Lua desta noite: o emblema de Argënttion.

– Quem é Ar… Argu… Arguentão? – foi o máximo que minha boca pôde produzir, já que mesmo hoje acho difícil pronunciar o nome. E jamais me aproximei do som melodioso em que mamãe transformava aquela palavra.

Ela exibiu um riso tênue.

– Argënttion é um nome na Língua Antiga, comumente chamada de élfico, embora nos dias atuais nem mesmo os elfos a empreguemos em ritmo corrente. Argënttion – ela repetiu, e de novo a música roçou minhas orelhas. É mais ou menos como o silvo que fazemos ao apagar uma vela (aliás, vim a descobrir mais tarde, todos os fonemas élficos parecem ser sussurrados ou vir entremeados por assobios – pelo menos esse é o modo fácil de quem não é elfo aprendê-los). – Argënttion é um deus…

– O que é um deus? – interrompi.

– Um deus é alguém cheio de poder que nos protege do mal. Argënttion é o Senhor da Lua, e é por isso que ela ostenta seu símbolo. É ele quem controla os oceanos e quem sustenta a terra, desde as mais profundas grutas até o topo das mais altas montanhas. Por fim, é o deus-criador dos elfos, que estão sob seus cuidados, assim como a deusa Häurea, a Donzela do Sol, zela pelos humanos.

Eu entendi tudo, não havia o que não compreender. Só uma coisa me incomodou:

 – E quem protege os semielfos? Quem protege a mim e a meu irmão?

Por um momento entrevi tristeza no olhar de minha mãe. Tristeza de verdade no semblante que sempre aparentava ligeira melancolia. Prendi a respiração.

Afinal ela sorriu. Brindou-me com o sorriso que somente ela podia oferecer, o sorriso responsável pelo nascimento de mil galáxias e mais de um bilhão de estrelas. Abraçou-me:

– Eu e teu pai protegemos a ti e a teu irmão. E assim será até o Fim.

A sombra passou.

– Vocês são deus e deusa! – devolvi-lhe a alegria.

De sábios e deuses 5

– Argënttion, o Senhor da Lua? O deus Argënttion? – interpelou Seth.

– Bem, esse era o nome que ele se atribuía. E se olharmos pelo prisma da magnitude de servos e horda que lhe prestam obediência, O Absoluto de fato evidencia ser poderoso, tal qual um deus talvez. Entretanto, ainda que não devamos descartar a hipótese de que seus asseclas o sigam porque o temem ou o respeitam, é provável que eles assim procedam porque meramente lhes é conveniente. O grosso dos adeptos d’O Absoluto se compõe de elfos, e elfos podem ser frios e cruéis, mas não tolos; devem ser raros aqueles que o veneram como a um deus ou algo do gênero. E, além, figuram homens em seus contingentes (à parte minha suspeita de que mesmo alguns semielfos os integrem, delatores que vendem informações a fim de ter as vidas temporariamente poupadas). E o que há em comum entre homens e elfos?

O menino, claro, sabia a resposta.

– Ambos repudiam semielfos, a ponto de desejar aniquilá-los todos – o velho completou. – Logo, por essa ótica, aquele que se denomina Argënttion nada mais é que a centelha que resolveu fulgurar bem no centro da floresta sequíssima. Depois, uma por uma as árvores se inflamaram. O Absoluto seria o pretexto em que tantos matadores têm se apoiado, visto que a desculpa de “estar executando ordens” é reconfortante a consciências que precisam suportar cometer incontáveis assassinatos. Essa é a primeira possibilidade. A segunda é o inverso da primeira: nela, O Absoluto é quem estaria a usar seus servos, lhes canalizando as paixões em benefício próprio, em prol de objetivos escuros. Especulo que esta consista na realidade verdadeira, já que é discernível quão organizados estão os Cavaleiros Escarlates, por exemplo, como se uma hierarquia inflexível subsistisse, com alguém no topo a comandar. E não só os adeptos de Argënttion mas também o povo da rua adotaram o tratamento de “O Absoluto” para se referir a ele. Eu inclusive o chamaria assim todo o tempo, caso não estivesse conversando com o senhorzinho entre quatro paredes com as janelas fechadas. Ou seja – e pôs-se a sussurrar –, lá no fundo reconhecemos sua força, lá no fundo nós o tememos, se não porque ele se declara um deus, decerto porque seus braços de espias e milícia são longos. E muitos clamam vitória, acreditando que o juízo final para os semielfos começou.

