CONTO: Meu adversário

Meu adversário

Meu adversário vestia couro, assim como eu. Não. Melhor dizendo: minha adversária. Era ela quem empunhava a espada, quem trançara os longos fios negros até a ponta, quem se revestira da malha que se ajustava a cada curva de sua silhueta, quem abotoara o corselete deixando parte do busto intencionalmente à mostra. Era ela a garota que ostentava no rosto o sorrisinho antecipado de vitória, tão arrogante, tão insuportavelmente irritante.

Aquele sempre fora um riso meu, trejeito involuntário a revelar-me a autoconfiança. Porque eu era bom, e quando se é bom a prepotência é justificável, não é? Quando se é o melhor não há espaço para falsa modéstia, certo? E eu era, de verdade, o melhor que conhecia. Nunca perdera um duelo… exceto para o Mestre, mas ela não precisava saber disso, ela… Quem raios ela era, afinal? Quem julgava ser para esboçar aquele sorriso sereno, que em sua face lembrava tanto um esforço patético de divertir-se com uma piada sem graça.

Jamais ouvira falar dela. A garota brotara de lugar nenhum e, no entanto… no entanto eu descobrira que encarnava a favorita do Mestre. Como era possível?! Como ele podia preferir uma recém-chegada a mim, seu discípulo desde quando mal conseguia erguer do chão um sabre de treino? O que havia de tão especial nela? O Mestre contara-me que ela era uma retoricista, que dispunha de uma lábia invejável, e por isso mesmo a recrutara para sua guarda pessoal. Heh, grande coisa! “Na guerra as palavras só alcançam os ouvidos de moucos e loucos, pois o coração só é alvo de lanças”, ensinara-me o Mestre uma vez. Não fazia sentido que ele a houvesse escolhido…

Ah, mas não importava.

Nada, nada importava!

Eu venceria. Derrotá-la-ia e reclamaria meu lugar de direito!

Sim, decerto.

Mas então por que eu suava feito um moribundo na fogueira? Por que sentia o sangue pulsar fervilhante em meus dedos oleados, tão pouco firmes em torno do cabo da arma? Por que eu respirava pela boca? E por que minha garganta estava seca que nem a de um enfermo?

E eis que em menos de duas batidas cardíacas ela partiu para cima, furtando-me a iniciativa qual ave de rapina – a iniciativa que sempre fora minha, minha e de ninguém mais. Pois, reconhecia, eu era impaciente e orgulhoso, sempre buscava desferir o golpe inicial. Se ela conquistara a façanha de pegar-me de guarda baixa, ou era mais impaciente que eu, ou mais obstinada. Ou era simplesmente… melhor espadachim?

Não!

Ridículo!

Dama nenhuma era dada à esgrima, o porte feminino não era talhado para refregas tão exaustivas. Sem dúvida o problema estava em mim. Sim, era evidente! Eu estava hesitando em minhas estocadas, já que era a primeira vez em que manejava aço. Aço real, frio e afiado, capaz de dilacerar e matar. Não passava de um reles iniciante nesse baile macabro. Talvez se eu corrigisse a postura, firmasse mais as mãos, insuflasse mais o peito, me fizesse mais resoluto…

Mas a donzela metida à guerreira não me cedia chance, não abria brechas. Sua espada ziguezagueava como o relâmpago, picava como a víbora, ceifava a névoa matutina de lá para cá e de volta outra vez e de norte a sul e de leste a oeste, percorrendo toda a rosa dos ventos, pendulando graciosamente como um leque. Nossos clangues e bléins ecoavam pelo vale adormecido, antes de o sino anunciar a aurora.

Depois de vinte ou trinta minutos meus braços eram apenas dor e lamento. Meu raciocínio anuviava-se, ao passo que ela… (ah, ela!) ela não demonstrava o menor sinal de cansaço! Seria muito mais experiente que eu? Certamente não devia contar um ano a mais do que meus dezesseis… Relanceei-lhe o semblante agora duro feito pedra, os olhos de caçadora fitando-me com seu azulado fantasmático; mirei-lhe os pés que gingavam acurados, a trança que no mesmo ritmo balançava elegante entre as pernas, os seios rígidos… Não! Nada de luxúria, ao menos por enquanto. Devia concentrar-me… A trança! Sim, o ondear hipnótico da trança talvez me pudesse sugerir os próximos movimentos dela.

