CONTO: Língua d’Ouro

Língua d'Ouro

Sou Harturmond Língua d’Ouro. Mas houve um tempo em que eu era mais Língua d’Ouro do que sou agora. Outrora era filho de meu pai, Garamund, um Língua d’Ouro até as unhas dos pés. Seu irmão, rapaz, deve saber quem são os Língua d’Ouro, pois é erudito demais para o tamanho que tem. Mas noto que você, com essa cara de perdido, precisará de orientação.

Os Língua d’Ouro constituem um renomado clã de músicos que oferecem seus serviços a cortes dentro e fora das fronteiras do reino de Icintareo. Porém nem sempre foi assim. No presente a reputação dos Língua d’Ouro precede cada membro da família, contudo, antes, tivemos de construir nossa fama a partir do zero, bem como conquistar o nome que ora propalamos. Foi o que meu pai asseverou-me centenas de vezes, e escutei-as todas.

Porque eu era jovem e achava ser necessário ouvir quando me pediam atenção.

E o velho Garamund – que hoje considero morto e decerto enterrado num túmulo de provocar inveja em nobres de menor estirpe – recitava-me que o legado de nosso clã tinha sido obra de meu três ou quatro vezes tataravô, Osmand. Ele percebera que podia explorar sua arte não só como entretenimento, mas também em prol da conveniência política de reis, duques, condes e outros figurões. Treinara a audição para captar cochichos e burburinhos para além da melodia que tocava; e depois reportava a seu senhor as informações que coletara. E eis que se especializara em espionagem.

Ah, mas o tão célebre Patriarca Osmand não é lembrado apenas por isso. Destacara-se ainda por ter sido o primeiro Língua d’Ouro a desvendar os mistérios por detrás do acesso aos paços e mansões nobiliárquicos. Aliás, fora ele o primeiro Língua d’Ouro, pois antes não possuíamos sobrenome nem nome. “Não éramos ninguém”, frisava meu pai. Veja, rapaz: consta que o lugar onde você nasce molda a maneira como você fala, certo? Ora, Osmand apoiou-se nesse fato e inverteu-o para atingir seus propósitos: se a posição social define a linguagem, então talvez você possa subir de vida se mudar a linguagem que emprega, não é? Fora essa a aposta que meu tataratantos-avô fizera. Empenhara-se em imitar o discurso dos fidalgos, com suas palavras antiquadas e seu sotaque empolado; copiara-lhes os gestos; e adaptara seu vestuário. Não tardara para conseguir uma audiência com o monarca dos Vinhedos, vassalos diretos da Casa Themihtelo. Impressionara o soberano com seu talento e perícia incomum e, eventualmente, pelos trabalhos prestados, ser-lhe-ia concedido o ensejo de recomendar a própria família para servir à família Vinhedos. E assim os então recém-intitulados Língua d’Ouro espalharam-se por entre vários principados, ducados e condados, originando uma verdadeira teia de influência e compartilhamento de segredos e rumores.

Nasci num momento em que os Língua d’Ouro já estavam mais do que bem estabilizados. Eu e meus irmãos morávamos no suntuoso castelo de Ambarion Lionesim, ajuramentado aos Ecipehtramo, e desde cedo fomos instruídos a seguir nossa linhagem. E eles eram bons nisso, bem melhores do que eu. O primogênito, Marthmund, era capaz de numa mesma apresentação dedilhar a cítara, o alaúde e a harpa alternadamente, compondo um espetacular concerto de um homem só. Meu caçula, Vitorimond, revelou-se um pequeno gênio ao dominar todos os instrumentos de sopro antes de seu oitavo aniversário. E a gentil Atreia cresceu para virar uma mestra da sedução com seu canto e dança.

