Além do Sol e da Lua – Capítulo 1

– É sangue – sussurrou para si, alarmado. O cão já se apercebera e meteu-se a puxar o dono pela bota para escoltá-lo a um local seguro. Seth não se moveu, no entanto, e contraiu as pestanas para aguçar a vista e desvendar de onde vinha o odor. Discerniu ao longe, no noroeste, três silhuetas altas, esguias da metade para cima e largas daí para baixo. Silhuetas que reconheceu como as de homens montados em cavalos.

Sem dúvida eram eles quem emanavam o cheiro de sangue.

Taquicardia súbita invadiu o menino. Enquanto suas pernas bambeavam como se a desmanchar-se, gelo brotou-lhe dos poros e um calafrio arrepiou-lhe a espinha. Ele queria fugir, precisava fugir, precisava se esconder daqueles que se aproximavam, mas os músculos não respondiam. Aspirava o cheiro medonho em seu crescendo constante, a consumir todo o mormaço daquele dia. Os cavaleiros avançavam rapidamente e logo o detectariam. Seth não sabia as intenções deles nem se eram hostis, porém não lhe parecia que indivíduos fedendo a sangue fossem amigáveis, e todo o terror inexplicável que o dominava só confirmava essa presunção. Ele tinha de sair dali!

– Ah! – Uma fisgada atingira-lhe a perna direita após uma certeira mordida de Lao, que logo afrouxou as mandíbulas.

A dor prevaleceu sobre o medo e Seth pôde enfim se mexer. Sem tempo a perder, correu para um arbusto espinhento ali perto e embrenhou-se entre os ramos grossos e espetos. O cachorro foi atrás do mestre, mas posicionou-se fora do refúgio, em guarda.

Em breve os estranhos já estavam perto o bastante para o semielfo poder divisar-lhes os traços. Trajavam mantos vermelho-escuros, esfarrapados e sujos, com capuzes sombreando-lhes as caras. Calçavam botas pesadas, escudadas em pontos estratégicos por placas de aço velho e arranhado. Um deles levava consigo um estandarte, cuja bandeira, também avermelhada e com o emblema de uma Lua minguante negra no centro, esvoaçava ao vento. Outro, montado num corcel cinzento, portava uma espada embainhada presa ao cinto. E o restante, que exalava um fedor de sangue muito mais forte que o de seus parceiros, tinha a montaria num marrom que beirava o preto e carregava um objeto grande às costas.

O grupo dirigiu-se à área que Seth ocupara fazia um minuto. A velocidade dos cavalos foi diminuindo, o galope converteu-se num trote lento até eles pararem completamente – justo em frente ao arbusto em que o garoto se dissimulava. “Tinha esperança de que passassem direto. Mal pude avistá-los com meus olhos de águia: teriam eles sido capazes de me notar àquela distância?!”, refletiu com o coração disparado. A suposição insinuou-se concretizar quando o porta-bandeira falou com uma voz grave:

– Foi mais ou menos aqui. – Alisou o pescoço de seu garrano, que patinhava na poeira recém-erguida, irrequieto. “Ele fareja o medo de seu cavaleiro. Ou meu medo.”

– Tens certeza, Vëxilo? – perguntou o sujeito do corcel cinzento, que desmontou e agachou-se para analisar o chão.

– Absoluta, capitão Hidëo. Algo ou alguém ficou parado aqui durante um momento e depois se deslocou para aquele emaranhado de caules espinhosos.

Por que não o disseste antes, idiota?! – vociferou o ginete na montada negro-acastanhada, que saltou da sela e encaminhou-se ao arbusto, seguido do capitão. O porta-bandeira soltou o ar devagar, retomando o autocontrole.

O fim chegara. Seth não tinha como escapar. Permaneceu encolhido, esperando a morte, tiritando, suando frio. Não lhe agradava a ideia de deixar-se matar tão facilmente, mas o que ele poderia fazer para reagir, se nem havia trazido sua espada consigo? O garoto ouvia o retumbar seco dos passos dos inimigos, mais alto e mais alto. Logo eles o descobririam e logo seu corpo experimentaria ser trespassado por uma lâmina afiada.

