Roland e José – ou: o que A Torre Negra e a poesia brasileira têm em comum para uma mente dada a viajar?

Em nome da honestidade literária (não sei se o conceito existe realmente, mas, ainda que não, ele faz algum sentido para quem o lê, o que é o bastante), aviso que este post é sobre nada. Trata-se de apenas mais uma divagação minha que gostaria de transpor ao papel.

Falo aqui de uma associação baseada puramente nas palavras de dois textos, uma associação que conduz a uma correlação entre dois personagens que nada teriam em comum  exceto em minhas ruminações disparatadas e sem qualquer rigor intelectual.

RolandO primeiro é Roland Deschain, o pistoleiro protagonista de A Torre Negra, de Stephen King. Ao final do sétimo livro da série (não se preocupem, não haverá spoilers), King (re)descreve o pistoleiro como um homem prático e rígido. Parafrasearei de cabeça a metáfora que SK adota (ou seja, entendam que minha memória pode me decepcionar): Roland é o tipo de pessoa que alinharia quadros tortos nas paredes de hotéis desconhecidos. Sim, ele é rigoroso a esse nível. Ao mesmo tempo, é impossível demovê-lo de seu objetivo: encontrar a Torre Negra. Em essência, é isto que ele é: irritantemente severo e assustadoramente perseverante.

Pois bem. Estava eu relendo um de meus trechos favoritos do livro, lá pelo último epílogo (não, “último epílogo” não é redundância no que concerne à saga da Torre), quando tive uma nítida sensação de déjà vu. (Claro, tolo! Afinal, você já tinha lido aquele pedaço antes vezes sem conta. É óbvia a razão desse aparente déjà vu.) Mas não. Não era isso. Minha impressão foi de já ter lido algo semelhante em outra obra completamente distinta. Eis a passagem d’A Torre Negra a que me refiro (reitero, sem spoilers):

O cheiro sob o álcali era o da erva-do-diabo que trazia sonhos doces, pesadelos, morte.
Mas não para você, pistoleiro. Nunca para você. Você obscurece. Você muda de cor. Posso ser brutalmente franco? Você continua.

E a cada vez esquece a última vez. Para você, cada vez é a primeira vez. (SK, A Torre Negra, v. 7, p. 854)

DrummondEsse trecho me fez lembrar de algo totalmente aleatório: um poema. E um poema brasileiro. O famigerado poema José, de Carlos Drummond de Andrade. Porque o adoro, abaixo o transcrevo na íntegra (destacando em negrito as partes de minha associação viajante):

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, José?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio – e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho do mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde? (José, in: MORICONI, Os cem melhores poemas brasileiros do século, p. 109-111)

Reparei que Roland e José têm bastante em comum: a rigidez que seus perfis ostentam, a teimosia, a persistência, a insistência. Ambos superam as adversidades ou as ignoram. São duros por causa e a despeito das adversidades. (É claro que aqui faço uma interpretação bem simplista do poema de Drummond. Não pretendo decifrar todos seus significados neste momento. Aliás, não devo ser capaz de fazê-lo. Talvez ninguém seja. Talvez nenhum poema exista para ser compreendido ou destrinchado à exaustão; do contrário a graça (e parte da beleza) do mistério se perderia(m).)

Era o que queria expor. Um pouco d’A Torre Negra. Um pouco de poesia brasileira.

Grato pela atenção de quem me acompanhou nesta viagem inútil. 🙂

O pistoleiro 3

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3 respostas em “Roland e José – ou: o que A Torre Negra e a poesia brasileira têm em comum para uma mente dada a viajar?

  1. Até parece que isso foi uma viagem inútil! Gostei desse post! Aliás, nunca li Torre Negra. Vale mesmo à pena? Onde posso comprar ou baixar o e-livro? No mais, boa a matéria e a opinião sobre a poesia brasileira.

    • Hehe, ah, convenhamos: foi meio inútil, sim! XD
      É uma amostra das associações viajantes que faço enquanto leio. (E torço por que todos os leitores as façam também, pois gosto de ter esperança de que não estou sozinho nessa, rs!)

      Quanto ao livro, deve ter na Saraiva ou em livrarias online. Não é difícil de achar.

  2. Cara, parabéns.
    Vi seu artigo através de uma publicação em um grupo do Facebook e achei fantástico.
    Talvez você tenha se deparado com algo que esses dois autores tem em comum. Uma maneira quase semelhante de descrever um personagem.
    Ou talvez seja alguma técnica literaria utilizada por autores na criação de personagens.

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