CONTO: Musgo fantasma

Musgo fantasma

(NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS)

Nënia-Cabelos-de-Musgo-Fantasma é conhecida como a feiticeira da cidade. Cruel com seus desafetos, apavorante para as crianças, caprichosa em suas revanches. Vivendo no casebre que outrora pertenceu a uma bruxa solitária e excêntrica, a moça guarda um passado tormentoso dentro de si. As provações que enfrentou fizeram dela a pessoa fria – “Forte e independente”, diria ela – que é hoje. Com efeito, Nënia se acha mais poderosa do que a velha que cuidou dela – e talvez o seja mesmo. Mas quando uma hóspede inesperada, indesejada, bate-lhe à porta, a moça acaba revivendo lembranças que preferia ter esquecido. Lembranças que podem levá-la a repensar suas escolhas e identidade. Ou que conduzirão ambas as mulheres – Nënia e sua hóspede maldita – à perdição: à morte de uma e ao perpétuo arrependimento da outra.

Os gritos lancinantes reverberavam feito cristal a espatifar-se, dentro daquela choupana que sempre guardara um silêncio ensurdecedor. Estalavam, açoitando o ar embolorado, pesado dos cheiros indecifráveis do que quer que contivessem aqueles baús e frascos. Ecoavam, agitando os corvos na gaiola, que crocitavam e debatiam as asas num frenesi de penas caídas. A dona deles achava bom que experimentassem a agonia; afinal, só estavam vivos ainda porque ela não precisava repreencher seus estoques de garras, bicos e olhos – todos ingredientes de propriedades valiosíssimas. E a nada mais se prestavam as aves. Não eram mensageiras, pois a mulher não tinha a quem desejasse escrever. Não eram companhia, pois a mulher preferia a solidão.

O único motivo para que gritos de gente (da tão odiosa gente!) estivessem, naquele momento, infernizando-lhe a vida, era que a velha a admoestara a jamais recusar uma batida à porta. Como a velha a antecedera naquele casebre, cuidara dela e a instruíra em tantos saberes, merecia algum crédito. A velha que ela chamara de senhora – que ela aprendera a chamar de senhora. Tão somente por ela e por seu conselho, convidara a estranha a adentrar. Não fora impelida pela cordialidade, pela misericórdia ou por outro espírito altruísta qualquer. A mulher sempre afirmara para si que desconhecia esses sentimentos ingênuos, e orgulhava-se disso.

E apenas um tremendo idiota teria, de bom grado, aberto o batente a alguém que choramingava de maneira tão deprimente! A alguém que, em troca da suposta gentileza da anfitriã, só ofertava uma gritaria endemoniada. Porque os berros continuavam, vindos do fundo do ventre, sangrando a garganta, rasgando as cordas vocais, torcendo a língua da jovem que se debulhava. Longos e ritmados, conferiam novo tom à penumbra mortiça do interior, enquanto faziam oscilar as flamas das inúmeras velas e da lareira, acesa pela mulher numa demonstração de hospitalidade nem um pouco genuína. Profundos, espantavam as almas que as crianças das cercanias, entre sussurros, comentavam habitar aos montes aquela casa.

A casa de Nënia. Nënia-Cabelos-de-Musgo-Fantasma, a feiticeira.

Ela gostava da alcunha. Servia-lhe bem. Seus cabelos, em geral negros, de fato rebrilhavam numa misteriosa cor de esmeralda, a depender de como a luz do Sol neles se refletisse. Mas assim era por um instante: era o mesmo tempo em que os olhos humanos captavam o verde metálico que reveste o dorso de certas moscas varejeiras, antes de sumirem num estalo. E havia quem associasse os insetos a Nënia, porém a má fama não a incomodava. Ela detestava, isto sim, entreouvir as pessoas alardeando essas e outras ofensas ao vento. Uma vez forçara um menino a urinar-se, pois o acaso (para ela) e a desfortuna (para ele) quiseram que o “Bruxa!” dele tivesse-lhe alcançado a audição. Em outra ocasião sufocara um rapaz por vários minutos ao compeli-lo a vomitar água sem parar, até sua língua secar – a fim de injetar-lhe tento. Absolutamente, ela não desgostava dos apelidos. Eles a envaideciam. Eram as pessoas, estas sim, que atraíam seu desagrado.

