CONTO: O que a terra levou

O que a terra levou 1

(NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS)

< GÊNERO: TERROR/HORROR >

Oto é um sobrevivente. A peste se abateu sobre o vilarejo onde habitou desde sempre, trazendo consigo a morte para uns e uma sobrevida para outros. Ninguém se salvou do ar envenenado ou da voracidade infecciosa das Criaturas que hoje dominam Vilarrocha. Exceto Oto. Apesar de debilitado em razão do cansaço e da fome, o rapaz parece imune aos efeitos mais horrendos da praga. E, em meio ao apocalipse local, algo incita sua esperança. Alguém, na verdade: sua amada Helena, vitimada pela doença. Mas Oto se crê capaz de devolver-lhe a vida e, assim, aplacar a saudade. Munido de conhecimentos de necromancia, ele parte em busca dos meios para ressuscitá-la. Só que a obscura arte dos necromantes exige sacrifícios tremendos do corpo e do espírito, e não há provas de sua eficácia. E será a mera força de vontade o bastante para que Oto quebre o maior dos tabus e enfim se reencontre com Helena?

Oto trincava os dentes enquanto as ratazanas pretas roíam-lhe as unhas dos pés. Faziam-lhe cócegas. “Malditas Criaturas.” Por um instante se arrependeu de ter desovado suas botas num lixão, mas elas já pouco lhe serviam, esburacadas que estavam e com as solas pela metade, e afinal não teriam durado por muito mais tempo. Os animais infames as tinham mordiscado a cada vez em que ele tinha se atrevido a deixar a casa. Provavelmente mal restava couro na vizinhança ou mesmo no raio de uma vintena de quilômetros. Nem sequer calçados. As Criaturas consumiam tudo com sua voracidade desvairada.

Mas Oto não podia mais se esconder, agora que o luto tinha passado, assim como toda gente e todas as coisas passam. “Menos a peste”, refletiu. Eis a única regra daquele novo mundo caótico: a peste não passava, devia ser permanente. Eterna. Imortal. E ele agora precisava expor-se a ela, se quisesse reencontrar sua doce e querida Helena. Sentiu uma alfinetada nos dedos: as Criaturas ansiavam por sua carne e sangue. Sempre abusadas, sempre famintas. No rapaz, não provocavam dor nem angústia. Só mais cócegas.

Oto se empertigou e, ainda sentado de pernas cruzadas no chão, tentou flexionar os pés, chegando até a ensaiar um chute desengonçado, a fim de espantar seus predadores. Não deu resultado, nenhum deles se afastou. Tinham ficado mais audazes e impacientes desde que tinham adquirido o domínio sobre a vida e a morte em Vilarrocha. Oto suspirou, enfastiado. O jeito era tolerar as Criaturas, ou ao menos ignorá-las. Talvez elas enfim se empanturrassem com seus mindinhos e fossem embora satisfeitas, e ele por seu turno não sofreria grande perda: já andava de cajado mesmo, para resistir aos cambaleios da fadiga. (O cajado era de metal, e os animais não comiam metal.)

Tornou a concentrar-se em sua leitura. “Pelo bem de Helena e por minha sanidade.” O perfume de cera derretida embriagava a alcova, mas não conseguia exorcizar os fedores mais pungentes: urina e fezes das Criaturas (também de homens e mulheres em suas horas derradeiras), sem mencionar o constante ar putrefato, que rastejava por entre qualquer fresta. Todavia a penumbra mortiça das velas bastava para denunciar as paredes salpicadas de tinta escura e veludo carmesim, ambos já desgastados; outrora tinham conferido sobriedade à biblioteca da Abadia dos Santos Esquecidos, mas agora lembravam sua decadência. Tudo era ruína e vazio ali dentro, um fiel microcosmo do mundo lá fora. Oto certamente estava sozinho naquele antro de fantasmas e umidade, comungando com as Criaturas. A certa altura abaixo de si repousavam as catacumbas.

