Além do Sol e da Lua – Capítulo 2

CAPÍTULO II- Não adianta chorar pelo leite derramado

Tiberia era pequena e fracamente populosa em comparação às capitais urbanas do Reino de Icintareo. Sua população oficial não beirava sequer duas centenas de habitantes. Mas todos os anos, sobretudo à época do Festival Escarlate, um milhar de elfos, homens e anões, provenientes dos mais diversos cantos de Vartäe, visitavam a cidade. A excelente qualidade da cerveja e das estalagens tiberienses era amplamente reconhecida, o que contribuía para alimentar o turismo, além do próspero comércio local.

As comemorações tinham seu auge na noite do solstício em que, havia sete anos, a Lua desaparecera, e alongavam-se no mínimo por mais quatro dias, a exata duração da Primeira Chacina, e no máximo pelo tanto necessário para se atingir o Argendëi[1] da decana corrente. Nesse período mandavam decorar as ruas de Tiberia no Haureanöx, o pôr do Sol, com lamparinas de chama rubra penduradas à altura dos telhados das casas por fitas também vermelhas. Havia muita música e muitos jogos e muita dança e muita festa. Lançavam fogos de artifício e a Praça Central transbordava gente, assim como as tavernas, mas estas eram um caso à parte, porque os bêbedos e bufões ali reunidos não nutriam o menor interesse por explosões de cor no céu.

A estrutura de Tiberia fora planejada – e isso por si só já diria o suficiente a seu respeito. Seth estudara geografia e história, mas não tinha notícia de outra cidade planejada. Não no Ocidente. Nenhuma além de Tiberia. Pois a construíram para garantir o conforto e a segurança dos habitantes e, especialmente, dos não habitantes. Uma muralha de intimidar envolvia a cidade: duas paredes de estacas de madeira na vertical – como dentes monstruosos em alinho – perfaziam circunferências concêntricas, guardando uma distância de dois metros entre si, onde haviam despejado barro, areia, argamassa e pequenos pedregulhos, tudo misturado. A aparência da fortificação era tosca, mas era inegável sua compacidade. Portões em arco – um a leste, outro a oeste e um terceiro ao sul – consistiam nas únicas vias de acesso à urbe. Encravada no extremo norte da muralha, uma torre sempre ocupada por quatro olhos atentos vigiava os planaltos nortenhos, domínios de bárbaros.

O menino marchava terreno abaixo, lento, vacilante, nauseado. A fadiga, as escoriações, o mormaço retido pelo negror de sua vestimenta, todos eram adversários ferrenhos numa batalha que o semielfo não via meios de vencer. Tentava apenas resistir à derrota, mas já estava bem abatido. Cambaleava debilmente, por mais que tomasse cuidado para não pisar em falso. Pesavam-lhe os sapatos quando erguidos, como se feitos de chumbo, e ao chão aterrissavam que nem duas bigornas. Despendia vigor para pifiamente não tombar, pois adivinhava que, ocorresse o pior, ficaria esparramado o resto do dia, sem força para levantar-se.

Era mais do que esquisito esse quadro sintomático. Seth nunca se sentira assim tão grogue, e sem a mais vaga ideia do porquê. Não estava doente. E em outras ocasiões rumara para Tiberia sob a chuva ou em meio à neve, ou ainda enfrentando muito mais do que intempéries da natureza. “Algo está errado”, pensou enquanto sua visão turvava-se. Depressa se lhe esvaía o foco da entrada da cidade, enquanto a rua principal, apinhada de gente, já não passava de mero borrão colorido. Logo, literalmente num piscar de olhos, o garoto não conseguia enxergar mais nada.

Pôs-se tão desesperado que um grito possante, três vezes emitido por um vozeirão vindo de trás dele, penetrou-lhe os ouvidos como um chiado fraco, longínquo, e uma só vez:

– Saia da frente, moleque!