E, no entanto, era exatamente uma pessoa que então uivava em sua cama, expirando em torturantes golfadas como se à beira da morte, gemendo como se em pleno orgasmo. Porque os gritos perseveravam inabaláveis. A dor excruciante neles impressa apiedaria um coração mais terno. Mas o da mulher endurecera. “Amadureceu.” Exigência das circunstâncias. Já que, em dois trechos do pretérito, a própria Nënia lembrava-se de ter gritado para o mundo e para ninguém daquele jeito, se não mais alto (“E com mais razão”) do que sua hóspede. Para a anfitriã, os berros não passavam de barulho monótono, nem de longe comovente.

Contudo, por detrás das súplicas, Nënia adivinhava que existia felicidade – ou, ao menos, esperança de felicidade. Quando ela mesma tinha sentido algo similar?

*****

Mal podia recordar-se. A memória era distante, enevoada, e o momento durara o ínfimo lapso em que cinco palavras foram pronunciadas: “Vais encontrar teu destino, filha”. À época não compreendera a sentença, porque muito menina. Porém, justamente porque muito menina, insuflara-se com a alegria tola que apenas a genialidade infantil é capaz de produzir e reproduzir. Pois embora não devesse saber o significado do chamamento, ao ser tratada por “filha”, nenhum outro parecera mais apropriado a Nënia do que aquele. Na fugaz despedida, às margens limítrofes do vilarejo onde nascera, ela descobrira-se filha de alguém. Filha de sua mãe. Não da velha que depois viria a encarar como sua segunda senhora, e sim de sua primeira senhora. A verdadeira mãe.

É que, no povoado em que Nënia recebera a luz da vida, Nïce-Mör, os laços familiares eram repudiados e combatidos, porque fragmentavam o que precisava ser mantido uno: a Comunidade. Assim, tão logo os recém-nascidos ensaiavam a sôfrega respiração inicial, antes até de descerrarem as pálpebras, eram retirados dos braços de seus genitores. Ali, naquela cidadezinha de ruas ordenadas à perfeição e telhados sempre cobertos de neve, entranhada numa depressão envolta por um mar de morros, não havia pais nem filhos. Só a coletividade e seus descendentes. E cada geração era encarregada de perpetuar as tradições e conhecimentos do todo e, se calhasse, de contribuir para a cultura desse mesmo todo.

Os homens da fé contavam sobre o passado tão glorioso de Nïce-Mör, em que os tão magníficos e magnânimos deuses agraciaram os habitantes com a imortalidade. Os homens das letras, menos versados nas questões etéreas, dedicavam-se a orientar os discípulos nas artes e na filosofia, enaltecendo as maravilhas que mãos incansáveis podiam obrar e as verdades ocultas que espíritos eternos podiam desvendar. “Para além das barreiras do tempo, para além das barreiras do tempo!”, repetiam. E os homens dos astros prediziam com férrea convicção o porvir brilhante que Nïce-Mör tinha pela frente. Que os sinais, qualquer deles, apontavam para uma única e incontestável direção: Nïce-Mör estava predestinada à grandeza. E fora essa arrogância que levara a nação a isolar-se, a viver em si e para si. Um minúsculo povoado no meio do nada, com um ego maior do que o mundo.

*****

Agora, crescida em sua choupana (na choupana da velha), Nënia não guardava o mínimo interesse pela sorte de Nïce-Mör. Não lhe importava se as coisas tinham ou não avançado consoante profetizavam. Não estava saudosa nem nostálgica do vilarejo. Mas em seu peito brotava calor pela reminiscência daquela tarde invernal.

*****

“Vais encontrar teu destino, filha.”

À ocasião sua cabeça de menina refletira que, talvez, ela também dispusesse de um destino, não só Nïce-Mör. E regozijara-se, pois nunca entendera o conceito de que a Comunidade destinava-se a um futuro predeterminado, porém que ela, Nënia, fosse destinada a algo fazia um tanto de sentido.

Sobretudo, regozijara-se porque reparara na semelhança: a mulher que se dissera sua mãe tinha os mesmos cabelos que ela, os mesmos fios quase-sempre-pretos-mas-às-vezes-cor-de-esmeralda. Naquele solitário instante, houvera cumplicidade e intimidade; ao passo que, no curso de anos de vivência em Nïce-Mör, ela jamais se identificara com o coletivo abstrato que lhe mandavam integrar. Sorrira para a mãe então. E partira para não retornar. Hoje, Nënia achava curioso que o gesto máximo de amor de seus pais consistira em abandoná-la, liberando-a das amarras da Comunidade. Não pudera agradecer-lhes o tanto devido. Era engraçado que, apesar de nunca terem desfrutado da oportunidade de ser pais – porquanto desde cedo privados do contato com a filha –, nunca deixaram de imaginar-se como pais. E, quando Nënia completara oito anos, eles a procuraram e, como os verdadeiros pais que eram, a aconselharam: “Vais encontrar teu destino, filha”.

