Além do Sol e da Lua – Capítulo 1

CAPÍTULO I – Dois irmãos

Dois irmãos 3

Berek acordou de súbito bem antes da alvorada. O céu ainda estava sombrio e a terra, descolorida. Suor gelado e tremores formigavam-lhe na pele. Na mente ecoavam gritos de horror e gargalhadas cruéis, que faziam a noite serena parecer apenas uma ilusão imbecil. Ele enxugou a testa molhada com o lençol a fim de apagar as imagens remanescentes do pesadelo. “É inútil”, suspirou.

Levantou-se da cama e arrastou-se à janela, andando em passos sorrateiros para não incomodar o irmão, que ressonava tranquilo enquanto dormia. Apoiou os cotovelos sobre o parapeito e pôs-se a contemplar as estepes cinzentas e silentes. Não conseguia ver muita coisa. De fato, desde sete anos atrás, quando a Lua desaparecera, raros eram os que podiam enxergar bem após o crepúsculo sem recorrer a alguma fonte de luz.

Mesmo assim, percebendo que o sono não voltaria tão cedo, Berek continuou a fitar o exterior, analisando as estranhas silhuetas a distância, buscando adivinhar se pertenciam a árvores, pedras, animais ou qualquer outro ser que estivesse a caminhar por aqueles campos desolados de madrugada. Contudo, como se não bastasse a quase completa escuridão, amenizada somente pelo fraco pisco das estrelas, uma fina névoa pairava sobre o solo. Era impossível avistar algo com clareza nessas condições. O rapaz então desviou o olhar para o firmamento e seus pontos luminosos, e ficou a ligá-los com o dedo para formar desenhos.

“Consegues ver o cisne, meu menino?”, a voz assomou vívida em seu âmago. Não a reconheceu a princípio, embora com razão a atribuísse a um passado remoto. Pois ela era bonita como o trinar do rouxinol e só podia harmonizar-se com um mundo que ainda não tinha encarado as trevas da noite para sempre sem Lua. “E o leão? Consegues vê-lo?” Berek anuiu para o devaneio. Mas ele não era capaz de ver o leão. Entre as estrelas, via flechas e a muito custo viu uma face de lobo, nada tão sofisticado quanto um leão. Nem naquela ocasião lograra vê-lo. Sim, nem naquela ocasião, e mesmo então ele anuíra. Não quisera ver o leão. Ansiara por receber o sorriso dela, isso sim, a recompensa por ter conseguido ver o que ela vira no céu. Mas agora já não mais teria recompensa, e ele sabia disso. Tanto que, se naquela noite ele torcera o pescoço de várias maneiras, vasculhando a abóbada enluarada à caça do leão, do cisne, de mil ursos – da floresta inteira –, tudo para apreciar o sorriso dela, nessa noite não precisava fingir, apenas anuiu mudo e procurou nos ares tenebrosos o sorriso de sua mãe. Frívolo esforço: ele sumira havia anos, junto com a Lua. No fim sobrara nada além da memória escassa, porque a realidade, indiferente, seguira seu curso.

Berek enganava-se a si mesmo posando de ocupado, pois supunha que demoraria bastante até adormecer de novo. Mas a verdade era que não queria dormir mais, não queria retornar ao leito e ser novamente atormentado por sonhos maus. Ele só inventava pretextos para o tempo passar, até os primeiros raios de Sol finalmente despontarem no horizonte.

Uma hora após, entretanto, o garoto já lutava exaustivamente contra o sono – e não podia perder a batalha. Não desejava reviver aquelas cenas dolorosas, mas não conseguia- era muito- imensamente difícil… Pesavam-lhe os cílios, os olhos semicerravam-se, o queixo pendia frágil como se deslocado, e a cabeça escorregava lentamente… Não- podia- mais- resistir… E recobrou a consciência. Fora quase subjugado quando seu cão de caça, que dormitava sob sua cama, bocejou e espreguiçou-se.

Ao notar que o dono estava acordado, o animal também se levantou e veio a ele, à cata, esperançoso, de um afago atrás da orelha. Repousou o focinho sobre o colo do jovem, que lhe acariciou a fronte e disse:

– Obrigado, Lao. Não fosse por você, creio que minha mente já teria sucumbido ao desespero.

Em resposta o cachorro deu uma lambida distraída na mão de Berek, e este sorriu. O garoto jamais descartara a hipótese de que Lao podia compreender o que as pessoas falavam. Era agradável ter um companheiro a seu lado, já que agora um vento frio adentrava no quarto, avisando que a aurora não tardaria a raiar.

