RESENHA: O Conquistador

Gêngis 1Decidi escrever minha primeira resenha sobre um autor que me surpreendeu bastante. Talvez porque sua obra melhor se adéque ao gênero da Ficção Histórica; talvez devido a sua preferência por longos parágrafos de narração em sequência, só volta e meia entremeados por diálogos; talvez por não se negar a retratar cada detalhe de uma batalha, dos excitantes aos sórdidos, e a explicar estratégias e táticas bélicas, bem como a descrever armas e equipamentos de combate, tudo isso sem enfastiar o leitor; sim, talvez por uma combinação de todos esses motivos, eu o associasse (e ainda o associo) a Bernard Cornwell, que não me agrada lá tanto. (Aos eventuais leitores fanáticos por Cornwell: por favor, não me crucifiquem – nem me roguem pragas típicas da antiga Bretanha, se esta última opção soar mais apropriada.) A verdade é que não desgosto de Cornwell, mas tampouco sua escrita me cativou. Acho que ainda não me habituei ao estilo dele, só isso; pretendo investir mais nele no futuro.

Bem, à resenha.

Falarei de Conn Iggulden e sua série O Conquistador, que conta a trajetória de Gêngis Khan e seus descendentes, um relato que se confunde com um épico grandioso da nação mongol.

Quando iniciei a leitura, minhas expectativas eram bem imprecisas. Realmente não sabia o que esperar, pois meu único contato com os mongóis tinha sido nas aulas de História do Ensino Fundamental (afinal o Ensino Médio costuma ser devotado à preparação para o vestibular, e – ah, infelicidade e tormenta! – tudo o que se passou antes dos anos 1500 – exceto talvez a queda de Constantinopla, em 1453 – é irrelevante para ingressarmos numa faculdade brasileira, ou assim estabelece o MEC).

Gêngis 2E obviamente as menções aos mongóis que nos apresentam no Ensino Fundamental são, na melhor das hipóteses, vagas e parciais. Não há tempo para aprofundar o conteúdo – e minha mente pré-adolescente não tinha interesse em aprofundar esse conteúdo em especial. Ao menos não naquela época. Contentava-me com a lição de que os mongóis eram um povo nômade, forasteiros que, por algum motivo obscuro, tinham vindo criar confusão na História da Europa. Sim, em si essa breve referência já me despertava o senso de aventura, já que os mongóis eram guerreiros, traziam a guerra consigo e derramavam sangue e destruíam e pilhavam. E aquela não era uma explicação equivocada, apenas incompleta.

Hoje percebo que o mais justo é permitir que um povo, com sua própria voz, narre sua própria história. Os mongóis não encarnam exclusivamente personagens fugazes, baderneiros (bárbaros, talvez dissessem uns), da História Europeia. Não. Os mongóis têm uma História que é só deles, e é magnífica.

Conn Iggulden não é mongol e sim britânico, mas a meu ver fez um excelente trabalho em sua obra. Talvez alguém mais versado do que eu na História Mongol – notem que eu seria um total ignorante no tema, não fossem os livros de Iggulden – discorde; pode e deve discordar. Talvez eu tenha deixado passar as linhas mais tendenciosas ou um quê de etnocentrismo aqui e ali, mas me justifico alegando que li por puro prazer, e o fascínio me toldou o olhar crítico.

Cena do filme O Guerreiro Gêngis Khan, de Sergei Bodrov.

Cena do filme O Guerreiro Gêngis Khan, de Sergei Bodrov.

Feitas essas ressalvas, reafirmo a excelência da obra. Iggulden pesquisou a fundo – inclusive realizou pesquisas de campo, a fim de experienciar pessoalmente alguns dos costumes tradicionais mongóis. O resultado é esplendoroso, imersivo. Senti-me honrado em acompanhar Temujin desde uma infância de provações e amarguras até o momento em que conquistou sua autoridade e ascendeu como líder, o Grande Cã (Gêngis Khan!), do povo que visualizava como uma nação. Exultei a cada passo que Temujin dava para traduzir seu sonho em realidade. De uma miríade de tribos esparsas, autocentradas, engajadas em ressentimentos mesquinhos, Gêngis consegue uni-las todas – às vezes pela força, é verdade, mas termina por convencê-las de que fazem parte de algo maior: uma comunidade mais ampla, que sofre dos mesmos problemas e partilha das mesmas crenças. E que, agora, tem a oportunidade de escrever uma história comum.