Os cabelos pendiam à direita enquanto a garota deslizava para a esquerda, demorando-se inertes por um momento, mal ela deslocava-se para o lado oposto. E a seguir levitavam mais e mais nessa direção quando ela mantinha o percurso. E depois novamente estacavam, respondendo a uma súbita mudança de rumo. Para a esquerda foram… e pararam: ela atacaria também pela esquerda!

E atacou.

Como eu já esperava. Sendo ela destra, o arco que seu corte descreveria era óbvio. Eu venceria com certeza. Antecipei-me à investida saltando à direita. A brecha abriu-se para mim como flor desabrochando. Umedeci os beiços, elevei a espada com ambas as mãos e…

Decepei-lhe poucos fios negros e a linha que lhe amarrava a trança!

Porque a desgraçada abaixara-se no átimo, prevendo meu intento; a trança flutuara no ar por ínfimos segundos, o bastante para ser vítima de minha lâmina, e as mechas trevosas da moça, libertas, cascatearam-lhe ao redor. Sem sequer um suspiro ela rodopiou ainda agachada e, na sequência, esgueirou-se que nem seda para trás de mim. Eu não teria tempo para virar-me. Minha única alternativa de bloqueio consistia numa manobra desajeitada, em que teria de contorcer os braços a fim de, sem girar, cobrir-me a retaguarda com a espada, segurando-a com a solidez de um bastião, à espera do impacto. Porém antes eu precisava levantá-la por sobre o ombro.

E a garota bem o sabia. Daí que, em vez de retalhar-me covardemente as costas, impulsionou-se do solo alvejando não a mim, mas meu aço, que alçou voo ao som do maior clangor produzido naquele dia – mais retumbante que o beijo do martelo à forja do ferreiro, mais estridente que corda de alaúde se partindo, mais seco e solitário que rachadura no gelo. E enquanto isso eu, estonteado, meio surdo e desequilibrado, quedei para trás desarmado. Provei da poeira.

Caíra.

Perdera.

Todavia não podia aceitá-lo. Recusava-me a fazê-lo.

De sorte que, quando a garota avançou por entre minhas pernas esparramadas, aproximando-se com a espada apontada para minha face, prestes a render-me e sagrar-se campeã, dei-lhe uma rasteira, prensando-lhe os tornozelos com os meus. Desprevenida, derrubei-a com facilidade, mas durante sua queda – a partir da posição humilhante em que eu jazia e para meu horror – vislumbrei-a projetar o joelho na direção de meus testículos.

Um bramido de agonia lancinante proveio em réplica ao choque que, contudo, não se consumara. Pois no último instante ela desviou a joelhada para a terra entre minhas coxas. Talvez por misericórdia. Talvez somente para brincar comigo. Após aparar o tombo com os braços, o corpo dela assomando sobre o meu, lançou-me um sorriso enigmático de raposa:

– Você berra feito uma menininha. – O hálito dela foi como um banho quente.

Meu coração batia frenético, descompassado em razão do susto. Ou então era o dela, porque eu estava mais do que consciente de seus seios em contato com meu peito. Nossos corações palpitavam em uníssono? Ou um se alternava ao outro? O nariz dela distava milímetros do meu. Os cabelos roçavam meu pescoço, exalando o perfume indistinto da relva depois da chuva. Os olhos faiscavam mais vastos e mais azuis que o céu a clarear lá em cima. Não pude conter a ereção, só torci para que as duas camadas de couro que separavam minha pele da dela impedissem-na de perceber qualquer calombo. Se bem que talvez ela gostasse, pensei – e suponho ter enrubescido diante do pensamento, e como que para disfarçar o embaraço perguntei:

– Por que… me poupou?

E de repente novo riso (e ela tinha tantos!) desenhou-se em seus lábios, agora divertido e encantador, fazendo criar covinhas em seu rosto moreno e fino.

Ela pôs-se de pé e estendeu a mão para içar-me do chão. Toquei-a: a palma era surpreendentemente aveludada – aveludada demais para uma guerreira (sim, que então eu já a considerava uma guerreira, como ela bem merecia).

– Ora, seria cruel privar da virilidade um rapaz que ainda nem a usou – respondeu-me risonha.

