Sobre a Literatura Fantástica e a essência não essencial do blog

Então… Literatura Fantástica, certo? Fantasia, você quer dizer?

Não, o blog não trata de fantasia – ao menos não no sentido pejorativo que a palavra veio a adquirir. Porque a fantasia – ou o que existe de melhor nela – jamais se dissocia totalmente da realidade. Quem a conectou ao escapismo não fez mal, mas tampouco a compreendeu em sua plenitude.

Há fantasia na luminosa Lothlórien em O Senhor dos Anéis...

Há fantasia na luminosa Lothlórien em O Senhor dos Anéis…

Sim, talvez a fantasia se distinga de outros gêneros literários exatamente por conter elementos fabulosos, oníricos, viajantes, absurdos, nonsensical e high-as-fuck e writers-on-drugs; em suma, elementos fantásticos. Sim, é na fantasia que encontramos dragões e magia e batalhas espaciais e portais interdimensionais e demônios saídos de pesadelos e mundos alternativos. Sim, na fantasia reinventamos o passado, imaginamos realidades que transcendem o espaço-tempo presente, especulamos sobre o futuro. Pondo de outra forma: há fantasia em Tolkien e Robert Jordan, em George R. R. Martin e Patrick Rothfuss, em Stephen King e Neil Gaiman, em China Miéville e Jim Butcher, em Isaac AsimovFrank Herbert – todos bem diferentes (incomensuravelmente diferentes) entre si, em seus estilos e temas.

Então, sim, embora talvez se possa cogitar sobre uma essência comum perpassando uma literatura tão plural, fazê-lo consistiria em esforço vão, e no final chegaríamos a conclusões não isentas de dúvidas. No máximo acharíamos uma essência imprecisa e mutável, uma essência indigna do nome.

... assim como numa cidade steampunk, com os vapores de uma Era Vitoriana especulativa...

… assim como numa cidade steampunk, com os vapores de uma Era Vitoriana especulativa…

Nas palavras do novelista Chuck Wendig: “NOBODY KNOWS WHAT THE FUCK FANTASY IS”[1].

E é (com o perdão da redundância) fantástico que os limites da fantasia sejam assim tão nebulosos. Desse modo o rótulo pode abraçar um espectro vasto e diversificado de subgêneros: do clássico aventuresco sword and sorcery aos épicos, e destes à alta fantasia; do steampunk ao cyberpunk, e deste a algo-não-tão-consistente-da-ótica científica-a ponto-de-se-enquadrar-na-ficção-científica; da urban fantasy à weird fantasy, e desta à dark fantasy, que flerta com o horror[2]; e incluamos ainda a fantasia histórica ou revisionist fantasy[3]. E essas fronteiras e convenções são desafiadas e revistas a cada aurora… e a cada fada devorada por um zumbi mutante radioativo.

O que proponho é: se o adjetivo “Fantástica” em Literatura Fantástica não proporciona uma definição acurada do gênero – aliás, recordemos que um gênero está em eterno processo de construção, na medida em que seus contornos se reacomodam a cada nova tendência –, então nos foquemos no substantivo “Literatura”: a Literatura Fantástica, como é típico de toda literatura, (quase) sempre se reporta à realidade.

... e nesta metrópole cyberpunk...

… e nesta metrópole cyberpunk…

É por isso que torcemos por Harry Potter e seus amigos fiéis na batalha contra Voldemort. É por isso que – embora eu tenha lá minhas reticências quanto ao choramingo “mimimi” do Frodo e sua nostalgia para com o Condado – senti minhas entranhas se rasgarem quando Gandalf caiu em Moria (sério, em minha primeira leitura de O Senhor dos Anéis não podia imaginar que ele voltaria no segundo livro – afinal, eu era jovem e ingênuo e facilmente impressionável…). E é exatamente por isso que odiamos tanto os “vilões” odiáveis em As Crônicas de Gelo e Fogo (e tememos que aquela raposa do George Martin decida matar nossos favoritos para apimentar a guerra dos tronos). E assim é porque cada personagem é verossímil o bastante para nos cativar… ou, caso contrário, para desejarmos que sejam atirados aos corvos. Há empatia. Há identificação. Sobretudo, há realismo – e mesmo realidade.

A Literatura Fantástica se endereça a conflitos e problemas REAIS, conflitos com que lidamos em nosso cotidiano (ok, não enfrentamos bruxos das trevas nem orcs, nem temos de nos preocupar tanto com o inverno aqui em Terra Brasilis, mas enfim…) e problemas que permeiam nossa sociedade (dos gender issues de Brienne em As Crônicas de Gelo e Fogo à pobreza que Kvothe deve superar em As Crônicas do Matador do Rei – e, céus, sabemos muito bem quão pobre ele é, e somos lembrados disso por páginas e páginas e páginas e…). Até Mestre Tolkien, engajado que está em seu maniqueísmo preto e branco, fornece ao leitor sagazes reflexões de cunho ético. O Mundo Médio distópico de Stephen King em A Torre Negra oferece lições acerca das consequências de uma proliferação tecnológica cega, sem princípios-guias.

... e em Perdido Street Station, do aclamado escritor de urban fantasy China Miéville.

… e em Perdido Street Station, do aclamado escritor de urban fantasy China Miéville.

A fantasia bebe da realidade e aponta para ela. É um excelente instrumento de crítica das mazelas de nosso mundo. Por representar uma das mais puras expressões da criatividade humana, a fantasia provê inspiração para repensarmos o estado de coisas em que vivemos.

A barreira entre a fantasia e a realidade é fina tal qual a folha de um livro.


[1] Disponível em: http://terribleminds.com/ramble/2012/06/19/25-things-you-should-know-about-writing-fantasyzzz/. Acesso em 25 mar. 2013.

[2] Para saber mais sobre cada subgênero, dê uma checada na boa e velha (e às vezes confiável) Wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/Category:Fantasy_genres. Acesso em 25 mar. 2013.

[3] Conforme mencionada em CLUTE, John; GRANT, John (eds.). The encyclopedia of fantasy. Orbit, 1996, p. 810.

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4 respostas em “Sobre a Literatura Fantástica e a essência não essencial do blog

  1. Muito boa análise da palavra e suas implicações no cenário literário. Concordo que a “fantasia” acaba por externar, ou melhor, extrapolar sentimentos e situações reais. Parabéns!
    PS: Acho que seria melhor sintetizar um pouco o texto.

    • Muito obrigado pelo comentário, Naty! Tem razão, o post acabou ficando longo… É que me empolguei, acho. Tentarei ser mais breve nas postagens seguintes. Obrigado pelo feedback! 😉

  2. Olá, primeiro parabenizo pelo site e pela matéria, realmente muito bacana.
    And, gostaria de informar/pedir autorização, para citar seu blog em um artigo do Blog que faço parte que é o Pescaria(opescaria.blogspot.com.br), convido inclusive a conhecer!
    Enfim, estarei mencionando, disponibilizando link, deste site, no artigo que farei sobre Literatura Fantástica!
    Parabéns e Sucesso!

    • Obrigado! Fico feliz que tenha curtido.
      Claro, pode citar, sim. Não só permito a citação, mas também agradeço o interesse. 🙂
      Darei uma checada em seu blog.
      Abraço! o/

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