Sentiu um arrepio apesar do recinto abafado. A luz fria roçava nas páginas encardidas do livro que o rapaz folheava; e nelas: a caligrafia rebuscada inconfundível de um escriba membro do sacerdócio, intercalada por figuras horrendas de cadáveres reféns dos mais diversos tipos de assassínio, moléstia ou causas naturais. Era um tomo de necromancia. Oto não se impressionava: as imagens, algumas caricaturais ou rascunhos a carvão, simplesmente não faziam jus à mortandade nauseante em Vilarrocha. Além do mais, ele seguia um propósito: Helena aquecia-lhe a esperança em meio ao desespero imperante na realidade; e ao lado desse calor reconfortante: uma obstinação febril.

O Padre Leonardo tinha lhe dito com sua irritante serenidade: “Minha criança, o que foi levado pela terra não retorna”. Oto não era criança nenhuma (sabia disso), e com ou sem fé o religioso tinha falecido, vítima da peste. O rapaz interpretou o fato como sinônimo de que o Padre estava enganado; ou era isso, ou nada – nada mais do que outra morte seca, privada de sentido, jamais pranteada. Oto leu até seus olhos arderem. Se existisse uma chance, a mais ínfima, ele haveria de recuperar Helena. Somente ao fechar o livro reparou que as Criaturas tinham sumido. Avaliou com desinteresse o estrago: um rombo no dedão do pé direito e o mindinho do esquerdo faltante. Imaginou que poderia ter se precavido se tivesse escolhido um lugar elevado para sua leitura. Talvez se tivesse escalado uma estante… Não vinha raciocinando com clareza ultimamente.

Apoiou-se no cajado para levantar-se (e só sua obsessão, disfarçada de coragem, o impediu de desabar) e carregou o tomo consigo. Era uma espécie de milagre que tanto pergaminho tivesse sobrevivido, se é que ainda se podia falar em milagres. “Não. Não foi milagre, e sim a previdência dos sacerdotes.” Porque a biblioteca era impenetrável, talvez tivesse sido arquitetada com esse objetivo. Conquanto forrados de tinta, veludo e madeira, por baixo seus muros eram de pedra, sem janelas, e seu piso era de cerâmica, e não de terra batida. As Criaturas nunca lograram (nem lograriam) abrir caminho a garras e dentes; três ou quatro apenas tinham se esgueirado recinto adentro no breve lapso em que Oto tinha entreaberto a porta de ferro rangente, com a chave recolhida das vestes de um padre moribundo.

Arrastou-se para fora da Abadia. Estava de volta sob aquele céu imutável, de um cinza envenenado, e à paisagem descarnada, de areia alcalina e árvores raquíticas. Fazia meses que o sol não rompia aquelas nuvens artificiais, que tampouco se dissipavam em chuva. O bafo que o rapaz aspirava era tóxico e pesado, e suas pernas suavam à medida que avançavam em passadas curtas e inseguras. As Criaturas o rodeavam, mas em geral mantinham distância e raras ousavam morder-lhe os calcanhares e tornozelos. Oto lhes atribuía uma inteligência rudimentar, do contrário não haveria motivo para a indiferença delas. Deviam saber da maldição que ele portava, deviam ter aprendido que ele era imune à peste.

Encarnar o último personagem saudável (ou algo próximo disso) de um juízo final torturantemente longo: que honra o destino lhe tinha reservado! Mas ele tinha suportado a miséria até então, e tudo estava prestes a mudar. Com o livro, ele agora possuía o conhecimento, a técnica. Porém a necromancia exigia um sacrifício medonho do corpo e do espírito, e a Oto cabia arranjar uma maneira de contornar esse pequenino detalhe. Já tinha uma ideia do que fazer: precisava ver certo homem, e negociar certa substância a que não tinham se preocupado em dar nome. Era somente a Substância, e era o bastante. Tão logo munido dela, quebraria o tabu. Seu segundo tabu.