Fechei a cara. Não era verdade o que ela dissera: eu não era assim tão novato nesse campo… Mas a garota não terminara:

– Foi uma ameaça. Não pretendia aleijá-lo, apenas dar-lhe uma lição. Por causa da rasteira, golpe vil e ignóbil. Você é discípulo do Mestre tanto quanto eu; portanto deve estar ciente de que a traição jamais conduz à glória.

Fechei mais a cara. Ela estava correta, pois sim. E ainda não acabara:

– E foi uma… compensação. Pelo duelo. Pelo duelo que sempre desejei. Até hoje todos os homens que enfrentei trataram-me como a uma princesa ou cortesã, algo que não sou nem quero ser. Uns pegavam leve nas justas e, quando perdiam (ah, e eles sempre perdiam!), retrucavam: “Finda está a brincadeira, minha dama. Vamos para a cama, sim?”. E outros me negavam a legítima vitória, alardeando aos quatro cantos que somente tinham perdido por terem me deixado ganhar, mesmo eu sabendo que eles tinham decidido lutar para valer. Covardes todos eram, porquanto nenhum me enxergou como igual em habilidade.

Sim, ela tinha jeito com as palavras! Porém eu não compreendia exatamente os motivos que a levaram a contar-me tudo aquilo. Nada da história parecia ter a ver com qualquer coisa. Bem, uma parte de seu discurso eu consegui captar: talvez a princípio eu realmente a houvesse encarado como uma garota – mas não só, nunca tão só como uma garota. Antes disso e, sobretudo, ela era meu adversário. Ou minha adversária. Eu só queria vencer. E deveria ter vencido!

– Eu só queria vencer – balbuciei.

– Exatamente. E assim me respeitou – ela sorriu. – Só não lhe agradeço porque não vejo ensejo para tanto. Gostei de você! Duelaremos de novo, certo? – e foi-se.

– Eu nunca tinha perdido! Era o melhor de todos! – gritei-lhe no encalço, provocante, não mais enraivecido nem amuado.

– Até agora! – ela gritou-me em retorno.

Eu ri. Estava eufórico e escutava o badalo do sino, mas o vale não despertara ainda. Talvez fossem apenas os bléins e clangues a repicar em minha mente. Ou talvez não.

– EI, QUAL É O SEU NOME? – lembrei-me de perguntar.

Longe, já perto das casinhas que compunham o vilarejo de Hauranärgen-Väl, ela respondeu-me:

– DIR-LHE-EI QUANDO ME VENCER! – E deu-me as costas em definitivo, afastando-se num bamboleio sensual, com a noite solta a cair-lhe pelos ombros, enquanto a manhã finalmente chegava.

Eu a observei distanciar-se. Longamente.

Por que eu respirava pela boca?

Por que minha garganta estava seca que nem a de um enfermo?

Havia perdido para ela.

O verdadeiro sino soou afinal.

Havia me perdido nela.

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2 respostas em “CONTO: Meu adversário

  1. Gostei desse conto também. Pensou em fazer os diálogos dos personagens menos formal, para parecer mais com a linguagem coloquial? Não estou dizendo que deve; óbvio que não. Só uma impressão minha. Parabéns!

    • Obrigado por ler, José, e fico muito feliz que tenha gostado! 🙂
      Então… confesso que nunca pensei em reescrever o conto com diálogos menos formais, hehe! Mas repare que, como o personagem-narrador praticamente não tem falas, o formalismo se limita à adversária dele. Existe uma explicação para isso, mas ela não fica evidente no texto – o que, sim, é uma grande falha. Acontece que ambos os personagens fazem parte do romance maior que estou escrevendo, o “Além do Sol e da Lua”, e nele a espadachim exerce a profissão de retoricista (um detalhe que é mencionado no conto, mas que não recebe o esclarecimento devido). Nesse contexto que inventei, uma retoricista seria meio que uma advogada, alguém que defende outras pessoas judicialmente – no caso da personagem, mais com base em argumentos do que com base em leis. Por isso ela tende a usar uma linguagem excessivamente empolada, mesmo fora de um tribunal. É hábito.
      Ainda assim, adorei sua sugestão, até porque, no romance, haverá mais cenas entre o personagem-narrador e a retoricista, de modo que, com o tempo, talvez ela comece a tratá-lo com menos frieza e com menos formalidades. Não é má ideia refazer o diálogo pensando nisso, só para eu já ensaiar como a relação dos personagens evoluirá. E me desculpe pelo tamanho da resposta. X.X
      Obrigado de novo e abraço! o/

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