A realidade da fantasia: protestos e revolução

Post inspirado nos protestos por mudanças e reformas Brasil afora.

Tentei escrever este ensaio sobre revoluções – i.e., movimentos revolucionários – na Literatura Fantástica, porém desconfio que, para variar, viajei demais e em alguns momentos perdi o foco. Abaixo, exploro como essa temática tem sido desenvolvida nos romances de fantasia que já li. Friso que é tudo opinião minha, e exposta sem qualquer rigor técnico… mas leiam mesmo assim. :)

Há uma observação recorrente e, a meu ver, bastante acurada sobre a Literatura Fantástica – não toda ela, mas grande parte dela – que servirá para inaugurar esta postagem: raramente esse gênero literário lida com revoluções.

Com efeito, o enredo clichê de uma história de aventura medieval ou épica, embora fale de mudanças, embora guie os heróis e o mundo rumo a mudanças benfazejas, não cuida de transformações – e, ao invocar esse termo, refiro-me àquelas mudanças que inovam, que criam, que fazem tremer os alicerces de uma ordem obsoleta e decadente, que revolucionam paradigmas. O comum na Literatura Fantástica – ou, para ser mais justo, em certos subgêneros da LitFan – é que se busque o retorno a um passado idealizado, um passado de paz e glória e beleza irrecuperáveis. Ao término, atinge-se algo parecido com o que se perseguia: a paz, a reunificação de um reino dividido, o “feliz para sempre até o fim de seus dias”, a conclusão que Bilbo tanto almejava para seu Lá e de Volta Outra Vez.

Adiante: spoilers d’O Senhor dos Anéis, d’As Crônicas de Gelo e Fogo, d’A Torre Negra e talvez d’O Nome do Vento. O aviso está dado.

O Senhor dos Anéis finda exatamente com o Reino Reunido, com Aragorn coroado, com o Condado pacificado – e isso é o bastante, porque, afinal, não existem desigualdades sociais, as hierarquias não incomodam, e todos se contentam com o rei magnânimo e justo que decide seus destinos.

Coroação Aragorn

Ok, analisando pelos padrões de hoje (uma análise anacrônica e que não se preocupa em relativizar suas constatações), apura-se um forte grau de paternalismo na relação rei-súdito, sem mencionar que, conforme ressaltariam alguns sociólogos, uma sociedade perfeitamente sem conflitos, tal qual a sociedade pós-Guerra do Anel, não é possível nem desejável, porque estática demais.

A presença de um rei sábio e (aparentemente) infalível limita a responsabilidade de cada pessoa quanto às decisões sobre seus futuros individuais e seu futuro comum.

N’O Senhor dos Anéis, contemplamos lutas magníficas, lutas que restauram nossa fé na humanidade (faithinhumanityrestored!), lutas que aceleram nossos batimentos cardíacos. E todas elas são lutas pela liberdade dos Povos Livres, mas também são lutas pela restauração de um estado de coisas prévio, não por um recomeço. No vídeo, o discurso de Aragorn antes da última batalha dos filmes:

É verdade que Tolkien não tinha a intenção de abordar revoluções em sua história, então seria de muita desonestidade criticá-lo por isso. A Trilogia do Anel narra a resistência contra a Sombra, mas não se estende ao que acontece depois, ao momento da reconstrução.

Há informações esparsas a respeito nos apêndices da obra, no entanto um apêndice – por sua própria natureza – não se inclui na trama que o autor pretendia contar.

Mais importante, é sabido que Tolkien chegou a iniciar um conto passado na Quarta Era de seu universo, tratando não da Sombra enquanto o Grande Inimigo, e sim justamente da sombra que habita o coração dos homens e da sombra que espreita entre eles. Infelizmente, o texto nunca foi terminado. O site Valinor providenciou uma RESENHA e uma TRADUÇÃO do que foi produzido.

