CONTO: E saltou para o azul

E saltou para o azul

 

E saltou para o azul, querendo voar.

Mas a princípio caiu, as paredes do estômago grudando-se uma na outra ante a visão das rochas pontiagudas à base do penhasco lá embaixo. O vento atravessava-o sem dó, estreitando-lhe os olhos até linhas finas. Fechou-os tentando recordar os conselhos do pai.

Os cílios bloquearam a luz do dia, contudo ele ainda podia enxergá-la, vermelha, quente. Infinita. Porque os raios do Sol não mais obedeciam aos limites de sua confortável prisão, não mais se restringiam ao contorno de sua grande janela. Sim, seu cárcere fora suave e arejado, atapetado e revestido de mármore, pois o tirano nunca pretendera maltratar o pássaro nem a seu pai. Buscara evitar que ambos fugissem e só. Precisava que estivessem bem dispostos, aptos a desempenhar seu ofício. Por isso os alojara além de uma porta chaveada, dentro de um cômodo largo e com vista para o céu e o mar. Chamavam gaiola àquela prisão elevada construída sobre o promontório.

Porém o cárcere não tinha grades – nenhuma além da própria altitude. E por um tempo o plano do monarca funcionara. E funcionaria enquanto o pássaro e seu pai não tivessem aprendido a voar. A angústia de, a cada alvorada, contemplar a liberdade e não poder conquistá-la era pior que a de restar trancafiado num calabouço. Mas esse lamento ficara para trás, junto com a prisão. Que agora o pássaro voava – ou tentava. Caía de olhos cerrados, a brisa marinha salgando-lhe o espírito. Ouvia o rumor das ondas, o palpitar do coração, a voz do pai enunciando as palavras guardadas na memória.

Não. A voz não provinha da lembrança. Era real. Acima de si, o pai chilreava alguma coisa. Gritava-lhe que captasse uma corrente de ar e que batesse as asas com vontade. O filho escutou e de súbito sentiu uma lufada banhando-lhe o corpo e agitando-lhe as penas. Com um vigoroso impulso, decolou para o alto. E mais alto. Mais alto. Emitiu um gorjeio de vitória e de êxtase. Não pararia agora que aprendera a técnica. Ganhava velocidade, a ponto de ultrapassar o pai. E piou de novo, inebriado. Pouco importava que seu velho não nutrisse interesse em apostar corrida. Nada importava, porque então o pássaro voava, sobrepujando as leis do mundo.

As nuvens de muitas formas e texturas incandesciam ao espectro róseo da aurora. E a aurora rebrilhava como mil topázios na superfície do mar. E o mar, lá longe no horizonte, fundia-se com o ouro do céu. E o céu parecia tão vasto, tão imenso, tão magnífico que amedrontava. Como um teto desse tamanho podia manter-se de pé, como não desabava? Contaram ao pássaro que um gigante de braços robustos era o responsável por carregar a abóbada celeste às costas. Todavia ele não ficara inteiramente convencido. Se bem que, quando o pai lhe dissera que voariam, ele tampouco acreditara. E agora voavam, contra todas as expectativas, desafiando a natureza.

Silêncio. Silêncio exceto pelo vento constante. E um ranço de solidão abateu-se sobre o pássaro. Não por causa do pai que deixava para trás. Seu velho fatigava-se com facilidade, e ele nada podia fazer a respeito. Se não conseguia acompanhar o filho, que cada um seguisse em seu próprio ritmo. Na verdade o pássaro sentia falta de outros pássaros. Não era de se espantar que estivessem sozinhos, pois ali era o tenebroso alto-mar. As gaivotas medrosas não ousavam afastar-se do litoral e de suas águas rasas e turquesadas. Ali as águas eram profundas e misteriosas e, salvo os cristais que agora refletiam o meio-dia, escuras como tinta. Não encontraria gaivotas ali. Além delas conhecera uns corvos larápios e os pombos que se empanturravam de grãos e sujidade.

Não, não devia sentir falta desses tipos tão apegados à terra e aos homens. Devia inspirar-se, isto sim, em aves mais arrojadas, como aquelas de rapina. Falcões e águias. E harpias. Jamais avistara nenhuma delas, porém sabia de sua fama. Planavam às alturas para depois investir contra a presa indefesa. Ora, e por que ele não poderia imitá-las? Seu corpo não era talhado para isso, era fato, mas havia pouco ele nem sequer voava. Valeria a pena testar sua coragem. Valeria todas suas penas. E, afinal, era uma simples questão de prática. E de ajeitar a postura. Encolheu as pernas, retesou as asas num V, inclinou-se… e mergulhou num rasante. E caía – e ria enquanto caía, engolindo o ar anavalhado. Gargalhava à medida que os olhos lacrimejavam, por conta do ímpeto irrefreável. Não existia sensação melhor do que aquela!

