Cenários fantásticos: Tolkien e a Terra-média

Terra-média

A paz bucólica do Condado. O labirinto antigo e nevoento que é a Floresta Velha. O aconchego da hospedaria Pônei Saltitante. O Topo do Vento. O repositório de sabedoria e de esperança que é Valfenda. Os ruídos agourentos e os ares pestilentos da Floresta das Trevas. Os majestosos salões de Moria, escuros após sua queda. A dourada Lothlórien. A imponente Minas Tirith. Eu poderia seguir adiante e enumerar os lugares fabulosos mencionados em O Silmarillion, mas, de Tolkien, por ora é melhor me limitar à Terra-média e a’O Senhor dos Anéis.

Originalmente, a finalidade deste post era oferecer um pretexto para uma galeria de imagens iradas – e ainda servirá a esse propósito, mas haverá alguns acréscimos.

Falarei sobre cenários: cenários fantásticos!

Pretendo fazer uma sequência de postagens sobre o assunto e reservo esta inicial a J. R. R. Tolkien, como parece ser apropriado. 🙂

Primeiro de tudo, tenho de confessar que, quando li (ou tentei ler) O Senhor dos Anéis pela primeira vez, lá por volta de meus onze anos de idade, julguei excessivas e tediosas as descrições de Tolkien sobre o ambiente. Bem, nada mais que natural, suponho, porque à época, embora eu contasse com uma imaginação que me permitia imergir na história mais facilmente e visualizar o mundo com maior nitidez, tinha menos paciência para o ritmo lento que aquela riqueza descritiva impunha à trama.

Depois, numa segunda leitura aos quinze anos, minha impressão mudou. Eu já tinha decidido que dessa vez me dedicaria a estudar com afinco o universo tolkieniano. Passei então a me guiar pelos mapas disponibilizados ao final dos livros (além daquele do Condado no início de A Sociedade do Anel) e admito que consegui aproveitar bem mais a viagem. Mais tarde procederia da mesma forma ao ler O Silmarillion.

Em releituras posteriores meu apreço pela habilidade de Tolkien de montar cenários grandiosos não diminuiria. Eu começaria a notar como o autor conseguia equilibrar poesia e precisão em cada descrição, como intercalava linguagem figurada e literalidade. E em meio às imagens responsáveis pela magia sutil da Terra-média, havia conhecimentos de botânica, de geologia, de arquitetura, talvez até de engenharia.

É evidente que não gostei – e ainda não gosto – de tudo que li dele em matéria de ambientação (por exemplo, execro profundamente os capítulos de Sam e Frodo já em Mordor – mas provavelmente isso se deve à letargia dessas cenas, à pouca ação presente nelas, não à descrição do cenário). Mas é inegável que a atenção que Tolkien dirigiu à construção da geografia de suas paisagens naturais e à estética de suas paisagens culturais deixou legados esplendorosos em outros campos da arte: desde a espetacular fotografia dos filmes de Peter Jackson, passando por um séquito de ilustradores profissionais que devotaram quase que a plenitude de suas obras a retratar a Terra-média, até o preciosismo da animação gráfica de jogos como The Lord of the Rings Online (que tive a oportunidade de experimentar por um tempo).

E fica a pergunta: por que a ambientação é algo tão importante em O Senhor dos Anéis? Eu poderia aqui sugerir uma resposta bem simples (e a mais acurada entre todas, creio): porque o escritor assim escolheu. Trata-se do argumento fundado nas preferências do autor: pelo que conheço de Tolkien – e isso deve estar relatado em alguma de suas Cartas, além de latente em suas obras –, a temática do progresso tecnológico enfrentando a natureza era uma das meninas de seus olhos.

