RESENHA: A Crônica do Matador do Rei: Primeiro Dia – O nome do vento

O nome do vento 2Meu nome é Kvothe, com pronúncia semelhante à de ‘Kuouth’. Os nomes são importantes, porque dizem muito sobre as pessoas. Já tive mais nomes do que alguém tem o direito de possuir.

(…)

Meu primeiro mentor me chamava de E’lir, porque eu era inteligente e sabia disso. Minha primeira amada de verdade me chamava de Duleitor, porque gostava desse som. Já fui chamado de Umbroso, Dedo-Leve e Seis-Cordas. Fui chamado de Kvothe, o Sem-Sangue; Kvothe, o Arcano; e Kvothe, o Matador do Rei. Mereci esses nomes. Comprei e paguei por eles.

Mas fui criado como Kvothe. Uma vez meu pai me disse que isso significava ‘saber’.

Fui chamado de muitas outras coisas, é claro. Grosseiras, na maioria, embora pouquíssimas não tenham sido merecidas.

Já resgatei princesas de reis adormecidos em sepulcros. Incendiei a cidade de Trebon. Passei a noite com Feluriana e saí com minha sanidade e minha vida. Fui expulso da Universidade com menos idade do que a maioria das pessoas consegue ingressar nela. Caminhei à luz do luar por trilhas de que outros temem falar durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e escrevi canções que fazem os menestréis chorar.

Vocês devem ter ouvido falar de mim.

Assim se inicia a história de Kvothe, o protagonista de O nome do vento. O trecho acima sugere que estamos diante de um herói sem rival, mas ao longo da narrativa viemos a perceber que Kvothe guarda tanto um herói quanto um anti-herói ou um vilão dentro de si. Ele é um músico talentoso e um arcanista de rara habilidade, um prodígio até; para resumir: revela-se um gênio em (quase) tudo que se propõe a fazer. Mas… ele também comete erros – e dos grandes.

Com efeito, já bem no começo do livro tomamos consciência de que o mundo em que se passa a trama está fora dos eixos. As estradas se tornaram perigosas para os viajantes. A civilização se encontra à beira da ruína. Há rumores de nefasta desordem ocorrendo em locais distantes. Demônios vagam à noite e atacam humanos ou possuem seus corpos e mentes. E por alguma razão desconhecida, Kvothe se sente culpado por essa distopia, o que nos leva a crer que, entre suas más decisões, figuram aquelas que assumiram proporções desastrosas.

Mistérios à parte, o enredo se abre não com Kvothe, mas com Kote, o pacato dono da hospedaria Marco do Percurso, a falsa identidade que o protagonista tece para si a fim de se esconder das pessoas. Nesse momento ainda não sabemos os motivos de seu disfarce. De qualquer modo, não tarda para que a monotonia de sua rotina de estalajadeiro seja interrompida quando as circunstâncias o conduzem a receber a visita do Cronista, um historiador que busca desvendar a verdade dos fatos por detrás das lendas. E agora ele deseja ouvir e transcrever a biografia de Kvothe.

A partir daí se desenrola a história principal, aquela que estamos mais interessados em escutar: o passado de Kvothe, contado por ele mesmo numa primorosa narração em primeira pessoa, com breves interlúdios em que retornamos ao tempo presente e à Marco do Percurso, para que nos lembremos de que somos ouvintes de um contador de histórias, não meros leitores de um romance. A propósito, alguém descreveu O nome do vento como uma história sobre uma história – com o que concordo plenamente. Trata-se de uma bela análise de como surgem os mitos. E à medida que Kvothe nos relata em primeira mão todas as façanhas lendárias mencionadas no trecho acima, nós vamos descobrindo que, embora os fatos por detrás das lendas não sejam tão épicos quanto estas, podem ser mais sombrios. Bem mais.

O autor, Patrick Rothfuss, é mestre em abordar o tema da fronteira entre a realidade e a fantasia. No curso da trama ele nos deixa várias pistas de uma verdade oculta, deliberadamente enterrada ou distorcida, como se uma intrincada conspiração estivesse mantendo as aparências no mundo. Mas os segredos espreitam em cada brecha. Outros assuntos, como a pobreza e o preconceito, também são brilhantemente trabalhados pela escrita carregada de emoção de Rothfuss.