Eu levava jeito para o alaúde e gostava de cantar, mas jamais me equiparei a meus irmãos. Não guardava (e não guardo) ressentimentos quanto a isso. A realidade era que eu não queria ser menestrel, não pretendia ser o serviçal de um rei gordo e absorto nas tramoias do poder. Daí que, em lugar de ensaiar performances para a corte, preferia acompanhar os guardas de Ambarion em suas campanhas de caça; eu os divertia com minha música e, em câmbio, eles me ensinavam a manejar o arco. Seria com a ajuda deles que eu fabricaria este colar de dentes de fera, que porto até hoje.

Porque eu era jovem e nutria meus sonhos de cavalaria, só que neles eu não andava a cavalo numa armadura, e sim matava lobos e ursos em trajes mais rústicos.

O velho Garamund não se cansava de repreender-me. Chamava-me preguiçoso e indisciplinado, e minha mãe fazia-lhe eco nessas horas, admoestando que eu me devotasse mais ao “tão garboso ofício dos Língua d’Ouro”. Ainda, não eram inusitadas as ocasiões em que meu pai acusava-me de manchar o prestígio do clã e de desonrar nossas tradições. Pois, afinal, eu não tinha passado fome como Osmand, nem tinha sido escorraçado dos salões de um senhor qualquer e submetido à humilhação pública, tal qual o Patriarca fora, quando se apresentara maltrapilho em suas primeiras tentativas de ascensão. Eu poderia ter-lhe dito as mesmas coisas em contestação; poderia ter-lhe recordado que ele tampouco conhecera as agruras da penúria e que nunca fora um pedinte, ao contrário de Osmand. Mas silenciei.

E decidi obedecer. Dediquei-me ao alaúde tanto quanto suportei. Aprendi a altura exata em que devia tanger as cordas para poder escutar conversas alheias sem despertar suspeitas. Aprendi qual era o instante ideal para fingir dedilhar em falso, a fim de suscitar vexames palacianos a partir de um desafino inesperado. Aprendi que locais eram mais apropriados para espionar. E aprendi todos os malditos trejeitos afetados da nobreza. E quando um primo distante chegou com novas de que o barão do Riacho Comprido andava à procura de um Língua d’Ouro, agarrei-me à oportunidade tal como meus pais esperavam.

Porque eu era jovem e não ousava desapontá-los.

E viajei até Riacho Comprido, galante e afogado em perfume, e concentrei-me o máximo durante minha performance inaugural. Suponho ter causado uma boa impressão, pois fui contratado de imediato. E a fortuna brilhou para mim nos dois anos vindouros. Ao longo deles, provei meus dotes de espião ao descobrir informações que permitiriam evitar uma insurreição popular, bem como ouvi uma confidência da Senhora Natalla que implicitamente demonstrava não estar ela assim tão sem meios para pagar seus impostos. Em breve caí nas graças do barão, mas não me senti realizado. Só cumpria ordens e, desse modo, satisfazia as expectativas da família.

Só que existia uma mulher… E não me venha com aquele pensamento vulgar, “Sempre há uma mulher”! Pois antes de Sara não houve ninguém, e depois dela não haveria nenhuma outra. Sara foi única. Diferentemente de meu senhor, que somente gostava de escutar-me cantar como bardo ou passarinho de segredos, e diferentemente dos demais fidalgos, que olhavam através de mim como se eu não passasse de um alaúde que tocava sozinho, Sara olhava para mim. Para meus olhos. E eu logo reparei nela.

Ela convidava-me para passear consigo pelos bosques cercados do baronato, e eu não recusava, visto que ela era filha do barão e elogiava minha música com genuína admiração, sentimento que jamais entrevira nas pedantes salvas de palmas que recebia durante os bailes da aristocracia. Quando pela primeira vez me convocou a seus aposentos eu compareci, porém não sem estranhar um bocado. Anunciei-me ao entrar, consoante exigia o decoro, mas todo e qualquer formalismo entre nós dissipou-se tão logo notei que ela vestia nada além de um manto semitransparente e cheirava à água de rosas. Ela trancou a porta. Eu engoli em seco. Ela pediu-me que a cortejasse. Eu tangi duas das canções mais românticas que conhecia.