E quando efetivamente a Donzela do Sol mostrou sua face, escalando com vagar as montanhas a leste e despertando a gente sonolenta, Berek sentiu-se vitorioso, um ar quente encheu-lhe o peito e ele exalava vida nova. “Está feito.” Conseguira, triunfara sobre a maldição que todo ano, na véspera do aniversário da morte de seus pais, ressurgia para perturbar-lhe o descanso. Ergueu-se com dificuldade e massageou os ombros: doíam-lhe as costas, pois ele se recostara desajeitadamente à parede para suportar a moleza de antes.

Foi até a cama do irmão e puxou os cobertores bruscamente, exclamando alto e forte:

– Acorde, dorminhoco, o Sol já nasceu! Você sabe que hoje é um dia especial.

– Ainda está cedo – murmurou-lhe o outro, a claridade malogrando sua tentativa de espiar com um dos olhos o rosto de Berek. – Deixe-me dormir um pouco mais – e virou-se para o lado oposto, arrastando a coberta para si ao mesmo tempo.

– Não podemos desperdiçar um segundo sequer, e você também tem perfeita ciência disso, Seth. Aliás, não foi justamente você quem, ontem à noite, sugeriu que eu escrevesse uma lista de tudo o que teríamos de fazer hoje? E você concordou em realizar cada afazer que lhe designei.

– Sim… Mas é que já estava um bocado tarde quando você terminou a tal lista. Eu já tinha me deitado e procurava dormir quando você veio e desatou a falar. Eu concordei com tudo para fazê-lo calar a boca.

– Ora, vamos! – insistia Berek ao zanzar de lá para cá e de cá para lá, pensando num argumento que estimulasse o irmãozinho a sair do leito. Um sorriso maroto brotou-lhe na face quando enfim prosseguiu: – Papai e mamãe ficariam muito decepcionados se soubessem que você está sendo tão preguiçoso.

– Não vale! – gritou Seth, pondo-se de pé num salto. – Você sempre usa esse mesmo truque!

– Porque sempre funciona, estúpido! – gargalhou.

– Que seja. Vamos começar.

E realmente era imprescindível que começassem cedo, visto que a lista de Berek, pregada à despensa, na cozinha, era tão longa a ponto de mais da metade estender-se pelo chão. Suas letras compunham um emaranhado de garranchos ambiciosos de espaço, intercalados por correções e borrões de tinta frequentes, mas persistiam numerosas as tarefas elencadas. Pior: dois terços delas diziam respeito a limpar e arrumar a casa, trabalho execrado pelos garotos, que praticamente só o desempenhavam uma vez ao ano. Nos cantos mais obscuros, sempre densa era a sujeira acumulada.

A morada era singela, rústica até. O pai dos irmãos, Thebo, a idealizara e a desenhara; e desde a base a erigira com o auxílio de Marco Paetros, seu amigo de infância. Estruturava-se num só andar, exceto pelo porão, subterrâneo, pois assim preferira o arquiteto e empreiteiro, temeroso de perder o solo – o solo compacto, reconfortante – sob si. As paredes eram de madeira sem pintura ou verniz, para que recendessem aos pinheiros e ciprestes do bosque ao norte, de onde vieram e que tanto alegravam a companheira de Thebo e mãe dos garotos, Ddiäna. O chão, de ripas, ascendia dois degraus acima do nível da terra, como bem exigia a impetuosa estação de chuvas regional.

Fonte: http://browse.deviantart.com/art/archive-photo-326941259Uma espécie de muro externo – um descarado remendo de pedra e argila feito às pressas – abraçava e reforçava o perímetro. Colunas e vigas de carvalho em simetria sustentavam o telhado de palha trançada. Mas todos esses alicerces foram acréscimos tardios. O detalhe era que o pai e seu colega Marco não posavam de construtores experientes, longe disso. Não participavam de guilda e nunca aprenderam o ofício. Quando deram corpo à casa, apenas ensaiaram – ensaiaram como os novatos que eram. E arriscaram. E erraram bastante. Logo, no ano preliminar da inauguração, a cobertura só restara de pé graças à inércia, sem mencionar a boa vontade dos elementos.