*****

Os gritos incessantes da rapariga interromperam a meditação da feiticeira. Com a voz mais gentil que se atreveu a emitir, Nënia pediu-lhe que se esforçasse. O trabalho ainda não terminara. Sentiu frio, embora conservasse as cortinas fechadas, e elas de tão antigas e sujas confundiam-se com as paredes escuras atrás. Jogou parte de sua lenha mais preciosa à lareira, e a fragrância do sândalo encheu o aposento. Queria acalmar os nervos da histérica e de si mesma. Revoltava-se consigo, porque o coração parecia-lhe amolecer. A jovem não merecia sua compaixão.

Bem, ao menos o enregelar se fora…

*****

Naquela vez o frio igualmente desvanecera, mas naquela vez isso era péssimo. Então ela somava já dois dias marchando sobre a neve e, nessas condições, parar de sentir o frio constitui prenúncio da morte. Porém à época ela nem desconfiava disso. Apenas se pegara sonolenta, com a mente leve, a matutar sobre onde teria se escondido seu destino. Daí, talvez por falta de bom senso – ou talvez porque a presença de senso, seja ele bom, seja mau, simplesmente não importuna as crianças –, apercebera-se de súbito das baforadas que se condensavam diante de seu nariz. Os sopros de vapor provinham da respiração dela, era lógico. Não era algo para causar espanto a ninguém, mas ainda assim a fascinara aquele ar espesso e fantasmático que ela própria exalava. Era como se estivesse a manipular o vento.

Divertira-se assoprando e assoprando em sequência, alheia aos dedos e orelhas que congelavam. Quando a nevasca começara, pensara que ela mesma tinha sido a responsável, e fora esse o motivo de ter-se metido a bafejar com maior vigor. Porque, se seu domínio sobre o vapor e a neve desencadeara a tempestade, talvez insistir no ritual acabasse permitindo a Nënia controlá-la e estancá-la. O raciocínio não devia convencer o mais ignorante dos Pensantes, mas naquelas circunstâncias Nënia teria, sem hesitar, restado convencida da mais absurda das tolices.

E eis que, ao quedar-se sem fôlego, sua visão tornara-se menos turva, enquanto a centrífuga esbranquiçada insinuava arrefecer-se. Tudo num ponto específico do cenário. Numa reta. Num trajeto que se abria, a dividir a cortina gelada. E ao longo desse caminho os flocos de neve bailavam desacelerados, como folhas tragadas por leve brisa, alguns se pondo até a derreter no meio do voo. Nënia cambaleara pelo túnel de placidez, a nevasca rugindo impassível no entorno dele. Ao voltar-se para trás de relance, ela notara que o campo de proteção desfazia-se à medida que prosseguia. Ao final avistara, dentro de uma aconchegante alcova rochosa guarnecida contra o temporal, um senhor enfurnado em peles, assando peixes junto a uma fogueira. Ele a guiara até ali. E a convidara a sentar-se e comer com ele.

Com jeito desconfiado, mordiscara a carne tostada fitando o homem demoradamente. No fim devorara o peixe por inteiro, a fome não ligava para um assunto demasiado filosófico como a desconfiança. E havia algo além. Ela pressentia um porte acolhedor emanando do estranho. Decerto não era a fogueira. Era mais. Nunca lhe avisaram que alguém podia esbanjar um porte tão acolhedor! Mesmo o alimento que ingerira providenciara-lhe surpreendente candura interna. E quando os lábios do homem, tão finos e pálidos que semelhavam uma ruga entre tantas outras cavadas na face, entreabriram-se, ela não se desnorteara com a pergunta, pois tinha a resposta pronta.

– Estou à procura de meu destino! – exclamara resoluta.

– E o achaste?

Ela fizera que não, esboçando uma máscara de desafio.

– E se eu dissesse que talvez não tenhas um destino, pequena?

– Eu diria que estás enganado, senhor! Que minha mãe falou-me o contrário.