E então ela contou-me a razão de minha vinda. Disse que estava prometida ao príncipe herdeiro de Brancareia, embora não desejasse casar-se com ele; disse que não faria mal se o casamento não ocorresse, pois seu irmão, o primogênito, já estava em vias de arranjar uma esposa; disse que a sorte do baronato dependia das núpcias dele, não das dela, que apenas firmariam uma aliança política de menor importância. Por fim, ordenou-me que eu fugisse com ela. Eu desconversei, pensando comigo: “Eu aceitei meu destino, meu fardo. Por que ela não pode aceitar o dela também?”. Mas no fundo não era bem isso que me importunava. Eu a queria, só estava assustado e cheio de dúvidas. Ela fez-me sentar em sua cama e debruçou-se sobre mim para sussurrar-me ao pé do ouvido: “Por favor”. Eu neguei. Não sei se me arrependo, já que ainda hoje não consigo discernir quais teriam sido as consequências de uma afirmativa minha. Naquela noite desvencilhei-me dela. Na sequência, todavia, apercebi-me de minha rudeza e, para desculpar-me, compus quatro canções para ela: uma para seu nome, outra para seus olhos, a terceira para seus cabelos e a quarta para suas curvas. Mas eu não fugiria com ela.

Porque eu era jovem e receava macular o renome do clã.

No entanto outras noites se seguiriam àquela primeira e, em cada uma delas, Sara me lembraria de que a palavra “corte” tinha dois significados, e o segundo deles era mais doce. Na última vez em que nos encontramos como amantes, trovei-lhe baixinho os versos sujos de Sonhos na sacada de meu quarto. Fizemos amor na sacada dela, pois era verão e não parecia inadequado. E foi bom, uma preciosa experiência de rebeldia em minha juventude tão repleta de retidão.

O inverno despontou e se foi, e o irmão de Sara casou-se nesse ínterim. E, enfim, no início do ano subsequente, chegou o dia fatídico em que ela seria apresentada a seu futuro esposo. Julguei-o um rapaz distinto quando os avistei a caminhar de braços dados pelos pátios do castelo. Peguei-a rindo de algum comentário espirituoso dele, e meu sangue gelou. “Ela só finge rir”, supus. Pois somente eu lograva fazê-la rir de verdade. Ao findar o crepúsculo, ambos trancaram-se num quarto adjacente ao salão dos banquetes; esperava-se que, enquanto seus pais travavam as últimas negociações sobre o casamento, os noivos flertassem e trocassem carícias. E eu ficara encarregado de assegurar-lhes a privacidade. Mandaram-me musicar junto à porta de seus aposentos, para abafar os tão íntimos ruídos da paixão. Lástima! Minha audição apurada não me agraciou com sossego. Pois a ouvi quando começou a gritar, clamando que não queria, não daquele jeito, não ali. Não com ele.

E aí me dei conta de que eu não era o único ciente dos berros e súplicas de Sara. Mais do que isso: compreendi que minha melodia destinava-se a encobrir não os ternos sons de amantes se amando, e sim as evidências de um estupro. E os nobres do banquete faziam ouvidos moucos ao que era impossível não escutar… Bando de canalhas cínicos! Hoje até entendo o sentido de tamanha vileza: se Sara tivesse engravidado, não teria existido melhor justificativa para o casamento, que deveria ter-se consumado o quanto antes. Entretanto à época apenas odiei cada porco que se empanturrava naquele salão – inclusive e, sobretudo, o barão, que certamente tinha notícia do que se passava. Pus-me a tocar mais alto e freneticamente, não por compactuar com o plano macabro, mas para deixar de testemunhar o horror. Num derradeiro pranto, captei Sara a implorar “Por favor!”, e eu sabia (simplesmente sabia!) que ela rogava-me a mim… Mas nada fiz.