Ou melhor, relativa boa vontade. Porque, no inverno, a neve que caía como em todos os invernos se aglutinara sobre a palha, que cedera. E naquela noite Thebo e sua esposa dormiram ao relento, baforadas gélidas penetrando o quarto pelo rombo do teto. Ora, poderia ter sido muito mais terrível… Poderia ter ocorrido horrenda nevasca a solapar o telhado inteiro e, ainda, a enterrar os viventes sob as sepulturas de cristais brancos. Mas não houvera tamanha tragédia. A Senhora dos Ventos Gelados e Deusa da Dor pretendera somente se divertir um pouco, provar do calor dos seres que eram capazes de sentir de verdade.

Ou assim insinuara. Afinal, em meio a uma cama fria, Thebo e sua dama tiveram de esquentar-se de alguma forma, e Berek fora aí concebido. E quando o lamento do Lobo Branco voltara a consistir no único ruído da madrugada, quando os gemidos da paixão se calaram, os flocos de neve enfim pararam de tombar, enciumados de os amantes não mais se incomodarem com seu toque. No ano subsequente, as vigas e pilastras já teriam sido postas e o teto, consertado; já que um novo membro, pequenino e rosado e chorão, ingressara naquela família e lar.

Na fachada da residência, uma varanda coberta precedia a bela porta de entrada. Verde-escura, possuía traços em alto-relevo que representavam o Sol e a Lua fundidos numa mesma entidade. Duas colunas de mogno, uma de cada lado do batente, foram esculpidas para que semelhassem árvores vivas, cujos ramos sinuosos entrelaçavam-se e subiam até a cobertura. Extravagante mesmo à vista de um passante incomum, essa decoração devia-se a mais um dos caprichos nostálgicos da senhora que Thebo desposara. Para ela, mandar entalhar troncos e folhagens na madeira proveniente de outros troncos – estes no início dotados de vida e seiva – não se mostrava um contrassenso nem o cúmulo da artificialidade. Existiam ótimas razões por detrás dos artefatos.

Primeiro, as esculturas eram réplicas de árvores monumentais, mais antigas do que certos deuses, nativas da veneranda floresta de Brumathëvira, onde Ddiäna nascera. Em diâmetro seus caules chegavam a transcender o dobro do comprimento da morada e produziam círculos vastos que nem anfiteatros. Seus galhos assimilavam-se a aríetes de cerco, e suas raízes escavavam a fundo os mistérios do solo. Titãs frondosos assim jamais poderiam vicejar no terreno raso e árido em que se assentara a casa. E esta ficaria onde estava: eis a segunda razão. Thebo e Ddiäna eram inflexíveis a esse respeito e alegavam ser perfeito o ponto em que se situava a residência: isolado, porém não tão distante da estrada.

Nem escondido em demasia. Pois teria sido mais sensato que houvessem fixado lar em local mais oculto – por exemplo, à sombra das matas do norte, paragens inclusive mais férteis –, mas o casal ferreamente se recusara a viver em refúgio. Sim, Thebo e sua esposa foram fugitivos, mas nunca sequer intencionaram portar-se de acordo. Uma atitude digna, embora assaz ousada. Quase tola.

No interior o salão de estar era o compartimento principal, concedendo passagem a todos os demais aposentos mediante portais abertos. O porão revelava-se um caso específico: uma apertada câmara projetava-se para fora da parede de sorte a abrigar uma escadaria que descia às entranhas terrestres. Dava-lhe acesso uma porta dupla de madeira que não se fechava num encaixe ideal, deixando à mostra uma fenda deselegante típica de um obreiro amador. Todavia uma tranca forte, com tendência a emperrar, tornava o subsolo o recanto mais seguro da casa, servindo de adega e depósito de tranqueiras.

Estantes abarrotadas de livros e pergaminhos faziam de cada cômodo uma biblioteca em seu próprio direito, e raros eram os trechos de parede nua. A mãe, Ddiäna, prezava muito as tradições e o passado. Por isso se empenhara com fervor em guardar e preservar todos os documentos, registros e tomos que lhe caíram em mãos: relatos históricos, tratados acadêmicos, mapas, compilações de encantamentos, orações a deidades, romances, contos, poemas, músicas, receitas herbáceas. Relíquias da Aurora do Mundo. Longo tempo vivera e tantas lembranças colhera – e nenhuma fora esquecida: cada uma fora tão preciosa quanto outra, ocupando seu lugar especial na memória da elfa.