O garoto remexeu-se na poltrona. Escutar tudo aquilo decididamente não fazia bem à sanidade de um semielfo.

– Mas eu lhe asseguro, jovem Seth: Argënttion (ou seja lá quem ele for) não é um deus. Digo, O Absoluto e o deus Argënttion não são o mesmo ser. Pois, explicam os teólogos, um deus não é livre, se encontra, isto sim, vinculado a uma natureza e obrigações imutáveis, cunhadas na Era antes das Eras. O deus Argënttion está incumbido, entre outros encargos, de produzir as marés e de manter sólidas as cordilheiras. Não poderia, acorrentado que está, abdicar de tais deveres… E, ora, eu não tenho ouvido nenhum rumor sobre montanhas se esfacelando ou marés não se cumprindo.

– Porém a Lua sumiu, senhor! E Argënttion é o Senhor da Lua – contestou Seth.

– Sim. Contra isso não tenho argumento. Atentam mesmo para algo que certamente não é pura coincidência: O Absoluto se revelou ao mundo por volta da mesma noite em que a Lua se foi. Só alego que esse fato não me é suficiente. Persisto em crer que O Absoluto não é um deus, nem sequer um líder digno de ser respeitado. Não passa de um tirano que merece cair.

Se o Sr. Cahtóris houvesse se expressado com maior emoção, sua réplica teria posado de um belo discurso inspirador. Todavia seu tom de voz permaneceu inalteradamente monótono, nem perdeu ele a compostura.

– E por que nos odeiam tanto? Por que elfos e humanos odeiam semielfos? – O menino esperava, por meio de tal questão, incitar o comerciante a falar mais a respeito da Noite do Luar Escarlate.

– Seth: desde que o primeiro semielfo nasceu, os dois povos dos quais ele descendia jamais o aceitaram plenamente. Para os humanos, ele era fruto de um traidor que dera as costas a seus semelhantes e preferira viver entre os imortais. Sob a perspectiva élfica, era filho de um Herege, alguém que violara o Pacto de sangue firmado entre os elfos e o deus Argënttion, este ofertando proteção e progresso em troca de que aqueles se conservassem puros, que se deitassem estritamente uns com os outros. Isso sem mencionar as guerras envolvendo ambos os povos; os horrores da guerra alimentaram ressentimentos e sede de vingança que meras uniões esparsas entre elfos e homens nunca estancaram nem poderiam estancar. O ódio e o desprezo para com a diferença sempre existiram, mas durante longo tempo foram manifestados em silêncio, com o olhar, ou em cochichos atrás de portas fechadas. Nesse ínterim, talvez a pior espécie de opróbrio tenha perdurado: o abandono e o consequente esquecimento de uma pessoa que, apesar de viva, era considerada morta, um fantasma, invisível ante tantos não cegos, muda ante tantos não surdos. E daí surgiram os bandos de Inexistentes. Não sei o que é mais abominável, se isso ou a caça aberta que sucedeu à Noite sem Lua.

O garoto recordou-se do monte de entulho, esquecido e imundo lá no beco. Definitivamente não gostaria de ser a ele comparado ou de ali ser dispensado, como um ninguém, a servir de companhia para um nada que só o estorvara. Por outro lado, ainda se regozijava por sua “camuflagem” quando da chegada a Tiberia ter sido bem-sucedida – resultado que ocorrera graças à indiferença do mundo para com ele. Ao mesmo tempo que não ambicionava ocupar o palco, no foco de um milhar de olhares de censura, tampouco queria ficar nos bastidores. O que preferia era estar sentado na plateia, mas a opção lhe fora vedada. O dilema de Seth teria terminado, assim, com a decisão em torno da posição menos pior. Entretanto a sociedade deliberara por ele: os semielfos passaram a ser caçados, forçados a enfrentar os holofotes. Para sobreviver doravante, precisavam refugiar-se na sombra da coxia. Ou então, quando nenhum abrigo os acolhesse, que encarassem o público de cabeça erguida.

Era um semielfo, sim! E era um semielfo orgulhoso.