Porque eu era jovem e fraco e um enorme idiota. E nem um pouco arrojado.

Na manhã seguinte Sara chamou-me para confabular, num momento em que se ausentara o senhor seu noivo. Pediu-me ajuda e, de novo, pediu-me que acatasse fugir com ela. De minha garganta proveio um “não” embebido na mais pura vergonha. Então ela enlouqueceu: berrou e xingou-me e amaldiçoou-me e exigiu-me que fosse embora. Eu fui e, antes de bater a porta, ela tacou-me coisas. Entre elas, a chave de seus aposentos. Naquela noite resolvi perambular (não tão) casualmente pelo corredor defronte ao quarto de Sara e novamente apanharam-me gritos de quebrar o coração. Desta vez tomei coragem para intervir, mediante uma operação furtiva, da qual não sobrassem rastros. Meu pai instruíra-me no preparo de venenos e (não tão) por acaso eu carregava uns frascos comigo. Após o príncipe e a princesa terem ido dormir – e após minha raiva amainar –, esgueirei-me para perto do jarro contendo o vinho que o cretino bebericava ao levantar-se. Depois pulei os muros do castelo e desapareci na madrugada.

Dentro de dois ou três dias, estava eu a vagar pela cidadezinha que guarnecia o baronato de Riacho Comprido, trovando por esmola, quando colhi as novas a respeito da morte do herdeiro de Brancareia… e da acusação que – fatalmente, agora vislumbro bem – recaíra sobre a cabeça de Sara. Pois somente ela tinha acesso ao próprio quarto chaveado (eu me certificara de trancar a porta ao sair). E, claro, havia também a prova irrefutável da experiência, que alardeava tanto para os sábios quanto para os tolos ser o veneno arma de mulher. Alguém mais corajoso que eu teria sem demora se revelado culpado. Alguém menos patife que eu teria no mínimo agradecido mentalmente a Sara por não agir como delatora. Ou ela ainda guardava esperanças de que a salvasse? Meu eu daquele tempo não pensou nisso.

Porque eu era jovem e temia… o quê? Não mais poderia encarar minha família, meus pais, logo… não tinha mais nada a temer. Estava livre!

Mas mesmo assim não me mexi. E Sara foi decapitada, uma das raríssimas decapitações aristocráticas da história recente. Um preço pequeno, calculando com frieza: a vida de uma segunda filha pela vida de um primogênito. Falaram que o sacrifício prevenira uma guerra entre Riacho Comprido e Brancareia, mas a amizade entre os domínios nunca seria reatada. Mais tarde eu viria a saber que a mãe de Sara suicidara-se, de desgosto.

E tudo o que então alimentava meu âmago adolescente era sede de vingança. E eu tentaria vingar-me. Para mim, sem aquele teatro – sem aquele estupro em que todos consentiram menos Sara e eu, o grande covarde –, nenhum desastre teria sobrevindo. Eu estava equivocado, era lógico.

Apenas anos, incontáveis anos depois, concluiria que era a mim mesmo quem eu não devia conseguir encarar. E que era eu quem não merecia perdão. E que, quando você mata, precisa responsabilizar-se por todos os males daí decorrentes.

Porque a morte é o que existe de mais permanente.

Matar não fará de você um homem, rapaz. Absorver o que lhe ensinei, sim.

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3 respostas em “CONTO: Língua d’Ouro

  1. Pingback: A realidade da fantasia: a polêmica da pena de morte | Além do Sol e da Lua

  2. Deve ser um ótimo Mestre-bardo, para paladinos, magos e bárbaros buscando suas aventuras.. com certeza já o é, para quem aprecia o fantástico, e o estranho. Adoro o tom, da sua escrita.

    • Obrigado pelo comentário elogioso. 🙂
      Que bom que a história agradou.
      Apareça mais vezes por aqui. O blog está meio desatualizado, reconheço, mas assim que eu resolver umas coisas voltarei a me dedicar a ele.

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