Aliás, é importante que se esclareça isso. Ddiäna era elfa – filha do Senhor da Lua, diziam os teólogos, e “filha do ébano”, dizia seu nome. Bonita tal qual estrela cintilante, seus cabelos cinzentos eram como brumas de uma aconchegante manhã de inverno. As íris orvalhadas pertenciam a alguém que sofrera muito, mas que no fim alcançara a felicidade. A pele era tão alva quanto o luar de outrora. E acima de toda essa beleza mística pairava a milenar sabedoria, por sua vez ultrapassada pelo insuperável carinho materno. Assim Thebo poetizara acerca dela, sempre insatisfeito com o resultado dessas e outras metáforas, que não faziam jus a sua musa. Falava que o amor toldava-lhe a inspiração.

Thebo tinha cabelos castanho-escuros que lhe batiam nos ombros. Também de âmbar sombrio, seus olhos penetrantes sugeriam austeridade, não exatamente como topázios foscos, e sim que nem brasas cujo fogo extinto poderia renascer a qualquer momento. Como pai era afetuoso e gentil; como marido, bravo e valoroso. E era justo. Talvez houvesse sido o único participante da Grande Guerra que genuinamente erguera a espada em nome do rei – o verdadeiro rei – e o único que efetivamente batalhara para defender o Reino como um todo, não apenas os próprios familiares e terras. Ao menos era o que Marco Paetros narrava a respeito dele.

Thebo era mais que isso, no entanto. Era cortesão. Não dispunha de sobrenome distinto ou título nobiliárquico e, não obstante, quando queria, encarnava o mestre das palavras doces e mesuras graciosas. Seu talento para a poesia e para o cortejo só rivalizava com a genialidade de suas obras de arte. As esculturas junto à porta da frente e os entalhes nela gravados se originaram da aptidão e da criatividade dele. E disso tudo ele próprio se orgulhava.

Entretanto Thebo era mais que isso, muito mais. A imagem do galanteador ingênuo e sonhador simplesmente não se lhe amoldava. Porque ele era igualmente esperto e audacioso, feito raposa de fábula. Do contrário, Ddiäna jamais se teria apaixonado por quem se apaixonara. Ao conhecê-lo, a elfa que sempre fora tão devotada aos estudos e à meditação assumira um ar de menina travessa – a despeito de então contar o quádruplo da idade de seu amante. Pusera-se encantada. Porém Thebo era decerto mais que isso.

Era homem mortal.

Berek e Seth eram, portanto, semielfos. O símbolo na entrada, do Sol e da Lua intrincados, não constituía mero adorno: indicava que naquela casa residia um casal que rompera com os preconceitos de seus povos. Por amor… Ou por sexo. Ou por aventura. Ou por tudo isso – ou tão perto que não fazia (nem teria feito) diferença alguma.

Lá pelas onze da manhã os irmãos ainda estavam longe de poder descansar. Já haviam trabalhado sem interrupção o máximo de tempo que aguentavam, mas nem três quintos da lista de Berek haviam cumprido. “Onde eu estava com a cabeça quando lhe permiti distribuir os afazeres?”, pensou o mais novo. “Isto não é um cerco e Berek não é um general. Não precisava ter sido tão insuportavelmente meticuloso, não precisava ter decomposto cada tarefa em cinco passos. Que mania de querer comandar!”

– Não e não, não aceito! Por que sou quem tem de limpar o banheiro? – reclamou Seth. “Não sou um peão de seus tabuleiros imaginários!”

O lavabo era um daqueles cantos mais obscuros da morada, se não o mais tenebroso de todos. Esvaziar-lhe a latrina diariamente, enterrando seu conteúdo, e ocasionalmente enxaguar-lhe o assoalho consistiam em labuta rotineira; qualquer dos garotos executava-a com a destreza que requisitava o incessante chamado da natureza. Lavar o aposento, contudo, era trabalho distinto. Era…

– Ora, você é o mais novo – retrucou Berek com um tom de quem enuncia uma resposta elementar. Em seguida, por precaução, resolveu complementar a justificativa: – Logo, é responsável pelos deveres mais… er… desafiadores.

Desafiadores! Limpar o banheiro era desafiador. Eis a qualificação ideal. Ardilosamente ambígua, podia significar tanto que Seth teria de enfrentar um miserável infortúnio, quanto que deveria cuidar de tarefa de potencial nobre, como matar o líder de uma matilha de lobos que por meses vinha assolando uma indefesa comunidade de lavradores, ou algo do gênero. O mais novo era inteligente o bastante para não escorregar no artifício polissêmico, mas tudo o que conseguiu contra-argumentar foi:

– Está errado! Você é insuportável, maninho, o mau encarnado! Só fico imaginando o que mamãe e papai diriam se pudessem vê-lo me tratando assim…

– Diriam que você tem de obedecer a seu irmão mais velho – riu-se Berek, confiante em sua vitória. Considerava praticamente encerrada a discussão.