No velho encrespara-se um sorriso, a repuxar-lhe todos os sulcos da pele.

– Digo que tua mãe tem razão. E se eu dissesse que sei qual é teu destino?

– Diria para contar-me, e contar-me já! Senhor.

– Então eu diria que teu destino é buscar teu destino. E embora talvez tu jamais o encontres, na verdade estarás sempre a segui-lo, sem perder o rastro.

Ela fizera que sim. Não porque compreendera o ridículo jogo de palavras, mas porque compreendera um pouco do significado por detrás delas. Concluíra a partir do que escutara: podia fazer o que bem desejasse. Sim, podia. Diferente de quando vivera em Nïce-Mör, quando só fazia o que lhe ordenassem.

– Quero aprender a apaziguar a tempestade, como fizeste. Ensina-me.

O homem matutara – fingira matutar. É que, conforme explicaria a Nënia posteriormente, ele não tinha mais papel naquela parte da história do tempo. Era apenas um espectador. Todavia não pretendia ser esquecido e, para tanto, elegera Nënia para encarnar a portadora de seu legado. A menina não se preocupara com os motivos dele nem com esse e inúmeros outros enigmas – nem sequer após virar mulher. Contentara-se com o “De acordo” dele.

E partiram para o sul, onde se espalhavam mais povoados, mas o clima não era menos inóspito. Na vasta tundra, ele combinara com ela de, a cada dia, encontrarem-se sob o Sol a pino na margem norte de um lago cinzento. No resto do tempo, porém, Nënia que se virasse para sobreviver. Nesse ínterim aprendera a vasculhar ninhos atrás de ovos; a silenciar os passos e dissimular a presença para capturar coelhos; a esgueirar-se casas adentro para furtar comida e roupas. E a menina crescera selvagem. Crescera independente. Crescera.

E, a cada meio-dia, exatamente consoante ajustaram, o velho passara a instruí-la nos princípios daquilo que as pessoas em geral denominavam magia (ou feitiçaria ou bruxaria) e que ele, entretanto, chamava de arte. Nënia viera a conhecer a existência da mana, a teia-fluxo invisível que interconectava tudo o que era vivo. Porque tudo – não somente os Pensantes e os não pensantes –, tudo possuía seu bocado de vida. A terra, a rocha, o ar, a bruma, o fogo, a luz, a água, a neve. Tudo. Mas o homem a alertara:

– Para alguém desta época, tudo é ambição demais. Façamos como fazem hoje: repartamos para facilitar as coisas. Querias aprender a apaziguar a tempestade, pequena? Hei de ensiná-la a conduzir a água, portanto.

Nënia não tinha ideia de que em sua época os magos “facilitavam as coisas”. Nem sabia que, no antanho, houvera outras teorias e outras práticas, ambas mais complexas. Não inquirira (nunca inquiriria) o mestre a respeito, pois essas questões não lhe interessavam. Só replicara, exalando impaciência juvenil:

– Sim, ensina-me a dominar a água!

Daí o sobrecenho do velho caíra. Um labirinto de rugas brotara-lhe na testa. Entre a fúria e a tristeza, ele grunhira:

– Nada de domínio.

Torcer, dobrar, vergar, puxar, empurrar, manipular, controlar, dominar – todos eram verbos inadequados. O correto era guiar. Conduzir. Canalizar. Acontecera que, a certa altura de sua trajetória, a arte que o homem tanto amava desandara. Transformara-se em ferramenta, que se transformara em arma. Bem, na verdade, o mais acurado seria falar que as pessoas desandaram. Esqueceram-se de que não lhes era lícito, de que simplesmente não podiam controlar nada do que era vivo – justamente porque vivo e, logo, insubmisso. Ousá-lo resultava em arrogância demasiada. Era errado que a vontade de um sufocasse a vontade de outro, ainda que esse outro fosse a água.

Eis a primeira lição de Nënia, que assentira, mais para pacificar o ânimo do mestre do que por realmente concordar com suas palavras. Afinal, não estava ele a controlá-la em alguma medida? Sendo mestre, não exercia autoridade sobre sua discípula? Não. Mais tarde, Nënia perceberia que ele jamais tentara domar-lhe a vontade. Ele não comandava. Tampouco ela obedecia: era ela quem, genuinamente e sempre, ansiava por ouvi-lo palestrar, ficar com ele, tê-lo por perto.