Porém gostaria de lançar e estudar outras respostas em potencial. Talvez a relevância dos cenários resida no tipo de fantasia que informa o universo tolkieniano: a alta fantasia – ou second world ou off-world fantasy –, aquela cujo enredo se desenrola integralmente num mundo paralelo ao nosso e independente do nosso. É de se pensar que, em fantasia desse calibre, quanto mais consistentes e aprofundadas forem as descrições do ambiente, mais o leitor se sentirá grato, pois mais subsídios ele terá para se situar nesse meio de pura imaginação.

Mas nem sempre é assim. George R. R. Martin em As Crônicas e Gelo e Fogo também pode se enquadrar na alta fantasia, porém ele não descreve seus cenários à exaustão, como faz Tolkien. Talvez porque Westeros, mais próximo da Europa medieval, seja de mais fácil assimilação por parte do leitor. Ou talvez porque sua mania descritiva recaia prioritariamente sobre o figurino – o que é bem perceptível nos capítulos de alguns personagens nobres, que podem se dar ao luxo de trocar de roupa três vezes por cena (certo, Sansa?). Não obstante, Martin consegue inventar lugares magníficos, pelo que receberá um post particular. Pois bem, eis uma possível comparação entre os autores no quesito da ambientação: para Martin toda floresta não passa de uma floresta qualquer (exceto as de além da Muralha), enquanto, para Tolkien, a Floresta Velha é totalmente diferente de Lothlórien, que é diferente da Floresta das Trevas, que é diferente de Fangorn; cada uma tem sua identidade.

Mais um caminho: talvez os ambientes sejam especialmente importantes em O Senhor dos Anéis porque a obra narra uma jornada. É, em certo sentido, um livro de viagem, e gostamos de admirar paisagens deslumbrantes numa viagem. Por outro lado, também podemos apreciar uma jornada pelos personagens fascinantes que nos acompanham e pelos episódios excitantes que ocorrem ao longo dela. O exemplo que me vem à mente aqui é A Torre Negra, de Stephen King. Na saga da Torre, que me recorde não há cenários emblemáticos, e o estilo enxuto e objetivo de King em suas descrições o afasta de Tolkien. Tudo bem, pois aproveitei a viagem mesmo assim.

Elfos

Logo, se não é a alta fantasia nem a jornada que explicam o valor que a ambientação detém em Tolkien, o que sobra? Sobra algo que já apontei: identidade. Cada cenário de Tolkien tem identidade própria, transborda personalidade. Inspirado na máxima que aprendemos no colégio sobre o romance brasileiro O cortiço, de Aluísio Azevedo, de que o cortiço é seu personagem principal, diria que n’O Senhor dos Anéis a Terra-média também figura como um personagem principal. Mais precisamente: a Terra-média encarna vários personagens.

Por isso é tão difícil abandoná-la ao terminarmos a leitura: porque é como se estivéssemos nos despedindo de amigos íntimos. Convivemos com eles (com a Terra-média) por páginas e mais páginas, e de repente o livro acaba, como todo livro.

Um companheiro das letras uma vez propôs a questão: qual foi o romance que mais lhe deixou uma sensação de nostalgia quando você chegou ao fim? Na época não tive certeza do que responder, mas meu parceiro não hesitou e falou: O Senhor dos Anéis. A Terra-média! Agora, após refletir, tenho de concordar com ele. Lendo Tolkien, habitamos a Terra-média por uns momentos de nossas vidas e, quando enfim dela saímos, remanesce um vazio em nós. Porque a Terra-média cativa.

Cenários podem cativar tanto quanto personagens ou uma boa história.

“Não pedirei que não chorem, pois nem todas as lágrimas são um mal.” (GANDALF, O Retorno do Rei, p. 314)

Este post nasceu a partir de um ensaio de Adrian Faulkner para o site Fantasy Faction (<http://fantasy-faction.com/2013/exploring-rural-landscape>), sobre a validade da exploração de paisagens rurais em busca de inspiração para escrever sobre ambientes naturais. Diz ele:

A beleza de Tolkien não está na prosa estonteante ou em criar um panorama que ninguém nunca viu, mas em construir um mundo que parece real como o que está em nosso redor. Ele demonstra um entendimento da zona rural que poucos conseguiram emular. Se você quiser mudar isso, se quiser fazer os leitores se perderem no meio natural que você criou, então você precisa deixar sua escrivaninha ou qualquer outro espaço reservado à escrita e se engajar numa pequena incursão pelo campo.