– Cale-se, droga! Não quero limpar o banheiro, nunca concordei com isso!

– Concordou, sim, senhor “Eu-concordei-com-tudo-para-fazê-lo-calar-a-boca”.

– Você se acha muito esperto, não é?

– Um pouco, sou forçado a admitir – e empinou o nariz de um jeito arrogante. – Mas o fato de você ser meio trouxa também contribui para o sucesso de meus planos. Agora, para o banheiro!

Seth, derrotado, já se ia para desempenhar seu humilhante serviço quando notou tênues marcas arroxeadas logo abaixo das pálpebras inferiores de Berek. Desde que acordara era a primeira vez em que o encarava nos olhos – consequência imprevista de ter tentado fustigá-lo com o olhar.

– O que é isso em seu rosto? – indagou o mais novo, resvalando o dedo indicador e o médio pela própria face, para demonstrar o que o afligia.

– Do que está falando? – replicou o irmão, disfarçando a voz para soar surpreso e desviando o cabelo da testa com a mão, para que de momento encobrisse a cara.

– São olheiras, não são? Você teve o sonho de novo, não é?

– Sério, eu não faço a menor ideia do que…

– NÃO SE FAÇA DE TONTO! – interrompeu-o com um brado dissonante.

– …

– …

– Certo… Está certo – conformou-se o outro, apaziguador. – Sim, sim, eu tive o pesadelo de novo. Mas estou bem, não o deixei retornar.

– Não, você não parece nem um pouco bem – censurou-o. – Mas vamos: conte-me o que viu desta vez!

– Prefiro não comentar – retorquiu Berek, o semblante empalidecendo. – Quero esquecer.

– Por favooor! – implorou o mais novo, os olhinhos com o lustro da curiosidade. – Não é justo você poder ver mamãe e papai em seus sonhos e nem sequer me contar como foi! E eu tenho de me contentar com aquele retrato arruinado deles, lá em cima da lareira. Não é justo! Por que você pode sonhar com eles e eu não?

Não seja tolo, Seth! – A cor que mal lhe escapara da face retingiu-a num instante, enquanto ele se preparava para explodir em fúria: – Acha que gosto de, todo desgraçado ano, rever o assassinato deles?! Acha que gosto de escutar os gritos, o desespero e a dor, todos como fantasmas em minha mente?! Ouvir mamãe chorando, vislumbrar papai estatelado no chão, já sem vida, tudo isso é horrível! Mas o pior (o pior mesmo) você bem sabe. Afinal, já o repeti vezes sem conta, não? Assisto às imagens de onde estava quando elas aconteceram de verdade. Pela maldita. Fresta. Na porta. Do porão! Sim, me arrependo de não ter tapado os olhos. Enquanto você de nada se recorda, pois na ocasião agiu como um medroso e preferiu enterrar a cara num de seus livros em vez de espiar comigo. Mas eu – e bateu com o polegar no peito –, eu me lembro perfeitamente de que estávamos ali trancados porque nossos pais queriam nos proteger, e eu vi quando nos protegeram! E cá estamos – murmurou. – É agonizante pensar que eles se sacrificaram por nós, e a gente não pôde fazer nada para impedi-los.

Lágrimas escorriam pelas bochechas de ambos os irmãos. Um fitou o outro no curso de um inacabável e intragável minuto, até que Seth afastou o olhar, correu para o lavabo e, ao passar por Berek, dirigiu-lhe os murmúrios de “Minha tarefa, vou limpar”. O mais velho permaneceu imóvel à medida que se contorciam suas feições, dando origem a uma mistura de culpa, medo e sofrimento. Tudo aquilo que lhe fora tão custoso esquecer voltava à tona num turbilhão impertinente.

Contudo ele não podia render-se à inércia. Teria desabado de saudade e tristeza, porém resistiu. Antes de morrerem, seus pais haviam-lhe incumbido o dever de zelar pelo irmãozinho, e Berek intimamente prometera dar seu melhor. Prometera a si mesmo e a eles. Promessa aos mortos, promessa sagrada. Por isso o rapaz jamais devia fraquejar, e muito menos naquele dia festivo. Enxugou o rosto com a manga da camisa e então reparou em quão deplorável era seu estado: sujo de poeira e fuligem (de quando se enfurnara dentro da lareira para espaná-la) e fedendo a suor. “Trato disso depois”, e rumou para seu quarto e de Seth, que se encarregara de varrer.