Pensou nos pais, que haviam sacrificado as próprias vidas para preservar a dele. Alegrou-se porque receberia a oportunidade de reencontrá-los, mas ele não teria coragem de encará-los uma vez que houvesse desperdiçado seu ato de amor incomensurável. Pensou no Sr. Dimethio e na torta de maçã, que jamais comeria novamente. E julgou-se ridículo, pois ridículo era o pensamento. Pensou no Mestre, que o educara a não desistir em nenhuma hipótese. E reprovou-se pela covardia. Pensou em Lao, que se arriscava mais do que ele. E maldisse a si e sua impotência.

E pensou em Berek, que se poria preocupado se Seth não regressasse a casa e sairia à procura do irmão, ignorando que já não mais conseguiria reavê-lo. “Ele também pode vir a se tornar alvo dos cavaleiros. Tenho de avisá-lo. Não posso morrer ainda, não sem luta!”, e comprimiu os punhos, preparando-se para esmurrar o primeiro queixo que aparecesse.

Foi quando seu cão de caça pulou de trás do arbusto, interpondo-se entre o dono e os sujeitos, de dentes arreganhados. Latia ferozmente, e as pernas dianteiras arqueadas demonstravam que não hesitaria em atacar.

– Hum? Ora… – grunhiu Vëxilo. – O que enxerguei era apenas um cachorro?

– É o que parece… – retrucou Hidëo, irritado. – Vamos embora, então. Não há motivo para perdermos tempo com um animal. Vem, Atröxis – disse ao companheiro de porte agigantado, que continuava diante de Lao.

Seth suspirou aliviado: estava vivo, meio escoriado e lacerado pelos espinhos, mas vivo, e fora de perigo, graças à bravura de seu cão.

– ESPERAI! – gritou Atröxis, e seu timbre soou impiedoso que nem pá de coveiro. – Sou contra poupar o animal. E se ele pertencer a algum semielfo imundo? Não devemos e não podemos deixá-lo respirando! E vós bem o sabeis. Nossas ordens foram expressas: temos de eliminar qualquer um que compactue com os traidores d’O Absoluto ou que esteja sob a suspeita de fazê-lo. Eu me encarregarei de exterminá-lo.

Tirou o capuz e revelou o rosto duro e poligonal, mas bem parecido, com orelhas delicadas. Um rosto élfico. A cabeça era raspada. Uma cicatriz funda desenhava-se desde um ponto acima da sobrancelha esquerda, serrando-a ao prolongar-se até o início do nariz. Os olhos, laranja vivo, pareciam em chamas. Sua boca contorceu-se num sorriso insano enquanto ele sacava do dorso uma espada colossal, cuja lâmina denteada estava manchada de sangue – sangue ressecado e sangue fresco, em cada centímetro. O braço que elevava a arma tremia, e Seth concluiu que era de êxtase e ânsia por matar. Jamais o semielfo havia se deparado com alguém tão assustador. Sentiu sua valentia esvair-se de pronto, como se houvesse sido sugada. Fechou os olhos com força e tampou os ouvidos com as mãos, para nada registrar da morte brutal de seu amigo.

Manteve-se inerte, chorando em silêncio, aguardando a tragédia. Queria salvar Lao, porém seu corpo de novo restou paralisado de pavor. Desejou energicamente que o cão batesse em retirada, sumisse. Entretanto tinha certeza de que persistia ali, a sua frente, zelando por ele. Até tudo acabar.

– Fuja, Lao – murmurava para si. – Fuja! Dê no pé! FUJA!

O berro fora estridente. Demasiado estridente, porque um coração aflito desconhece a prudência. Mas o apelo fora abafado por um baque tão poderoso que o menino só não teria captado se houvesse furado os tímpanos. Ao som sucederam-se o relinchar de cavalos e, para a surpresa de Seth, o rosnar de seu cachorro.

O semielfo entreabriu os olhos e viu Lao de pé e ileso. Constatou também que o barulho que escutara não era de aço penetrando a carne, mas de aço se cruzando com aço. Em estupenda velocidade, Hidëo sacara a própria espada e investira contra Atröxis, bloqueando-lhe o golpe centésimos de segundo antes de consumar-se. Apesar da nítida diferença de tamanho entre os dois – o atacante era robusto feito uma sequoia, ao passo que o defensor era elegante e esbelto –, o capitão não manifestava estar se esforçando para conter a pressão que o outro impunha à arma, e com as duas mãos agora.

– Eu sou o capitão, Atröxis – reafirmou Hidëo. – Sabes que não admito que animais sejam feridos sem razão. Não existem indícios de que o cão seja de semielfos. E sugiro que lhe defiras clemência, caso queiras que eu faça o mesmo por ti.