Em geral os personagens são bem construídos, cada qual com suas personalidades e conflitos. E para tanto Iggulden não se utiliza de descrições exaustivas de traços físicos ou idiossincrasias. Não. Em cenas curtas ele nos revela muito mais – e nos aproxima de suas criações e nos torna íntimos dos pensamentos e dilemas delas. É sabido que a regra de escrita “show, don’t tell” (“mostre em vez de contar”) tem suas limitações, mas Iggulden a aplica com louvor. É por isso que, embora reprovemos certas escolhas de Gêngis, no fim as compreendemos, pois elas combinam com o jeito dele: seria vão esperar que agisse de maneira diferente.

Cena de documentário produzido pela BBC e pelo Discovery Channel.

Cena de documentário produzido pela BBC e pelo Discovery Channel.

Os fãs de batalhas estarão bem servidos em O Conquistador. Há daquelas cruentas e difíceis, e daquelas mais rápidas, mas não menos gloriosas. Não importa o caso, todas me fizeram virar as páginas freneticamente. O autor é mestre em alternar uma visão macro – que mostra os choques entre exércitos, chuvas de flechas e o chão a tremer com o galope de um milhar de cavalos – com flashes vívidos das sensações que os protagonistas experimentam – a dor de um ferimento, a tensão do músculo que dispara uma seta – e das lutas que travam.

E, ainda na temática bélica, remarco que Iggulden tem bom olho para detalhes curiosos. O leitor virá a conhecer a letalidade dos arcos compostos mongóis, sua organização militar, a utilidade da seda em combate e, sobretudo, que um arqueiro mongol costuma ter um braço – o braço que puxa a corda da arma – mais musculoso do que o outro. A cultura também não passará em branco e estará presente tanto em rituais de xamãs quanto em hábitos gastronômicos, como chás salgados e a iguaria que é uma marmota.

Quanto à escrita, admito que a de Iggulden não impressiona. Contudo, sua simplicidade deixa tudo mais acessível e permite uma leitura ágil, fluida. (A meu ver, o ritmo e a emoção se perdem um pouco no quarto livro da série, talvez porque nessa altura Gêngis já tenha virado lenda e não seja mais o motor por detrás das conquistas.)

Os diálogos são igualmente simples, sucintos, possivelmente no intuito de refletir a vida nas estepes: dura, árida, pragmática, sem espaço para reflexões demoradas. Entretanto, não raro nos deparamos com pérolas de subtexto vindas dos protagonistas, que, se a princípio dialogam calmamente, não tardam em debater, discutir, ameaçar-se reciprocamente – o que diverte bastante.

E, bem, você sabe que um livro o cativou se se mete a reler uma ou duas passagens prediletas, quando não tem nada melhor para fazer – ou quando a nostalgia bate, fácil assim. Decidi que não introduziria spoilers na resenha, portanto só digo que um desses meus trechos favoritos é justamente um diálogo, localizado no terceiro livro, na sequência da decisão mais importante (creio eu) que o general Tsubodai tem de tomar. (E com essa memória: manly tears, oh, fuck!)

Por fim, os que gostam de saber os fatos que inspiraram o romance também não se decepcionarão. Iggulden dedica as últimas páginas de cada livro a resumir o estado de sua pesquisa e a esclarecer o quanto de sua criatividade serviu para suprir lacunas nos dados históricos. Em O Lobo das Planícies, é muito interessante sua conclusão (um estudo de Ética, talvez?) sobre se o menino Temujin, o jovem Gêngis, foi ou não uma pessoa má, em razão de determinados atos que praticou. Vale a pena conferir.