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15 respostas em “Além do Sol e da Lua – Capítulo 1

  1. Okay! Aqui estou eu… Primeiramente gostaria de elogiar, não gosto muito de elogio, mas o cenário e a descrição está perfeita. Gostei bastante do personagem Bereck e do Theba. Notei que você tem uma certa paciência para fazer a descrição do cenário, coisa que me falta.

    E não sei se é impressão minha, mas sua história parece muito em algumas partes, e eu até acho que são boas para estudar interpretação de texto e outras coisas. Deve ter dado maior trabalho escreve-la. Só achei muito longo, por isso parei ali na ilustração da casa. Mas voltarei para comentar a metade amanhã. 🙂

    Tenho um conto no ONE e se chama: O Homem da mala preta. Se puder, comenta lá, e postei um conto cômico hoje no ONE, chama-se: Meu Candidato. Abraços!

    • Obrigado, Claudeir! Fico feliz que tenha gostado dos personagens até agora.
      Confesso que este início tem pouca ação. (Na página 3 deste capítulo, a situação melhora, mas sou suspeito para falar, hehe!) E, sim, realmente ficou looongo. XD
      Reconheço que as descrições acabam tornando tudo mais arrastado, mesmo que eu tenha tentado minimizar o efeito utilizando a descrição da casa como gancho para abordar os pais dos semielfos.
      Já dei uma revisada mais formal no capítulo, mas ainda pretendo fazer uma revisão mais profunda, para enxugar o texto. Receio que isso fique para bem depois, contudo, que por enquanto estou seguindo com a história, para que as ideias não se percam.
      Comentei em “O homem da mala preta”. Ainda lerei o “Meu candidato”. 🙂
      Abraços e obrigado de novo!

      • É, ficou longo, mas pra quem gosta de uma boa literatura sempre dá um jeitinho. rsrsrsrs… Eu sou assim mesmo, tem um conto lá no ONE que parei na metade e esqueci de ler o resto porque o computador meu ficou ruim, tive que comprar outro e ai não consegui mais me lembrar do nome do conto pra continuar lendo. Mas esta legal, ta meio parado o começo sim, mas como eu gosto de ler, gostei. 🙂

  2. Cara! Eu me pergunto: Como consegue ter tanta paciência pra detalhar bem o cenário assim? Está muito da hora a descrição da casa de palha. Assim como nós, escritores iniciantes, o pai e o filho que fizeram a casa com telhado de palha retorcida não passavam de armadores. Heheheh… Mas um dia eles vão ser grandes construtores, assim como nós vamos ser grandes escritores. Bom, assim desejo eu! 🙂

    Curti a Senhor dos Ventos Gelados, a deusa da Dor. De onde veio a inspiração para criar esta deusa? E gostei também dos cuidados da mãe Ddiana em preservar coisas antigas porque eu sou um pouco assim também, tenho umas coisas velhas guardadas aqui no meu quarto. Hehehehe… Mas o que mais me interessou dela foi a compilação de encantamentos. Quais tipos de encantamentos ela guardava assim com tanto fervor?

    Interessante! O Thebo era esperto e audacioso como raposa de fabula, fora o fato dele compor poesias. Personagem interessante este.

    Mais uma pergunta fora os semielfos como li. Haverá anões nesta história? Sabe, eu curto muito os anões, se bem que antigamente eu os odiava e sempre quando jogava AGE OF MITHOLOGY. Não sei se o amigo conhece, mas eu sempre usava os gigantes nórdicos pra massacrar os anões. Hehehehe… Mas agora estou gostando deles, até porque estou trabalhando na história lá que envolve várias mitologias.