Bem… a verdade é que sou urbano demais (e ainda farei um post sobre cenários fantásticos urbanos). Não sou muito de viagens a zonas rurais ou campestres, ainda que goste de contemplar as paisagens aí encontradas. Não obstante, tentarei aplicar a dica de Faulkner quando a oportunidade de uma viagem dessas se apresentar.

*****

Ah, adoraria compartilhar os trabalhos de dois de meus ilustradores favoritos aqui, mas talvez acabasse ferindo algum direito de autor ao fazê-lo. Portanto, deixo só os links de seus sites, e recomendo que deem uma conferida em suas ilustrações. São fenomenais!

Ted Nasmith: <http://tednasmith.mymiddleearth.com/site-map/j-r-r-tolkien/>.

John Howe: <http://www.john-howe.com/portfolio/gallery/>.

Agora, às imagens. Umas são dos filmes, outras não. As retiradas do Deviantart levam aos sites dos respectivos autores, bastando clicar nelas. Colhi algumas citações de O Senhor dos Anéis (ed. Martins Fontes) para inserir junto às fotos e ilustrações.

*****

O Condado

Condado 3

Depois de algum tempo cruzaram o Água, a oeste da Vila dos Hobbits, por uma pinguela estreita. O rio ali não era mais que uma sinuosa fita negra, ladeada por amieiros inclinados. Uma ou duas milhas à frente, atravessaram rapidamente a grande estrada que vinha da Ponte de Brandevin; estavam agora na Terra dos Tûks e, virando em direção ao sudeste, dirigiram-se para a Terra das Colinas Verdes. Depois de começar a subir as primeiras ladeiras, voltaram-se e viram as luzes da Vila dos Hobbits piscando ao longe, no suave vale do Água, que rapidamente desapareceu nas dobras da terra escurecida, seguido por Beirágua ao lado de seu lago cinzento. Quando a luz do último sítio já estava bem distante, espiando por entre as árvores, Frodo se virou e acenou um adeus. (A Sociedade do Anel, p. 73)

Condado 4

Para a Floresta Velha…

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2 respostas em “Cenários fantásticos: Tolkien e a Terra-média

  1. Ótima postagem. “Por isso é tão difícil abandoná-la ao terminarmos a leitura: porque é como se estivéssemos nos despedindo de amigos íntimos”.
    .
    Eu sinto exatamente isso, faz tempo que li as obras de Tolkien, mas não consigo sair da Terra-Média, não consigo de sentir-me envolvido. É interessante, de vez em quando gosto de pesacar e quando estou no mato sempre lembro da obra de Tolkien, é como se eu fosse ver um Elfo-verde, ou um Ent, quando vago na mata a noite sinto-me em Fagorn. É impossível deixar a Terra-Média depois que se apaixona por ela.
    .
    Eu tenho um cenário preferido, agora não lembro-me do nome, mas é aquela parte onde na borda do rio há as duas estátuas de reis, para mim ficou maravilhoso aquilo. Eis a imagem: http://fotos.fotoseimagens.etc.br/Senhordosaneis6.jpg
    .
    Mais uma vez meus parabéns por esse maravilhoso artigo.

    • Obrigado, Jefferson!

      Po, esse cenário na borda do rio é muito irado! (Também não lembro o nome dele.) E excelente a imagem! Eu fico imaginando se, após o fim da Guerra do Anel e a reunificação do reino, esses lugares acabaram se tornando pontos turísticos da Terra-média, hehe! Daí haveria peregrinações aos montes até as estátuas, e famílias as visitariam com os filhos – enfim, estou viajando aqui, mas a ideia me agrada. 😉

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