Mas Seth não cumpriu o aviso. Afinal, como ele saberia para onde ir sem poder ver?! Onde era a “frente” que devia abandonar? Não era mais capaz de avançar nem de recuar, ainda menos de esquivar-se para o lado correto. Tateou o vento na esperança de tocar algo que lhe desse uma ínfima noção de qual direção adotar. No momento em que percebeu a inutilidade desse método, alguma coisa empurrou suas pernas e ele desabou sentado. Comprimiu as pestanas em réplica à dor do tombo. Escutou o ladrar do cão, o calcar de patas de cavalos, o ruído de rodas amassando o capim e, por fim, a mesma voz anterior dizendo:

– Quer morrer, é?!

Seth abriu os olhos e, para sua felicidade, constatou que recuperara a visão. Na verdade agora se avaliava perfeitamente bem, malgrado o suor e o pó da estrada que o empestavam. Tornou o rosto para Tiberia e vislumbrou uma antiquada carroça, entupida de carga, sacolejando até o portão. Era evidente: durante a cegueira temporária, o semielfo fora quase atropelado por um condutor desvairado e completamente desprovido de bom senso, porque mesmo numa descida recusara-se a reduzir a velocidade dos cavalos; Lao lograra tirar o dono da reta a tempo, salvando-lhe a vida pela segunda vez.

O garoto levantou-se, agradeceu ao amigo e praguejou baixinho contra o carroceiro. Enxugou a testa úmida – e aí reparou na capa toda rasgada. “Culpa dos espinhos.” Os dedos resvalaram pelo capuz e apuraram o estrago irreparável: não foram poucos os pontos em que experimentaram, em vez da textura do tecido, a das mechas do cabelo cinzento, e também a orelha esquerda sobressaía. Ele estava exposto, exposto demais, e a míseros passos de um núcleo povoado. A euforia que o contagiava transmutou-se instantaneamente em receio.

Irônico. Após escapar dos ginetes em escarlate desejara ardentemente alcançar a urbe, como se esta lhe fosse trazer a salvação. Mas a realidade ressurgia inabalada das cinzas do otimismo. Seth era semielfo: sempre teria a sombra perseguida pelo repúdio e para sempre estaria agrilhoado ao preconceito. Tiberia jamais lhe representaria um porto seguro. “Ainda assim, prefiro seguir adiante a retornar e correr o risco de reencontrar os cavaleiros”, ponderou. “Se me misturar com a multidão, ninguém se dará conta de que sou semielfo. Sei que não. Já fiz isso antes.”

E foi o que fez de novo. Cruzou o magnífico (para ele, macabro) arco da entrada, gravado de luas vermelhas em todas as fases, talhadas e pintadas na madeira do próprio portal. Esgueirou-se por detrás da carroça que quase o esmagara e que então descarregava as mercadorias para um bar ali perto. Agarrou o capuz, ajeitando-o de modo a camuflar os caracteres élficos, e mergulhou no mar de pessoas.

“Pronto.” Doravante ele seria apenas mais um em meio àquele povaréu de anônimos, indiferentes o bastante para ignorarem um mero garoto encapuzado e andrajoso. Havia muito a cidade deixara de abrigar uma comunidade tradicional, com seus laços fundados, se não na consanguinidade, decerto no parentesco, inaugurado por casamentos arranjados e relações de afinidade não menos sólidas. Outrora todos os residentes se conheciam e cultivavam a solidariedade uns para com os outros. Porém logo o progresso viera. Tiberia ascendera ao patamar de centro comercial e turístico continental. Ganhara neutralidade tácita. Mais civilizada do que um acampamento junto a um marco miliário, mais estável do que uma feira farta, transformara-se em entreposto obrigatório para qualquer negociante andarilho, artista mambembe ou guerreiro peregrino que pretendesse enriquecer, arranjar patrocínio ou cunhar reputação. E todos os migrantes partilhavam a seguinte característica: eram egocêntricos. O individualismo limitava a preocupação de todos a seus mundinhos.