Gostava de pensar que o primeiro tabu concernia ao amor, mas não tardava para que uma voz interior, velhaca e desiludida, o ridicularizasse: o amor era tema para filósofos e poetas, e em Vilarrocha não vivia mais ninguém que desperdiçasse tempo filosofando ou poetando. Daí Oto insistia argumentando que, se de amor não se tratava, era algo mais intenso que uma fagulha de prazer e mais duradouro que a paixão, algo que o povo daquela cidadezinha tinha abandonado. Pois, no início, quando ainda havia quem se rendesse ao sono a despeito das Criaturas rondando à noite com guinchos lamuriosos, elas aproveitavam para subir às camas dos desavisados e enfiar-se sob seus lençóis e por entre suas roupas, mutilando-lhes as faces, os ventres e os genitais. De então em diante poucos dormiam de verdade (só cochilavam, e se revezando), e as mulheres passaram a acusar os maridos de perder a virilidade, os membros impotentes, e os homens revidavam, alardeando que não trepariam com esposas de úteros contaminados. E os laços se esfacelaram, e a esterilidade do solo invadiu as pessoas.

Mas não Oto.

Ele tinha encontrado em Helena alguém com quem compartilhar cada segundo restante: alguém que lhe permitia esquecer que restava tempo (tantos dias, tantas horas) e que o tempo passava. Cada orgasmo mútuo proporcionava a ambos uma paz e amnésia abençoadas: panaceia contra a apatia generalizada. Bem podia ter sido para sempre! Mas à época o rapaz sabia que a união havia de terminar, porque tudo menos a peste terminava. Perduraria enquanto perdurasse. Enquanto eles perdurassem, tinha remarcado Helena com um risinho infantil. À época ele sabia, tinha rido em retorno. Agora não mais. Por que tinha acabado? Oto marchava encurvado, aos tropeços, e ânsia de vômito assomou-lhe à garganta ao se recordar dela. Ah, como se sentia solitário! Mordeu o lábio para afugentar a fraqueza. Tinham quebrado um tabu antes, tinham se unido quando as gentes não mais acreditavam nessa bobagem: por que Oto não podia quebrar um segundo tabu?

Adiante se abria a viela que buscava, espremida entre duas fileiras de barracos, como uma fenda rasgada na pedra; e à boca da passagem: as sentinelas, com mil pares de olhos opacos e asas negras. Imóveis como estátuas, grasnando baixinho como se respeitassem o decoro num velório, os corvos se concentravam ali, talvez porque na viela-fenda não enfrentassem a concorrência das Criaturas, que evitavam o lugar. Oto desbravou a passagem sem temor: ainda não era carniça, de modo que as aves não se interessaram por ele.

Não sabia precisar exatamente quando os bandos tinham chegado; só se lembrava de ter despertado certa manhã nublada como todas as demais, e lá estava a cortina de penas espraiada por Vilarrocha, com as silhuetas se aprumando ao longo dos varais, nas janelas da Abadia, no parapeito dos telhados. E por um momento ele e Helena tinham se alegrado, crendo que aquele exército de anjos esquálidos tinha vindo exterminar a peste; mas não: os corvos apenas estavam com fome também. Consigo traziam uma nova mortalha. Logo tinha ficado claro que vigia um acordo de cavalheiros entre os pássaros e as Criaturas: elas, pioneiras na matança, assenhoreavam-se com direito do maior e melhor pedaço do butim; eles, retardatários, espiavam e esperavam e esperavam e se contentavam com as sobras – e com sorte reclamavam para si a gelatina das órbitas injetadas de suas vítimas.

Na viela-fenda, contudo, o banquete era exclusivamente dos corvos, pois a viela-fenda era o lar do Dr. Ilusão, o homem que Oto vinha ver. Logicamente ele não se chamava Ilusão, mas os nomes não tinham mais importância – e ademais o título combinava com seu jeito excêntrico. Tampouco era médico: no máximo, outrora tinha sido químico ou enfermeiro – mas isso importava ainda menos. O que importava era o resultado brilhante de sua pesquisa: a partir do sangue infectado das Criaturas, ele tinha conseguido fabricar um alucinógeno potente – um bálsamo, conforme uns. A Substância.