É inegável que o autor tem um dom da palavra. Apesar de os interlúdios na Marco do Percurso, narrados em terceira pessoa, terem me soado meio arrastados, acho que essa impressão se deveu sobretudo a minha ansiedade de voltar para a história que realmente importava: a história do passado de Kvothe. (Confesso que no último interlúdio – que nem pode ser chamado assim, já que não está entre (inter) duas cenas, e sim fecha o livro –, não me senti dessa maneira: achei genial a discussão entre o Cronista e Bast, o ajudante do Kote hospedeiro.)

Rothfuss consegue nos cativar ao empregar a narração em primeira pessoa. Sim, o uso desse artifício geralmente permite criar uma intimidade mais sólida entre o leitor e o personagem, mas Rothfuss domina a técnica como ninguém. Ele sabe escolher os pensamentos e sensações mais apropriados para fisgar a atenção ou o coração de quem lê, e os traduz em palavras com maestria. Aliás, ressalto que o estilo único de Rothfuss só foi preservado graças à esplendorosa tradução de Vera Ribeiro.

Sobre o enredo, cheguei a ler numa crítica que ele continha muitos lugares-comuns da Literatura Fantástica, tais como (e aqui seguem leves spoilers): um protagonista órfão, uma escola de magia, a vingança como seu motor de fundo. Sim, são lugares-comuns. Todavia, como tive a oportunidade de comentar em outro post[1], por mais recorrentes que sejam esses elementos, podem assumir roupagens originais a depender de como o escritor lida com eles e dos detalhes que orbitam em seu entorno.

O nome do vento 1Peguemos o exemplo do órfão. Sempre há órfãos na fantasia, uns diriam, e com Kvothe não é diferente. Porém notem que, quando do assassinato dos pais do protagonista, o autor tem êxito em nos tocar – bem, tocou a mim, pelo menos. Ele prepara todo o terreno para tanto – para que nós, leitores, compartilhemos o sentimento de perda que se abate sobre o personagem. Rothfuss poderia ter escrito simplesmente que Kvothe chorou até se acabar ou algo que o valesse, mas, uma vez que Kvothe é um excelente músico, preferiu dizer que, durante seu luto (e inspirado pelo luto), ele compôs algumas de suas mais belas canções. É uma cena bonita e triste. Tocante.

O mesmo ocorre com a “escola de magia”. Embora Rothfuss talvez não seja tão habilidoso quanto Tolkien em pintar cenários magníficos, sua imaginação ao inventar a Universidade (onde se aprende não só a “magia”, mas também outros conhecimentos) não deixa a desejar. Todas suas construções e os meandros de seu funcionamento – os testes de admissão, as aulas, as regras do Arquivo – instigam o raciocínio do leitor.

E a complexidade do sistema de “magia” elaborado por Rothfuss também impressiona. Se bem que em A Crônica do Matador do Rei o mais correto seria falar em sistemas de “magia”, no plural, cada qual devotado a uma especialidade. O principal deles, a Simpatia, se baseia numa lógica interessantíssima de livre manipulação e conversão de energia, de calor (energia térmica) em luz (luminosa), em movimento (cinética), e assim por diante; tudo isso balizado por princípios que impõem limites às capacidades de um arcanista.

Ah, mas existe ainda uma faceta oculta da magia, a verdadeira magia, que extrai sua fonte dos nomes profundos das coisas – como o nome do vento, título da obra. Para um vislumbre da filosofia que orienta a arte da nomeação, segue o trecho de uma conversa entre Kvothe e o Mestre Nomeador da Universidade, Elodin:

– De que cor é a camisa daquele menino?

– Azul.

– O que quer dizer com azul? Descreva-o.

Esforcei-me por um momento, não consegui.

– Então azul é um nome?

– É uma palavra. As palavras são pálidas sombras de nomes esquecidos. Assim como os nomes têm poder, as palavras têm poder. Elas podem acender fogueiras na mente dos homens. As palavras podem arrancar lágrimas dos corações mais empedernidos. Existem sete palavras que farão uma pessoa amá-lo. Existem dez palavras que dobrarão a vontade de um homem forte. Mas uma palavra não passa de uma pintura do fogo. O nome é o fogo em si.