Passemos a Martin e Às Crônicas de Gelo e Fogo. Nelas também identificamos um medievalismo complacente com a ordem estabelecida, em que ninguém contesta que o Trono de Ferro seja o objetivo maior a ser perseguido e que, portanto, a guerra dos tronos deve se perpetuar.

Varys em seu momento filosófico de “power resides where men believe it resides” bem questiona a natureza do poder e sua localização, mas, afora essa passagem, pelo que conhecemos de seus planos futuros sobre quem deve governar Westeros, nem ele nem nenhum outro personagem põem em xeque a lógica perniciosa vigente: a crença generalizada é que vencerá o jogo quem assumir o trono e eliminar os concorrentes. Ponto. (Vale dizer: é algo que muito lembra os ensinamentos de Maquiavel, de que o príncipe deve fazer tudo que estiver a seu alcance para se manter no poder, em prol da estabilidade do principado.) Não se cogita transcender esse estado de coisas.

Certo, então há essa digressão sagaz sobre o poder…

Varys e o poder

“O poder reside onde as pessoas acreditam que ele reside. É um truque. Uma sombra na parede.” (Tradução livre)

Mas o que prevalece é…

When you play the GoT

“Quando você joga o jogo dos tronos, ou você vence, ou você morre.” (Tradução livre)

Sendo sincero, vislumbro em Martin um conservadorismo mitigado, à luz dos exemplos que enumero a seguir.

Daenerys faz sua revoluçãozinha particular além do Mar Estreito, liberta escravos, promove o maior furor entre os escravagistas – mas torço o nariz para o título de “Mãe” que ela recebe: nota-se aqui mais paternalismo, mais dependência entre libertadora e libertados. E talvez caiba criticar o fato de ela ser uma westerosi, uma outsider, que, de certo modo, civiliza as terras incultas da Baía dos Escravos com seus valores superiores. Soa como colonialismo, não? Lembra o imperialismo britânico instituindo protetorados, não? Sabemos que Dany tem boas intenções, que é movida por um senso de justiça – seus capítulos são escritos a partir de seu ponto de vista, logo podemos acompanhar com fidelidade seus pensamentos.

Daenerys (httpbrowse.deviantart.comartDaenerys-Targaryen-365927583)

Contudo, alguns diriam que o mais adequado seria que o povo oprimido, sem ajuda externa (sem Dany ou dragões), se organizasse e lutasse, e que os escravos se rebelassem por si mesmos: se falharem, sempre dá para tentar de novo; se vencerem, a conquista será deles, e merecida. Creio que o mais interessante da saga de Dany em Meereen é menos o potencial revolucionário de suas ações, e sim a reação das forças desafiadas pela Quebradora de Correntes: aí se mostram as consequências de se mexer em estruturas de poder tão arraigadas numa sociedade e, ademais, legitimadas pela cultura e ideário compartilhados pelos escravagistas.

Daenerys 2 (httpvinezza.deviantart.comartDaenerys-Targaryen-373031893)

Não sabe nada, Jon Snow, se acha que pode estancar antigos ódios impondo uma convivência tão sólida quanto gelo quebradiço…

Jon Snow não tem melhor sorte ao tentar superar o antagonismo de longa data entre “patrulheiros” e “bárbaros/povos livres”. Não se permite que essa dicotomia seja transcendida nem mesmo quando todos percebem, com clareza cristalina, que os dois lados têm um inimigo mortal em comum. Há aí um ensaio de revolução de ideias, uma tentativa de revisão identitária: visa-se a transformar a maneira como uns e outros se encaram. Nossa História demonstra que, em casos assim, realmente é difícil construir confiança – porém não impossível. Como os esforços de Jon terminam em fracasso (ao menos é o que podemos concluir até o momento), não se pode falar em revolução nem em pós-revolução.