    • Sim, haverá anões. Eles recebem algum destaque no capítulo 2, mas o desenvolvimento maior a respeito deles só virá beeem depois, numa parte ainda ainda não escrita, só planejada.
      Nunca joguei Age of Mithology, mas creio que adoraria o jogo, acho que faz meu estilo. Ainda vou ver se experimento.
      A Deusa da Dor não teve uma origem específica. Ela é fruto da lógica que informa a mitologia desse universo que estou criando: os deuses estão associados aos elementos (água, terra, fogo, etc.), assim como a magia está relacionada aos elementos (magia elemental) e, por consequência, aos deuses. Mas haverá toda uma discussão sobre a existência de deuses ou não. O ponto é: na história que estou escrevendo, a mitologia é nada mais do que um conjunto de crenças. Ela oferece uma explicação para como o mundo surgiu, para como as coisas funcionam. Mas não é a única explicação. Existem interpretações concorrentes.
      Quanto aos encantamentos, também são um assunto a ser desenvolvido mais tarde na trama. (Ah, mas no conto “Musgo fantasma”, publicado aqui e no ONE, eu chego a esclarecer um pouco sobre o sistema de magia que estou elaborando para a história.)
      Abraços!

  3. Coitado do Seth, o cara tinha que limpar a latrina todos os dias. Como é uma história baseada na idade média e em mitologia celta, (celta, é isso mesmo?) Mas em fim, limpar a latrina naqueles tempos, seja de castelo ou do que for, era algo horrível. E hoje em dia tem gente que reclama de quem mija na beira da privada, heheheh… Brinks!

    Em fim, estou torcendo para o Seth e Berek vingarem a morte dos pais. Realmente, tudo indica que ambos se aventuraram em uma vingança contra os assassinos. Apenas uma suposição da minha parte.

    Em fim, li esta parte. Ficou legal os detalhes. Seguirei para a outra. Um forte abraço!

    • Hehe, eu gostei de escrever esta cena. Aliás, gostei de escrever esta e também outras que mostram a relação conflituosa entre os irmãos.
      Sobre a vingança: sim, a vingança é um dos motores da história, embora não seja o único. Adianto o seguinte: ela será um objetivo que o Berek abraçará sem hesitar, mas o Seth, em contrapartida, terá muitas reservas quanto à atitude do irmão.
      Abração! o/

  4. Voltei pra ler mais uma parte. Velho, ta bem massa. Bem explorado a relação entre os irmãos e tals.
    Gostei bastante das descrições de locais e pessoas que você faz, porém acho que por vezes está sendo descritivo demais, tendo no texto mais descrição do que ação. Claro que as vezes é uma coisa necessária, existem outros capítulos onde pode ter mais ação.. Enfim, vou ler mais uma parte logo e deixo um feedback. Boa história, quero saber mais.
    Terminei a parte três do ‘Na escuridão da Floresta’ lá no ONE, se tiver tempo de uma lida e deixe um comentário. Abraço

    • Obrigado, Lucas!
      Pois é, admito que ficaram excessivas algumas descrições, especialmente a da casa. E nem é uma descrição tão necessária assim, reconheço; é verdade que o trecho me permite falar dos pais deles também, não só da casa, mas isso não significa que eu não possa enxugar tudo.
      Eu estou já para editar isso há um tempão, mas ainda não me aventurei. Tenho preferido continuar a história e depois, no final, eu ajeitaria essas partes. Até porque eu fico receoso de cortar – vai que algo acabe sendo útil mais pra frente… Mas, sim, tem razão, vale uma revisão. Obrigado pelo feedback!

      Blz, pode deixar que darei uma lida no “Na escuridão da floresta” ainda este final de semana. 🙂
      Abraço!

  5. Pingback: Além do Sol e da Lua – Prólogo | Além do Sol e da Lua

  6. Cara, me lembro que a um tempo atrás eu fiz um comentário aqui sobre a sua história. Esses dias eu tava mexendo aqui no pc e encontro o link nos meus favoritos – eu sempre faço isso quando quero guardar alguma pra ler depois – E acabei chegando aqui.

    Sobre a história, acho promissora. Dois irmão meio-elfos, tendo de lidar com os conflitos que rondam as duas raças das quais descendem e tudo mais. Um bom tema.

    Achei legal a relação entre os irmãos.

    Só tome cuidado com os excessos de descrições. Cara, isso é um problema sério pra mim! Eu sempre descrevo demais, ou muito pouco. Nunca consigo encontrar o equilíbrio! uheuhEHUuhe

    No mais, a história está legal. Nesse capitulo Não teve muita ação nem nada, mas é só o começo. Seguirei lendo os próximos – Vou tentar aproveitar esse tempo livre das férias, para ir lendo no minimo um capitulo por dia.

    Até mais, e siga postando outros contos ou capítulos lá pelo ONE. É uma boa maneira de tu ir conseguindo fazer esse site chegar ao conhecimento dos outros. Eu só cheguei aqui por que encontrei aquele teu conto, “Meu adversário”, la no ONE.