– Jovem, saiba que os hábitos mudaram somente após o céu ter se tingido da cor do sangue. Até então a grande maioria via seus sentimentos e preconceitos sufocados por crenças religiosas e pelo que reconhecia como sendo os valores da civilização ou os bons costumes. Quando apareceu alguém ousado o bastante para rasgar esse véu de ingênua moralidade, não foram poucos os que imitaram o exemplo sem titubear. Por enquanto, a justiça e a verdade ainda são ditadas pela espada. A razão do poder prevalece. E eis que o presente ostenta a tortura, a escravização e o assassinato incorporados à legitimidade, por acordos tácitos que havia muito pretendiam se fazer viger. A barbárie perdeu seu significado assim que se fez rotina.

– Quer dizer que todo o mundo é mau, senhor? – interpelou o menino, inseguro.

– Não, claro que não. Nunca disse isso. Nem bons nem maus marcham sobre a terra. Há atos bons e maus, mas uma pessoa não se torna má ao praticar somente atos maus, nem é boa se faz só o bem. Acredito que existe um elemento comum ao espírito dos Pensantes: falo da liberdade de escolher e de agir, o livre-arbítrio. Em essência somos, sem exceção, livres; logo, nem bons nem maus, apenas nós mesmos. Porém, embora lá no fundo cada um disponha de consciência genuína, na prática nos orientamos pelos ditames da tradição, por leis de autoridades ou por ideais de líderes carismáticos. Aliás, nesta última categoria bem se enquadraria Argënttion, caso seu prestígio derivasse menos do fato de ele ter posto em marcha profundas ambições de elfos e homens, que de uma eloquência inerente a sua personalidade. Pelo contrário, como já sugeri, a tirania melhor lhe designa o gênio. Bastou-lhe, no entanto, desencadear o terror e a carnificina sobre a escória de que três quartos de Vartäe queriam se livrar, para imediatamente conseguir arrebanhar inúmeros simpatizantes.

Se não era a capacidade do vendedor de vomitar palavras em máxima velocidade que desarmava o garoto, sua lógica sagaz, não obstante pontilhada das pausas devidas, substituía aquela, e era tão atordoante quanto. O semielfo pegou-se confuso. Não compreendera metade do monólogo do Sr. Cahtóris, mas o senso aguçado permitira-lhe notar o tom de pessimismo na voz do outro. Por que ele estava tão sisudo, por que seu discurso era tão lúgubre? Não dissera que o mundo não era de todo ruim?

As flamas da lareira rodopiavam, de nada prestando para desembaralhar a mente de Seth, repleta de perguntas que, a fim de serem formuladas com perfeição, necessitavam previamente de outras várias. Não esperara (nem quisera) desencadear tamanho caos em seu interior. Temia agora que o velho lhe dirigisse a palavra, pois simplesmente assentiria em respeito, nenhum murmúrio pronunciando. “Ah, só de pensar em balançar a cabeça fico ainda mais tonto”, divagava.

Estaria a situação tão emaranhada assim? “Eu não teria percebido se as coisas tivessem tomado um rumo tão desastroso? Pelo que entendi, essa perseguição e extermínio têm raízes mais misteriosas. Não são impulsos passageiros, vulneráveis à roda do tempo. Seria preciso empenho tremendo para transformar os ânimos dessas centenas… ou centenas de milhares.” E então disfarçadamente riu de si mesmo, do ignorante que cria ser. “Se eu ou alguém mais pudéssemos… er… educar toda essa gente, não nos distanciaríamos muito d’O Absoluto. Nós… eu estaria conformando as opiniões de tantos a minha; seja melhor meu ponto de vista, seja mais justo: quem sou eu para julgar? Pois Argënttion orientou as emoções reprimidas de elfos e homens para atingir seus propósitos… enquanto eu os converteria.” Fez uma careta discreta, teve nojo de si. Não, a solução era bem mais complicada. Cada Pensante deveria, por reflexão própria, dar-se conta de quão nocivo era o rancor infundado que alimentava. E o garoto lembrou-se de Ulderik e Goethig. “Humpf, é impossível acontecer isso.” Sim, sanaram-se as dúvidas, mas a conclusão não agradou. Ao menos o fogo, única testemunha aparente de seu desconforto, dele não debochou.