Ainda de Martin, cabe examinar a ocasião em que a plebe de Porto Real, transmutada em turba ensandecida, encurrala e ataca a comitiva do rei. (A propósito, como me diverti com a reação do Joffrey nessa cena, tanto no livro quanto na série! XD) Confiram a cena (não recomendada para menores de… sei lá, 16 anos, pois é tensa, e falo sério):

A pretensão era mais desforrar-se de uma insatisfação coletiva do que suscitar mudanças drásticas no status quo – não que isso retire a legitimidade das reivindicações plebeias, porque não retira. Mas o fato é que, em nossa História, ideias que motivassem uma insurgência popular mais esclarecida apenas surgiriam – na realidade, em parte seriam resgatadas – nos séculos XVII e XVIII, com o Iluminismo (sim, estou me limitando à História Ocidental); apenas se poria em prática a soberania popular na sequência da Revolução Americana e da Revolução Francesa; e outra vertente de pensamento, mais crítica, viria apenas com Marx e seus sucessores.

Davos

Davos

Ainda assim, não perdoo Martin pelo que considero uma grave lacuna em seu romance: nenhum de seus protagonistas é de origem camponesa – exceto Davos Seaworth, mas, como no livro sua trajetória se inicia com ele já elevado à condição de nobre, não vale. Por mais que Davos ilustre as dificuldades que enfrenta alguém que logrou ascender de posição numa sociedade engessada, de rara mobilidade social, como era a medieval, não é o mesmo que se ele fosse um representante da plebe.

Se Martin se inspira na história britânica, bem podia não ter ignorado a existência de um mecanismo que, desde o século XIII, já se prestava à contenção da arbitrariedade do rei: o Parlamento. Primeiro convocado esporadicamente, depois regularmente e, enfim, tornado instituição permanente, o Parlamento controlava não só a produção legislativa, mas também a tributação; ainda, insistia em que tinha poderes para fiscalizar os gastos públicos. Certo, a Câmara dos Lordes (ocupada por nobres) prevalecia sobre a Câmara dos Comuns (que à época dava lugar só para cavaleiros e burgueses endinheirados), mas a instituição já existia e funcionava no sentido de contrabalançar a vontade real[1].

Guerra das Duas Rosas

Batalha de Barnet durante a Guerra das Duas Rosas (1471)

O soberano com frequência conseguia manipular o Parlamento e, nos anos da Guerra das Duas Rosas (período em que Martin diz ter baseado As Crônicas), ele restou marginalizado. Todavia, se a ideia do Parlamento era anterior a esse conflito, Martin podia tê-la aproveitado para insinuar que havia uma oposição à política tal como era feita (ou melhor, jogada). Tratou-se de uma escolha do autor: não podemos criticá-la. Mas talvez um movimento em favor de ideais parlamentaristas servisse de contraponto interessante às eternas intrigas palacianas.

Não arrisco comentar sobre Rothfuss e As Crônicas do Matador do Rei, pois a trilogia não está finalizada (se é que a previsão ainda é de uma trilogia). Creio que a história não dá margem para turbulências de cunho revolucionário, porque se foca na vida pessoal de Kvothe. Por outro lado, a Universidade, um centro fervilhante de ideias, bem poderia impulsionar um projeto autêntico de mudanças, não fossem duas coisas: a) provavelmente não é esse o objetivo de Rothfuss com seu livro; e b) a academia é povoada mormente por filhos de duques, condes, barões e outros figurões, pessoas que certamente não têm o menor interesse em abdicar de seus privilégios.

Roland e a TorreN’A Torre Negra, de Stephen King, talvez tenhamos uma alegoria perfeita do sonhador, o revolucionário utópico que sempre está a divisar no horizonte a promessa de um futuro melhor. Não importa que o objetivo do pistoleiro seja inatingível, o que importa é continuar a caminhar. Para o amanhã. Para a Torre que se reveste da qualidade de panaceia contra todos os males de todos os universos. Alcançá-la e subir até o último andar pode oferecer conserto para um mundo que seguiu adiante. A Torre é o porvir idealizado que serve de parâmetro para se avaliar as injustiças, deficiências e limitações do presente. Enquanto a Torre persistir de pé, seja na mente de um obcecado como Roland, seja no campo de rosas de Can’-Ka No Rey, persegui-la implica tentar mudar as coisas. É uma bela jornada.