A segunda lição fora o como. Como orientar a água a tomar rumo diverso do natural – isto é, o rumo que observava o senso da teia-fluxo de mana? Como, aliás, discernir esse senso original, se a mana escapa aos olhos, ouvidos, língua, faro e tato? Como experimentar algo que, para os cinco sentidos, é incompreensível? Como enxergar a sombra do vento, sopesar os raios do Sol, alisar a densidade da flama, emprestar a energia contida na pedra? – Não dá. – O homem admitira a Nënia que era impossível sentir a mana, porque ela transcendia qualquer grandeza familiar. Em contrapartida, pressenti-la… – É alcançável. – Bastava concentração. Inquebrantável concentração, que demandava, sobretudo, um espírito serenado por parte do mago-artista. E para serenar um espírito, urgia livrá-lo de todos seus conflitos.

– Nada de reprimi-los! Nada de esconder os conflitos sob ou para além do véu da consciência, como fazem uns orientais contemporâneos teus, quando recorrem aos artifícios do mantra, da droga e do sono. Para atingir a harmonia verdadeira, pequena, deves resolver cada conflito que guardas em ti. Supera-os todos. Ou então os decifra, para aceitá-los.

Durante meses que perfizeram anos, Nënia esmerou-se em refletir sobre toda e cada minúcia que lhe perturbava os recantos mais escuros do âmago, destrinchando-as uma a uma. Consigo mesma não tinha contas a acertar: até então nunca vislumbrara necessidade de mentir, por isso nunca enfrentara dilemas quanto a quem era ou quem deixava de ser. Sabia bem de si. Sabia bem o que almejava para si. Já no trato com os outros mudara de comportamento para expiar um miserável grão de culpa que a atormentava: parara de roubar aos humildes, voltando seus esforços na direção dos abastados e de ninguém mais. Ainda, por vezes sem número repassara na mente aquele singular momento em que se despedira dos pais. Fora aí que, com efeito, entendera as razões deles. E os perdoara. E chorara de saudade até satisfazer-se.

O único equilíbrio que não lograra conquistar fora o terceiro: o relacionado ao meio, à vida no mais primevo dos estados. Värtae. A natureza. O todo. Pois o longo período de meditação imbuíra Nënia de autodisciplina suficiente para conseguir pressentir a mana: tão logo descobrira como fazê-lo e repetira o feito dois ou três turnos, tornara-se fácil como inspirar e expirar. Em consequência a discípula supunha não precisar seguir adiante naquela trilha excêntrica. Já obtivera o que queria: o básico; o resto era puro ornamento, abstração sem finalidade, perda de tempo. E de fato o terceiro dos equilíbrios aparentava-se inútil e inócuo.

Inútil porque já se conhecia o essencial. Nënia aprendera que, para manipular-guiar a água, devia utilizar a teia-fluxo de mana que habitava o próprio corpo e vinculá-la à mana exterior, permanecendo a conexão enquanto perdurasse sua concentração. Eis o princípio da magia-arte. Desse modo era possível tocar a sombra do vento, a energia da pedra e as demais metáforas. Mas o ponto crucial era que, ao fim e ao cabo, o conduzir e o canalizar revelavam-se meras palavras, cedendo lugar, nos atos, ao torcer-dobrar-vergar-puxar-empurrar. Ao fim e ao cabo, o mago (pretenso artista) portava-se como um titereiro a manusear os fios de suas marionetes; inclusive, em suas performances, tanto um quanto o outro moviam os dedos, as mãos e os braços de maneira similar… Se Nënia já se sagrara dominadora da água, por que tentar convencer-se do contrário? Por que insistir numa filosofia vã de que seu domínio, apesar de patente, não consistia exatamente em domínio? Por quê? Por nada. Para nada. Inutilidade, aí estava.

Também era inócuo o terceiro equilíbrio, porque se limitava ao plano das intenções. E uma intenção pode restar encerrada para sempre no interior de alguém, trancada, sem jamais extravasar para fora, em atitudes que lhe correspondam. Para manter intacta a harmonia com Värtae, bastava ao mago-artista nutrir a firme resolução de não lhe sufocar a vontade. E se era bastante uma simples resolução ou intenção, não existia complicação alguma, pois uma simples intenção, para os olhos de outrem – até para os olhos do mestre de Nënia –, bem podia ser forjada. E fora então que a aprendiz começara a mentir. E a decair. Afirmava à exaustão estar a todo instante se contendo, evitando subjugar a água, a mana, a vida do mundo. Enquanto, lá no fundo, pensava-se poderosa e gostava do novo poder. E de exercê-lo.