E parou a milímetros das ondas, abrindo as asas em anteparo. Pôs-se a planar tocando de vez em quando a água com um ou outro pé. O frescor do mar nas penas, o sal na ponta da língua, ele ignorava os pios impertinentes do pai lá no alto. Desequilibrou-se por um instante – por menos de um instante. Por que o velho se preocupava tanto? Suspirou antes de ascender de novo. Mirou o horizonte. A um canto assomavam minúsculos trechos de rocha cobertos de verde. Ilhas nunca mapeadas. Ao menos o pássaro jamais ouvira falar delas. Certamente eram morada de aves exóticas, coloridas e selvagens. Talvez numa habitasse a fênix da lenda, aquela que renascia das cinzas. Talvez em outra residissem passarinhos incansáveis, capazes de perseguir a carruagem do Sol ou então de chegar aos salões dos deuses.

Seria um desperdício não tentar fazer igual… O pássaro subiu e subiu e subiu, recuperando viço a cada bater de asas. O pai gritava-lhe no encalço mais uma vez. E daí? O encarquilhado não lograria alcançá-lo, tão exausto estava. O filho escalou o céu rumo às nuvens. Sobre sua cabeça o Sol viajava indiferente. Por um momento o pássaro pegou-se sem fôlego. O ar era mais ralo e mais abafado. Nada anormal: não se esperava que o caminho para os deuses imortais fosse tranquilo. Prosseguiu. E de repente sentiu puxarem-no para baixo. Não havia ninguém abaixo de si. Outro puxão. Não compreendia. Batia as asas freneticamente, mas por algum motivo não saía do lugar. As penas, suas penas… suas penas caíam! Meio tonto, demorou para notar. Devia desesperar-se! Era natural que se desesperasse. Porém tudo o que fez foi continuar a agitar os braços.

E no fim caiu. Ninguém escutou seu riso.

 

 

Na falésia, o homem pranteava a morte de seu filho. O corpo deveria ter sido enviado para as entranhas da terra, para os domínios de Hades. Mas Posídon o clamara. As águas o chamaram. E impotente, intentando apaziguar a dor, o pai resolvera erigir um monumento ao perdido. Impediram-no de guardar o corpo, mas ao menos podia homenagear-lhe a alma. O filho teria gostado dali. As vagas marinhas cantavam sua elegia. E, lá longe no horizonte, o mar misturava-se com o céu, como se uma ponte interligasse um ao outro. O homem chorava e esmurrava o chão, inconsolável. Amaldiçoava o filho. Amaldiçoava sua imprudência, sua desmesura, seu atrevimento.

Por que ele agira assim? Por que lhe desobedecera? O velho dissera-lhe que não voasse baixo demais, pois os respingos d’água tornariam as asas mais pesadas. E alertara-o para não voar alto demais, porque do contrário o Sol derreteria a cera que ajuntava as penas. No entanto o filho, impetuoso, desprezara a virtude do meio-termo – a virtude que o sábio Aristóteles de Estagira tanto enaltecera. Jovem e tolo e sonhador! E agora morto! Imerso no pranto, o homem não se apercebia de que ele próprio fora um sonhador. Um visionário. Ninguém além dele teria pensado em fabricar asas para escapar da prisão do tirano Minos de Creta. E naquela hora, na hora em que o filho tombara, ele tampouco lhe ouvira o riso.

Acontecera que, enquanto caía, o menino-pássaro descobrira a verdade. Muitos Heróis haviam atingido as constelações eternas após morrer no mar. Mas ele não morreria. Chegaria ao céu pelo mar. Inverteria a ordem das coisas e zombaria da physis e seus ditames. O pai nunca o teria entendido, já que o velho descendia de Zeus. O filho queria conquistar a liberdade plena, a maior das liberdades, aquela a que chamavam imortalidade. O jovem não agira como agira por imprudência. Não. Cada passo tomado fora planejado. Porque cair trazia a melhor das sensações. Porque cair era como um rasante mais audaz.

Porque cair era voar.

E ele não queria. Ícaro não queria deixar de voar.

 

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