E desde então muitos o procuravam, a fim de desfrutar de algumas horas daquela paz artificial. O doutor cobrava caro desses: comida, bebida, sexo, proteção ou matéria-prima para seu trabalho. Mesmo assim havia quem alcançasse a proeza de se chapar ao limite de desmaiar e nunca mais acordar. Já aos que se arrastavam até ali sentindo a morte se aproximar e não querendo deixar os corpos para as Criaturas, o Dr. Ilusão dava alento gratuito, e em seus minutos finais eles viajavam em cores, luzes e música. Estes e aqueles serviam de alimento para os corvos. E, Oto constatou, agora o próprio doutor também servia.

O que a terra levou 2

Dr. Ilusão estava recostado contra a barricada improvisada na frente de seu laboratório. Pálido e fedendo a éter e a pestilência, estampava no rosto as pestanas cerradas e um esgar de asco que semelhava curiosamente um sorriso. O rapaz lhe sorriu de volta: com ele morto não teria de lidar com barganhas inconvenientes. Mas achava – ou uma parte ainda escrupulosa de si achava – que não devia ignorá-lo ali, jogado, à mercê das aves carniceiras. Carregou-o para dentro do laboratório. Pegou o que necessitava: seringas e frascos com a Substância, bisturi, estilete, colher e uma lâmpada-acendedora, que produzia fogo. Depois empilhou mais barris e caixas junto à porta do local de trabalho do doutor. Assentiu satisfeito: o túmulo estava fechado. E rumou para o cemitério, para escancarar outra sepultura.

Atravessou ruas familiares, as mesmas que tinha atravessado meses antes, quando teimava em depositar flores sobre a cova de Helena. As flores estavam mortas, ressequidas como a flora daninha das redondezas, mas, afinal, o que contava era a intenção – e a intenção devia bastar. Com o tempo tinha parado de visitar sua amada, por causa da angústia, do medo, do cansaço. E porque a mulher inerte e de pele desbotada sob a terra nada mais era do que uma imitação fajuta de Helena, que sempre tinha esbanjado vivacidade. Agora Oto caminhava para uma última visita, a que traria sua arduamente planejada reconciliação.

Cuspiu para expurgar os maus agouros. As Criaturas na estrada lhe eram familiares também, e ele, a elas. Nenhuma o incomodou, nenhuma se desgarrou dos montículos em que disputavam a carne dos últimos tombados. Oto raciocinou que, se aquela gente tinha desfalecido justo no extremo oeste da cidade – recanto desolado, sem casas à vista, sem abrigo contra os predadores senão um ou dois troncos retorcidos, inatingíveis para mãos e pés debilitados –, então deviam estar no curso de uma procissão desiludida para o cemitério quando o sopro fatal tinha irrompido de suas traqueias ranhosas e por entre seus lábios rachados. Havia algo de remotamente digno em morrer no cemitério. Soava civilizado resgatar antigos valores e ritos que tinham caído em desuso quando, um dia, as entranhas do solo tinham superlotado em função do número exorbitante de cadáveres. Não obstante, muitos enfermos ainda buscavam consolo em seus antepassados e, às portas do sono eterno, se arriscavam para conquistar uma vaga no leito deles; embora fosse péssimo o cheiro, parecia correto agir assim. O rapaz, todavia, não estava indo render-se à peste.

Chegou à ponte de alvenaria que demarcava a fronteira ocidental de Vilarrocha. Ponte das Almas: um nome já bastante apropriado à época em que ela encerrava a única via de acesso ao cemitério. Hoje era ainda mais apropriado. Atrás de Oto, na estrada, o chão se remexia, infestado das Criaturas que se refestelavam com os que tinham sucumbido na travessia. Abaixo de si, no rio, o rapaz captava relances de corpos inchados boiando na água poluída. A maioria tinha sido despachada ali para que fosse tragada pela correnteza, quando a população mortuária era limitada, mas já extensa demais para ser absorvida por túmulos e covas. Alguns tinham se atirado voluntariamente ao afogamento, no afã de escapar das Criaturas. E isso tudo antes de o volume maciço de restos humanos amontoar-se num vau a jusante do rio e obstruir-lhe o fluxo. Daí o nível da água tinha subido, as margens tinham se desgastado, e a lama decorrente da erosão tinha gestado um pântano sob a ponte.