E o homem dera a impressão de acreditar na encenação de Nënia, visto que jamais a contestara. Se tivesse desconfiado de algo, certamente a teria repreendido, e não prosseguido com o treinamento até as últimas, como fizera. Não a teria instigado com doçura em cada etapa… No entanto assim procedera. Ele a ensinara a erguer, da superfície da água, filetes e chicotes e torres; e depois a desmanchá-los. Ensinara-a a pôr o manso lago cinzento a girar e espiralar, para criar um redemoinho; e depois a interrompê-lo. Tudo no intuito de restaurar as circunstâncias pretéritas.

A magia-arte exigia sempre essa sequência de moldar e desfazer (de orientar e reorientar), a fim de prevenir que se rompesse a teia-fluxo de mana e sobreviessem desastres. Fora por isso que, quando Nënia condensara a umidade do pântano de sorte a produzir névoa, tivera de dissipá-la. Quando invocara a chuva, tivera de fazê-la cessar. Quando empurrara a cachoeira para cima, tivera de puxá-la para baixo. E quando, enfim, apaziguara trechos de uma nevasca a norte dali, tivera de atiçá-los novamente.

E em todos os testes o mestre a aprovara com um sorriso. A discípula o iludira até o término das lições. Ou talvez…

– Serás Nënia doravante – batizara-a no final. É que, até aquela ocasião, Nënia não fora Nënia. Para o homem, fora “pequena” durante os vinte anos em que ela encarnara sua aprendiz. E em Nïce-Mör não fora ninguém em especial, que somente os grandes e afamados tinham nome no vilarejo. Eles e o próprio vilarejo, Nïce-Mör, o berço da Comunidade; além deles, ninguém mais era importante ao ponto de receber um nome que o distinguisse, que o transformasse em alguém.

À época a mulher ficara feliz com o batismo: o nome caía-lhe imensamente bem. Era perfeito! Pois Nënia significava “nuvem” na Língua Antiga. E nenhum outro título seria mais apropriado a uma senhora das águas. Era só que talvez, talvez… Não o percebera então, talvez porque o excesso de alegria tivesse-lhe envenenado a capacidade de julgamento. Não notara o que hoje enxergava com clareza: uma nuvem é traiçoeira (“Como eu”), de súbito podendo passar do rosado que pincela o entardecer ao negro que troveja e desaba em tempestade. Teria o mestre a acusado de mentirosa? “Talvez.” E se assim agira, era muito provável que ela nunca o tivesse enganado. Sim, ponderando agora, ele sem dúvida sabia da fome de poder dela.

A propósito, na oportunidade o homem lhe contara denominar-se Äbion, que equivalia a “lobo” na Língua Antiga. O esquisito era que tudo nele – a aparência frágil, a voz esganiçada, a tremedeira nos gestos –, tudo sugeria ser ele tão antigo quanto a Língua Antiga. O que implicava que, no ínterim de um passado longínquo, quando em vigor a Língua (que no antanho não era) Antiga, trataram-no por Äbion tendo na mente, frescas, a palavra e a imagem da criatura lobo. Seria o mesmo que, hoje, chamarem a Nënia de Nuvem ou a ele de Lobo. Lobo, ele?! Ele que em nada lembrava um lobo – exceto pelo monte de peles a proteger-lhe os membros rangentes.

Bem, não importava. O que importava era que, se Nënia não lograra iludir o mestre, logo se justificavam a fala e o tom indiferentes dele, quando ela anunciara que iria participar da guerra, com o fito de lapidar as habilidades:

– Vais – dera de ombros. – É onde nos separamos, pequena. Nënia.

Äbion já devia esperar isso dela. Daí não ter demonstrado espanto nem explodido em fúria. Naquele tempo Nënia simplesmente partira rumo às batalhas, pois era o que desejava. Sem adeus. Sem remorso. Agora, todavia, uma pontada de desgosto emergiu. Porque, agora, ela reconhecia ter enganado o mestre. Ou tentado. Que ele sabia… Sempre soubera. O pior de tudo era que ele sempre soubera…

*****

Não.