Da sobrevivência à vingança, da vingança à expansão, e da expansão à construção da paz (sim, sempre podemos meditar sobre a legitimidade de uma paz que se obtém à força, mas enfim…), a nação mongol cresce, consolida sua própria história e deixa sua impressão na História do Mundo.

Eis as sinopses dos cinco livros, traduzidos e publicados no Brasil pela Editora Record:

1O Conquistador 1– O Lobo das Planícies

Temujin tinha apenas 11 anos quando seu pai foi morto. Filho do líder da tribo, o menino foi então abandonado, e começou a vagar pelas planícies. Em pouco tempo, Temujin dominava o arco-e-flecha, demonstrando grande habilidade com armas. Reunindo outros excluídos como ele, logo dominaria diversas tribos. A grande jornada apenas começava, um novo imperador estava nascendo: Gêngis Khan. O Lobo das Planícies é o primeiro volume da série O Conquistador, que recria a saga do imperador mongol Gêngis Khan e de seus descendentes.

2- O Conquistador 2Os Senhores do Arco

O grande Khan nasceu nas planícies da Ásia Central para unir as tribos mongóis divididas pela guerra. O maior dos guerreiros deseja criar uma nova nação nas planícies e montanhas da Mongólia. E contará com seus irmãos Kachiun e Khasar e seus valentes e disciplinados guerreiros para conquistar as ricas cidades do império Jin. Para atingir seus objetivos, ele precisa destruir o antigo inimigo, que manteve seu povo dividido, atacar suas fortalezas e cidades muradas e encontrar uma maneira de combatê-lo, enquanto lida com seus generais indomáveis, irmãos ambiciosos e os filhos crescendo.

3O Conquistador 3– Os Ossos das Colinas

Ele conquistou a liderança de seu povo. Até hoje é considerado o pai da nação. Estendeu o Império Mongol em direção à China, à Coreia e ao Iraque, dominando uma área duas vezes maior que a do Império Romano. Seu nome é Gêngis Khan, o supremo soberano. Ele uniu as tribos rivais e guiou legiões contra as grandes cidades dos seus inimigos. Agora encontra dificuldades ao oeste das planícies da Mongólia. Seus emissários são mutilados ou mortos; suas tentativas de negociação, repelidas. Assim, dividindo exércitos e nomeando generais seus filhos e homens de confiança, ele envia forças em várias direções. Sua estratégia – descobrir novos territórios, cobrar tributos dos povos conquistados e devastar as cidades que resistem – é uma forma de dispersar as rivalidades entre os filhos e ajudar a definir aquele que será o próximo cã.

4-O Conquistador 4 O Império da Prata

Após a morte do grande líder Gêngis Khan, seus herdeiros batalham entre si, por intrigas ou confrontos diretos, para decidir quem será seu sucessor. Seu filho Odegai é quem sai na frente nesta disputa, construindo uma nova capital para o Império Mongol. Em meio a isso, o habilidoso general Tsubodai, homem de confiança de Gêngis Khan e Odegai, marcha para a Europa cruzando a Rússia, disposto a invadir e conquistar a França Medieval. Com um exército desorganizado e sem um líder forte, parece que a queda do reino francês é inevitável. Porém Tsudobai, em seu momento de glória, terá que fazer escolhas mais difíceis do que esperava.

5- OO Conquistador 5 Conquistador

Este romance histórico primoroso narra o que acontece com a nação mongol depois da morte de um dos maiores conquistadores da humanidade: Gêngis Khan. Após o breve canato de Guyuk, seu primo Mongke se torna cã e inicia significantes reformas no império, a fim de expandi-lo. Porém, Kublai, seu irmão, desponta como mais do que apenas um intelectual ao se revelar um habilidoso estrategista e deve assumir seu papel na condução de seu povo. É o momento de Kublai provar seu valor, o que marca para sempre a trajetória mongol e conduz o jovem a um futuro impensado.

Partirei para o quinto e último livro em breve.

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