O nome do vento 3

No cômputo geral os personagens me agradaram. Admito que, por enxergarmos o mundo só pelos olhos de Kvothe, alguns personagens terminam pouco aprofundados – e reconheço que é tarefa difícil desenvolvê-los quando se tem um único ponto de vista à disposição. E, bem, para ser sincero, não gostei da Denna, a amada de Kvothe e a personagem secundária que mais aparece; de início o ar de mistério que a envolve me intrigava, mas depois começou a me irritar… Foram personagens com características mais marcantes que me cativaram, como Devi e seu charme perigoso, Auri e suas esquisitices, e Elodin e suas loucuras (adoro o Elodin e suas loucuras!).

O ritmo dos acontecimentos não é frenético nem de qualquer forma agitado. É um romance que exige boas doses de reflexão por parte do leitor, logo não se resume em ação e mais ação. Há conflitos que nos incitam a virar as páginas, ainda que nada do suspense de “quem-ele-vai-matar-agora?” de George R. R. Martin. Sim, enfrentei momentos em que, dado o baixo nível de tensão, tive de me esforçar para prosseguir na leitura (potencial spoiler: a exemplo do encontro com o dragão), porém nessas ocasiões a escrita de Rothfuss e seus insights serviram de compensação.

Em suma, é uma obra maravilhosa, digna de ser relida vezes sem conta.

Eis a sinopse:

Ninguém sabe ao certo quem é o herói ou o vilão desse fascinante universo criado por Patrick Rothfuss. Na realidade, essas duas figuras se concentram em Kote, um homem enigmático que se esconde sob a identidade de proprietário da hospedaria Marco do Percurso.

Da infância numa trupe de artistas itinerantes, passando pelos anos vividos numa cidade hostil e pelo esforço para ingressar na escola de magia, O nome do vento acompanha a trajetória de Kote e as duas forças que movem sua vida: o desejo de aprender o mistério por trás da arte de nomear as coisas e a necessidade de reunir informações sobre o Chandriano – os lendários demônios que assassinaram sua família no passado.
Quando esses seres do mal reaparecem na cidade, um cronista suspeita de que o misterioso Kote seja o personagem principal de diversas histórias que rondam a região e decide aproximar-se dele para descobrir a verdade.
Pouco a pouco, a história de Kote vai sendo revelada, assim como sua multifacetada personalidade – notório mago, esmerado ladrão, amante viril, herói salvador, músico magistral, assassino infame.
Nesta provocante narrativa, o leitor é transportado para um mundo fantástico, repleto de mitos e seres fabulosos, heróis e vilões, ladrões e trovadores, amor e ódio, paixão e vingança.
Mais do que a trama bem construída e os personagens cativantes, o que torna O nome do vento uma obra tão especial – que levou Patrick Rothfuss ao topo da lista de mais vendidos do The New York Times – é sua capacidade de encantar leitores de todas as idades.

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5 respostas em “RESENHA: A Crônica do Matador do Rei: Primeiro Dia – O nome do vento

  1. Ainda esse ano quero ler novamente os dois livros, não apenas por que sou fã, mas porquê farei uma leitura crítica para extrair o máximo de técnica possível. Quero aprender com o mestre Rothfuss como escrever em primeira pessoa, coisa em que sou péssimo.

    • Sim, ainda pretendo fazer isso também!
      O Rothfuss é fenomenal, e as traduções mantiveram a qualidade da escrita. (Claro que às vezes ele exagera, eu acho: afinal, não quero saber tudo, cada mínimo segundo, da rotina do Kvothe, como, por exemplo, o que ele comeu no café da manhã ou quanto de dinheiro ele tem sobrando etc., rs!)
      Mas a gente acaba tolerando esse detalhe por causa da habilidade do autor com a primeira pessoa, hehe!

    • Obrigado! Que bom que gostou! 🙂
      Eu queria era conseguir colocar mais humor nessas resenhas…
      E às vezes tenho a impressão de que falo coisas que só quem já leu o livro vai entender de verdade – e daí o principal objetivo da resenha (incitar gente que ainda NÃO leu a ler) se perde um pouco, creio.
      Enfim, também tenho que melhorar.

  2. Pingback: Elementos da fantasia: o vilão | Além do Sol e da Lua

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