Mas o Sr. Cahtóris também fitara Seth naquele minuto em que uma gama deveras contraditória de interjeições faciais o convulsionara. Projetava agora um sorriso de sincera satisfação, a constatar a evolução do aluno:

– Não sei se vale a pena continuarmos a conversa. Você parece ter descoberto sozinho as repostas que procurava, não é? Mas a luz que encontrou foi menos brilhante que imaginava, correto? Talvez eu consiga, contudo, lhe atiçar um pouco a esperança.

O menino corou de leve: não o entusiasmara a oferta de confrontar um segundo turno de filosofia tediosa, que se assemelhava demais às lições de Marco Paetros para seu gosto. Lao espreguiçou-se.

Irrompeu uma batida à porta, ao que Seth paralisou enquanto o Sr. Cahtóris interrompeu-se a meio caminho de retomar o raciocínio. Seriam os guardas? Novamente a hipótese de traição cruzou os pensamentos do semielfo, até reparar no semblante nauseado de aflição do comerciante. Quieto, imploravam seus lábios. Pelo visto, ele também não contava com aquilo. “Tudo bem. Silêncio.” Talvez quem estivesse à soleira partisse se afinal ninguém viesse recebê-lo. Talvez houvesse sido mero engano. Talvez…

Siga para o Capítulo 6 1/2

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16 respostas em “Além do Sol e da Lua – Capítulo 6

  1. Sabe Ro, o primeiro trecho ali, onde estão as perguntas, me fizeram lembrar dos tempo em que jogava a lenda de Zelda no SNES. Olha em que enrascada o Seth foi parar. Rsrsrs…

    Gostei do modo que caracterizou a Ariela e sobre a perseguição dos elfos contra os semielfos, agora sim está deixando mais interessante ainda. Fez lembrar-me do holocausto judeu na segunda guerra mundial, alemães perseguindo judeus, poloneses e outros… Muito bem explicado pelo comerciante. Sr. Cahtóris. Nome diferente esse, achei interessante!

    • Sim, exatamente. Planejo estudar mais a fundo a pesquisa desenvolvida nessa temática dos preconceitos, e suponho que o material que coletei vá abordar casos como o holocausto (aliás, o Umberto Eco tem um livro interessante a respeito; estou lendo aos poucos). Um dos objetivos da história será desvendar (ou propor uma teoria sobre) as origens da discriminação e da violência que ela pode desencadear.

  2. Chego a pensar que os tais elfos escarlates, tenham algum motivo de crença religiosa para exterminar os semielfos e escravizar alguns. Quem será que deve ser o líder dos elfos escarlates? Oo, Estou curioso e animado para ler.

    Mas como li, vi que seu líder se chama Argentton, ou seja, ele deve ser o rei ou possivelmente alguma entidade poderosa que comanda os elfos escarlates. Olha, está interessante esse seu romance. Muito interessante! Geralmente narrativas desse tipo me dão um sono, rsrsrs… Mas a sua está dando animo em ler até o fim. Parabéns! Ainda não terminei, só parei no trecho onde fala do Argentton pra comentar isso aqui.

    • Sobre os motivos da perseguição e extermínio, admito que há um componente religioso atuando. Agora, se esse aspecto religioso prepondera ou não, aí vai de cada elfo reconhecer em Argënttion um deus encarnado ou não. Ou seja, há religião envolvida, mas não só religião. Será mais um ponto a ser destrinchado por Berek e Seth na jornada que empreenderão.

  3. Gostei das perguntas a respeito da lua, deixou um quê de mistério ai. Fora o fato de o emblema da lua ser o de Argentton. Agora está esclarecido minhas questões, Argentton é um deus. Agora fica a pergunta se este deus ordenou os elfos vermelhos perseguirem os semielfos ou se algum líder dos elfos vermelhos distorceu os ensinamentos de Argentoon para justificar a perseguição.

    Curti muito a Donzela do Sol, guardarei esse nome na cabeça para me lembrar de que é a deusa que zela pelos homens nessa sua mitologia. Coitado dos semielfos, kkkkkk… Esse Seth de bobo não tinha nada, cara esperto. Quem protege os semielfos? Ao que tudo indica, eles estão a própria sorte. Cara, parabéns pela criatividade!

    • Exato. Nada tenho a acrescentar a suas observações. É isso mesmo que você disse: remanesce a dúvida se Argënttion é um deus ou não.
      Obrigado pelos elogios! 😀

  4. Interessante usar o termo Absoluto, isso ai me fez lembrar dos antigos imperadores de Roma que ordenavam serem adorados como deuses, caso contrário morreriam. Se o Absoluto, isso é, Argentton for um tirano, então de fato, merece cair. Mas pelo visto, ele deve ser muito poderoso e dotado de poderes sobrenaturais, não?