E isso convinha perfeitamente a Seth. Ele não poderia estar mais satisfeito consigo mesmo: seu plano funcionara, o que raramente acontecia. “Só espero que o condutor maluco não tenha notado nada”, resmungou num tom surdo. “Bem, ninguém conseguiria ver detalhes miúdos àquela velocidade. E não creio que ele estivesse se importando comigo. Mas eu ficaria mais tranquilo se sua maldita carroça tivesse se chocado contra a muralha!”

Andava com rigorosa prudência, esquivando-se ao antever colisões. E com tanta frequência era obrigado a desviar-se que não completava sequer três passos em linha reta. Temia que um encontrão levasse alguém a encará-lo e consequentemente descobrir sua identidade sob a capa. Contudo por duas vezes viu-se incapaz de evitar. Trombou de frente com uma dama de maquiagem exuberante e em seguida com um senhor élfico de traje formal e bengala. Em ambos os casos não retribuíram ao polido “Desculpe-me” de Seth, o que ratificava o nível de indiferença ao qual o relegavam – ainda bem.

Embora estivessem desertas as ruelas escuras e os becos lodosos que desembocavam na larga Avenida Leste-Oeste, chamada Avenida do Sol Nascente, não seria nenhum espanto se esta última registrasse a assombrosa densidade de seis indivíduos por metro quadrado: dois casais com os respectivos filhos no colo; ou dois anões barrigudos carregando seus machados e ferramentas, e mais quatro elfas bisbilhoteiras num terraço acima de um bordel, espiando o movimento da rua. Sim, tanta era a gente que ali perambulava a espremer-se, que nem de longe a palavra caos faria jus ao panorama.

Também não era para menos. Nas fachadas da Avenida enfileiravam-se tavernas e hospedarias aos montes, encostadas umas às outras, sem qualquer brecha, salvo as esguias rotas adjacentes e laterais. Além do mais, o renomado Festival Escarlate começaria naquela noite. E havia mais: a tal via constituía o menor caminho para se chegar do portão leste à Praça Central.

Nesta se concentravam os festejos e a atividade comercial. Pregoeiros e tendas e bazares e armazéns ali se amontoavam, junto de turbas compostas por guardas vaidosos da armadura que portavam; por menestréis que cantavam e musicavam para todos e para ninguém, adicionando ao burburinho urbano um contraponto mais doce; por vagabundos esmolando e maldizendo a boa sorte alheia; por gatunos de olhos e dedos experientes, prontos para afanar anéis e cordões que denunciavam a desmedida ostentação de seus donos; e por mascates esfomeados de barganha mesmo se o cliente milagrosamente acatasse a primeira oferta. Ali a vida era colorida, e a agitação só cessava nas mais obscuras horas noturnas – à exceção das madrugadas do Festival.

No entanto Seth não se dirigia à Praça. Mais ou menos na metade da Avenida o garoto virou à direita, entrando numa viela não tão vazia quanto as demais. A um canto jaziam dois anões. Um, mais robusto, estava sentado sobre um caixote – pequeno o suficiente para permitir-lhe tocar o solo com as botas –, vestia um casaco de pele de lobo, era um pouco calvo e ruivo de barba. O outro, de pé, apertava o ombro do companheiro, como se apreensivo, e sua barba grisalha e o gorro azul-marinho que lhe resguardava a careca demonstravam quão velho ele era. “Quantos anos deve ter um anão idoso?”, indagou-se Seth. A atenção dos nanicos voltava-se para um barril diante deles, que parecia servir de mesa. O anão ruivo tirou do bolso três pedrinhas amarelas. “Pepitas de ouro”, deduziu o menino.

Da escuridão emergiu um silvo como o de alguém a farejar, e depois uma ávida risada de escárnio sucedeu-se.

– Tem certeza de que irá apostá-las, meu querido azarado? – sussurrou a voz irreverente, indivisável pela flama de uma vela já quase que derretida por inteira.

– Sim – respondeu o anão, relutante.

– Muito bem. Mas previno os senhores de que não lhes restituirei os bens perdidos. Role os dados.

– Não! Não se atreva, Agzárom! – sacudiu-o o anão ancião, implorando. – São nossas últimas riquezas!