Anoitecia. O rapaz avistava as luzes fantasmagóricas com seu pisco inconstante pairando entre as névoas do brejo. As crianças – quando ainda viviam crianças e quando elas ainda dispunham de senso de aventura – desafiavam umas às outras a tacar pedrinhas no que consideravam aparições: as almas a que se referia a Ponte das Almas. Diziam que o melhor lugar para se mirar era uma borda do cemitério que se projetava sobre o rio pantanoso, bem atrás do mausoléu de uma família rica; e por uns meses o cemitério tinha se enchido de risos e gritaria pueril. Depois as Criaturas tinham se multiplicado e agora havia silêncio quase sempre – salvo durante os rompantes de loucura do coveiro Hector.

Oto enxergava a figura dele a distância, no fim da ponte, como um guardião cabriolante. Estava nu: a tez no amarelo da doença, encardida como couro, repleta de cicatrizes e feridas recém-abertas pelas Criaturas – ou por suas próprias unhas num surto de automutilação qualquer. A barba longa e desgrenhada, pegajosa, grudava-se-lhe no peito até os pelos pubianos. Comentavam que ele tinha pirado assim que seu trabalho tinha se tornado mais relevante que o das parteiras. Com tantos buracos a cavar e os caixões e mortalhas se avizinhando um após outro, Hector tinha começado a delirar, tinha passado a falar consigo mesmo, com as vozes dentro de sua cabeça, e aos fantasmas que ele jurava ver no brejo se somavam agora os que apareciam em meio às lápides. De nada tinha adiantado a intervenção do Dr. Ilusão, com suas drogas (que só tinham se prestado a agravar a insanidade do coveiro) e suas palavras (“Seus pretensos fantasmas são gases brilhosos, paspalho! Fogos-fátuos, expelidos a partir da decomposição de matéria orgânica, e toda gente sabe que nunca houve em Vilarrocha tanta matéria orgânica em decomposição quanto hoje”).

Oto torcia para que Hector não o importunasse em seu intento. Não queria ter de matá-lo, mas se fosse forçado a isso tampouco hesitaria. Acercou-se do coveiro sorrateiramente, para não sobressaltá-lo. O infeliz se entretinha balbuciando incoerências para o vento e mal reparou no rapaz que se esgueirava como uma sombra a seu lado. Oto prendia a respiração e conservava a mão boa dentro da bolsa em que levava os instrumentos e o livro; e entre os dedos: os contornos do cabo do estilete, se precisasse recorrer à violência para defender-se. E eis que, de repente, do nada, Hector uivou para as trevas, como se pressentisse a ameaça, como se pudesse ler a mente do outro, e o rapaz agarrou a arma e já ia cravá-la no pescoço de seu agressor maluco quando percebeu que ele não mais emitia só grunhidos ininteligíveis. Havia palavras em seus berros dissonantes. Frases. Profecias. Hector se metia a profetizar desgraças para ninguém em especial, ainda ignorante sobre a presença do recém-chegado no cemitério.

E o rapaz se afastou sem empecilho, a palma que segurava o estilete escorregadia de suor. Oto riu do susto. Riu das profecias. Elas falavam do futuro, mas Vilarrocha não tinha mais futuro; falavam de desgraças, mas em Vilarrocha elas já faziam parte da realidade presente. Retomou o fôlego e sacou a lâmpada-acendedora. Conhecia de cor o percurso até o túmulo de Helena, mas não devia expor-se ao risco de cometer enganos: se violasse o descanso de um morto qualquer, tinha certeza de que seria amaldiçoado – se é que já não o estava. Apenas Helena devia ser perturbada, ninguém mais, e para certificar-se ele verificaria o nome inscrito na lápide. Aproximou a luz da pedra:

Helena, de Oto e de si mesma.