O pior de tudo eram os gritos. A jovem (a maldita jovem!) não se calava. Não. O pior de tudo mesmo era o sangue! Decerto pouco sangue, pouquíssimo. Mas ele manchara a cama de Nënia – a única cama à disposição na casa e que a anfitriã, num surto de idiotice, oferecera à hóspede. E ela maculara o lençol. Sangrara nele! E Nënia abominava o sangue. Desde a guerra…

*****

Não exatamente desde a guerra. Pois, enquanto as batalhas duraram para ela, a maga não se ferira, não derramara uma gota de seu precioso sangue. Em contraste, no entorno, cada palmo de terra já absorvera sua quota de vidas, e o cheiro do ferro e o pó empestavam cada trago de ar. Nënia habituara-se depressa aos horrores da guerra, já que era o requisito para expor à prova sua própria força. Com sua magia, enviara navios inimigos para as profundezas do mar. E camuflara os aliados em brumas, para que de surpresa saraivassem os adversários. E, no inverno, quando se estabelecera a trégua conforme recomendava o costume, ela invocara a tormenta de gelo sobre as cabeças daqueles que remoíam as feridas e pranteavam os mortos.

Não o fizera por ódio nem por compactuar com os objetivos do lado que escolhera. Na verdade, talvez no início a guerra tivesse feito um tanto de sentido para uns e outros: talvez lhes tivesse fornecido algo por que lutar. Mas, no curso dela, perdera-se qualquer sentido, sobrando apenas a dor. E o pó. E o sangue. E, para Nënia, um pretexto para exercitar seus poderes. Afinal se convencera de que não precisava da retórica tola de Äbion, com suas baboseiras sobre retidão espiritual e harmonia frente ao mundo.

Até ser capturada… e não se deparar com nenhuma piedade. Porque ela representava o nefasto inimigo, arauto do mal e destruidor de famílias e lares. Mais do que isso: porque ela engajara-se na refrega como mercenária, e os militares execravam mercenários, covardes e torpes. Sobretudo, porque ela era ela, não ele: uma mulher que resolvera exercer ofício de homem. Fora aí que se pegara aprendendo a abominar o sangue: quando o sentira acumular-se, esmagado, sob seus hematomas; quando o provara, salgado, após os tapas; e quando o entrevira fluir, livre, de seus cortes. Os carcereiros a espancaram. Muito. Hoje não lembrava ao certo se pedira ou não misericórdia. Achava que não, não fazia seu estilo.

Entretanto recordava-se de toda lâmina, de todo soco e pontapé e de toda injúria. E do desconforto de sua jaula. Pois as grades onde a trancafiaram não mereciam qualificação diversa. No topo, convergiam em curva na direção de um ponto central e, embaixo, encerravam um espaço pequeno demais para uma pessoa de tamanho mediano. Dentro do cárcere, Nënia não conseguia sentar-se de pernas esticadas nem ficar totalmente de pé; por causa dele, mais tarde viria a temer lugares apertados. E houvera mais. Houvera o tipo mais degradante de violência: o tipo que atacava corpo e alma igualmente. Provendo-lhe pão e cerveja para subsisti-la, seus cinco captores a violaram dias e noites a fio. E a danação fora que, no limiar de cada ato, Nënia experimentara uma sensação bisonhamente próxima do prazer – e odiara-se por isso. Ah, só as ratazanas daquele inferno tinham real noção de quanto ela se odiara!

Nem sequer se esquecera do frio. O traje de couro já arrancado havia tempo, a seda por baixo desfeita em farrapos, dessa vez Nënia apercebera-se do frio. Diferente da nevasca que confrontara quando menina, dessa vez o frio era bem-vindo. Acariciara-lhe a pele. Anestesiara-lhe os machucados. Nele, a aprendiz que se julgava maga reencontrara a paz de que o velho Äbion não se cansava de falar. E, à luz do que sofrera, ela compreendera o repúdio do mestre a qualquer forma de domínio. Subjugar a vontade de outrem era cruel. Definitivamente. Porém, para escapar dali, necessitava controlar de novo. Necessitava torcer. Dobrar. Vergar. Puxar. Empurrar. Manipular. Äbion a perdoaria. Porque não existia saída alternativa.