    • Sobre o poder de Argënttion, por ora vou manter segredo. É certo que ele é poderoso, mas a verdadeira natureza e extensão de seus poderes é um assunto a ser aprofundado mais adiante.

  5. Muito interessante ilustrar o Livre-Árbitro, penso exatamente dessa maneira. Somos nós mesmo, temos nossas escolhas e nossos caminhos, mas como diz o dito: A gente colhe o que planta. Então, que nossas escolhas sejam bem tomadas para não sofrermos no futuro. Muito bem narrado. Estou digitando rápido e se tiver algum erro em meus comentários, ignore. Rsrsrsrs… Mas que ficou bem ilustrado, isso ficou e devo dar uma pausa para dialogar isso.

    • Sim, também gosto muito dessa discussão.
      Há uma razão para o Sr. Cahtóris se interessar por esse assunto, a ser explicada depois (como muitas outras coisas, hehe!).

  6. É interessante! Seu site está de parabéns! Pode ter certeza de que comentarei mais sobre as matérias e tudo que tiver por aqui. Terminei de ler e estou no aguardo do próximo capitulo. Só achei um pouco longo a narrativa, mas para quem curte ler esse tipo de mitologia fantástica, isso não seria um empecilho. Bom, depende de cada pessoa.

    No mais, abraço! Valeu ai por ter escrito algo tão misterioso e ao mesmo tempo tão interessante. 🙂

    • Yep, tenho de concordar. Outras pessoas também se manifestaram nesse mesmo sentido: está longo, monótono, arrastado até.
      Por isso, seguindo a sugestão de um amigo, escrevi um capítulo com mais ação para se intercalar entre as páginas 1 e 2 deste capítulo 6.
      Vou publicá-lo ainda hoje num post em separado, para dar destaque. (Ainda não sei, mas acho que também vou inseri-lo aqui neste post, como uma página extra, intermediária, de modo que o total de páginas suba para 3.)

      Obrigado por ler e comentar, Claudeir! 🙂

    • Hehe, que bom que está acompanhando. 🙂
      Estou para ler seu novo capítulo d’As Letras Históricas. Ainda hoje dou uma passada no ONE. Abraços! o/

  7. Olá,

    Só agora li a segunda parte. Gosto muito do seu estilo, e como disse antes tenho aprendido muito com seu romance.
    Sua maneira de escrever e contar a história me lembra bastante o Patrick Rothfuss, a intercalação dos diálogos com pensamentos, os elementos da filosofia, e profundas reflexão, isso é magnífico e envolve-nos na história. Me dá até vontade de reescrever minhas “Letras Históricas” em primeira pessoa, se isso fosse possível.
    .
    Agora sim irei para o próximo.
    abraço!

    • Obrigado, Jefferson!
      Hehe, fico lisonjeado pela associação com o Rothfuss. Obrigado! 😀
      Lembro que escrevi este capítulo antes de ler “O nome do vento”, mas foi numa época em que as matérias da faculdade tinham muito conteúdo de Filosofia. Acho que seria impossível não transportar isso para a história, porque nesse período minha cabeça não parava de pensar a respeito dos temas e ideias debatidos em aula.
      Sobre os flashbacks em primeira pessoa: quis usá-los para aproximar mais facilmente o leitor do personagem – ou, pelo menos, esse foi um dos motivos. Houve outro, de ordem mais formal: como o romance é narrado no passado, e o flashback ocorre no passado desse passado, eu teria de empregar o pretérito mais-que-perfeito; contudo, como essas recordações eram longas, eu acabava tendo de abusar do mais-que-perfeito, e o texto não soava muito legal; daí resolvi colocar em primeira pessoa, como se o personagem estivesse conversando com alguém, e, logo, eu poderia adotar o pretérito perfeito e, às vezes, o presente.
      É, creio que reescrever o Letras Históricas em primeira pessoa ficaria complicado, por causa do número de pontos de vista envolvidos. Mas, ei, não me parece necessário fazê-lo, porque vc tem conseguido injetar uma personalidade diferente (e profunda) em cada capítulo, e é isso que importa. 🙂
      Abraços!

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