– Controle-se, Éldricar! Não perderei de novo. Não, definitivamente. Mas – refletiu enquanto alisava a barba –, assim aconteça por acaso ou pelo Destino, haverei de jurar pelo Pai Escuro, pela lava e por meu machado que nunca mais em minha vida farei apostas.

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[1] Significa “dia da prata”, “dia da Lua” ou “dia do deus Argënttion”. Em virtude de sua importância, havia dois Argendëis hebdomadários, correspondentes ao primeiro e penúltimo dias de uma “semana de dez dias” – uma decana.

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2 respostas em “Além do Sol e da Lua – Capítulo 2

  1. Pergunta de leitor: O que é o festival escarlate? Interessante o personagem Seth, inteligente, estudava história e geografia. Eu gosto de estudar mais matemática, mas aprecio a história, principalmente quando se trata de alguma história em que os livros não nos contam. Rsrrsrsr….

    Achei o cenário bem trabalhado. E esta parte está bem menor do que a primeira, deu pra ler tudo numa boa, sem precisar marcar na agenda onde parei. Mas, em todo o caso, ficou muito bom, sabe, eu tenho mesmo o costume de marcar onde eu paro, ta cheio de livro ai na internet que eu marco as partes e prossigo lendo noutro dia.

    Fico preocupado com os planaltos nortenhos que provavelmente serão motivos de guerra no futuro. Assim penso eu. Assim presumo eu, rsrs… Agora, interessante, você está se formando em direito, correto? Portando, é o leitor perfeito para ler mesmo o Homem da mala preta, que vai ter muita coisa de direito.

    Gostei do nome da avenida: Avenida do Sol-Nascente! E, claro, o que não dizer sobre a personalidade dos cidadãos dessa cidade. Pelo visto, eles são bem egocêntricos. Coitado do Seth na hora da carroça que quase o atropelou. Só mais uma pergunta de leitor: O que é o Pai Escuro? Oo, Seria mais ou menos como a Consciência Cósmica ou Grande Pai dos Sete enigmas da Esfinge? Tipo, o Ser Supremo da história? Seria mais ou menos isso, não? Muito boa a continuação, seguirei lendo o capitulo três. Parabéns!

    E, claro, fiz questão de dar um Tuite para que mais pessoas possam conhecer esta obra de literatura. Abraços! 🙂

    • Falarei um pouco do Festival Escarlate no capítulo VII, ainda não publicado. Na prática, é só uma comemoração macabra (para os semielfos) e divertida (para os demais) ligada à Noite do Luar Escarlate, em que, sete anos atrás, O Absoluto se revelou ao mundo e deu início à chacina contra os semielfos.

      Sim, Seth é o cara da história. Mais tarde se verá que Berek, entretanto, é quem se qualifica como conhecedor da geografia. Não encontrei muito espaço para a matemática na história por causa do tema, mas haverá, volta e meia, alguns puzzles de lógica. 😉

      Por ora não sei como vou usar os bárbaros do norte. Na verdade, planejo que a história irá para o sul antes de ir para o norte, mas, sei lá, vai que surja uma brecha para outro caminho.

      Pode deixar, lerei O Homem da Mala Preta. Prometo. Vou ajudar como puder, mas a verdade é que não tenho paixão por Direito. Gosto mais de Relações Internacionais. Anyway, tentarei ajudar. 🙂

      O Pai Escuro não se destaca entre os demais deuses do panteão, como Häurea e Argënttion. É apenas mais um na mitologia. Mas note que ele e os anões são descritos por Seth, que assim ouviu do Mestre. Já que Mestre Paetros não é anão, tudo o que ele explicou ao discípulo não passou de sua impressão sobre um povo que ele mal conhecia. Ou seja, suas palavras contam apenas uma versão do que são os anões – contam uma versão tendenciosa e imprecisa. Depois, ao longo da história, muito será corrigido ou esclarecido ou descoberto.

      Obrigado pela comentário! Me ajudou a sistematizar no papel (nesta resposta) muita coisa que ainda estava nebulosa em minha mente. Lerei e comentarei lá no ONE!

      Abraços!

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