Doce e querida companheira.

< 1813 – 1833 >

O coração do rapaz apertou. “De Oto e de si mesma” tinha sido ideia dele, uma maneira de distinguir sua Helena, tão forte e independente, tão senhora de si, num momento em que os sobrenomes tinham se perdido. Ao redor o escuro adensava: o céu era ébano imaculado, sem lua, sem estrelas. Oto se muniu de uma das pás do coveiro e cavou. Escancarou o caixão. E a contemplou. O rosto dela era cera, o cabelo definhava e poucos vermes desfilavam pela carne. Bom, bom – ou, pelo menos, não tão mau. A necromancia devolvia a essência da vida a um cadáver, mas não lhe restaurava o viço. Era recomendado aplicá-la somente em corpos ainda… frescos – e o de Helena estava.

Agora aos preparativos. Os necromantes definiam a vida como a antítese da não-vida. Viver se resumia em experimentar tudo que o mundo tinha a oferecer: era sentir com os sentidos – e algo mais. No livro de Oto, para simplificar a teoria chamavam esse “algo mais” de alma. E o princípio-guia da necromancia era o sacrifício: o necromante devia abdicar de todos seus sentidos em favor do renascido. Tudo simbólico, decerto: não se esperava que o necromante acabasse cego para o renascido recuperar a faculdade da visão. Mas se exigia que o sacrifício fosse custoso, para se demonstrar a seriedade do comprometimento. Na interpretação do rapaz, para que atingisse seu objetivo, cada ato de amputação devia ser deliberada e imensamente doloroso. E ao final restaria um último sacrifício: o do “algo mais”.

Oto carregou nos braços o cadáver de Helena até uma clareira no limiar do cemitério. Pousou-a sentada contra o tronco de uma árvore: desse jeito, Helena parecia estar só desacordada. A balbúrdia de Hector entoando suas predições continuava, mas agora longínqua. O rapaz ajuntou galhos secos no entorno de um segundo tronco e a seguir, tomando-o como centro, desenhou com a pá uma estrela de cinco pontas na terra fofa. Para terminar, ateou fogo à madeira com a lâmpada-acendedora. As chamas manteriam as Criaturas longe dali. Iniciou o primeiro sacrifício.

Paladar. Amarrou com firmeza um pedaço de trapo no antebraço, dificultando a circulação sanguínea. A veia azulada inflou na tez branca. Injetou a primeira seringa da Substância e aguardou uns minutos até o efeito se consumar. Não. Não era o suficiente: Oto tinha ficado grogue, mas ainda se sabia consciente demais. Mais uma seringa. Esperou… Pronto: agora achava que lograria aguentar. Pôs a língua boca afora, mordeu com vontade e espremeu-lhe a borda entre o indicador e polegar esquerdos. Estava bem presa. Empunhou o estilete na mão direita e começou a cortar. Tarefa minuciosa, desajeitada, repugnante, pois Oto salivava em excesso (a sede consistia numa das consequências da droga que tinha usado) e, à laceração preliminar, o sangue já tinha entrado a escorrer por entre seus dedos. Necessitou serrar o músculo milímetro por milímetro. Não sentiu nenhuma dor, apenas um leve formigamento. A anestesia tinha funcionado. Depositou a língua no solo, numa das pontas da estrela, enquanto o vermelho tingia-lhe os dentes e o beiço.

Audição. Fixou o estilete abaixo da orelha direita e repetiu o procedimento até decepá-la, rompendo cartilagem e ossículos. Mas não era o bastante. Os autores de seu tomo de necromancia afirmavam que a fonte da audição se escondia dentro do crânio. A orelha meramente facilitava a captação de sons. Oto vasculhou sua bolsa à procura do bisturi e com a mão trêmula o ergueu à entrada do canal auricular. Hesitou: aquele também seria um trabalho lento e delicado. Se o executasse rápido como extrair o curativo de um ferimento, podia acabar enterrando fundo demais a lâmina. Inspirou alguma coragem. “Por Helena.” Foi-se a terceira seringa, e o bisturi penetrou o ouvido até encontrar resistência, pressionar mais e, enfim, rasgar e rasgar. O rapaz colocou a orelha numa segunda ponta da estrela, a face impassível, com o lado direito gotejando mais sangue.