    Até mais o/

    • Opa, obrigado pela leitura, Mateus!

      Tem razão, a descrição da casa (e outras) ficou (ficaram) excessiva(s). Até eu já estava meio preocupado com isso – e se o próprio autor está preocupado, então a situação é realmente problemática, heh! Tentei usar a casa como base pra falar dos pais deles (e de alguns elementos que serão importantes mais tarde, como, p.ex., o símbolo de Sol e Lua fundidos), mas ainda assim os parágrafos ficaram densos. Com certeza revisarei esta parte, só que mais tarde; estou postergando as edições, porque tenho preferido prosseguir com a história. Mas darei uma refinada, sim. 🙂

      Pois é, estou pra publicar no ONE de novo. Mas este meu (protótipo de) romance, que está grande demais, vou restringir ao blog mesmo. E de contos novos somente tenho o “O som do silêncio”, mas por outros motivos também vou mantê-lo no blog estritamente. Em contrapartida, continuarei lendo e comentando lá. Apenas me afastei um tempo por causa de umas prioridades da faculdade. Mas em breve voltarei à ativa. 🙂

      Abraço! o/

  7. Eu ia ler o segundo capítulo e ele sempre me pareceu estranho, como se tivesse faltando algum pedaço da história no meio. Heis que descubro que há uma página dois e três para o capítulo e agora tudo faz sentido. eheuheueh. Gostei dos elfos. De eles serem bem diferentes. Eles moram em domínio élfico? Humano? Ou aí é uma terra de ninguém ? A paisagem também tava muito boa.

    • Hahahaha, sim! A indicação das páginas neste layout do blog não é legal, tanto que adicionei ao fim de cada página o tal link “Siga para a próxima página”, mas ainda tá meio obscuro. A opção era colocar todo o texto numa página só, mas achei que isso espantaria eventuais leitores. XD

      Pois é. Os elfos são os “vilões”. Outros traços da aparência deles, além das orelhas em forma de folha, são mencionados mais pra frente na história.

      No Ocidente, os elfos moram em dois lugares. O primeiro, a floresta de Brumathëvira, é citado no início deste capítulo. Não é bem um reino, porque eles não têm um rei. É um regime político diferente da monarquia e da república. É o que eu chamei de sofocracia; ainda vou explicar melhor como ela funciona quando for oportuno. O segundo lugar é um “reino” minúsculo na fronteira com os reinos humanos. Foi fundado por nobres élficos que, insatisfeitos com a instauração da sofocracia em Brumathëvira, emigraram para uma espécie de autoexílio. Isso ainda é só ideia minha em formação; não criei um nome pra esse “reino” de elfos exilados. Também, existem elfos nos reinos humanos, ou perambulando nas cidades comerciais de fronteira, onde a população é mais tolerante, ou tornados escravos de guerra. Por fim, há elfos no Oriente, e lá a relação deles com os humanos e os semielfos é mais complexa do que no Ocidente.

      O Hidëo é um elfo oriental. O Atröxis é originário de Brumathëvira, mas tem uma história mais complicada. Qt ao Vëxilo, não sei ainda; tô oscilando entre várias possibilidades para a história dele. Mas o lugar onde eles encontram o Seth é meio que terra de ninguém, sim. Tem uma cidade de fronteira e é perto do norte (terras de bárbaros, sempre :P); formalmente, a região pertence a um rei e a um duque humanos, mas o lugar é ermo demais pra que eles exerçam qq poder efetivo. Há fazendas aqui e ali, mas de gnt que se arrisca a viver longe do centro da civilização (tipo os fazendeiros dos Westerns norte-americanos).

      Que bom que curtiu a paisagem. 🙂 Ela meio que surgiu em minha cabeça já bem moldada em todos seus detalhes. Não sei por que. Mas não tive que pensar mt pra desenvolvê-la, ao contrário da cidade de Tiberia, no capítulo 2, que precisou de mais planejamento. O que eu mais gostei foi a imagem na página 2 que ilustra essa paisagem; foi um achado, como aquela sua imagem da dama congelada, do seu “Na escuridão da floresta”.

      Ok, a resposta ficou imensa, mas é que eu me empolguei. Suas perguntas foram bem instigantes, o que foi ótimo.

      Ah, e fico feliz que tenha voltado a acompanhar o “Além do Sol e da Lua”, Lucas. 😀 Abraço o/

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