Atröxis não obedeceu. Uma fúria selvagem já lhe subjugara o senso. Os antebraços agitavam-se espasmodicamente à medida que tentavam obrigar a espada a avançar – em vão. Os olhos ardiam ainda mais, e ele rangia os dentes. Nada o impediria: ele ansiava por sangue. Virou-se para o superior e abanou a cabeça. Este, em resposta, calmamente descortinou a face do capuz. O rosto que veio à luz era puro, típico de um elfo, e os cabelos, loiros. Os olhos estavam cerrados. E Seth não pôde evitar admirar o formidável guerreiro, pois não imaginava ser possível alguém duelar cego.

De repente Hidëo ergueu as pálpebras. As íris eram de anil pálido, quase branco, tal qual o do oceano filtrado por uma translúcida camada de gelo. As pupilas estreitaram-se como duas fendas e focaram Atröxis, que começou a fraquejar. Mesmo que os olhos não se direcionassem para ele, embora estivesse dissimulado, o semielfo não conseguiu acarar o capitão por muito tempo. Assaltou-o a impressão de que estava sozinho e nu no escuro: não mais havia nenhuma barreira entre sua alma e o inimigo, e Seth acreditou que poderia até se suicidar, bastando que o olhar assim lhe ordenasse. Os sintomas de Lao eram semelhantes; ele recuou para trás do arbusto, ganindo baixo.

Para Atröxis, a poucos centímetros de Hidëo, a sensação de dominação e o sufocamento da própria consciência deviam ser pelo menos mil vezes mais violentos. Ele tremelicava da cabeça aos pés, e agora era de medo. Largou o punho da arma, que tombou pesada, e choramingando prostrou-se de joelhos:

Piedade! Piedade, capitão Hidëo, senhor! Piedade, eu te suplico!

O porta-bandeira assistia aterrorizado à cena. Os cavalos relutavam em permanecer no local e rinchavam e pisoteavam e empinavam-se nas patas traseiras. Um clima rascante estabeleceu-se durante minutos que pareceram horas, até que Hidëo fechou os olhos, recolocou o capuz, deu as costas a Atröxis, ainda ajoelhado, e disse:

– Levanta-te e limpa tua espada. Nós vamos partir.

E o ar voltou a ser leve. Novamente era seguro respirar. O cavaleiro caído empertigou-se e despiu a capa avermelhada, com que livrou o aço do sangue. Guardou a arma, os braços com resquícios de tremedeira. Cabisbaixo e mudo, dirigiu-se a sua montaria. E o grupo foi embora a galope.

Seth conservou-se oculto ao observar os cavaleiros se afastarem. Mas nem sequer após os capuzes vermelhos afundarem no horizonte sul ele ousou deixar seu refúgio de imediato. Ainda estava atemorizado e cheio de dúvidas. Nunca antes ouvira falar de elfos em rubro que caçavam semielfos. A imagem do gigante assassino com sua espada ensanguentada imóvel nos ares constituía memória recente demais. O pior de tudo: os olhos do capitão – olhos profundos como abismos, olhos que sobrepujavam a vontade de quem se atrevesse a confrontá-los, olhos mortais – brilhavam nítidos na mente do garoto, e ele estremeceu ao recordá-los. Lao também estava quieto e apático.

Somente quando o fedor de sangue dissipou-se por completo Seth e o cachorro decidiram prosseguir a jornada. Faltava curto chão até a cidade, mas nem isso dava ensejo a menos cautela. Pelo contrário, o insólito acontecimento fez os viajantes triplicarem a precaução. Contudo o percurso findaria em tranquilidade, para o júbilo de Seth, que se mostrava cansado e andava com dificuldade, devido aos machucados provocados pelos espinhos.

Atravessaram a ilha calva. De novo o solo recobriu-se de capim, mais rasteiro daí em diante. Já se podia distinguir uma estradinha tosca cortando o tapete amarelado e seguindo para o oeste. Defronte o caminho descia suavemente, originando um vale raso, onde se aninhava Tiberia. O semielfo deteve-se no início do declive para contemplar a urbe lá embaixo. Vestiu o capuz:

– Foi uma viagem turbulenta, Lao, mas enfim chegamos – contentou-se, a voz embargada. O cão proferiu um latido de aprovação. – Vamos.

E engoliu o vômito que se anunciava em sua goela.

Siga para o Capítulo 2