Criatividade na Literatura Fantástica: revoluções ou remakes?

Houve um tempo em que comecei a pensar que, nos dias que correm, não mais existiria originalidade na Literatura Fantástica. Cismava que todas as grandes histórias já tinham sido escritas e que qualquer nova história poderia ter suas origens traçadas até outras mais antigas. Sustentava que o leitor sempre seria capaz de associar o que leu a referências que lhe fossem mais familiares. Sensação de mesmice de mesmices.

Bem, eis o ponto. Refletindo melhor a respeito, cheguei à conclusão de que talvez essa aparente falta de originalidade fosse exatamente isto: mera aparência.

É verdade que, conscientemente ou não, cada autor recebe influências do acervo literário que leu antes de enveredar (ou enquanto envereda) pelo caminho da escrita. Mas também é verdade que essas influências são sutis e tendem a passar despercebidas por quem escreve.

É como quando alargamos nosso vocabulário: raramente lembramos onde aprendemos determinada palavra nova, nem temos certeza se procuramos seu significado no dicionário, mas acaba que a incorporamos no léxico que conhecemos.

Os autores releem uns aos outros, se reinterpretam, se reinventam – e, quando o fazem, normalmente não se engajam num processo intencional. Aliás: não é impossível que dois escritores sem nenhuma conexão entre si – e que, portanto, desconheçam a existência um do outro – tenham ideias praticamente idênticas. Contanto que não redunde em plágio e que agrade tanto a quem escreve quanto a quem lê, está valendo.

Um exemplo disso é o próprio estudo dos arquétipos literários, como faz Joseph Campbell em O Herói das Mil Faces, ao discernir elementos comuns em mitos e histórias épicas ou de aventura elaboradas por sociedades diversas e em épocas as mais divergentes possíveis. A Jornada do Herói, com seus estágios e personagens arquetípicos, embora já repetida e explorada à exaustão, nunca fica velha realmente.

A suposta falta de originalidade residiria não na criatividade limitada do autor, pois (a meu ver) até o mais derivativo deles conseguiria ser original num ou noutro detalhe da trama. Vide Christopher Paolini, cujo Ciclo da Herança foi criticado por suas similaridades com obras já canonizadas, como Star Wars e O Senhor dos Anéis. Ora, por mais válidas que sejam essas críticas, seria injusto fechar os olhos para as particularidades que tornam únicos os livros de Paolini – entre elas, os traços que compõem o universo de Alagaësia e o estilo do autor.

De fato, estilo é algo que distingue com sucesso os vários escritores de fantasia, a despeito das semelhanças de conteúdo que apresentem. O autor veterano tem seu próprio estilo – que em suas minúcias é irreplicável por qualquer outro autor. Se colocássemos Tolkien, George Martin, Patrick Rothfuss e Stephen King para descrever a mesma cena, a experiência nos renderia textos inevitavelmente diferentes. Um tenderia a se focar nos detalhes do cenário, enquanto outro seria mais intimista e desenvolveria o fluxo de pensamento dos personagens, e ainda outro se serviria de muitas metáforas, etc. etc. etc..

O que encontramos na Literatura Fantástica é o que encontramos em toda a literatura: intertextualidade. É a noção de que nenhum texto existe solitariamente; pelo contrário, “todo texto é a absorção e a transformação de outro”, para citar Julia Kristeva.

Mas na Literatura Fantástica há maior liberdade para revermos convenções e paradigmas. De certo modo, o gênero demanda que o façamos. Fantasyland is a free (and wild) country after all.

O gosto de remake ainda persiste, mas nas artes a revolução pode acontecer pela simples ousadia de contestar o antigo e sonhar com o novo.

No terreno da fantasia, nem sequer o bom senso deve nos impedir de quebrar tabus e destruir fronteiras. Bem, talvez um mínimo de bom senso. 😉

 

ALGUMAS DICAS: da Literatura Fantástica que já li até hoje, sempre conseguem me surpreender o Neil Gaiman e o China Miéville. No âmbito nacional, vale conferir a Coleção Paradigmas, da Tarja Editorial.

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