Olfato. Dispensável. Os necromantes desconheciam como operava esse sentido, logo Oto nada tinha a sacrificar. Deu de ombros. “Tudo bem.” Uma das pontas da estrela restaria vazia, mas a verdade era que privar Helena do olfato equivaleria a prestar-lhe um favor: assim ela não teria de encarar a podridão que empestava o ar. Ao tato, então. Limpou o estilete na camisa e o conduziu à base do indicador esquerdo. Era preciso um corte raso e contínuo em torno do dedo, mas… tudo girava. O equilíbrio do rapaz já tinha se abalado quando ele tinha jogado a bengala a um canto, uma vez que necessitava de ambas as mãos livres. E agora a tonteira tinha piorado. Talvez tivesse algo a ver com o ouvido estraçalhado, porque Oto sentia dormência naquela parte da cabeça, que semelhava flutuar. Tratou de não vomitar e aplicou a quarta seringa, agora para concentração. Sentou-se no chão: o mundo ainda rodava, mas menos do que antes. Completou a incisão ao longo do indicador. E se pôs a raspar a pele com o estilete. E a puxar, admirando a carne viva aflorar com atenção clínica. Concluído o esfolamento, ajeitou a pele em seu devido lugar na estrela, à medida que o dedo latejava amigavelmente, como se mordiscado por um filhote. (Não podia ter simplesmente decepado o indicador, pois teria sido muito fácil, e o sacrifício não era para ser fácil.)

Visão. Quinta seringa. Oto pegou a colher e a estendeu ao calor da fogueira, após gatinhar até ela. O livro sugeria que se adotasse metal quente no procedimento seguinte, a fim de se encobrir as sensações mais desagradáveis. O rapaz riu desdenhoso ao se lembrar da recomendação. “Não pode ficar pior do que já está.” Aproximou a colher do olho esquerdo, e a quentura bafejou-lhe nos cílios. As pestanas insistiam em se fechar. “Frescura.” Abriu-as com o médio e o polegar, como alguém prestes a pingar colírio, e cerrou o olho direito, de sorte que a pupila dilatada do esquerdo só enxergasse aço ardente. Enfiou-o com cuidado entre a pálpebra e o glóbulo, e foi como se todo seu sangue entrasse em ebulição instantânea, mas Oto não parou. Agora gemia de nervoso, não de dor, mas não parou. Cutucou até partir os nervos que conectavam o olho ao crânio e, quando eles arrebentaram, um estampido ecoou em sua mente delirante. E depois: escuridão. O rapaz descerrou o olho direito e postou o esquerdo na estrela.

Para o último sacrifício, Oto rastejou até Helena e a tomou nos braços, se pondo de pé aos cambaleios. Entorpecia, a vista turvava. Caminhou aos tropeços para perto da árvore em chamas. Suava, e o suor se misturava ao sangue. O último sacrifício se referia ao “algo mais”. À alma. Era o maior e o mais importante deles: simbolizaria o comprometimento derradeiro. Se desse certo, o necromante e a renascida viveriam: o tabu seria quebrado. “Por Helena.” Se não…

E por ela e com ela, Oto mergulhou no fogo.

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4 respostas em “CONTO: O que a terra levou

  1. Cara, notei que você tem um certo fetiche por cenários pós-apocalípticos. Misture isso à necromancia e tem um baita de um conto. As cenas finais me deixaram com as pernas bambas, e olha que eu estou acostumado hein? kkkk. Enfim, muito bom.

    • Pois é, acho que tenho mesmo essa preferência por cenários pós-apocalípticos, hahahahaha!
      Obrigado por ler e por comentar. Li esse conto para uns amigos, e a reação foi parecida: eles gostaram, mas acharam pesado. De todo modo, foi “divertido” escrever. XD

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