Numa madrugada sem Lua, no turno do terceiro homem a estuprá-la, Nënia focara-se no frio para imergir na concentração absoluta. Fechara as pálpebras. Relaxara os músculos. Afastara-se da dor e do prazer. E pressentira a mana perto de si. Tão perto. Demasiado perto. Era óbvio: a mana circulava no interior daquele que a penetrava. No sangue dele! O mestre comentara que o sangue consistia na melhor analogia física para a mana: esta uma teia-fluxo intangível, aquele uma teia-fluxo pulsante. Ora, e o sangue era água! Nënia alisara os ombros do sujeito com as mãos, para vincular sua própria mana à dele. Depois pressionara os dedos em pontos específicos de suas costas, como se o massageasse. Com o suave toque, transtornara-lhe o ritmo e o trajeto sanguíneos. E eis que, de repente, sangue vazara-lhe da boca, das narinas e das orelhas. E ele desabara sobre ela, sem vida.

Os demais homens recuaram, clamando “Bruxa!” e “Feitiçaria!”. Mas não fizeram nada além de latir, o medo estampado nas faces. Nënia sorrira e avançara. Estava exausta, já que desviar a rota do sangue – contra o coração sempre a bater – talvez demandasse tanto esforço mental quanto reverter a queda da cachoeira. Ou talvez estivesse só abatida, devido às provações que enfrentara. No entanto a maga não dera mostras de fraqueza. E teria fugido sozinha… não tivesse ele interferido. Ele, o capitão dos sujeitos. Capitão Paetros, o (tão insuportavelmente) nobre cavaleiro que não tolerava práticas vis por parte de seus subordinados. O capitão Paetros que, posteriormente, viria a ser condecorado general, por seu caráter e por sua habilidade. Naquela noite ele decidira libertar todos os prisioneiros de guerra, pois a guerra findara. E, graças a uma tremenda coincidência, ele chegara à cela de Nënia justamente naquele momento. Estarrecido diante da cena, possesso de fúria, ameaçara degolar um de seus homens, mas parara a espada a tempo e, no fim, apenas o escorraçara dali e também a seus companheiros.

Nënia não precisava do capitão. Nem de seu aço. Nem de seus galanteios! Era claro que, caso ele não tivesse aparecido, ela teria sido forçada a marchar descalça e nua em meio à neve lá fora. Ao menos ele arranjara roupas e sapatos para ela. Ocultara-a por sob um capuz e a acompanhara até a cidade dele. A cidade dos inimigos dela. Ou dos inimigos de seus aliados ao longo das batalhas – mas esse detalhe pouco importaria se alguém lhe reconhecesse a identidade… O fato era que ela escolhera um lado e, contudo, encontrava-se então no lado oposto. Por esse (e outro) motivo o tão atencioso capitão Paetros a apresentara à velha, que tinha má fama, porém não era má pessoa. Naquela choupana a maga não despertaria suspeita alguma, porque a velha era considerada estranha o bastante para arrebanhar todas as suspeitas em torno de si mesma. Ali, Nënia estaria a salvo. O capitão partira logo após.

A segunda razão de ele tê-la trazido ao casebre revelara-se no correr de meses: Nënia engravidara. Mas a velha era conhecedora das ervas adequadas – por sorte. Por sorte ou pela previdência do capitão, que pensara em tudo, ao que parecia… As poções da velha fizeram a maga perder o filho, consumando, assim, a vontade da própria mãe. Porque a criança não lhe pertencia de todo. E não era desejada. Nënia não teria cuidado dela nem pretendia fazê-lo… Não obstante, depois do acontecido, ela chorara às escondidas por várias horas sob as estrelas, lamentando a perda. Nunca entendera o porquê. Nessas ocasiões, a velha a confortara.

*****

Em contraposição a jovem a irritava! Os gritos a irritavam. E não cessavam. Persistiram até o bebê sair, quando então foram substituídos pelo berreiro característico. A mulher limpou o recém-nascido e o entregou à mãe. Sentiu um calafrio. E sentiu orgulho. Afinal, se entre tantas parteiras na cidade a jovem recorrera a ela, significava que confiava em sua perícia. A perícia que ela herdara da velha. Ao notar-se contemplando a mãe a amamentar o filho, piscou em sequência. E rapidamente voltou os olhos para o chão. Mais cedo ou mais tarde, teria de expulsar a chorona de sua casa – isso era certo. Pois ela a incomodava profundamente. Vê-la embalando a criança deixava Nënia… feliz? “Não!”, revoltou-se. “Ridículo…”

Suspirou.

Sim, talvez seu coração estivesse realmente amolecendo.

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