A Torre Negra (httpvonstreff.deviantart.comartThe-Dark-Tower-335606986)

O problema é como termina. Após vários sacrifícios, em que Roland mostra estar disposto a tudo para realizar sua meta, nas últimas páginas do sétimo livro (alerta de GRANDE SPOILER!), descobre-se que a viagem se insere num processo de perpétuo repetir. O ka é uma roda. Roland está fadado a se engajar vez após vez em sua busca pela Torre. É verdade que, agora, ao final da obra, existe um detalhe – a trompa recuperada do corpo moribundo de Cuthbert Allgood, em Jericó – que pode tornar esse novo recomeço completamente diferente dos recomeços anteriores. Talvez. É a esperança a que se apega o leitor, porque o escritor já contou o que tinha de contar. O que incomoda é a repetição, pois nela se dissolve a expectativa de transformação.

A Torre Negra (httperedel.deviantart.comartThe-Dark-Tower-85877654)

Ou não. Talvez essa continuidade esteja a assinalar que mais importante do que o ponto de chegada é a quest, a perseguição do ideal. Não é preciso concretizá-lo com exatidão, basta que prossigamos na caminhada. Basta que o desejo por um mundo melhor não se extinga, que essa vontade inabalável é o verdadeiro motor da mudança.

De Robert Jordan nada posso falar. Ainda estou engatinhando em sua série A Roda do Tempo.

No que concerne a movimentos revolucionários, tenho belas expectativas quanto a Elantris, de Brandon Sanderson, publicado no Brasil pela Leya.

Em Perdido Street Station (de China Miéville), uma fantasia urbana – ou, mais precisamente, uma fantasia dos submundos urbanos – aborda-se marginalmente a temática da revolução: o autor descreve uma greve, relata as denúncias de um jornal independente acerca da corrupção do governo, narra a truculência com que este reage à oposição… Mas todos esses tópicos, salvo o último, recebem atenção estritamente ao longo de subtramas e, no enredo principal, acabam se perdendo. É um livro sensacional, transbordante de ideias originais (e ainda farei uma resenha sobre ele), mas esperava mais de Miéville, que, além de escritor de LitFan, é um intelectual prolífico e membro do Partido Socialista dos Trabalhadores (Socialist Workers Party) do Reino Unido[2].

Perdido Street Station 2 (httpbrowse.deviantart.comartPerdido-Street-Station-290606773)

Perdido Street Station

Ainda, há um segmento da Literatura Fantástica de cujo nome/rótulo não me recordo agora, porém sei que ele se dedica mais intensamente ao assunto das revoluções. Darei uma pesquisada e depois faço uma postagem específica.

E fico por aqui.

Quanto às passeatas, digo que sou um pouco cético quanto a sua eficácia, e ainda se fará necessário pensar em como traduzir reivindicações simbólicas em conquistas práticas. Isso é algo que acontecerá com o tempo, tenho certeza! E, bem, confesso que sou um romântico quanto à energia que todas essas manifestações instilam. :D

Por isso, fiquem com Do you hear the people sing?, de Os Miseráveis. (Ok, reconheço que é inapropriado comparar a cena de Os Miseráveis com os protestos que vêm ocorrendo no Brasil… mas, como adorei o filme e adoro a canção, posto-a na mesma. \o/)

About these ads

2 comentários sobre “A realidade da fantasia: protestos e revolução

  1. Mandou bem Rodrigo! Quanto a cena e a música de Os miseráveis acho que tem muito a ver com o que está acontecendo hoje no Brasil, o sentimento que estava presente lá é o mesmo que está presente aqui, o sentimento de um povo desdenhado pelo poder, esse Jogo de Tronos tem que acabar!!!

    • Obrigado por comentar, Mariza!!

      Realmente há essa coincidência de sentimento em ambos os movimentos: tanto um quanto outro são impelidos pela indignação e pela vontade de mudança. Bem notado!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s